Londres: Uma Primavera
16 Cap. 16 - A Conversa Entre as Flores
Notas iniciais
Durante a estada de Allen no hospital, tudo fora um processo.
Primeiro foi a retirada dos pontos que estavam em seu peito.
Depois aparelhos que o ajudava a respirar.
Logo retirá-lo do coma induzido para perceber que ele ainda não acordara. O doutor explicara que alguns pacientes não acordavam imediatamente, demoraria alguns dias. Então, todos os quatros, porque Tyki e Road insistiram para Lenalee e Lavi que ajudariam a vigia de Allen, pois queriam que alguém estivesse com ele quando acordasse, ficavam reversando seus turnos. Antes o doutor deixava apenas um ficar no quarto e apenas durante algumas horas, até que pudesse ter sempre alguém com o albino e pudesse entrar mais de uma pessoa.
Cada um deles fazia algo diferente quando estava no quarto com o albino.
Road costumava conversar e falar sobre a universidade, trocando conversas com ele sobre o curso, ou sobre as atividades, até mesmo fazendo parte de seus deveres lá. Tyki falava também, mas era sobre a família Noah, sobre Road, sobre seu dia-a-dia. Lenalee conversava também, mas sobre o dia-a-dia, também fazendo suas atividades no quarto. Lavi costumava fazer as mais diversas piadas sobre a universidade, fazendo seus deveres, falando sobre o apartamento, ou sobre o curso do Allen. A única coisa que havia em comum é que eles tiravam algumas horas para ler para o albino.
Começou por Lavi que encontrou um dos livros que Allen estava lendo sobre o criado mudo enquanto limpava o apartamento dele. Então, ele lia e deixava o livro no quarto, logo Road percebeu o que estavam fazendo, Lenalee e Tyki. Todos liam durante algumas horas. Eles terminaram de ler “O Vale do Medo” de Sir. Arthur Conan Doyle, então Lenalee escolheu o próximo, “As Aventuras de Sherlock Holmes” do mesmo autor. O ruivo tinha a leve impressão que Allen já havia lido esse livro, mas não lembrava com toda a certeza. E no momento, ele se encontrava no quarto, o sol estava para se pôr, com os livros em suas mãos, terminando um dos contos.
— “Chegue sua cadeira mais para perto, e passe-me o meu violino, pois o único problema que ainda temos de resolver é como nos entreter durante estas frias noites de outono”[1]— Lavi fechou o livro, decidindo que era hora de uma pausa – O Holmes nunca pareceu se importar com o fato do Watson estar partindo, não é Allen? – então ele levantou o olhar para o albino.
— Talvez é porque ele não quisesse lembrar que iria perder seu bom amigo – o albino respondeu com um tom fraco e um sorriso no rosto. O choque dominou o corpo do ruivo, que foi demonstrado com livro caindo de suas mãos e a boca aberta. Ficou longos segundos de silêncio até Allen resolveu falar de novo. – Você poderia, por favor, desfazer essa expressão de idiota e pegar um copo com água para mim? – Lavi sorriu, levantando-se.
— Você ama minha cara de idiota – o ruivo escutou uma gargalhada fraca, enquanto enchia o copo com água. Voltando para o amigo, lhe entregando o copo, vendo-o beber bem devagar.
— Eu acho que tenho mesmo porque é a única que você tem – dessa vez fora Lavi que soltou uma fraca gargalhada.
— Fique aqui, eu vou chamar o doutor – o albino lhe olhou com uma expressão incrédula.
— Ah claro, porque é bem obvio que eu estava em coma e é a primeira coisa que devemos fazer quando acordarmos é sair correndo – Lavi fingiu raiva.
— Você entendeu. – então, o sorriso brilhante do albino apareceu antes dele sair do quarto.
É o que eu acredito que seja, Mãe Natureza?
Sim, Bromélia, é a Rosa. Rosa está de volta.
Lavi voltou com o doutor, começando a análise do estado de Allen. Ele checou os aparelhos e fez algumas perguntas sobre o estado em que o albino se encontrava, recebendo confirmações positivas de sua melhora.
— Bom Sr. Walker, seu despertar é um ótimo indício que sua recuperação está quase completa. Ficarei feliz em lhe dar alta em alguns dias, pois precisamos fazer alguns exames e receber os resultados para ter confirmações. Mas adiantarei alguns cuidados que vamos ter já que está acordado, o ferimento em seu peito fora largo, mas felizmente não foi profundo. Não atingiu nenhum órgão interno, mas suas costelas foram quebradas, só que devido ao tempo que passara dormindo estão praticamente cicatrizadas. – o doutor Krory iria continuar, contudo fora interrompido pelo albino.
— Quanto tempo eu passei dormindo?
— Quase dois meses. – Krory deixou a notícia ser absorvida para poder continuar a falar – Você deve sentir alguns desconfortos para respirar, mas é normal, logo vai passar, o que vem as minhas recomendações de não fazer esforços físicos, pois suas costelas estão em estágio final de cicatrização, então é preciso ter muito cuidado para não as machuque novamente. Deixarei você em paz pelo resto do dia e retornarei pela manhã para fazer uma bateria de exames, entretanto se sentir alguma coisa além dos sintomas que lhe falei não deixe de me avisar.
— Muito obrigado, doutor – o albino respondeu com um sorriso, o doutor retribuiu e saiu da sala.
Lavi o acompanhou com os olhos, respirando fundo depois da saída dele, voltando a sentar ao lado do menor. Allen continuou em silêncio por alguns instantes, entendendo que esteve dormindo por dois longos meses, sentindo novamente a consciência em seu corpo. Lembrava-se dos sonhos confusos que tivera, aqueles com borboletas e jardins, aquele com uma voz em sua cabeça, aqueles que possuíam choros. Gostaria de esquecê-los, pois muitos não faziam sentido em sua cabeça, eram apenas imagens borradas e confusas. Contudo quando fechava os olhos, eles estavam serpenteando sua mente.
Tão vívidos. Tão palpáveis. Tão reais.
Esses sonhos não estavam sós. Não. Eles tinham companhia das memórias recentes. Das memórias antes do acidente. E foi como se o buraco em seu peito tivesse sido reaberto, lembrava-se claramente de tudo... Tudo que havia feito nas últimas semanas. A forma como se comportou, a forma como tratou as pessoas... As pessoas mais queridas para o seu coração. Havia despertado de novo aquele jeito egoísta e distorcido de se proteger, machucado mais uma vez àqueles ao seu redor, destruído oportunidades perfeitas por... Pelo o quê mesmo? Medo? Raiva? Decepção? Não importava, não podia ter feito o que fez, não deveria.
Mas fez.
A culpa iria lhe comer vivo como quase fez da primeira vez. Só que tinha certeza que dessa vez ela iria conseguir, porque havia algo a mais na equação que não havia antes. Evitou que o nome viesse a sua cabeça, mas quando a imagem do rosto dele apareceu, não conseguiu se conter. As lágrimas começaram a cair de seus olhos e começou a soluçar. Lavi que encarava o amigo profundamente, levantou-se de imediato segurando sua mão.
— Des-desculpe-me Lavi... Desculpe-me... Eu sinto tanto, me perdoa, por favor – o ruivo apertou a mão do outro com um pouco de força.
— Está tudo bem, Allen. Está tudo bem. – o maior passou os dedos entre os cabelos brancos, colocando-os atrás das orelhas do outro – Tudo vai ficar bem.
— Me perdoa, Lavi... Me perdoa... – as lágrimas não paravam, ou muito menos os pedidos de perdão até o albino retornar para o sono novamente.
Tudo o que o ruivo fez foi segurar a mão de Allen prometendo que tudo ficaria bem, era tudo o que podia fazer naquele momento. Assim que percebeu que o menor retornou ao sono, provavelmente devido ao cansaço emocional das lembranças vindo a sua mente, saiu do quarto, apoiando-se contra porta. Mordeu os lábios com força para evitar que as emoções dominassem seu ser completamente, porém foi inevitável quando viu a morena de cabelos longos vindo em sua direção com os olhos cheio de preocupação, deixando escapulir uma única frase.
— Ele voltou. – Lenalee entendeu rapidamente, abraçando o amigo e ambos deixando os sentimentos fluírem.
AW/YK
Naquela noite Lenalee ficou para o turno, porém retornou para casa a fim de dormir, dessa forma os quatros – Lavi avisou a Road e Tyki – estavam lá na manhã seguinte. Não houve lágrimas, apenas risos que preencheram todo quarto, pelo menos até o doutor informar que levaria Allen para os exames. Tyki informou que ficaria esperando o retorno do albino, enquanto os outros três informaram que iriam ao trabalho, ou à universidade, todos prometeram que voltariam no horário de almoço. O albino retornou algumas horas depois, vendo que o moreno estava lendo o livro que Lavi lia para si. Nenhuma palavra foi trocada enquanto o menor se reinstalava na cama, somente quando os dois foram deixados a sós.
— Todos nós liamos para você – Tyki falou com um sorriso na voz.
— Eu disse a Lenalee que já havia lido antes, ela me disse que o Lavi possuía a mesma suspeita – Allen também sorriu. E o silêncio. – Acho que está mais que claro que não vou retornar a trabalhar lá, não é Tyki? – o moreno soltou uma fraca gargalhada.
— Está sim, Allen. E por mais que doa na conta bancária da empresa, eu fico mais que feliz que você não retorne para lá – o albino aumentou o sorriso.
— Você foi sempre tão compreensivo. – maior olhou diretamente para o outro.
— Você sempre mereceu mais, criança.
— Eu nunca entendi por que você me chama assim depois de tudo o que aconteceu. – o sorriso travesso preencheu a boca de Mikk.
— Porque você é do tamanho de uma criança – uma irritação passageira passou pelos olhos do albino antes de se transformar em um sorriso. – Estou feliz porque está de volta.
— Estou feliz por ter retornado.
Depois disso, a conversa rodou sobre a vida universitária de Allen, sobre a vida do Tyki e sobre o tempo que o menor passara dormindo. O moreno sempre variava com graça entre a travessura e sedução, da forma que sempre arrancava sorrisos de Walker. Eles continuaram até o momento do almoço, o que não tardou para chegar, no qual Lavi havia “contrabandeado” algumas das delícias da cafeteria que trabalhava e partilhou com o albino, que acabou dividindo com todos.
E assim os próximos dias passaram.
Normalmente todos se reuniam para o almoço, então conversavam até que três precisassem sair, sempre restando um para que Allen nunca se sentisse só. E foi numa dessas tardes que algo inesperado aconteceu. Road estava no quarto com Walker, tentando terminar as suas atividades e sempre pedindo ajuda do outro, mesmo que ele não soube com toda as certezas as respostas, a morena pedia mesmo assim. Foi então que escutaram batidas no vidro e um rosto peculiar estava do outro lado pedindo permissão para entrar, no qual foi concedida.
— Alma Karma. – Allen deixou o nome escapar quando o dono dele entrou – Boa tarde.
— Boa tarde, Allen. – ele disse com um sorriso – Eu trouxe isso para você – e mostrou um lindo buque de flores.
— Obrigado – o albino pegou-as e sentiu a fragrância – São lindas e cheirosas.
— Achei que ajudaria decorar o quarto – nesse momento Road se levantou, pegou as flores e se pronunciou.
— Eu vou tentar achar um vaso, ou algo que eu possa colocá-las na água por aí – Allen acenou, então a garota saiu.
— Vim para saber como você está. – o albino indicou a cadeira ao seu lado para que seu visitante pudesse sentar, no qual aceitou a oferta.
— Bem melhor. Minha alta vai ser em alguns dias, estou esperando apenas resultados de alguns exames. Estou praticamente recuperado agora. – Karma sorriu levemente.
— Fico feliz. – o silêncio preencheu o quarto. Não confortável, mas pesado, denso, cheio de perguntas que não queria ser colocadas em voz alta. O albino encarou os lençóis, apertando-os com força antes de relaxar o corpo com um suspiro.
— E como ele está? – o sorriso de Alma diminuiu um pouco, mas não desapareceu.
— Ele... Ele... – um suspiro vindo de sua parte para depois o aumentar do sorriso – Pela primeira vez durante muito tempo, eu não sei como ele está. – o jovem com uma cicatriz no nariz brincou com as mãos nervosamente – Ele está bem, digo, fisicamente, mas psicologicamente? Eu não tenho a menor ideia. Durante algum tempo eu via a culpa e a tristeza nos olhos dele, mas agora... – uma pequena pausa em que Walker esperou que o outro continuasse – Ele parece perdido, desconectado do mundo. Meu melhor palpite é que ele está isolando as emoções dele, evitando pensar que você está aqui, ou mesmo que você existe. Ele não sabe o que fazer com essa informação.
— Ele veio me visitar? – Allen perguntou, pois não tinha tido a coragem para perguntar a seus amigos, não sabia qual seria a reação deles. Ou muito menos a sua própria com a resposta, mas agora via a necessidade de saber.
— Não. – houve uma pausa, mas o jovem Karma continuou – Pelo menos que eu sabia, não. – novamente o silêncio, mas dessa vez estava mais leve.
— Você disse que ele sentiu culpa? – os dois jovens se encararam intensamente.
— É. Quando ele me contou dava para ver que se culpava, era perceptível que ele achava que se não tivesse ido te encontrar, ou te pressionar nada disso teria acontecido e aquele sentimento ficou lá durante um tempo. Você sabe como é o Yuu, ele não fala, mas dá para ver nos olhos dele – o nome trouxe um toque de tristeza aos olhos cinza, que baixou a cabeça.
— Eu sei.
— Desculpe-me, eu não queria trazer esses assuntos na sua recuperação. Eu realmente vim ver como você estava – o albino levantou a cabeça – Mas eu sabia que eles iriam aparecer, então adiei o máximo que pude vir, para quando você estivesse mais forte – um sorriso gentil e triste passou pelo rosto de Walker.
— Você é uma pessoa boa demais, Alma. – o jovem com a cicatriz no nariz sorriu – E era eu que devia pedir desculpas por todos os problemas que causei a você. E a ele.
— Isso você vai ter que dizer para ele pessoalmente. Ele nem sabe que eu estou aqui e se eu contar que vim, com certeza vai brigar comigo, vai dizer que eu estou me metendo onde não deveria – o albino soltou uma pequena gargalhada.
— Mas não é isso que os amigos fazem? Se meter onde não deveriam para ajudar uns aos outros? – Alma acompanhou a gargalhada.
— É. Eu acho que sim – o silêncio estava mais confortável, mas o Walker não o deixou por muito tempo.
— Se ele não vier aqui até o dia que eu sair, eu vou até ele, Alma. Eu vou conversar com ele e pedir perdão por tudo. E agradecer. Vou tentar ajudá-lo a achar seu caminho. – todas as palavras foram ditas um olhando os olhos do outro – Eu prometo a você.
Eu posso não consertar tudo, Lírio, mas eu vou tentar.
Eu sei que você vai, Rosa. E só por isso, já estou feliz.
— Obrigado. – então, Alma se levantou da cadeira – Eu preciso ir, tenho que passar no laboratório antes de voltar para o dormitório. Foi um prazer, Allen – o moreno sorriu, esticando a mão.
— Foi um prazer, Alma – o albino apertou a mão com firmeza.
— Melhoras. – foi a última coisa que dissera antes de sair.
Não demorou muito para que Road retornasse com as flores em um pote com água.
— Está tudo bem, Allen? – ela perguntou de maneira preocupada.
— Tudo bem, Road. Tudo vai ficar bem – a garota apenas acenou com a cabeça colocando sobre as flores sobre a cômoda que ficava a frente da cama.
AW/YK
Como Allen pensara, Kanda não veio até ele.
Não, ele sempre acharia que não era bem vindo, se não dissesse a ele que era. Então, não se surpreendeu quando recebeu a alta do hospital e não recebeu uma visita dele. Longe de se sentir magoado, ou triste, o albino achava que dessa forma seria melhor, pois lhe dava tempo para pensar, para poder se preparar para o encontro que teria com ele.
Walker já havia analisado suas opções sobre aquele relacionamento, sobre o que falaria, sobre seus argumentos. E quando Alma apareceu em seu quarto de hospital, falando sobre Kanda teve a certeza que precisava para a decisão que tomara. E a certeza lhe permitiu uma liberdade que não conseguia ter antes, como, por exemplo, deixar o nome vir a sua mente. Conseguia poder pensar, ou mesmo falar Yuu Kanda sem que uma tristeza, ou culpa opressora lhe esmagasse por inteiro. E permitiu, aos poucos, recordar as memórias de todo aquele tempo dos dois juntos.
Mesmo que às vezes, elas viessem sem permissão. Como o desconforto em dormir na sua própria cama, porque lembrava claramente o corpo dele nela, ou mesmo em seu sofá. Havia noites, quando retornou ao seu apartamento, em que desejava poder dormir no chão, porém sabia que nada de bom resultaria disso para suas costelas recém-emendadas. Então, forçava-se a respirar fundo e relaxar, pois precisava dormir, precisava recuperar-se logo.
Não queria ter tempo demais e ficar repassando seus diversos discursos na sua cabeça até que eles ficassem confusos demais para serem compreendidos. Ou mudasse decisão. Aquela era melhor, não só para Kanda, mas para si também. Depois de tudo o que acontecera, pensava ser que seria a única decisão que podia tomar sem ser egoísta... Demais. Era a única que poderia fazer com que o japonês encontrasse seu caminho.
Rosa, você tem certeza disso?
Absoluta, Mãe Natureza.
E se a Lótus discordar?
Eu sei que ela está esperando essa resposta, Mãe Natureza.
Em duas semanas sentiu-se pronto para retornar a faculdade.
Ocupou-se durante um tempo com as cadeiras que precisava e podia recuperar, assim como finalizar os problemas devido a sua ausência, contudo nada que levasse tempo demais. E naquela bela tarde, em que o sol mostrava-se para as flores e árvores do campus, sabia que não poderia mais evitar. Pegou seu celular, procurou o número do moreno – algo lhe dizia que ele não havia trocado – digitando uma simples mensagem para ele.
Precisamos conversar.
A. W.
Esperou apenas alguns segundos para que a mensagem fosse respondida.
Estou sozinho no meu dormitório.
K.
Digitou rapidamente a pergunta.
Posso ir até aí?
A. W.
O celular vibrou novamente com a localização e aquela era sua resposta. Allen respirou fundo e caminhou para lá.
O caminho não fora difícil de achar, sabia onde aqueles dormitórios ficavam e o número que Kanda lhe dera ficava bem no início do imenso corredor que havia inúmeras portas. Antes de bater, o albino permitiu-se respirar profundamente mais uma vez. Deu três batidas leve, esperou alguns minutos e a porta foi aberta.
— Kanda. – o sorriso foi automático em seu rosto.
O moreno abriu passagem, indicando que deveria entrar, deu alguns passos para frente, ouvindo a porta fechar atrás de si. Ele lhe indicou uma cama da esquerda, sentando-se na direita. O japonês vestia uma regata azul com uma calça jeans da mesma cor, seu cabelo amarrado no típico rabo de cavalo. O albino notou que ele parecia mais magro e um pouco mais pálido do que se lembrava, mas não prestou muita atenção nisso, pois se concentrou nas linhas de expressão do rosto dele. Seus lábios, suas sobrancelhas, seus olhos, tudo indicava seriedade. A linda seriedade de Yuu Kanda. Permitiu-se sorrir.
— Como você está? – Walker quebrou o silêncio.
— Bem. – e ele se impôs novamente de forma esmagadora, porém Kanda o retirou – Você está bem. – uma confirmação, não uma pergunta, o sorriso aumento nos lábios do albino.
— Sim, estou recuperado. Acho que tenho um ótimo anjo da guarda – assim que terminou, o moreno soltou a respiração. Era alívio pela constatação de que estava bem. Para não deixar o silêncio retorna, o menor continuou – Você não a usa mais – e apontou para o pescoço. Surpresa, receio e dúvida passaram pelos olhos do maior, sem que uma palavra saísse de sua boca. Para ser sincero, ele não saberia o que dizer. Walker disse por ele – Eu fico feliz que não a use mais. – o único sentimento que ficou foi a surpresa. Em ambos. Pois percebeu que Alma não havia falado nada – É, Kanda.... Sou eu. É realmente eu.
Rosa?
Olá, Lótus.
Allen sorriu abertamente para provar suas palavras, vendo que a surpresa ficava maior nos olhos daquele japonês, mesmo que sua expressão continuasse séria. Então, ele desviou o olhar, encarou seus tênis meio gastos.
— Que bom. – a frase curta, mas que o albino soube identificar que era verdadeira, pois havia uma sinceridade notável nela.
Kanda estava realmente... Aliviado? Feliz? Provavelmente ambos por ser de novo o Moyashi tão irritante que conhecia. Baixou mais a cabeça porque um sorriso, um pequeno sorriso que facilmente poderia ser confundido com escárnio estava em seus lábios, mas ele sabia que o maldito Moyashi iria reconhecer como um dos seus sorrisos mais verdadeiros. E novamente, não soube o que dizer, não soube como agir, na verdade, não sabia desde de quando recebera a mensagem com o pedido do albino. E talvez muito antes ainda.
O Moyashi.
O Moyashi estava de volta à sua frente. Com aquele estúpido sorriso.
— Eu disse que queria conversar... Eu quero agradecer e pedir perdão – o moreno levantou os olhos, perdendo o sorriso e ganhando a confusão – Você sabe o porquê. Eu quero perdão por todas as coisas que fiz, eu sei que não mereço porque nada justifica o que fiz, foi errado, foi... Cruel. Porém, eu tenho que te pedir, quero que você saiba o quanto eu estou arrependido por todas as coisas que eu fiz, por todo esse tempo. – havia tristeza e culpa na voz de Walker – E se você quiser sentir raiva, nojo, repulsão pelo o que eu fiz, está tudo bem, eu compreendo. É o que qualquer um—
— Está tudo bem – Yuu cortou o menor antes mesmo que ele pudesse completar sua frase. O inglês ficou paralisado por alguns instantes olhando para o outro, porém retornou rapidamente com um tom mais agressivo em sua voz.
— Não está tudo bem, Kanda. Você sabe o que eu fiz foi errado, você não pode se culpar pelo o que fiz porque não foi sua culpa. Foi minha e somente minha, não importa o que aconteceu antes, você não merecia o tratamento que te dei, ninguém—
— Eu estou tentando dizer, seu Moyashi estúpido, é que você está perdoado. – e dessa vez Walker não conseguiu recuperar de sua paralisia, fora o moreno que tivera que trazer a ativa – Eu te perdoo porque você não está sozinho nessa. Eu poderia ter me afastado, poderia ter te ignorado, mas eu fiquei. Eu escolhi ficar.
— Eu queria que você não tivesse feito isso... – a frase saiu da boca do menor antes mesmo que ele pudesse conter. E o olhar suspeito estava no rosto de Yuu fazendo uma pergunta que Walker resolveu ignorar por hora – Mas eu... Fico honrado e extremamente agradecido que você tenha ficado, que você tenha me suportado e me ajudado. Sua presença foi essencial para eu perceber que aquele comportamento era inaceitável e ter forças para acabar com tudo aquilo. Agora eu estou livre... E você também. Você está livre, Kanda, de qualquer culpa que você sinta com relação a mim, ou qualquer dívida. Sou eu quem deve a você, sempre deverei. – Allen levantou-se sorrindo ternamente – É isso, obrigado. – o menor iria sair quando uma mão firme segurou seu pulso.
Rosa? O que é isso Rosa?
O melhor caminho, Lótus.
— Por que você não queria que eu tivesse ficado? – havia uma pergunta subentendida, algo que Allen conseguia ouvir claramente, porém ainda juntavas forças para responder.
Você não vai ficar Rosa?
— Porque dessa forma eu vou sempre dever você.
Por que você não vai ficar?
— Moyashi... – Kanda precisava daquela resposta, Allen livrou-se da mão e virou-se para o moreno, pronto para dá-la.
— Porque eu sempre vou sentir culpa pelo o eu fiz. Porque não vai ter a vez que eu olhe para você e não lembre do que fiz! E vou sentir nojo, repulsa e culpa! E daí que você me trocou por outra? Não era motivo para eu ter sido tão cruel com você, não era motivo para eu ter causado tanta destruição – os olhos cinza estavam à beira das lágrimas.
— Eu não troquei você.
— EU SEI! – as lágrimas começaram a cair – Eu sei... Eu sei... Eu percebi isso depois. Eu vi que tudo era um mal-entendido, mas eu estava tão perdido, tão... Distante que eu não conseguia parar. Parte de mim sabia que tudo estava errado, distorcido, mas eu não conseguia parar. Eu queria tanto! Toda vez que eu olhava em seus olhos, eu queria parar, mas eu me convencia de alguma forma e continuava. Eu me despedacei e levei você junto. Você pode até querer negar, mas eu consigo ver..... Eu quebrei algo em você. E não acho que minha presença vai ajudá-lo a consertar. – as lágrimas diminuíram, enquanto Kanda o encarava incrédulo.
Porque eu não mereço você, Lótus.
— Por que você não quer tentar? – era a questão que o moreno fazia.
— Por que você quer? – a pergunta veio rapidamente. E a resposta também.
— Eu... Eu não sei... – era a verdade. Era só... O Moyashi estava ali, era o Moyashi, então... Seria o certo, não era? Ele era sua recompensa, não era?
— Kanda... – as lágrimas pararam, o albino limpava o rosto, colocando um sorriso no rosto – Eu não acho que você queria continuar com isso, eu acho que você está preso a tanto tempo nesse... Nesse relacionamento que você esqueceu que tem outros por aí, menos problemáticos, menos distorcidos. Nós dois esquecemos... Você não sabe porquê quer tentar, mas eu sei porque não quero, nós esquecemos, Kanda. Nos intoxicamos com essa relação envenenada e ainda nos agarramos a ela, mas ela está envenenada, Kanda e nós precisamos deixá-la. Eu estou pronto para isso, você está?
O japonês olhou diretamente nos olhos cinza, eles esperavam uma resposta, mas perceberam que talvez não viesse tão cedo, decidiu empurrar mais um pouco mais.
— Eu me importo com você... Eu gosto de você... – o albino colocou gentilmente a mão no rosto do maior enquanto falava – Mas isso, seja lá o que for, precisa parar. Precisamos nos desintoxicar e só faremos isso distantes um do outro. – ainda sim, a resposta não veio.
— Por quê? – era outra pergunta, para que tanta insistência? – Você é o maldito Moyashi... Você... Nós... – o albino se aproximou, apoiando a cabeça no ombro do moreno.
— Às vezes somente isso não é suficiente. – e os dois ficaram dessa forma por mais alguns longos minutos, até que o menor se afastasse – Estamos bem, não é? – Yuu soltou um “tch”.
— Você é um idiota. – Walker sorriu levemente.
— Eu vou tomar isso como um sim – Kanda voltou a se sentar na cama, porém dessa vez com as costas para a porta – Muito obrigado por tudo, Kanda. – o albino abriu a porta, porém antes de sair uma última frase saiu de seus lábios – Talvez nós encontremos em uma cafeteria por aí. – só que Allen não esperou pela resposta.
— Talvez.
Por que a liberdade tem um gosto tão amargo, Mãe Natureza?
[1]— Retirado de “O Nobre Solteirão”, conto pertencente ao livro “As Aventuras do Sherlock Holmes”.
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