Lola

1 Lola


Notas iniciais
Se vocês vão chorar eu não sei, espero que sim porque me debulhei em lágrimas enquanto escrevia, talvez não vão gostar, mas espero que sim, o Nyah é a saída para esvaziar meu bloco de notas Boa leitura

—Senhoras e senhores sejam bem vindos ao circo dos horrores!— a menina da tela anunciava, aquela filmagem deveria ter décadas, os pré-adolescentes encontraram enquanto bisbilhotavam o sótão do avô, um senhor com seus setenta e cinco muito bem vividos anos, a fita VHS estava escondida dentro de um livro e esse dentro de um baú, o que mais chamou atenção foi o nome escrito na lateral "Lola", realmente não era para ninguém encontrar mas como evitar com três netos xeretas em casa?
Os velhos havia saído com seus amigos, eles tinham tempo, por isso se deram ao trabalho de arrumar o videocassete na TV e pesquisar no google um tutorial de como fazer, estavam todos curiosos no conteúdo que estava tão bem escondido, a imagem na tela estava meio amarelada, uma coloração estranha por assim dizer, a garota entrou saltitante no palco, pessoas aplaudiram, ela girou quando fez as boas vindas abrindo os braços com um sorriso quase maior que seu rosto simétrico, usava uma saia rodada acima dos joelhos feita de um tecido colorido, uma blusinha branca embaixo do suspensório, pompons enfeitavam seu cabelo preso em pigtail e a maquiagem provavelmente era colorida mas não deixava muitos detalhes à mostra, ela pulou, as luzes apagaram e quando acenderam havia sumido, um homem de terno e carlota apareceu, ele tinha um sorriso macabro no rosto mesmo que satisfeito
—Muitíssimo boa noite respeitável público!— ele tirou a cartola e fez um reverência-A Lola foi adorável, não merece aplausos?— a platéia aplaudiu e assobiou, os primos se entreolharam, aquela garota era a Lola, seria a mesma que dava nome a fita?- Vamos começar as apresentações, com vocês a nossa espetacular, maravilhosa, belíssima Hanna, a mulher barbada!— o homem deu lugar para uma mulher de vestido que dava para distinguir vermelho longo, mais parecia um lençol, ela carregava no rosto uma barba longa quase em seu joelho, não parecia animada em estar ali, Hanna fez umas graças nada divertido, logo depois um homem entrou puxando uma carroça, pode-se ouvir um "oh" da platéia, uma placa acima anunciava quem era "Honey dick" seria um trocadilho com moby dick? Pelo tamanho da mulher que se encontrava enjaulada sim, ela era gigante, suas pernas eram redondas, sua barriga parecia uma massa gelatinosa nojenta, dava para ver que se encontrava nua, a mão gorda acenou e uma linha em meia lua se formou no rosto redondo, um sorriso talvez, ela se balançou como se quisesse ficar de pé, crianças começaram a jogar coisas nela, Honey gritou, aguda e ruidosamente, fazendo barulhos similares a de um animal, o puxador a tirou dali rápido, os aventureiros estavam sentados no chão atentos aos espetáculos, a palhacinha acenou para câmera de trás da cortina antes de um homem alto e magro entrar, vestia roupas justas que mostravam seus ossos, ele pegou um bambole e passou o corpo, depois um menor e menor até chegar a uma circunferência minúscula na qual passou também, parecia que não havia nada que o impedisse, fez a reverência segurando os quatro bamboles e sumiu entre o tecido dos fundos e de lá Lola saiu dando estrelinhas, parou no centro do círculo que era o palco, girou como uma bailarina e sorriu, seu sorriso era tão doce com uma dose de inocência
—Senhoras e senhores esse é o circo dos horrores, um show com tantas dores e todos seus temores!— segurou numa corda que caiu ao seu lado e foi puxada para cima, as luzes ficaram menos luminosas, uma menina, ou melhor, duas meninas entraram num único vestido, elas tinham dois braços e duas pernas de tamanho normal, o estranho era que entre a esquerda e a direita pendiam duas pernas menores e finas, elas andavam estranhas obviamente, como um pato e não fizeram nada excepcional além de terem essa anomalia, assim como a mulher barbada elas pareciam incomodadas, as atrações começaram ficar assustadoras, um homem intitulado de "Morsa" entrou se rastejando, igual a Honey ele era gordo e não possuia pernas, no lugar parecia barbatanas, ele se debatia no chão como um peixe fora d'água, depois veio uma mulher que possuía chifres saindo de sua cabeça, um homem com outra cabeça e então a fita "saiu" do ar, quando a imagem voltou era o mesmo circo, o mesmo palco, a mesma palhacinha, ela dava piruetas magníficas pousando com os pés majestosamente, usava o que parecia uma roupa de banho na época e nos dias atuais seria roupa de ginástica, ela virou para a câmera surpresa, como se não reparasse que estava ali até o momento, olhou para os lados como uma criança arteira e iria correr até o cinegrafista
—Vocês acharam, seus intrometidos!- a voz não veio da TV, veio das costas dos três que se viraram envergonhados não sem antes pausar, o avô estava ali, os olhava com um misto de surpresa e irritação, ele entrou fechando a porta em suas costas de forma silenciosa- Ela era linda não acham?
—O senhor a conheceu?- Nick perguntou, era o mais novo e inteligência não era seu forte
—Se ele não a conhecesse por que outro motivo teria uma fita dela?- Emma deu um tapa na cabeça do irmão, com treze anos achava que já entendia do mundo
—Vovô trabalhou no circo, trabalhou para eles?- Harry lembrou desse episódio da vida do avô, eram suas histórias favoritas, no entanto ele nunca havia comentado de Lola
—Sim- o homem sorriu puxando uma cadeira que estava por perto e sentando, observou a tela com olhos marejados, aquele sorriso safado de quem aprontava, aqueles olhos grandes que em suas lembranças era do mais perfeito azul- Dê play, Harry- o garoto obedeceu, a menina congelada na cena finalmente correu ao encontro do cinegrafista que fez a câmera balançar no abraço que não foi gravado
—Will..você gravou ontem a noite, não deveria ter feito isso— a voz da garota parecia mais alegre agora, menos robótica e forçada, podia-se ver pela forma que olhava o homem com a câmera que estava feliz, seu olhar estava divertido para o cinegrafista
—Você estava magnífica- a voz do avô soou junto com a TV, Harry pausou o vídeo novamente e observou o único adulto da sala
—Espere, o senhor se chama William...nem mesmo a vovó o chama de Will- o garoto começou dizer a medida que juntou os pontos
—Ninguém nunca mais me chamou de Will- o velho sorriu fraco, e forte ao mesmo tempo, se o sorriso fosse mais fraco o teria levado à lágrimas
—Por que não nos conta a história?- Emma pediu piscando repetidas vezes, o avô respirou fundo como se tomasse coragem e levantou da cadeira, não era nenhum rapaz mais
—Esses netos nos pedem cada coisa- ele caminhou até um armário, abriu uma gaveta, dela tirou uma caixa- Vocês, xeretas desse jeito, não acharam isso- da caixa tirou um embrulho e esse ele colocou sobre a mesa, era um livro grosso de capa marrom, surrado, deveria ter aguentado muitas mudanças, as crianças se aproximaram, Willian virou a primeira página, apenas uma foto ocupava aquele espaço, um pouco amarelada pelo tempo, o retrato apresentava a garota da gravação, ela estava com um vestido de bolinhas até os joelhos, como mulheres dos anos cinquenta, sorria de forma vitoriosa segurando a ponta de seu chapéu com os dedos enluvados, seus olhos estavam observando alguma coisa no céu e no fundo aparecia a tenda do circo- Antigamente o circo era nossa única diversão- antes que virasse a folha Emma colocou sua mão ali
—"Momentos são o que você quiser que sejam, segundos, minutos, horas, dias... espero que eu seja seu momento eterno"- a garota leu juntando as sobrancelhas de forma curiosa- O que ela quis dizer?
—Um dia você vai entender- ele beijou ao topo da cabeça da neta de forma cautelosa- Olhem, as atrações- ele apontou para uma foto onde um grupo grande de pessoas estavam reunidas, Lola aparecia na frente, na ponta dos pés com uma mão apoiada no ombro do homem que usava a cartola
—Onde está a mulher barbada? E o homem morsa?- Nick se inclinou sobre a mesa para tentar procurar na foto, o avô apontou para uma mulher magra e o homem- E a barba? E como ele tá de pé?
—Era fácil enganar as pessoas naquela época- o senhor riu antes de trocar de página- eles se montavam antes das apresentações
—Tá vovô, agora nos conte de Lola e como se conheceram- Harry parecia ansioso em conhecer essa parte do passado do avô, os olhos verdes brilharam observando a foto e pareceu mergulhar em seu passado, podia ouvir as risadas, o cheiro dos animais, das pessoas, arriscava dizer que sentia o sopro da brisa do verão bater em seu cabelo que já não estava mais branco, se iria contar seu passado então que voltasse a ele...

~~
—"Lá estava eu, jovem formado em veterinária e desempregado, aquela semana havia sido bem difícil, ser jornaleiro é cansativo mas você fica bem informado, naquele dia saiu a notícia de que o circo chegaria na cidade para sua estréia no fim de semana, no circo tinha animais e, bom, talvez eles precisassem de um veterinário e foi com essa esperança que cheguei lá, um pouco assustado com tanta gente andando de um lado para o outro, perguntei a um ou dois onde estava o dono, me apontaram um homem alto vestido de terno e cartola, parecia assustador mas eu queria um emprego, catei minha coragem e andei até ele decidido a conseguir, toquei o ombro dele de forma cautelosa, ele se virou me fazendo engolir em seco
—Sim?- perguntou me olhando de cima
—Meu nome é William, vejo que o senhor tem animais no seu circo, sou veterinário- estendi a mão quase tremendo de medo, ele abriu um sorriso macabro e satisfeito
—Então apareceu na hora certa- juntou as mãos como uma oração- alguns animais adoecem facilmente, seria útil ter um veterinário a bordo- essa nova geração deveria ter inveja de como era fácil conseguir emprego naquela época, sem muitos acertos ele mostrou onde os empregados dormiam e mostrou os animais, a maioria só estava com sede.

Lembro que estava acariciando uma zebra pelas grades quando um vulto cruzou na minha frente, aqueles dois olhos enormes azuis brilhavam de curiosidade enquanto me espiavam ao lado da jaula
—Quem é você?- era a voz mais doce que eu já havia ouvido, a garota se revelou, usava uma saia rodada verde e uma blusinha amarela, além de luvas brancas nas mãos e sapatos pretos nos pés
—William, sou o veterinário- coloquei a mão nos bolsos sorrindo e ela sorriu também, um gesto simples mas que a deixava no patamar dos anjos, creio que ficaria horas observando o quanto o sol deixava seus cachos loiros bonitos e quanto esses eram longos
—Lola!- infelizmente o dono do circo me tirou do transe- Já conheceu o William- ele a agarrou pelos ombros e beijou seu rosto a deixando visivelmente desconfortável- William, essa é minha esposa- percebi naquele momento que ela não esboçava felicidade, pelo menos não tanto quanto ele- Quem deixou minha ratinha escapar?- a encarou ainda a mantendo em seus braços
—Ninguém Richard, eu tenho minhas próprias pernas- ela respondeu se desvencilhando e se afastando- Até mais Will- despediu antes de seguir seu caminho, era a primeira vez que me chamava de Will.
Richard riu de algo que não prestei atenção e quem prestaria tendo aquela garota no campo de visão?

Pela próxima semana eu não a vi, só no sábado de tarde quando entrei na tenda, estava tudo vazio, apenas ela fazendo estrelinhas e piruetas sorrindo, me senti culpado em observar porém era inevitável. Lola caiu quando pulou, deveria ter se agarrado a uma corda, nesse momento corri para a socorrer
—Está tudo bem?- perguntei pulando a murreta que separava a platéia, ela me olhou surpresa
—Ah, Will!- sorriu aceitando minha ajuda para ficar de pé- Estou bem- não estava, seus pulsos estavam marcados, machucados, inconsciente toquei meus dedos nos cortes, foi quando ela puxou para junto de seu corpo, Lola não teria feito aquilo, não eram cortes de faca ou coisa assim, era cortes de correntes, a olhei preocupado- Não vai aparecer no show- sorriu fraco como se quisesse tornar aquilo divertido- Melhor você ir, Richard ficará irritado se o ver aqui comigo
—Ele parece tão calmo- ela riu diante da minha fala
—Calmo, calmos são os leões- estreitou os olhos analisando meu rosto- Melhor você ir... Ah! Poderia ver Honey? Ela me parece mal- pediu com a carinha mais fofa que possam imaginar, não pude negar o pedido e fui ver a mulher, era gorda demais para a idade, nem de pé podia ficar, as pernas tinham algumas feridas que soltavam secreções assim como sua barriga, o corpo estava quase que apodrecendo em vida
—Quanto tempo Lola é casada com Richard?- perguntei num súbito de coragem enquanto a examinava
—Fazem uns dois anos- quem respondeu foi o homem que costumava carregar Honey de um lado para outro, ele me olhava curioso, como se soubesse o que eu queria- Mas ele não é um bom marido não- Timothy fumava despreocupado num banquinho- Richard bate nela, a trai e normalmente a deixa acorrentada na tenda- eu estava certo, as marcas eram de correntes

—E por que ela não separa?- o homem riu
—Como poderia? Para onde ela iria? Você parece um bom garoto por isso te aconselho a evitar problemas, Richard é temperamental e agressivo, seria uma pena perdermos um médico- eu não tive resposta, terminei meu trabalho e esperei pela noite, o show foi um verdadeiro espetáculo, nunca havia visto nada igual e nem tão perto, Lola sorria, naquele momento pensei que era impossível ela sofrer, até o final daquela noite, quando tranquei os animais nas jaulas sai para avisar ao dono, a tenda dele parecia vazia mas mesmo assim me aproximei, afastei a cortina, Timothy tinha razão, ele a deixava acorrentada, ela estava sentada no colchão no chão numa posição desconfortável com os pulsos presos em algemas grossas
—Lola?- chamei num sussurro, ela me encarou com olhos vermelhos, sorriu tão fraquinho- Você está bem?- entrei com cautela para que não me vissem
—Estou- a voz estava embargada
—Ele machucou você?- sentei ao lado dela, a pele estava gelada então a cobri com um cobertor que estava ali
—Melhor você ir- ela se encolheu, as risadas começaram a se aproximar- Vai logo, Richard vai chegar bêbado, vai- Lola implorou, sai pelo lado antes que Richard chegasse, infelizmente eu fiquei ali, e ouvi tudo, todo o grito, todo o choro, foi torturante e traumático. No outro dia o circo foi desmontado e colocado em vagões, eu fui junto, era minha vida agora, foram inúmeras viagens pelas próximas semanas, eu quase não a via e deus sabe o quanto tentei ficar mais próximo, talvez foi o destino que a tenha feito cair e torcer o tornozelo, eu a levei até o vagão onde passaram a dormir
—Vai ficar bem- sorri enquanto passava um analgésico que usava nos animais
—Obrigada- seu rosto não escondia que sentia dor
—E os pulsos?- ela me olhou assustada
—Ele agora tranca o vagão- riu, como poderia rir? Vi algumas coisas em cima da cômoda, parecia ser remédios, devo ter encarado por um tempo considerável- Richard me dá para que eu possa dormir
—Não deveria, é perigoso... Posso fazer uma pergunta?- assentiu- Por que ainda está com ele?
—Eu não tenho mais ninguém além dele no mundo- sorriu apoiando o rosto na mão- E ele não é tão cruel
—Ele te dá remédio para dormir
—E estimulantes para os shows... poderia me fazer um favor?- assenti- Diga a ele que não estarei bem para o show de sábado, quero descansar
—Claro, direi. Mais alguma coisa?- realmente ela parecia cansada, sem a maquiagem as olheiras embaixo dos olhos ficavam evidentes e alguns hematomas nos braços
—Pode me colocar na cama?- estendeu os braços como uma criança, assim que a peguei no colo ela colocou sua cabeça em meu ombro, meu único sentimento era de a proteger, de cuidar, no fundo sentia uma pequena fagulha de paixão.
Durante os três dias que seguiram eu ia ao quarto para a ver, descobrimos que tínhamos algumas coisas em comum, ela era engraçada, fazia piadas com quase tudo e tinha o riso fácil, um sorriso caloroso e sincero, queria a colocar numa caixinha e a tirar dali; no quarto dia quando cheguei ela estava dormindo, me aproximei, sua pele estava quente, com febre, abriu os olhos e me procurou
—Will?- sua voz fraca chegou aos meus ouvidos- Dói- gemeu tentando apontar o pé, tirei a coberta, seu tornozelo estava vermelho quase roxo e extremamente inchado
—Você ficou de pé?- estava preocupado
—Richard me pediu para dançar e já estava quase sem dor- as palavras quase não saiam, fiz uma compressa com água quente depois que massageiei com anestésico, aliviaria um pouco, estava tão preocupado que nem percebi o quanto foi rápido- Will, por favor, não me deixe- segurou em minha mão, meu coração estava ali agora, era da palhacinha acrobata, naquela tarde fiz companhia para ela, como as muitas outras tardes que vieram depois.
Um dia enquanto juntavamos as coisas para partir acabei achando uma câmera, Richard pediu para que eu gravasse um dos shows e eu fiz, a ver pelas lentes só não era melhor do que a tocar. Meu chefe andava cada vez mais distante, bebia até cair em algum canto, normalmente eu e Lola o levávamos até o vagão onde ele durmia até o outro dia.
—Psiu...psiu- ouvi aquele chamado que quase mais parecia um passarinho, levantei de onde dormia e fui até a porta, a noite estava bem iluminada, com o céu bem estrelado, ela estava ali, parecia um anjo com seus cachos dourados, usava sua roupa de treino e luvas- Vem Will- chamou com a mão, ainda meio dormindo agarrei sua mão, fui guiado até a tenda principal, todo o circo dormia, os únicos olhos despertos eram aqueles azuis com os quais vinha sonhando, tinha um tecido pendendo do teto, era um dos números que apresentava, apontou para uma cadeira bem na frente onde pude assistir pelos próximos minutos o espetáculo que ela fazia mesmo que sozinha, sem música, para que precisava? Ela faria os anjos cantar em nossos ouvidos. Seus passos certeiros, suas mãos ágeis, seu coração num ritmo acelerado, sua respiração ofegante, sentimentos que um dia entenderão, toques que um dia sentirão, tudo parecia sintonizado, o mundo havia parado e quem me diria que não? Éramos um do outro sem ninguém para nos atrapalhar... Quando o sol nasceu no dia seguinte estávamos cada um em sua cama, não sei qual era sua expressão mas a minha era de um bobo apaixonado, sabia que ela iria ensaiar aquele dia, peguei a câmera para poder gravar, era tão bela e perfeita, fotos e gravações nunca conseguiram retratar tamanha graciosidade, ah, quem dera poder a guardar para sempre perto de mim. Aquela tarde eu pude admirar ela durante a luz do sol, magnífica era pouco para a descrever. Lola veio pulando até mim com seu sorriso arteiro no rosto quando Richard foi beber, pegou minha mão me arrastando para fora, criança ansiosa podia ser usado para a descrever naquele momento
—Onde vamos?- perguntei sorrindo a abraçando pelas costas
—Vamos na cidade- sussurrou brincalhona de uma forma que só ela poderia falar e então correu ainda rindo. Duas quadras dali estávamos no centro, entramos em um bar, nos divertimos tanto aquela noite, pude ouvir sua risada tantas vezes e Deus, como eu queria gravar aquilo, quando tomamos o caminho de volta já era tarde, ela ia abraçada em mim enquanto ria- Will, você foi a melhor coisa que já chegou no circo- Lola beijou minha bochecha- Foi uma ótima noite- estávamos de volta no circo, deu dois passos para frente antes de eu a impedir segurando sua mão, me olhou por cima do ombro
—Vamos embora, eu e você, vamos fugir- convidei a trazendo para perto
—Não me peça duas vezes- ela me beijou, queria a levar dali naquele momento, deveria ter feito
—Então é isso que minha esposa faz?!- Richard gritou em suas costas nos separando, ele andou como um animal para agarrar o braço dela, eu tentei segurar- É isso maldita?! Você me trai! Eu dei tudo para você e é assim que me retribui?!
—Nem somos casados de verdade!- ela gritou se debatendo sem sucesso
—Richard, por favor!- tentei o puxar, levei um soco da mão livre que me fez cair
—Se você for esperto fique aí- via o ódio nos olhos dele, o circo acordou com os gritos dele, saiam de suas camas assustados perguntando o que estava acontecendo e eu ali, no chão, Richard a levou pelo braço até o vagão, ela gritava, ele gritava, todos suspiravam assustados tentando ver o que acontecia, corri até lá, assim que me viu, a içou pelos cabelos- É ele que você quer não é?- ele a empurrou para fora, Lola caiu na terra, eu a levantei a abraçando, os olhos azuis agora estavam tomados pelas lágrimas, Richard desceu, estava visivelmente bêbado, outra vez ele a puxou de mim a levando para o chão, antes que eu pudesse o acertar dois homens me agarram pelos braços- Você, eu dei tudo para você
—Mas não me deu amor- ela respondeu me olhando- Você nunca foi homem suficiente para isso- o rosto do homem, que normalmente usava cartola, ficou vermelho
—Você quer amor? É isso que quer?- ele tirou uma arma de dentro do casaco
—Richard, guarde isso- ela pediu trêmula ficando de pé- Apenas me deixe ir embora
—Você foi pra cama comigo só porque queria privilégios!- o grito daquele homem era horripilante
—Não, você me obrigou- ela deu dois passos para trás- Só me deixe ir- suplicou chorando
—Eu vou, vou deixar ir, vai, passa- deu espaço para ela chegar até mim, em passos assustados começou caminhar, Richard a olhou quando estavam de frente, levantou a arma trêmulo- Adeus- foi a última palavra que ele deu antes do estouro da arma, o tiro foi certeiro, acertou o lado esquerdo do peito dela a fazendo cair, eu corri me ajoelhando ao seu lado, a pegando em meus braços, seus olhos exibiam um brilho pálido
—Will- chamou com um fio de voz
—Shiiu, shiiu, vai ficar bem, você vai ficar bem, eu vou cuidar de você- a ferida estava em cima do coração, ela acenou negativamente com um sorriso fraco
—Will, escute- com a pouca força que lhe restava no corpo ela pegou minha mão- me prometa que será feliz
—Nós seremos felizes, eu e você- Supliquei a olhando nos olhos
—Nós vamos nos encontrar de novo, é uma promessa- levou sua mão já fria em meu rosto, lágrimas desciam de meus olhos de forma incontrolável- Eu te amo, Will- sussurrou antes de deixar sua mão cair na terra junto com seu corpo, eu a abracei e gritei de forma angustiante, um outro tiro foi ouvido, dessa vez foi Richard que caiu no chão com um tiro na cabeça, mas não me importava, a coisa mais preciosa que eu tinha jazia sem vida em meus braços, o céu me ouviu e então caiu chuva, todos que haviam acordados estavam formando um círculo ao nosso redor ignorando completamente a morte do seu "chefe", todos tristes e de cabeças baixas lamentando em murmúrios"- o velho secou algumas lágrimas que teimavam em cair de seus olhos, os netos também choravam, Emma estava de olhos e rosto vermelhos devido as lágrimas, Harry engolia os soluços que queriam sair e Nick limpava suas bochechas com as costas das mãos- Eu me recusei a abandonar o corpo dela pelas próximas horas e chorei com o rosto nos cachos molhados, depois de algum tempo, quando o dia já amanhecia foi quando me convenceram que devíamos a enterrar, fizemos no cemitério local com todos presentes, até Honey que mal ficava em pé quis ir, ninguém se direcionava a palavra, todos apenas choravam, até os mais durões deixaram escapar uma ou outra lágrima, eu fiquei lá, ajoelhado sobre a terra recém remexida, chorando como um bebê sem mãe- a essa altura a voz do avô estava embargada demais para continuar, ele acariciava a foto onde a menina ainda sorria, William esboçou um sorriso fraco enquanto duas lágrimas contornavam seu rosto
—E o que aconteceu com o pessoal do circo?- Nick perguntou encarando o avô, Emma deu uma cotovelada nele discretamente
—Decidimos que sem Lola não havia razão para seguir em frente, ela era a alegria do circo e Richard finalmente estava morto. Vendemos tudo e dividimos o valor, eu comprei essa casa assim como a maioria fez. Alguns anos depois casei com sua vó, foi a primeira mulher depois da Lola- ele sorriu olhando para o neto- Mas mesmo assim a palhacinha nunca saiu do meu coração- outra lágrima caiu de seu olho esquerdo, os três ficaram em silêncio digerindo o que acabaram de ouvir e internamente Emma pensava que pegaria tudo relacionado a Lola quando seu avô morresse, não por ciúmes mas sim para manter essa história na família
—Crianças, desçam para o café!- a voz de Martha chamou no andar de baixo, o avô se recompôs
—Desçam e não contem nada para a vó de vocês- ele sorriu pedindo segredo, os netos assentiram sorrindo, Will fechou o álbum no momento que os mais novos levantaram, a neta o abraçou de surpresa
—Ela amava o senhor- disse e depositou um beijo na bochecha do velho
—Eu sei- esfregou o braço da neta com um sorriso no rosto- Agora vá lá- a garota saiu correndo pela porta, ele guardou o álbum no lugar sabendo que poderia contar com os netos para o proteger. Já de pé apertou o botão de play, a imagem começou rodar, a garota sorriu
—Posso te contar um segredo?— ela sussurrou próximo a lente
—Conte- William autorizou junto com a voz da TV
—Eu amo você, Will— aquele sorriso tão sincero, se sentia tão sortudo por ter conseguido gravar essa frase, ele secou as lágrimas que brotaram em seus olhos e se aproximou do aparelho
—Eu também amo você- Respondeu junto com sua voz gravada e então apertou o botão tirando a fita, depositou um beijo singelo nela e a devolveu para seu lugar, desligou tudo e desceu, sua esposa e seus netos comiam na mesa na sala de jantar, sorriu para Martha, não havia sido uma esposa má, de maneira nenhuma, seu único defeito é que não era a palhacinha de pigtail e pompons- Eu vou me deitar um pouco, me chamem para o jantar, está bem?- pediu num sorriso, sua esposa se aproximou
—Você está bem?- passou a mão pelo rosto do marido
—Estou, nos vemos no jantar- deu um beijo na bochecha da mulher, acenou sorrindo para seus confidentes e voltou pelo caminho da escada até seu quarto, observou o sol no horizonte, brilhava alegre como luzes do circo, deitou em sua cama sentindo uma paz que há anos não sentia, colocou as mãos entrelaçadas sobre seu peito e fechou os olhos sendo puxado para um outro mundo, mundo esse onde ele estava jovem, sentia a brisa bater em seus cabelos, o cheiro da pipoca com manteiga, o cheiro dos animais, risadas, e naquele caminho aberto na grama ela vinha correndo sorrindo usando seu vestido azul rodado e suas luvas brancas, o abraçou num pulo, não era como nas outras vezes que sonhava, era tateável dessa vez, afundou seu rosto no pescoço dela puxando o cheiro de lavanda com todo ar que tinha em seus pulmões, a rodopiou no ar no misto de emoção
—Eu senti sua falta— Lola falou acariciando o rosto do ruivo
—Você não faz idéia do quanto senti a sua— Will tomou os lábios dela num beijo demorado, apaixonado e cheio de saudade, enrolou um cacho do cabelo no dedo indicador sorrindo para o rostinho de criança arteira, Lola pegou em sua mão e o começou o puxar para dentro dos portões
—Vem Will— ela repetiu o mesmo pedido de décadas atrás, William se deixou levar, o circo, pessoas andavam alegres com suas famílias enquanto admiravam os animais- Estávamos te esperando— Olhou por cima do ombro para o homem
—Estávamos?- perguntou confuso
—Claro! Estamos todos aqui, faltava você— os amigos começaram a surgir de trás das caixas, seus amigos, cada um deles, exceto por Richard que felizmente não se encontrava ali, Honey, Hanna, Morse, Timothy, todos sorriam para eles. William a abraçou beijando o topo da cabeça loira- Você demorou— Ela riu, Will a encarou sorrindo, sentiu tanta falta daquele rosto simétrico
—Achei que nunca mais iríamos nos ver— balbuciou acariciando o rosto da mulher, ela ficou na ponta dos pés e fez seus lábios se encontrarem, Lola era uma criança arteira, sua criança arteira e finalmente estavam juntos
—Eu prometi— sorriu o beijando novamente
—Eu te amo tanto...

Naquela noite não houve jantar...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!