Lola

1 Capítulo ú(m)nico


Notas iniciais
Tive a ideia pra essa história em uma manhã em que fui correr com a minha mãe e ela foi tão pra frente que eu a perdi de vista, e eu fiquei pra trás imaginando se eu correria mais rápido se cachorros estivessem atrás de mim ou se estivessem atrás dela.

Lola, a Gorda, odiava correr.

Eram sete e quinze da manhã e fazer qualquer coisa nesse horário que não fosse dormir parecia um pecado capital. Digno de ajoelhar no milho enquanto um padre musculoso despenca nas suas costas trezentas chibatadas.

Mesmo assim, lá estava ela, enfiada em roupas de ginástica apertadas demais, suando feito um porco e sem conseguir respirar, dando passos de mamute em ritmo nenhum.

Lola, a Gorda, realmente odiava correr.

Cem metros à sua frente Lívia corria como um coelho. Lívia, a Linda. Lívia, a irmã mais nova adorável. Lívia, a porra de um coelho com os cabelos loiros sacudindo nas costas e seu traseiro firme quicando a cada passada atlética.

Lola, a Gorda, atiraria uma pedra na irmã se não tivesse certeza de que se parasse iria desmaiar.

Lívia olhava para trás uma vez ou outra, fios lisos e claros espalhados pela sua testa suada como se fosse uma atleta européia das Olimpiadas de Beleza e dizia, risonha: “Vamos lá, Lola! Nem parece que você está tentando!” ou “Se me alcançar, eu te deixo comer aquele chiclete de morango!”. Lívia, a maldita cretina que corria por uma hora e continuava parecendo a deusa da fertilidade.

Lola, a Gorda, adoraria alcançar a irmã e dar uma rasteira nela.

Era patética e ridícula toda aquela nova armação para que perdesse peso. Todas as manhãs Mamãe, a Cruel, a empurrava para fora de casa com a mesma felicidade que se livraria de uma espinha purulenta. Porém, mais humilhante ainda era insistir em ficar na cama e escutar o ralhar de Mamãe, a Cruel, sobre a fortuna que precisavam gastar com comida saudável e insossa por causa da sua condição médica sem que ela nunca colaborasse com nada.

Como se Lola, a Gorda, se orgulhasse muito de seu título de Lola, a Gorda.

Nos últimos tempos Mamãe, a Cruel, e Lívia, a Linda, investiram nos mais variados métodos de tortura para que Lola, a Gorda, se tornasse menos de Lola, a Gorda. Todo o sofrimento, torrada integral e gel especial que deixava sua barriga dormente se mostraram inúteis quando apareceram cinco quilos extras na balança e três dígitos de açúcar no seu sangue. O mais novo projeto das duas consistia agora em faze-la levantar antes do sol aparecer e correr até sentir que ia definitivamente morrer.

Lola, a Gorda, sabia que ser gordo era como ter uma doença infecciosa. As pessoas olhavam com nojo para ela, como se almoçasse a alma de criancinhas inocentes do Afeganistão. Em seus rostos sempre deixavam claro que achavam o ato de ser gordo um crime de caráter, digno de punição com cadeira elétrica. Isso é, se houvesse alguma cadeira em que coubesse o seu popozão enorme.

Lola, a Gorda, sabia que nunca tinham olhado daquela forma para Lívia, a Linda.

Dentro de casa Mamãe, a Cruel, estava sempre ralhando nos seus ouvidos. Nada iria para dentro de Lola, a Gorda, a menos que passasse por uma vigorosa inspeção materna. Nada de gordura. Nada de açúcar. Nada de sabor. Mamãe, a Cruel perguntava, com os olhos cansados, quando ia desligar a luz de seu quarto antes de dormir, por que ela não poderia ser como Lívia, a Linda.

Lola, a Gorda, achava que Mamãe, a Cruel, e Lívia, a Linda, poderiam tomar em seus respectivos cus.

Duzentos metros adiante, Lívia, a Linda, saltitava como uma maldita gazela no cio. Lola, a Gorda, já mal podia distinguir a sua cintura bizarra de boneca. Já considerava com mais seriedade dar meia volta e fugir para casa, se trancar no quarto com o pacote de biscoitos escondido dentro das suas meias e assistir aos desenhos da TV.

Hm. Os biscoitos. Lola, a Gorda, desejava-os com mais verdade e intensidade do que já desejara homem algum em sua vida.

Desistiu da ideia, a sua própria casa no momento parecia distante demais. Talvez pudesse se jogar dentro do matagal que cercava a pista por onde corriam – Lívia, a Linda, corria, Lola, a Gorda, muito mal trotava com passadas mamutais – e sentar no chão. Só ficar alí, com toda a sua existência gorda, até voltar a conseguir respirar sem sentir que os pulmões eram dois sacos de areia. Talvez até tirar um cochilo com as joaninhas. Parecia uma ideia agradável.

Muito na frente Lívia, a Linda, a Irmãzinha Perfeita, a Senhorita Gostosa, a Madame Cinturinha-de-Ampulheta, ela estava correndo na direção errada. Lívia, a Linda, estava voltando e rindo. Lola, a Gorda, pensou em sufocar a irmã com suas roupas suadas e fedorentas por aquela ideia maldita de corrida matinal. Pensou em colocar o pé na frente quando ela chegasse perto para dizer risonha “Vamos, Lolinha, só mais dez minutinhos!” e vê-la perder metade da cara lindinha no chão de asfalto.

Um pouco mais perto e Lola, a Gorda, percebeu que Lívia, a Linda, não estava rindo. A boquinha perfeita e rosada, diferente dos seus lábios inchados e completamente rachados sem forma alguma, estava escancarada sim, mas os olhinhos azuis e bonitos estavam em pânico. Lívia, a Linda, voltava correndo como um foguete.

Só então Lola, a Gorda, percebeu que um homem vinha atrás dela.

Lívia, a Linda, tentava gritar alguma coisa, mas o ar não chegava mais aos seus pulmões. O homem usava preto da cabeça aos pés e tinha na cabeça uma máscara bizarra de coelho. Nas mãos, um gigantesco machado que pingava líquido escuro.

Lola, a Gorda, sabia que o homem nunca alcançaria Lívia, a Linda. Nunca conseguiria pegar Lívia, a que corre como um coelho, a gazela majestosa, a filha abençoada, a garota prodígio. Não, nunca.

Foi então que ele atirou o machado.

Lola, a Gorda, não entendia de física. Não sabia nada sobre como o atrito da resistência do ar faria o machado rodopiar e como a precisão do impulso da partida e da posição da mão lançadora eram cruciais para atingir o alvo com uma margem de erro de dois graus para a esquerda. Mas gritou como se soubesse.

Lívia, a Linda, parou subitamente. Sangue espirrou para o asfalto cinza da pista de corrida. Lívia, a Linda, Lívia, a Irmãzinha que Roubava Barras de Chocolate para ela, Lívia, a que sempre dizia para Mamãe, a Cruel, para deixá-la em paz, que ouvi-la o dia inteiro era um saco, que não deveria tratar uma filha de forma tão escrota. Lívia, com toda a sua beleza e seus sorrisos sinceros, caiu no chão com um machado afundado no meio de sua cabeça, jorrando sangue como uma pequena fonte.

Lola, a Gorda, tanto gritou que tremia. A irmã tentou se arrastar pelo chão, puxando-se pelos braços, mas o homem de preto da máscara de coelho a alcançou e, com o som de um pano molhado atirado pro chão, arrancou o machado e golpeou mais uma vez. E outra. E outra.

Algum instinto primitivo de sobrevivência agiu junto da adrenalina no seu corpo imenso e Lola, a Gorda, percebeu que estava correndo. Podia sentir o vento batendo contra seu rosto e o coração latejando em cada um de seus gordos dedos dos pés.

Lola, a Gorda, era o coelho branco, a gazela apavorada, a maratonista fugitiva, os olhinhos azuis e mortos de Lívia. Era o próprio vento, o sangue correndo alucinado, as pernas gorduchas em passos desesperados. Lola, a Gorda, era um alvo gigante.

Lola, a Gorda, olhou para trás e soltou um ganido alto, quase um uivo de lamentação. Lívia, a Irmã Linda, estava jogada no chão sem se mexer. No lugar onde deveria estar a sua cabeça uma massa disforme e rosa como mil salsichas explodidas se espalhava pelo chão.

O homem de preto e cabeça de coelho. Ele corria na sua direção, com o machado em uma das mãos e, horror dos horrores, pedaços de salsicha explodida ainda agarrados à lâmina afiada.

Lola, a Gorda, fechou os olhos com força e correu tanto que suas pernas poderiam estourar. Estourar como as salsichas da cabeça de Lívia.

Lola, a Gorda, não conseguia mais respirar e chorar ao mesmo tempo. Imaginou se algum dia o ar chegaria até seus pulmões novamente.

Lola, a Gorda, ouvia passos pesados atrás de si. Ela era o vento. Ela era a própria variação de velocidade metafísica.

Lola, a Gorda, arriscou olhar por cima do ombro mais uma vez.

O homem coelho estava alí.

Lola, a Gorda, chegou a gritar outra vez até que o homem coelho enfiasse o machado nas suas costelas. As suas pernas gordas finalmente cederam sob o peso do corpo gordo e Lola, a Gorda, rolou no chão, enchendo-se de terra e espalhando sangue.

O homem coelho pisou na ampla barriga de Lola, a Gorda. Ele tinha a respiração ruidosa. O homem coelho afundou o pé dentro da sua barriga e fez força para arrancar o machado da carne gorda volumosa.

Lola, a Gorda, viu os olhos miúdos e alucinados do homem coelho dentro da máscara suja. O homem coelho ergueu o machado. Mirou nos seus olhos. Odiava que o olhassem.

Lola, a Gorda, achou ter visto mais uma vez Lívia, a Linda. Correndo como um maldito rato de laboratório. “Vamos, Lolinha”, gritava, “tente me alcançar!”

O homem coelho afundou o machado no seu rosto.

Notas finais
Moral da história: Eu detesto correr.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!