Look Around

5 Californication


Seguimos para a área reservada do restaurante, onde haviam poucos clientes, tocava música tradicional italiana e os garçons já me conheciam. Josh puxou a cadeira para que eu sentasse, acho que meus olhos brilharam nesse momento.

“Olá Dani e Josh, sejam muito bem-vindos!” – o maître falou com simpátia.

“Parece que alguém por aqui também tem cartão fidelidade” – eu disse, com ar de surpresa para cima do guitarrista, que apenas concordou sorrindo de lado.

”Vão querer o de sempre?”

“Sim” – respondemos simultaneamente e compartilhamos um olhar cúmplice.

“Pois bem, com licença” – dizendo isso, o atendente se retirou.

“Você é muito diferente do que as câmeras mostram” – pensei em voz alta. Josh coçava a bochecha, parecia divagar mentalmente sobre alguma coisa.

“Diferente? Diferente como?” – enfim ele perguntou.

“Não sei... acho que menos desinibido, talvez” — falei e vi um rápido vislumbre de sorriso no rosto dele.

“Ah,é que eu me sinto, me sinto... à vontade?” – Josh me encarava e tinha uma expressão divertida de dúvida.

“Acho que é o termo apropriado” – sorri e ele retribuiu – “Se bem que, convenhamos, não te dei lá muita opção” – senti uma súbita vergonha por tê-lo beijado sem mais nem menos naquele primeiro contato.

“O melhor vinho tinto da casa” – o maître falou, reaparecendo de repente e servindo nossas taças, logo em seguida voltou para o interior do restaurante. Bebi um gole enquanto meu olhar vagava pelo ambiente. Senti um frio na barriga quando vislumbrei duas figuras conhecidas adentrando rapidamente aquela área.

“Ah não! Não! Isso é mesmo sério?” – pousei o copo na mesa enquanto bufava e me voltava na direção de Josh.

“O que foi?” – ele alternava entre olhar para mim e para onde eu tinha me concentrado anteriormente.

“Meu ex-namorado, devidamente acompanhado da retardada de estimação dele” – Josh arregalou um pouco os olhos e disse: “Acho que eles também já te viram, estão vindo pra cá e ela não parece nada contente”. Não demorou nem o tempo de processar a informação, logo ouvi aquela voz irritante soando bem clara atrás de mim.

“Ora, se não é a poluidora de ambientes!” – disse a siliconada, extremamente artificial dos pés a cabeça, obviamente procurando me meter em mais uma confusão. Percebi sua intenção de chamar atenção (como se precisasse) e fiquei calada, o constrangimento já evidente nos meus olhos, que procuravam apoio nos de Josh.

“Já arranjou mais um ótario?” – ela insistiu em me provocar. A raiva já me dominava, tudo naquela criatura era ofensivo.

“Não sei como, ainda mais depois de ter postado aquela montagen mal feita na internet” – disse meu ex em um tom cínico característico, que ele sempre usava quando tentava encobrir a própria insegurança. Metade do restaurante já havia parado para observar a cena.

“Qual é o problema de vocês?” – Josh falou em um tom alto, que eu duvidava que ele usasse habitualmente.

“O nosso problema é essa vadia desocupada!” – falou a loira rabugenta, me lançando um olhar de desprezo e subitamente pegando minha taça e derramando todo o vinho sobre o meu vestido bandage branco. Respirei bem fundo e levantei com raiva da cadeira, tentando me controlar para não voar em cima daquele casal patético.

“Pelo contrário, acho que ela anda muito ocupada sendo a garota mais incrível que eu conheço” – Josh falou decidido, depositando alguns doláres em cima da mesa e encaixando seu braço no meu, me puxando na direção da saída. Chegamos lá fora, me soltei dele devagar e comecei a passar as mãos no rosto com certa agonia, já estava corada de raiva e vergonha.

“Desculpa, desculpa, desculpa! Estraguei nosso almoço!” – falei evitando fitá-lo, estava cobrindo os olhos. Josh pacientemente segurou minhas mãos e as colocou para baixo, exibia um sorriso calmo que era típico dele.

“Acho que posso sobreviver sem meu ravioli” – sorri meio sem graça, estava inconformada e com vontade de voltar lá dentro e sufocar aqueles dois.

“Que raiva” – bufei mais uma vez, abaixando os olhos e visualizando meu vestido estragado.

“Eu moro a um quarteirão daqui... Se você não se importar em comer comida chinesa pedida por telefone, é claro” – ele abriu mais um daqueles sorrisos lindos e concordei dando outro.

“Se não for pedir demais, me empresta uma camisa sua? Acho que vai me servir de vestido” – falei enquanto subíamos a rua.

"Sem problemas, Dani the girl"