Naquela manhã, depois de acordar, não se levantou da cama imediatamente.

Permaneceu como estava por alguns minutos. Deitado, mas com os olhos muito abertos.

O olhar fixo no teto pareceria vazio para quem o visse naquele momento. Contudo, a realidade era que aqueles olhos nunca estiveram tão preenchidos.

Preenchidos de vida.

Uma vida que ele começava a descobrir.

O que ele começava a perceber eram verdades sobre si mesmo.

Esteve muito insatisfeito nos últimos tempos.

Constantemente sentia raiva.

O pior era que não sabia para onde direcionar essa raiva.

Infelicidade, frustração, decepção. Sentimentos que vinham se acumulando e ele não compreendia por quê.

Havia atingido seu limite.

Ele precisava das respostas, que obviamente estariam dentro dele.

Afinal, se ele estava insatisfeito, quem mais poderia saber dos motivos para isso, a não ser ele próprio?

Se ainda não havia conseguido achar as respostas, é porque não tinha procurado por elas devidamente.

Essa era uma grande verdade. Estava sempre correndo, nunca tinha tempo para nada.

A gota d' água tinha ocorrido na véspera.

Havia recebido uma promoção em seu trabalho. Uma excelente promoção!

Recebeu elogios dos colegas, assim como olhares atravessados daqueles que adorariam estar em seu lugar.

Ele poderia se considerar no auge. Tão jovem e já tão bem-sucedido.

Admirado, respeitado, invejado.

O colegas quiseram levá-lo para celebrar esse momento tão importante em sua carreira.

Fecharam um bar só para a comemoração.

Muita gente quis ir.

E quem não gosta disso? De ser tão admirado e reconhecido que todos querem estar por perto, todos querem poder dizer que o conhecem?

Tapinhas nas costas, um sem-número de brindes, todos ali proclamando o seu sucesso.

Claro; o caminho seguido não tinha sido fácil. Fizera uma excelente faculdade; sempre fora bom aluno na escola.

Sempre seguiu os conselhos que lhe davam, sempre soube se encaixar e entregar o que esperavam de si.

Talvez esse fosse seu maior talento. Ele aprendeu muito bem sobre como oferecer às pessoas o que elas queriam.

Desse modo, desde muito cedo, soube sempre o que as pessoas desejavam. E isso foi, em grande parte, a chave de seu sucesso em praticamente todos os setores de sua vida.

Ele sempre conseguiu se adaptar, encaixar-se no requisitado.

O que lhe pediam, ele fazia. Sem questionar.

O resultado foi conseguir o emprego com que muitos sonham. Foi sugestão do seu pai. Esse era o trabalho que mais combinava consigo.

Casava bem com o curso concluído na faculdade; curso esse que ele sempre soube que seguiria, porque a mãe dizia, desde seus doze anos de idade, que ele tinha nascido para aquilo.

A faculdade escolhida veio por conselho de um tio, que dizia que ela era uma das melhores. O tio havia estudado lá e sabia que era excelente.

Descobriu suas aptidões graças ao irmão mais velho, que sempre lhe disse no que ele era bom e no que não era.

Não é difícil notar que ele tinha uma ótima relação com a sua família. Todos gostavam da sua companhia. Ele era, provavelmente, o filho preferido, o neto favorito, o sobrinho predileto...

Aliás, em sua agenda de celular, há uma lista gigantesca de pessoas que o adoram.

Não é mentira; elas realmente o adoram. Não cansam de dizer que sua companhia é inestimável e ele sabe que as pessoas são sinceras quando dizem isso.

Como poderia ser diferente?

Ele nunca questiona as pessoas. Concorda com o que elas dizem. Percebe com naturalidade o que elas querem ouvir, sabe sempre exatamente o que dizer. Oferece apoio, o sorriso amigo, o ombro no qual podem chorar.

Pode parecer uma habilidade simplória, mas não é tão simples assim. Cada pessoa tem suas singularidades. A frase que pode confortar um, não é a mesma que funcionaria com outra.

E ele sabe exatamente de que cada um precisa.

Sabe transformar-se, adaptar-se, encaixar-se perfeitamente ao que a situação requisita dele.

É um talento.

Se bem que...

Sendo bem sincero consigo mesmo...

Seguir esse caminho não é o mais difícil.

Agora ele acredita que haja um mais árduo.

O mundo que o cerca é forte e o atinge por todos os lados.

Sim, ele é bombardeado por todos os lados.

E sua grande habilidade é saber ouvir bem demais.

Habilidade essa que o trouxe aonde está agora.

E onde ele está agora?

Alcançou o auge?

Então é isso?

É assim?

Onde está aquela sensação eufórica de satisfação, de plenitude?

Se alcançou tudo o que deveria, por que não se sente de acordo?

Por que não se sente explodir de felicidade?

E por que agora lhe vem essa sensação de que, durante toda a sua vida, ele foi mais espectador que protagonista?

Ele faz uma retrospectiva de tudo o que já viveu.

Por que não consegue se enxergar dentro da própria vida?

Por que ele sente como se visse sempre uma projeção dos outros em si mesmo?

Onde ele está, afinal?

O rapaz sorri amargo.

Ele não sabe quem é.

Ora essa... Ele nunca pensou que isso pudesse acontecer consigo.

Sempre achou que as pessoas infelizes e miseráveis fossem aquelas que não conseguissem alcançar as grandes metas, as grandes conquistas.

E foi quando começou a compreender que a grande questão não era simplesmente conquistar...

O que se conquista, isso sim. É aí que mora o segredo.

Ele conquistou tudo o que lhe disseram para conquistar.

Aos olhos de todos, ele é um vitorioso.

Entretanto, não é uma vitória sua.

Ele sente que não conquistou coisa alguma.

E isso se deve a um fato muito simples: Ele não sabe o que quer. O que realmente quer.

Do que ele gosta? Do que realmente precisa? Ele não sabe.

Nunca parou e refletiu sobre sua própria pessoa.

Foi mais fácil acatar o gosto alheio.

Verdade... Esse foi o caminho mais fácil.

Difícil é se descobrir. E ser, plenamente.

Ele enfim compreende: precisa se encontrar. Já passou da hora desse reencontro consigo mesmo.

O rapaz escuta seu celular tocando. Devem estar ligando do escritório.

Devem querer saber por que está atrasado.

Levanta-se da cama, pega o celular e desliga o aparelho.

Abre as cortinas do quarto e deixa a luz da manhã invadir o aposento de uma única vez.

Ele precisa de um tempo. Um tempo só para ele.

Solidão agora pode ser tudo de que necessita.

O mundo fala alto demais. E ele está muito treinado para ouvir a tudo que esse mundo demanda de si.

Precisa aprender a ouvir seu lado de dentro. Ele ainda fala baixo, mas, com o tempo, essa voz irá crescer.

O jovem rapaz não se engana; sabe que a adaptação será difícil.

É possível que venham momentos de fraqueza, saudades de uma vida frívola e vazia que, apesar de tudo, era tudo o que ele conhecia.

Mas é necessário.

A solidão agora será sua melhor amiga e companheira.

Não pretende, obviamente, isolar-se do mundo para sempre.

Ele gosta de contato humano, é claro.

Porém, anseia por contato humano real.

A culpa nem é tanto das pessoas que o cercam. Se as relações humanas que sempre travou foram falsas ou superficiais, a culpa recai sobre si mesmo.

Ele não se pode considerar uma pessoa completa, inteira, real. É uma sombra, um espelhamento das projeções alheias.

Como ele poderia estabelecer relações verdadeiras se ele mesmo não era verdadeiro?

Sim, é preciso encontrar a pessoa que existe dentro de si. Suas qualidades e defeitos, do que ela gosta, o que não suporta, o que realmente importa e o que é inútil para essa pessoa.

Precisa descobrir quem é. E, para isso, precisará se afastar por um tempo.
É preciso se afastar.
Podem chamar de fuga, que seja.
Ele está mesmo precisando fugir, acompanhado apenas de si mesmo.
A pessoa com quem ele precisa estar, com quem tem de fugir, sem avisar ninguém, é ele mesmo.

Só assim conseguirá aprender e viver.

É assim que ele vai começar.

Longe de tudo.

E mais perto de si mesmo.

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Tão Longe De TudoBarão Vermelho



Solidão amiga do peito
Me dê tudo que eu tenha por direito
Me diga, me ensina

Ao dormir não sinto medo
Há um sol, existe vida
Me trate com jeito
Eu tenho saída

Eu quero calor e o mundo é frio
Minha vaidade não enxerga o paraíso
Eu preciso de alguém pra fugir,
sem avisar ninguém

Não vou olhar pra trás
A saudade está morta
E já não me importa
Estar longe demais
Longe demais de tudo
Eu estou longe demais
Longe demais de tudo
Eu estou longe demais
Tão perto de mim
Tão longe de tudo

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