Longevo

8 Capítulo 8


“Sabe, Aurélio, escrevo estas palavras em um momento que minhas memórias só me levam aquela noite, na casa de seus pais, onde esta filha de um comerciante em ascensão foi apresentada a um dos mais desejados do Colégio Saldanha.

O irresistível Aurélio, chamavam-te minhas colegas do curso Normal. Enamoravam teu passar pelos corredores como a quem está diante do Altíssimo. Enchiam-te de virtudes, das cândidas a luxuosas, das recatadas às devassas.

E veja só: Estavam certas!

Carregaste um fardo muito pesado para teus ombros como tão só um homem com H maiúsculo o faz. Permitiu-me ser feliz com outros para que não amargurase afogada em desejos os quais, não por seu querer, mas pela ausência de desejo, não satisfaria jamais.

Mesmo assim, meu grande amigo e esposo, não lhe quero mal. Não foste menos homem por isso. Ao contrário.

Portanto, quero que saiba que esta carta será lida também por nossos pequenos — ora, já nem são mais assim, não é mesmo?! — depois que lerem a deles também. Expliquei-lhes essa verdade porque achei o certo a fazer. Chega de viver as sombras, querido. Ninguém suporta viver assim.

Quando isso chegar até ti, já terei me unido aos meus pais, avós e toda a ancestralidade que me antecedeu. Meu nome será apenas uma lembrança e minha imagem um retrato imóvel e frio exposto em algum canto da casa.

Não se prenda a eles.

Livre-se deles.

Quis o tempo que aproveitasse mais da vida. Tens algum palpite do porquê?

Não concluíste tua missão. Ela segue viva e aguardando tua posição!

Portanto, não se enterre comigo. Viva por mim. Por nós, se for possível.

E, se a saudade de nossas conversas ao pé do fogo da lareira surgirem, ascenda-a ouvindo Os Serranos. Estarei ao teu lado para fazer companhia como sempre.

Beijos carinhosos, Selma”

Notas finais
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