Lonely
74 You're not crazy, Effy
Notas iniciais
P.O.V Effy
Estive pensando em quantas vezes eu me peguei perguntando quem diabos era Elizabeth Stonem... Finalmente achei minha resposta, Elizabeth Stonem era uma garotinha perdida, machucada, duramente violentada de várias formas, já Effy é uma garota louca das festas, que não liga para nada, calculadora, fria, selvagem e acima de tudo livre, que todo mundo quer ser ou até mesmo ter um gostinho, da estrada, das drogas, da loucura em si. É, definitivamente Effy sabe como fazer um funeral em festa, mas Effy é muito mais que isso, é corajosa. Effy é esperta e é isso que eu preciso ser.
Enquanto Daryl me arrastava pela floresta eu não tive a chance de prestar atenção de onde estávamos, ou para onde estávamos indo. Apenas me puxava pelo braço, preocupado. Procurava lugares para entrarmos para que ele pudesse fazer algum tipo de curativo, sou estúpida, muito estúpida, como pude me cortar assim? Ou deixar minha mente, ou até eu mesma chegar a esse ponto? Não queria que fosse assim, não queria de modo algum.
Daryl derrubava todos os Walkers que saia pela frente, irritado. Com apenas um golpe, ele conseguia derrubá-los, ele estava com muita raiva, acho que fiz isso com ele, não queria me envolver nessa tamanha bagunça, mas não posso. Não consigo evitar.
Rick estava um pouco atrás de mim, mas ainda sentia seu olhar sustentado em mim, era constrangedor ele me ver tão frágil assim, eu que fiz de tudo para manter longe, toda essa distância foi para o quê? Nada. Ele agora sabe, e eu me sinto tão exposta.
E não consigo aguentar tudo aquilo, todas aquelas vozes, lembranças que me machucam. O pior de tudo é que machuca demais para eu entrar no meu pequeno mundo e fingir não me importar, está machucando mais que nunca. Não quero lembrar, não quero lidar, só quero esquecer. Só quero que isso passe.
Depois de muita luta, e de toda a violência do Daryl que estava furioso, acho que é assim que ele encontra seu jeito de sobreviver no mundo, ou de ao menos, liberar um pouco da fúria que ele guarda dentro, que sei que de alguma forma, ele tem que soltar porque se não, talvez ele fique louco, como estou começando a ficar novamente, achamos uma pequena casa onde Daryl praticamente me jogou para entrarmos e vi que Rick estava checando todas as portas, enquanto Daryl me soltou na porta e foi até os cômodos procurar algum sinal de Walker, ele achou apenas um, o que foi muito fácil de derrotar. Aquilo é uma mulher, ou ao menos, foi algum dia na sua vida, não é mais.
Sentia-me fraca e dependente, fiquei ali, apenas parada no canto como se fosse uma garotinha que precisava de proteção, não preciso disso, preciso me opor, preciso dizer que eu sou forte o suficiente e que sei lidar com isso porque eu já estou velha demais. Mas não o fiz, porque eu estou extremamente cansada e não acho que consigo lidar com isso agora, sei que preciso enfrentar os próprios demônios da minha cabeça, é algo que eu tenho que fazer na calma, na paz, ou melhor, paz nós não temos, preciso de silêncio para ficar sozinha trancada no meu pensamento para ver se eu resolvo isso.
Assim que Daryl conseguiu checar todos os cômodos e Rick todas as portas, ele me colocou de lado, rapidamente, num movimento que me fez ficar surpresa, pois não vi o vindo, ele me colocou encostada na mesa e se ele não fosse meu irmão, eu pensaria que ele estaria me agarrando para fazer coisas comigo, me oprimi no pensamento por achar isso engraçado. Ele levantou minha blusa rapidamente, não mostrando meu sutiã, mas mostrando o suficiente para ele fazer algum curativo na blusa. Pude ver de relance Rick revirar os olhos e os fechar rapidamente, irritado. Ele sentia ciúmes, ainda sentia.
– Jesus, Daryl. Se fosse para me deixar nua, era só pedir – Murmurei e ele apenas grunhiu como sempre faz, um velho. E logo colocou algum tipo de maldito remédio no meu ferimento, rapidamente, apenas mexi inquieta, ardeu um pouco, mas não queria demonstrar. Já demonstrei demais.
– Sinto muito – Ele sussurrou.
Logo terminou e colocou o curativo, já estava ficando de noite, eu não sabia para onde olhar ou o que diabos fazer, porque eu não queria fazer isso. Então eles começaram a conversar entre si, homens, sempre homens.
– Decidimos que vamos passar a noite aqui, está tarde já para voltarmos – Quem se pronunciou foi Rick, mas não tive coragem de sustentar meu olhar para ele, que bela idiota eu, ele é apenas um cara.
Não concordei, não falei nada, apenas saí e subi as escadas, me sentando lá em cima, o quarto da pessoa que morava ali era confortável, com vista para a janela, era incrível ficar ali, apenas olhando.
Fechar os olhos ou até ficar sem pensar por alguns segundos, já começo escutar vozes, ou lembrar coisas. Talvez eu não queira isso, mas é inevitável
Respirei fundo.
– Deus – Sussurrei irritada.
– Pensei que fosse você que falasse: não adianta rezar – Escutei uma voz atrás de mim, era Daryl. Sabia que ele viria, cedo ou tarde. Ele se sentou ao meu lado, enquanto eu não desviei meu olhar de lá fora, fiquei calada. – Sabe, você conseguiu me assustar muito hoje, Elizabeth Stonem – Ele falou respirando firme.
– Não quis – Eu respondi sincera, mas ainda sem olhá-lo.
– Eu sei – Ele falou, sei que sustentava seu olhar em mim agora, mas eu não o olhava, não me movia. – Sabe, Eff...
– Se for para vir com aquele discurso babaca de que não foi minha culpa, ou que tudo vai ficar bem, o salve, por favor – Falei já o olhando e ele ficou calado. – Eu estou bem, okay? Eu consigo... Eu consigo aguentar.
– Claro que consegue, nunca precisou de ninguém – Ele falou enquanto nos olhávamos. – Mas eu estou aqui agora, e preciso fazer o certo, mesmo que o certo para você seja ficar sozinha, mas Eff, não é. Você não precisa guardar isso tudo.
Não soava como Daryl normalmente, mas ainda era ele. Sei que era.
– Eu sinto muito – Sussurrei enquanto olhava para outro lugar, para a floresta que estava quieta. – Sinto muito por ter fugido, por ter enlouquecido ou pior, coloquei sua vida em risco hoje, nada vale mais que isso, Daryl. Sinto muito – Eu falei, era difícil você me ver pedindo desculpas, mas sei que devia várias para Daryl, então, isso é um resumo de tudo.
– Não fale como se estivesse desistindo, Eff – Ele ralhou irritado. O olhei, ele já sabia o que eu iria dizer.
– Quando Rick gritou comigo e foi embora porque eu disse que ele fosse embora, aquele momento foi como se... Tivesse despertado algo em minha mente, algo que estava trancado há muito tempo e como eu preferia que ainda estivesse lá, Deus, eu daria tudo – Falei quase num sussurro e vi que ele prestava atenção, mas ficou muito irritado, pude ver quando citei Rick. Não queria me meter no meio. – Foi ruim... É ruim, não sei se posso aguentar – Confessei e o vi fechar os olhos por míseros segundos. – Eu escutei vozes que me diziam coisas, coisas que eu achei que pudesse aguentar, mas eu não aguento porque eu... Eu sou fraca e meu Deus, eu não gosto da minha fragilidade ou da minha inocência perdida ainda quando criança, não quero lembrar, aprendi a esconder as coisas desde pequena e isso... Isso é péssimo, Daryl – Eu falei tentando esconder algumas coisas, mas muitas saiam da minha boca, como se eu não tivesse controle no que dizer. – E depois minha mãe, e meu pai, e aquele homem, meu irmão e... Emily – Eu falei com a voz um pouco rouca. – Pessoas que me falavam o quão estúpida eu sou...
– Você não é estúpida – Ele falou sussurrando e me interrompendo e foi ai que eu o olhei de novo.
– Mas eu sou – Eu falei. – Eu sei que sou, faço coisas estúpidas para tentar evitar a fragilidade, algo assim, eu espero. Mas algo surgiu depois de Emily, algo totalmente desconhecido por mim, de toda maneira, não me convenceu porque eu não sei a verdade, sei partes dela, e eu preciso saber, preciso saber por que acho que estou ficando totalmente louca, e não sei se... Sou eu, ou qualquer outra coisa, tudo que eu lembro é de um maldito acidente, ela olha para mim, eu grito seu nome, mas eu não sei... Eu não sei – Eu falei um pouco ofegante para Daryl e ele fechou os olhos mais uma vez, não querendo falar a verdade porque era demais, ou porque ele achava que eu não pudesse aguentar. – Daryl, você pode me falar, não vou enlouquecer, ou chorar, ou qualquer coisa de louco que você possa imaginar, vou sair daqui a velha Effy de sempre, não vamos ver nenhum traço mais dessa Elizabeth Stonem, apenas da Effy. É disso que eu preciso da Effy. Mas quando só temos os fatos e nenhuma memória, eu não... Não consigo fazer o que eu sempre faço – Eu falei respirando firme, tentando aguentar a verdade. – Preciso saber a verdade, Daryl – Finalmente cheguei ao ponto, sei que ele entendeu e sei que sabe que é verdade, mas precisava falar. Daryl sente que não me entende, e na verdade, nunca em nenhum ponto das nossas vidas ele conseguirá finalmente me decifrar, sou um enigma, não consigo ser decifrado e é esse o ponto.
– Você só tinha 15 anos, Effy – Ele falou.
– Tanto faz, 15 ou 18, sou a mesma pessoa Daryl – Retruquei e ele concordou.
– Tudo bem – Ele falou com sua voz rouca. — Você estava na casa da sua avó, como sempre, tinha passado um tempo antes na minha casa, mas de qualquer forma, sua irmã estava lá na casa da sua avó, e então sua mãe ligou, falou algumas coisas que não consigo me recordar agora e você ficou irritada, vi você batendo a porta de casa e indo para o quintal da sua avó fumar, e foi aí que eu fui falar com você e perguntar o que houve, lembro que você estava tão irritada e não pude fazer nada, e então você disse que iria sair, bateu a porta novamente, pegou o carro e saiu cantando pneus por aí, e foi quando sua irmã veio falar comigo, muito preocupada com você, eu apenas disse que você era grandinha e que sabia se cuidar e foi aí que ela ficou ainda mais preocupada, pediu um táxi e foi atrás de você, era o bar da cidade, você estava bebendo e fumando muito, e quando viu sua irmã, ela implorou para que você voltasse para casa e você como sempre estava consciente e disse que de qualquer maneira levaria ela para casa, e quando vocês foram e estava na rota 69 um caminhão se atravessou no seu meio enquanto você olhava para o lado para sua irmã, foi tudo tão rápido – Ele contava, e eu desviava o olhar para qualquer outro lugar, menos seus olhos, para evitar lágrimas ou até mesmo qualquer lance que demonstre meus sentimentos naquele momento, eu estava de fato, quebrada. – O carro de vocês tombou três vezes antes de ficar no meio fio da ribanceira, e você foi à única consciente no carro, me recordo que você estava toda sangrenta, machucada, cheia de hematomas no corpo, lembro que você quebrou uma perna também, e quando você olhou para o lado, viu sua irmã sangrando, inconsciente, você começou a gritar, mas ela não acordava, você conseguiu quebrar a perna e depois conseguiu torcer o braço nas tentativas de sair do carro – Ele falava e foi ai que concordei com a cabeça olhando para cima e sentindo algumas lágrimas saírem, virei rapidamente a cabeça para que ele não visse, limpei as lágrimas e Daryl continuou. – Muito tempo depois à ambulância chegou, algumas pessoas que passavam na rota havia as chamado, e então vocês foram para o hospital, sua irmã estava inconsciente e dada como morta, mas teve ainda uma parada cardíaca quando chegou no hospital e você Eff, você entrou em coma por um mês – Ele falou, mais lágrimas saiam enquanto eu as limpava. – Quando você finalmente acordou e soube do que aconteceu, você... Você teve uma crise, Effy. E não era a primeira, mas dessa vez foi diferente porque você... Sentiu muito, e teve que ser internada e tomar remédios controlados por causa das suas... Crises – Daryl não sabia colocar as palavras certas, provavelmente porque achou que eu iria me machucar, mas eu já estava machucada. Eu fechei os olhos enquanto o escutava, senti seu toque na minha mão. – Eu sinto muito, Eff.

– Eu também – Falei abrindo os olhos e evitando o seu olhar. – O que aconteceu depois? – Eu perguntei.
– Você esqueceu-se de tudo, os médicos disseram que aquilo era normal para um breakdown – Ele falou, mesmo não querendo colocar as palavras certas.
– Era normal para um ataque de loucura você quer dizer – Retruquei e ele tentou falar algo, mas no fundo sabe que é verdade.
– Você foi liberada depois disso, e...
– E as outras coisa nós sabemos e aqui estamos – Eu falei respirando firme. Sendo forte e limpando as lágrimas, Daryl se se encostou a uma cadeira que tinha ali e me levou com ele, me fazendo encostar-se ao seu ombro, ele respirou firme.
– Você não é louca, Eff – Ele repetiu novamente, sei que ele acreditava nisso. – Não precisa dessas coisas, eu estou aqui – Ele falou passando a mão nos meus ombros e me carregando mais para ele, eu acho que isso foi de longe um dos momentos mais carinhosos de Daryl que não sabia o que diabos era um abraço, mas não tenho como julgá-lo.
– Eu estou bem – Afirmei enquanto assistia ele cair no sono, e suas mãos ficarem mais frouxas da minha cintura, eu consegui achar uma boa posição para mim enquanto coloquei Daryl para se deitar numa cama improvisada que fiz para ele. Ele estava tão cansado que nem abriu os olhos, apenas se jogou em cima enquanto eu ia para o outro lado e apenas coloquei minhas pernas encostando minha cabeça, e depois levantei, estava pensando em tudo, lembrei de algumas partes do acidente e meu desespero ao gritar o nome da minha irmã, imaginei como foi tudo depois pois tudo na minha cabeça não se passa de um grande mistério, está tudo em branco nessas páginas que deviam estar preenchidas, mal consigo me lembrar de alguma coisa. Ao saber do meu coma, e de todas essas coisas que aconteceu me fez pensar muito, e não é fácil. Nunca é. Mas não preciso lidar com isso, não mais, o mundo acabou e pessoas morrem, certo?
Queria que fosse tão fácil, e que não precisasse saber de verdades que minha mente jogou a sete chaves. De novo, imagens do acidente com mais precisão no carro, enquanto eu acordava, sentia o sangue escorrendo na minha testa, não conseguia me mexer, olhei para o lado depois de muita dificuldade e pude ver minha linda irmãzinha inconsciente, não me escutava, não escutava enquanto eu berrava seu nome, desesperada. Coloquei minhas mãos, que antes estavam apoiadas na minha perna, na minha cabeça e logo depois nos meus olhos, os massageando numa mensagem de pedir para que pare. De repente, bateu uma angustia no peito que é difícil entender porque muitos não vão entender, lágrimas quentes caiam no meu rosto, uma dor no peito, vozes na minha cabeça, seria de fato uma longa noite, uma longe noite que relataria provavelmente uma boa parte da tragédia da minha vida, uma coisa que não sei se vou saber fazer algo sobre isso. Isso me atinge como uma bala despercebida.
Mas de algo eu sei, quando amanhecer e for hora de partir, irei partir e enterrar todas essas lembranças de alguma forma, vou ser Effy, vou enterrar Elizabeth porque ela está morta, morreu anos atrás. Quando amanhecer, vou ser a mesma pessoa que eu era antes e nada, nem ninguém vai me atingir.
Mas enquanto isso no meio tempo, vou sentir coisas que não sinto a anos, tentei controlar minhas lágrimas, respirar firme e não fazer nenhum grunhido estranho para não acordar Daryl, nesse tempo também penso em Carl... Ele me atinge a cabeça toda a hora, tem a idade da minha irmã, provavelmente, me importo demais com aquele garoto, e a promessa que eu fiz de nunca deixa-lo me atinge a cabeça, não posso desmoronar, o pai dele já faz isso o suficiente, ele precisa de mim, assim como eu preciso dele, por isso, eu preciso estar pronta amanhã para receber minha bronca e seguir com minha vida. Sobreviver, era a chave de tudo, preciso estar pronta para isso.
Era como se eu conseguisse me construir novamente, mas as palavras de Emily me atingiu em cheio, me deixando mais segura, ela disse que estava em paz, e espero que esteja, era como eu gostaria de imaginar, mesmo não acreditando em nada disso, gosto de pensar que ela esteja em algum tipo de paraíso e que lá seja ótimo. Não queria falar a maioria das coisas que estou sentindo para Daryl porque sei o quão quebrado ele é também, igual a mim, por isso que funcionamos juntos, nos entendemos em partes. Mas não quero magoá-lo porque ele é família, não sou de magoar família, até porque a minha já tratou de fazer isso desde cedo para eu aprender que não é assim que funciona, todo esse papo de: Família briga e depois fazem as pazes... Tudo mentira, ao menos para algumas como a minha, não vamos melhorar, nunca fizemos isso, só nos balançamos mais e mais para a beirada do fim, nosso fim foi esse e eu fui a única sobrevivente desse caos, acho que muitos me consideram sortuda, mas não sou, tive que carregar todo o fardo e é assim que eu irei sobreviver, lutando contra esse fardo, ou melhor, lutando para afundar esse fardo já que não posso lutar com ele.
Ia ser de fato uma noite longa demais para eu aguentar no próximo dia, mas sei a quão ansiosa e assustada eu estou em ir para... Casa, não sei nem se isso é o nome certo para colocar nisso, vou ser julgada, principalmente por causa dessa briga com Katie que não me recordo direito, estou esquecendo de tudo. Deus, como pude deixar minha mente plantar essas armadilhas tão fácil? Como pude deixar as coisas chegarem a esse ponto? Tantas perguntas sem resposta, e nunca irei tê-las porque estão todos mortos, todos estão mortos, controlei novamente minhas lágrimas e meu medo.
Enquanto meus pensamentos me dominavam, a voz da minha avó me atingiu: “Ela é tão boa em apagar as coisas... Escondendo, evitando. Mas eu a conheço, e sei que ela tem muito amor em seu coração, é que ela apenas é tão jovem para tanta coisa. Mas a ideia de deixar todo esse amor sair, mostrar a todos suas cartas... A assusta até a morte.”
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