Caminho por entre a mata olhando seu arredor, arvores e mais arvores preenchem todo o caminho. O homem de rosto machucado que se chama Leonard me acompanha com uma lança de madeira que é utilizada para pesca. Procuramos restos do avião que nos poderão ser uteis e se possível mais sobreviventes.

—Por aqui Anelise. — Ele aponta para uma gruta. — Pode ser um abrigo de sobreviventes.

Seguimos em direção a enorme gruta feita de pedra negra e coberta por plantas. O local é de imensa escuridão, ascendo a ponta de uma tocha improvisada com o isqueiro achado no paletó de um cadáver. E mesmo assim o fogo não parecia ser o suficiente para aquele lugar, como se a luz fosse sendo engolida pouco a pouco pela escuridão.

—Esse lugar é assustador. — Falo baixo. — Ninguém teria coragem de ficar aqui.

—Não vamos entrar muito. — Leonard ascende sua tocha na minha. — Isso é bizarro.

Caminhamos seguindo em frente já que não podíamos enxergar mais além , passo a mão pela parede sentindo-a esquentar a cada passo.

—Estranho...- volto alguns passos sentindo a temperatura. — Leonard, veja isso.

O homem que está na frente volta até onde estou com rosto preocupado.

—O que houve? — Pergunta.

—A rocha esquenta conforme nos aprofundamos...

—Impossível. — Ele sorri. — Vamos continuar.

Seguro na mão do homem e a coloco onde a minha esta e empurro-o para que vá sentindo a temperatura mudar.

—Isso é impossível. — Murmura boquiaberto.

—Pois é. — Olho para a imensidão escura. — Acho melhor sairmos daqui.

Concordando ele olha mais uma vez para a parede e seguimos nosso caminho de volta. Seguimos nosso caminho até a praia em silencio o que já era uma coisa comum entre os sobreviventes, falávamos o necessário e depois cada um se trancava com suas lembranças do pesadelo que passamos. As vezes tentávamos agir como se nada estivesse errado, principalmente quando a pequena Bianca estava conosco, mas todos nós sabíamos que as chances de sermos encontrados eram bem escassas.

Montamos um abrigo do lado oposto da praia longe de onde o avião caiu, e aproveitávamos tudo o que podíamos para conseguir manter todos bem, mas a nossa maior preocupação era a criança. Revezamos para entreter a menina para que não sentisse a falta da mãe, cujo o corpo foi encontrado um pouco depois de acordei. A noite a pequena acordava aos gritos e soando, se jogava nos braços de quem estivesse ao seu lado e chorava até adormecer de novo.

Essa responsabilidade não era o suficiente para me fazer não imaginar como estariam meus pais ao receber a notícia da queda e ver o rosto da minha mãe dizendo que não viveria sem mim, me cortava o coração.

Sento na areia macia longe das pessoas, mesmo me sentindo sozinha fico o mais longe que posso de cada sobrevivente com medo de sofrer com a perda de alguém. A fome e a sede estavam a espreita de nos, bebíamos cocos e comíamos peixes, mas conforme os dias passavam podíamos ver a perda de peso em cada rosto ali.

Por quase não termos proteção do sol nossas pelas já estavam queimadas e o cabelo ressecado, o sal da agua do mar fazia a pelo rachar e os lábios já criavam feridas.

—Anelise? — Chama Madalena.

Uma senhora de 70 anos e a mais velha das sobreviventes me chama.

—Sim?

—Precisamos de você. — Ela olha para Bianca que brinca com uma casca de coco. — Um dos sobreviventes que andava pela mata foi encontrado morto.

—Morto? — Levanto-me.

—Sim, e não foi pelos motivos que deveriam ser: Insolação, desidratação e sim decapitado. — Ela olha em volta. — Não estamos sozinhos aqui.

—Onde esta Leonard?

—Ele levou o corpo para onde o avião caiu.

Sigo em direção ao outro lado da ilha onde tinha se tornado um deposito de cadáveres e encontro Leonard um pouco distante sentado na areia como se rezasse.

—Leo?

Mesmo estando um pouco afastados dos corpos em decomposição o cheiro ali ainda é pútrido e sinto vontade de vomitar, coloco a mão no nariz.

—Soube do que aconteceu. — Sento do lado dele.

—Ane, tem algo naquela mata. — Ele coça a cabeça. — A cabeça dele foi arrancada fora do corpo.

—Pode ser um animal...

—Um animal comeria a carne, no caso dele apenas foi decapitado.

—Não tem como ter certeza disso, o animal pode ter se assustado com alguma coisa e fugiu. — Olho para os destroços do avião.

—Não, a cabeça foi arranca com algum instrumento cortante. — Ele se levanta, faço o mesmo.

—Acha que algum sobrevivente faria isso?

—Não sei. — Olha para o mar. — Agora estamos em seis, sendo uma delas uma criança e outra uma idosa e não acho que nenhum dos outros dois rapazes podem ser capazes de uma coisa dessas.

—Eles estavam do outro lado da ilha no momento. — Reflito.

—Ainda estão, não tem como ser eles.

—Precisamos reunir todos. — Digo e volto para o nosso refugio.

Encontro Madalena sentada com Bianca chorosa nos braços e corro na direção delas, Leonard também se assusta e me segue.

—O que houve? — Leonard pergunta.

—Uma cobra... — Ela chora balançando a criança. — Deixei ela um segundo sozinha para quebrar o coco.

—Você viu a cobra? — Leonard se abaixa e pega a menina. — Vou levava pra longe do sol.

—Era uma cobra preta. — Madalena e eu seguimos o homem. — Eu nunca tinha visto uma.

—Preta? — Leonard não acredita. — Tem certeza?

—Claro, joguei uma pedra sobre a cabeça dela. — Aponta para frente. — Esta bem ali embaixo do coqueiro.

Após deitar a menina Leonard e eu seguimos ate onde a cobra estaria e nos surpreendemos ao constatar a verdade.

—Que cobra é essa Leo?

—Não faço a menor ideia. — Ele pega o bicho morto na mão. — O que vamos fazer agora?

Olho para Madalena que está ao lado da criança acariciando-o os cabelos.

—Será que é venenosa? — Pergunto temendo a resposta.

Madalena grita e corremos em sua direção, Bianca solta babas pela boca e treme todo o corpo convulsionando. Coloco as mãos sobre os lábios segurando o choro enquanto Madalena é empurrada por Leonard.

Ele vira a garotinha de lado e me olha nos olhos, como se pudéssemos conversar sem precisar de palavras. Os outros dois rapazes que aparentam ter entre vinte a vinte cinco anos correm em nossa direção.

—Houvimos os gritos. — Marcos é o primeiro a se chocar ao voltar os olhos para a criança. — O que houve?

—Ela foi picada por uma cobra. — Madalena se joga em seus braços a os soluços.

—Não fazemos a menor ideia se é venenosa. — Completo.- Mas tudo indica que sim e nem sabemos a espécie para tentar fazer algo.

Nós todos nos entreolhamos e voltamos para a criança, Ralf vem até mim e me abraça, mesmo não termos nos comunicado muito durante o tempo que estávamos ali, ele era o que mais se aproximava da minha idade e como eu só estava naquela cilada por que queria se conhecer.

—Não temos muito o que fazer por ela. — Leonard acarecia o cabelo da criança. — Apenas devemos rezar para que não morra, ou não sofra muito caso seja inevitável.

Madalena grita e Marcos a leva para longe. Leonard deixa a menina nos cuidados meus e de Ralf e se afasta.

Desde que acordei me sentia muito grata por ele ter lutado para me salvar enquanto todos já me consideravam morta. Mesmo com a cicatriz que cobre de seu queixo até a testa não deixa de mostrar o quanto é uma pessoa amável e um rapas bonito. Os cabelos dele são longos até o ombro na cor caramelo e seus olhos de um mel quase amarelo. O homem se colocou no papel de medico por ter conhecimento em primeiros socorros e se sentia inútil quando perdia algum de nos.

Sento-me e coloco a cabeça de Bianca sobre meu colo enquanto convulsiona para tentar esquenta-la com meu calor, já que nossas roupas depois do acidente mais pareciam trapos. O sol já estava se pondo e a temperatura com ele caindo, de dia o sol parecia nos queimar vivos e a noite o era como se estivéssemos dentro de um congelador trancado, nem mesmo a fogueira era capas de nos aquecer.

Eu usava um vestido que Leonard havia encontrado quase sem estrago em um corpo, e os meninos suas mesmas roupas. Tínhamos pegado tudo o que podíamos ate mesmo roupas para tentar nos aquecer, principalmente para a pequena que estava em meus braços, ela recebia de nos os cuidados redobrados e vela daquela maneira mexia com todos ali.

—Será que estão nos procurando? — Ralf se senta.

—Eu espero que sim. — Declaro. — E espero que sejam rápidos.

Acordo com Bianca gritando ao meu lado, ela não acordara em nenhum momento depois da convulsão, dormia serenamente como se não tivesse o veneno de uma cobra correndo por seu sangue. Olho em seu corpo, ela aperta as mãos em punho ao lado do corpo, as veias do pescoço estão visíveis sobre a pele e o rosto roxo e seus lábios brancos, ela se contorce e sua aparência não é mais de uma criança de cinco anos.

Leonard que estava de vigília coloca a mão sobre o pulso dela com expressão indecifrável, sento-me e ficamos observando a pequena que depois de meia hora relaxou e voltou a dormir como se nada pudesse perturba-la.

Na manha seguinte acordo bem cedo e ando pela mata procurando frutas, no caminho passo em frente da gruta do outro dia e a encaro, como se algo ali não estivesse certo. Sem me dar chance de excitar ascendo a tocha que carrego e coloco a mão na parede seguindo-a para dentro, sentindo a temperatura sobre meus dedos irem aumentando.

O lugar parece não ter fim, quanto mais adentrava a escuridão mais ela se estendia, levo a tocha perto de minha mão que já nem conseguia encostar na pedra de tão quente que estava. A rocha é de um negro absoluto mas quando a visualizo bem de perto riscos laranjas atravessam por ela, como se fossem larvas de um vulcão, prendo a respiração e do meia volta, mas tropeço em algo que corta minha perna que ainda se recupera e grito.

A dor é aguda me levanto com pressa e tropeço de novo, sinto uma mão me segurar pelo ombro e corro como se minha vida dependesse disso. Mas não sou rápida suficiente, pois a poucos passos depois da saída da gruta tropeço em um galho e caio de rosto no chão, só consigo virar de consta e dar de cara com o que parecia ser uma pessoa morta em decomposição, os olhos vermelhos me encaravam, ele gargalha mostrando a língua grande e preta e os poucos dentes na boca.

Me arrasto de costas na grama, mas sou impedida pois minha tocha que caiu faz o fogo se alastrar atrás de mim, e a cada movimento meu a coisa se aproxima, como se brincasse com meu medo. O cheiro de carne podre preenche o ar, os poucos pontos de pele exposta dele parecem ter sido queimada, e ele só tem um olho negro no lugar do outro existe apenas um buraco.

Fecho meus olhos pois o cheiro é tão forte que uma ânsia sobe por minha garganta e faz meus olhos arderem, a coisa solta um rugido como se fosse um leão e vira a cabeça de um jeito que humano nenhum faria para olhar algo dentro da gruta. Como se esquecesse de mim ele vira de costas como se estivesse prestes a atacar algo e sem que eu pudesse ver de onde veio, uma homem de calça preta e sem camisa parte para cima da coisa e de uma única vez atravessa a lamina por sua cabeça como se fosse apenas uma carne no açougue.

O sangue que jorra do corpo decapitado é preto e faz o cheiro no lugar ficar pior, como por imediato moscas começam a sobrevoar sobre a carne morta e o vomito que eu segurava me escapa, quase nem tempo tenho de me afastar do homem que apenas me olha com olhos tão negros quanto a noite.

—Hora, hora. — Ele passa a lamina nos dedos. — Mais uma humana de presente.

—O... que? — Gaguejo.

Ele sorri e anda entorno do corpo caído no chão, meche a mão do corpo com o pé como se verificando que estava morto e vem até mim, que me encolho.

—O que faz aqui? — Ele se ajoelha na minha frente passando a ponta da lamina suavemente por minha perna. — Como chegou aqui?

—Me deixe. — Me arrasto na grama ainda em pequenas brasas. — Vai embora!

—Vá Você. — Ele desdenha. — A intrusa aqui é você.

O homem se levanta e olha mais a frente pela mata como se pudesse enxergar através das arvores e sorri, voltando logo a atenção para mim.

—Tem mais humanos aqui. — Diz e coloca a mão no queijo. — É a primeira vez que isso acontece. — Ele me puxa pelo braço, fazendo-me ficar de pé. — Me diga como chegaram aqui.

—O que você é? — Choro.

—Sou o seu Pesadelo. — Ele sorri maquiavélico. — Agora me diga!

—Nosso avião caiu nessa maldita ilha! — Grito.

—Não pode ser. — Ele me solta bruscamente, caio sentada. — Humanos não conseguiriam entrar aqui.

—Nós não entramos, caímos aqui.

—Não importa. — Ele me encara. — Não faz sentido.

Ele abaixa a cabeça por um segundo, aproveito a sua distração e tento alcançar minha tocha, mas antes que o faça ele pisa em minha mão, e um grito escapa por meus lábios. Puxo minha mão e rodo pra o lado, levanto-me com dificuldade para ele em segundos me passar uma rasteira e caio de cabeça o mundo gira e apaga.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.