Look Around

1 I lose and I win


O despertador tocava insistentemente em cima da mesinha, pena que eu estava jogada no chão ao lado da cama. Obviamente acordei irritada, estendi o braço até onde pude e dei um tapa no objeto, que silenciou de imediato. É, não havia outra opção... eu tinha que acordar. A maldita enxaqueca que sentia me obrigou a tomar algumas aspirinas assim que consegui reunir forças para levantar e chegar na cozinha. Ainda estava me recuperando da noite anterior e do mais novo escândalo que fiz o favor de me envolver. Não era nada demais, ao meu ver. A imprensa é que era sensacionalista. Digamos que seu ex namorado te trocou por uma garota extremamente pior do que você, em todos os sentidos, e que por acaso tu sempre odiou. Mas ele continuou te procurando, se dizendo apaixonado e eventualmente vocês se pegavam, mas ele nunca largou ela e praticamente te fez de ótaria por meses... O que você faria? No meu caso (em um momento de loucura total e embriaguez) apenas tirei uma foto dele só de boxer na minha cama, dormindo no meu colo, enquanto eu piscava e mandava um beijo pra câmera. Postei a bendita fotografia na minha página oficial do facebook, marquei ele e a namoradinha e coloquei a legenda: pode ficar com ele, mas leve os chifres também. Nem preciso dizer que minutos depois isso já era notícia em todos os sites de fofoca, né? Eu sou Dani, atualmente a apresentadora de um dos programas de entrevistas mais assistidos nos EUA e escritora de uma coluna de moda de uma das melhores revistas também. Eram 10 da manhã e devido ao tempo que gastei enrrolando para levantar, eu estava quase atrasada para chegar ao estúdio. Me apressei o máximo que pude e corri até lá, por sorte cheguei a tempo e ainda antes de levar uma bronca grátis do meu temido diretor. Depois de ter sido produzida para entrar no ar, ainda me restavam uns vinte minutos antes da primeira entrevista começar. Fiquei rodando pelo backstage nervosamente, hoje completavam duas semanas que eu tinha parado de fumar. Bebi uma água pra tentar passar a vontade, não estava adiantando tanto assim... Entrei no banheiro e me olhei fixamente no espelho, mentalizando “Calma Dani, você é mais forte que isso, vai conseguir”. Fiquei repetindo as palavras como um mantra, quem sabe assim entravam de vez na minha cabeça e eu conseguiria acreditar. Eu tinha um cigarro escondido dentro da bolsa para casos de emergência, e aquilo era um. Saí lá de dentro, já estava me dando falta de ar ficar trancada ali. Decidi tirar meu vício de dentro da bolsa e me apoiei na parede perto da porta do banheiro. Fiquei observando o chão e balançando o cigarro entre os dedos, tentando pensar se ia ou não jogar meu sacrifício de semanas fora.

“Você tá bem?” – uma voz masculina bem suave me perguntou. Levantei a cabeça para fitar o ser que pronunciou aquelas palavras. Estava parado na minha frente, era um pouco mais alto do que eu e também devia ter deixado de ir a praia, vestia uma camiseta preta meio frouxa e outra branca de manga longa por baixo. Tinha um rosto excepcionalmente bonito e a julgar pela postura recuada, as mãos no bolso e o tom de voz manso, eu podia jurar que ele possuía toda a timidez que me faltava. Fiquei completamente absorta ao observar o tal rapaz, inevitalmente fitava sua boca fina e rosada e esqueci até o que ele tinha me falado.

“Desculpa, o que?” – falei meio atrapalhada. Ele abriu um sorriso rápido e estava prestes a repetir a pergunta de novo quando eu tive uma ideia melhor.

“Você tá b-“ – ele foi interrompido pelo meu impulso, larguei o cigarro no chão e me aproximei rapidamente dele para um beijo inesperado, por ambos. No primeiro momento ele ficou meio sem reação e senti seu nervosismo, mas logo depois cedeu e acabou correspondendo. Mesmo naquelas condições, foi calmo e sexy ao mesmo tempo. Minhas mãos puxavam seu rosto e deslizavam sobre seu cabelo, já as dele se posicionaram sem pressa na minha cintura. Ficamos assim por alguns minutos, até que sorri e separei nossos lábios. Ele me olhava completamente sem graça, com o cabelo bagunçado, as bochechas levemente coradas e a boca inclinada em um meio sorriso levemente torto.

“Agora eu tô bem” – retribui o sorriso, pisei no cigarro e deixei o backstage rapidamente. Ufa, ainda continuava a duas semanas sem fumar. Beijos são muito bons para ocupar o tempo quando se está desesperada por um trago qualquer.

“Aonde você estava?! Esquece, não importa! Faltam 5 minutos para o programa entrar no ar, se apresse e fique em posição” – foi o que gritou meu querido diretor quando me viu. Fiz o que ele ordenou e sentei na minha cadeira de entrevistas, comecei a ler as fichas com o roteiro. Eu ia entrevistar o Red Hot Chili Peppers hoje. Isso era ótimo, ia aproveitar pra solicitar autográfos dos caras para os meus pais, pelo meu nome dava pra perceber que eles eram fãns né? Eu não podia dizer que sabia tanto sobre eles agora, gostava dos álbums mais antigos e tive um certo amor platônico pelo Anthony na adolescência, mas isso já fazia um bom tempo e desde que John deixou a banda meu interesse murchou e confesso que nunca mais parei para ouvir. Vamos ver se eles recapturam minha atenção agora!