Por três anos, Loham não conseguiu olhar direito para uma espada; sua visão sempre ficava roxa e ele apertava o colar em lembrança. Aos 14 anos decidiu aprender a lutar, mas não com espada – com as próprias mãos. Ele aprendeu tudo através de socos; incontáveis ataques foram praticados. Os exercícios de pré-treino trouxeram força para a prática. Ele não sabia que Suzan tinha habilidades de luta; se ele soubesse antes... Ela lhe ensinou cada passo, cada movimento da mão, demonstrando como dar um soco sem quebrar o polegar ou a mão. O polegar foi colocado entre os dedos, com os dedos indicador e médio levemente levantados, seguido de punho fechado. Um movimento errado pode virar a mão do avesso, acredite. Eles socaram tábuas de madeira e brigaram entre si. Foi uma valiosa experiência de aprendizado por apenas um ano.

Aos 15 anos, Loham começou a praticar chutes e precisão. Sua pontaria era perfeita e Suzan sabia que ele tinha algum tipo de habilidade, e era disso que ele gostava. Os chutes causavam dores nas pernas todas as noites; ele não sabia manter a postura correta, mas mesmo assim praticava, todos os dias, independentemente da dor. Ele havia se tornado a principal atração do ano, ganhando mais admiração à medida que crescia.

A cada 15 anos, algo tolo acontecia. E agora chegou a hora; Loham sabia disso. E ele não gostou. Um evento, um evento mágico. Não para ele. A fogueira noturna. Era o momento em que a fogueira escolheria uma nova família, uma troca, durante 15 anos. Loham apreciou cada momento com Suzan. Claro, eles ainda se veriam, mas ele viveria com outra pessoa, com novas regras de um estranho.

Loham nunca tinha visto tantos orcs em sua vida; todo o terreno estava ali, com espaço para todos em volta daquela fogueira. Foi algo sério, algo importante. Para ele, era apenas uma idiotice. Um orc gigante e robusto levantou-se de uma cadeira e caminhou em direção ao fogo; as crianças tremeram. Ele segurou um livro fechado nas mãos e o abriu; as palavras foram ditas em tom baixo, incompreensível. Loham olhou em volta e a maioria dos jovens ficou confusa; ele não foi o único. Quando o orc terminou de recitar esses versos, a fogueira mudou, transformando-se em chamas azuis, e uma silhueta apareceu. Se alongando? Tinha a forma de uma pessoa, mas não tinha rosto.

"Finalmente você me acordou. Estou esperando por isso há tanto tempo. De qualquer forma, hoje é o dia em que vocês irão chorar, o dia em que calças ficarão borradas e — tudo bem, tudo bem, vocês, jovens, estão me assustando com esses olhares. Vamos começar já; mal posso esperar para voltar a dormir."

Olhando em volta, percebeu-se que a silhueta examinava a área e parou, fixando o olhar em Loham. Ele estremeceu; aquela coisa na fogueira não tinha olhos nem feições, mas ele sabia, ele sabia que aquela coisa estava olhando para ele. E ele apertou o colar. Suzan deu um leve sorriso.

A silhueta azul falou com firmeza.

"Lo-ham. Um ótimo nome, não é? Há muita coisa escondida em você; lhe resta descobrir."

"Eu? Não há nada que-'' *Uma interrupção

"Você simplesmente não sabe ainda. Há algo dentro de você, algo forte e perigoso, mas não pode ser revelado. Se eu lhe contar, haverá consequências. Lhe resta descobrir." *A frase é repetida.

"É mentira, isso... essa COISA está errada, eu... eu... não escondo nada!" Ele olhou para Suzan e sussurrou. "Eu sou apenas um garoto normal, né? O que eu poderia esconder?"

"Não, você é diferente." *A chama interrompeu e desapareceu.

Os orcs começaram a conversar e os murmúrios ficaram mais altos; seu nome foi mencionado várias vezes. E então, um deles gritou.

"Charles estava certo desde o início; ele pode ser uma ameaça para nós."

Era verão. Loham estava assustado, em pânico; uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ao atingir o chão, a grama à sua frente se transformou em gelo, fazendo com que Loham recuasse. Os murmúrios recomeçaram.

"Como você fez isso?" Charles se aproximou.

"Eu... eu..." *Ele tentou correr de volta para casa, para escapar de tudo, mas Suzan o segurou.

"Você não precisa responder a ele. Fique aqui comigo enquanto ainda pode." *Ela o abraçou.

O orc gigante não parecia se importar muito. E mais uma vez, aquelas palavras estranhas soaram e uma chama branca emergiu. Apenas uma silhueta permaneceu.

"Hehehehe, chegou a hora. Adoro fazer isso e ver o sofrimento, desculpe. É irresistível. Vamos, anime-se; vai ser divertido."