Longa Despedida

2 FILHA DE NINGUÉM & MINHA ANSIEDADE


FILHA DE NINGUÉM

Sou filha do porvir e do chover

me desmancho como papel molhado

E, sem poder lutar, deixo de ser quem sou;

Se a tempestade me enjaular, e

o porvir jamais chegar;

Então morrerei, deixando-me

aos pés de um altar pagão.

Já não ouvirei, nem gritos nem trovões.

Calar-se-ão as bocas maléficas.

A esperança deixará de existir.

Comigo levarei a tristeza de já

não pertencer a ninguém.

MINHA ANSIEDADE

Delego a minha ansiedade

A culpa de não ter partido

Aprisionada, refém de mil medos

Chorei, lastimei e ofeguei

tudo que me foi possível.

Ainda assim, me vi caída

num poço sem luz,

frio e mortificado,

onde minha voz não tem força

e meu coração dói.

Debruçada sobre a terra

O soluço faz um nó na garganta

Imprudente como sou,

deixo-me desfalecer.