Longa Canção para Parar a Chuva
1 Longa Canção Para Parar a Chuva
Notas iniciais
Não costumo sair assim, sem me dar avisos, sem despedir-me de mim.
Mas acontece que tenho as vezes essa ânsia de pegar as malas e sair daquilo que acostumei a chamar de consciência.
Sinto-me tão pronta a responder as questões universais, como um grilo a aguentar o gelo.
Eu quero ter a verdade que tem algum gole último de uma bebida fatal.
A paixão das loucas! A frieza dos ermitões! E mais...
Tudo isso que é tanto é pouco para o meu sangue que quer singrar os ares, mas não tem a destreza de dizer o quanto o quer.
Perco um pouco de mim, quando me escrevo, mas ganho muito além, algo estranho, sem cor,
certo tipo de substância, que entende meu anseio e torna-se parte definitiva do que sou.
Eu que tenho ruas inteiras não trilhadas, no entanto, já passei por elas tantas vezes.
E cada vez, um girassol multicolorido ía parar na aba do meu chapéu.
As minhas estórias que nunca foram... Essas sim, fariam a História do mundo.
Este sabor de inexistência ou se preferir, o encanto das coisas que poderiam ter sido,
a maravilhosa descoberta da imperfeição!
Tudo isso vive em mim, porque enervo a todos quando escrevo.
Queriam me calada e ínútil, guardada junto as traças, comida pelas palavras e devorando-as até não restar gengivas para o sangue.
As palavras que são minha santíssima trindade, são também as furiosas Hirínias que me obrigam a afundar-me no lodo da mesquinhez e olhar os olhos fundos de um lobo.
São elas que salvam o meu dia do Ostracismo.
Elas fazem o milagre das minhas horas existindo.
Se sonho, elas abandonam-me.
Escrever é minha maneira de sobreviver.
Não a vida, que essa sobrevive cada dia a si mesma e ao amor humano pela morte.
Escrever é, antes, minha maneira de sobreviver a mim mesma. Caso contrário já teria desfechado o tiro derradeiro e limpado essa nódoa do mundo.
É bem provável que o que eu escrevo seja tão insólito quanto o que sou.
Não desejo nenhum compreendido sobre o que escrevo, muito menos quanto o que sou.
Eu quero o frenesi da dúvida, a substância aflita, a interpelação, o caos e a náusea.
A dúvida.
A dúvida é bela.
A certeza é moralista.
A dúvida é subversiva.
A certeza é absolutista, dinástica, hereditária.
A dúvida é flexível, de vanguarda.
A dúvida é a única verdade que permite desdobramentos, nuances, labirintos.
Eu não me leio, não me insisto, não me afirmo como coisa alguma.
Não sei qual é o meu tamanho, não tenho referências.
Devo medir-me entre Deus e o Pó?
Entre Deus e o Infinito?
Entre o Pó e o Infinito?
Devo ser o grão menor do olho do criador do nada, portanto.
Não há nada de belo em mim. Tudo é redemoinho e e espelhos quebrados.
A beleza sorri cínica, ela é tão real quanto a verdade.
Tudo são vísceras e coragem.
A beleza esmorece na tarde fria, vendo seus frutos pretejarem ao relento.
O meu sorriso não esconde nada, exceto a podreza dos dentes e da língua cheia de acrimônia.
Por isso sangro em palavras e tenho hemorragias sem qualquer hora marcada.
Sangro em poças, asfixio-me com meus verbos tolos e com idéias repetidas.
Nada é novo.
Até o que escrevi é feio, sujo e pobre, sem qualquer sentimento nobre, vivendo na obscuridade, tentando em vão procurar um ouvido atento.
Eu sei que em cima do poço alguém deve estar ouvindo o eco deste sussurro que rasga minha garganta, entretanto, o habitante de cima do poço pode achar que quem está por cima sou eu e que possuo a corda da salvação.
Mas o que escrevo só é milagre em mim, para os outros é pecado e deve ser lido em voz baixa.
Poupemos os anjos.
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