Look Around

8 You gotta let it be


“Não vale, você tá roubando descaradamente!” – Josh exclamou, tentando não rir.

“Xiu! Não quero nem saber, eu ganhei e pronto!” – cruzei os braços e fiz cara de emburrada. O entregador parado na porta nos observava incrédulo.

“Então se eu perdi, eu pago”

“Nada disso! Como eu ganhei, tem que ser feita a minha vontade”

“Dá pra vocês decidirem logo?” – disse o impaciente homenzinho fardado, que já batia o pé no chão havia mais de 10 minutos.

“É, parece que só a gente se divertiu com isso...” – falei puxando algumas cédulas da minha carteira. Josh repetiu meu gesto, lhe lancei um olhar mortal e ele se justificou: “Que foi? Acho que ele merece gorjetas”

“Mereço mesmo!” – o rapaz praticamente arrancou o dinheiro das nossas mãos e entregou rapidamente as embalagens com comida chinesa, depois quase correu na direção do elevador.

“Acho que depois dessa, ele vai repensar o emprego” – eu disse e sentei na banqueta de acrílico da cozinha, já usando o hashi para perfurar o yakisoba. Josh me acompanhou no processo.

“Tenho certeza” – riu e jogou molho shoyu na comida. Comemos tudo em questão de pouco tempo e falamos sobre diversos assuntos enquanto isso. Ele me contou da pressão que o consumiu assim que entrou na banda, do que sentia quando tocava e o quanto aquilo era importante pra ele. Fiquei fascinada com o modo intenso que ele se referia à música, dava pra perceber que a alma dele fazia parte disso e não havia volta, Josh estava completamente preso, da maneira mais bonita e complexa que podia ser. Também relatei o quanto me sentia sozinha na maioria das vezes, que a fama não me dizia quase nada e aquilo tudo me deixava exausta, mesmo gostando do que fazia. Ele pareceu compreender, notei que compartilhava do meu desprezo por esse tipo de coisa. Limpamos a sujeira na mesa e o barulho da máquina de lavar finalmente cessou e recuperei meu vestido.

“Posso ficar com a sua blusa? Juro que depois eu devolvo!” – supliquei fazendo uma careta que me permitia ficar apenas com um olho aberto, não queria nem ver o que ele ia responder. Josh parecia confuso mas concordou e deu um sorriso. Fiquei comovida pela simplicidade dele e resolvi me justificar.

“Vai parecer bobo e eu podia inventar uma desculpa qualquer pra omitir a verdade...”

“E qual seria a verdade?”– agora ele assumiu uma expressão de curiosidade.

“Teu cheiro é muito bom” – falei admirando o chão.

“Depois eu que minto mal” – Josh sorria confiante, mas seu rosto levemente rosado o entregava.

“Engraçadinho” – apertei suas bochechas.

“E isso porque eu sou mais velho que você” – ele revirou os olhos e eu ri. Ainda tinha que fazer umas gravações no estúdio aquela tarde, me apressei para ir embora. Josh cumpriu a palavra e me deu um exemplar do “I’m with you”, não estava lacrado pois era o dele mesmo e aquilo ganhou valor sentimental com facilidade.

“Então... tchau né?” – falei quando atravessei a saída do prédio e isso tinha mesmo um tom proposital de despedida, os Peppers iam entrar em turnê naquela semana.

“É, acho que essa hora chegou. Se puder, apareça”- ele brincava com as próprias mãos.

“Farei o que for possível. Obrigada por hoje, e pelo cd” – lhe dei um rápido abraço — “Isso é pra dar boa sorte” – depositei um selinho em sua boca e comecei a descer a rua, procurando meu carro estacionado na outra esquina.