Locked - locked Out of Heaven
1 Capítulo 1
Entro no avião com pé direito, sem nem ao menos olhar para trás. Sinto-me feliz por ter tomado essa decisão. Olho a numeração escrita em minha passagem e vou ate a poltrona sentando-me ao lado de uma menininha que parece entretida ao colorir um desenho, olho para a cabine onde o piloto está de pé utilizando o telefone. Aconchego-me na poltrona colocando meu pequeno travesseiro atrás do pescoço, conecto meu fone de ouvido no celular e ligo a musica.
'' Há alguns meses atrás a indecisão me tomava por inteira, em minha cabeça tudo girava em torno do que faria em minha vida após a saída do colegial. Eu imaginava que ao chegar dos dezoitos anos, a fase adulta, as respostas viriam em minha cabeça ao dar à meia noite. Mas elas não vieram e me torturei dia e noite pensando no que faria a seguir, afinal, escolher a faculdade e a profissão que levará para toda sua vida não é fácil, muito menos quando nada parece ser o certo para você.
Como presente de aniversário ganharia de meus pais um carro, mas certa noite enquanto estava esparramada em minha cama, olhei para um mapa-múndi pendurado na parede onde fica a mesa e estudos, algo surgiu em minha cabeça, desci as escadas correndo e encontrei meus pais na cozinha limpando a bagunça do jantar.
—Mãe, pai? — Chamo-os
—Está tudo bem filha? — Minha mãe pergunta lavando a louça, sem nem me olhar.
—Sim. — Vou ao lado dela. — Eu me decidi.
—Que legal filha! — Papai diz entusiasmado ao largar o guardanapo e o prato na mesa e vir me abraçar. — E qual será a faculdade, o curso?
—Então ainda não me decidi... — Sussurro.
—Como assim? — Mamãe pergunta confusa e papai ergue a sobrancelha esquerda.
—Eu me decidi que não quero um carro e sim uma viajem, para que eu possa pensar e quem sabe voltar para casa pronta para a universidade?
Mamãe e papai e entreolham com as bocas abertas e rostos que não parecem de agrado, e logo decidi que eles iriam recusar, afinal de que importa ser legalmente adulta se ao ver dos pais existe a regra do : Minha casa, minhas ordens. Vou até a geladeira e retiro o jarro de agua e encho um copo no balcão ao lado, finjo não perceber minha mãe largar as louças e puxar meu pai pelo braço até a sala, sem nem ao menos responder.
Com meu copo na mão subo novamente para o quarto, aquela foi a única ideia que tive desde que sai do colégio que poderia ser capaz de ajudar em minha decisão, mas logo de cara foi vetada inútil que nem merecedora de uma resposta foi.
Sento-me na cama e beberico minha agua, notando que já nem estou mais com sede. Coloco o copo no chão e olho novamente o mapa como se pudesse entrar dentro dele e buscar as minhas respostas.
—Filha?
Me assusto e desvio a atenção do mapa para minha mãe que esta encostada na porta.
—Desculpe-me, mãe. — Olho para o chão. — Eu não queria que ficassem bravos...
—Não Estamos bravos, meu amor. — Diz ao sentar do meu lado. — Apenas surpresos, não sabíamos que queria sair de casa.
—E não quero, digo.... Apenas queria me entender, viajar, já que nunca sai daqui.
—Entendo. — Ela acaricia meus cabelos. — E para onde queria ir?
—Não sei, Paris ou Japão? Não faço a menor ideia.
—Seu pai e eu concordamos e vamos te ajudar no que for possível, mas...
—Jura? — Não consigo esconder minha felicidade. — Obrigada mãe, juro que serei a melhor filha do mundo a partir de hoje.
—Você já é a melhor filha. — Ela me abraça forte. — Apenas tome cuidado, estará sozinha e eu não saberia viver se algo lhe acontecesse.
—Vou me cuidar mãe. — Beijo em sua bochecha. — Antes mesmo que sinta minha falta estarei em casa.
Rosana sorri e me enche de amor e colo de mãe, eu sabia que ela era capaz de mover o mundo por mim e que só ao lado dela estaria protegida, mas também sabia que o melhor seria viajar para aprender me virar e decidir os caminhos da minha vida sem precisar de sua proteção.
—Eu te amo tanto filha. — Sussurra contra meus cabelo.- Nunca se esqueça disso.
—Nunca esquecerei, mãe . — Ela se levanta e vai ate a porta. — Eu te amo.
Assim que a porta é fechada me deixo cair de costas na cama sorrindo e empolgada ao pensar que enfim encontraria a minha verdade, que enfim eu viveria sem estar na sombra de alguém e faria as escolhas que poderiam mudar minha vida. ''
A musica para de tocar, olho para a tela do celular e percebo que não o coloquei para carregar antes de sair. A garotinha ao meu lado agora encontra-se encolhida na poltrona em profundo sono, a porta da cabine do piloto encontra-se fechada e as aeromoças já estão cada uma em seu acento. Retiro um livro da minha mochila e abro na pagina marcada.
Acordo sem nem ao menos lembrar quando dormi, minha costa dói por dormir sentada, recolho o livro que derrubei quando dormia e passo a mão sobre a capa limpando-a. Um tremor forte no avião faz com que todos se exaltem e logo as aeromoças estão de pé acalmando o pessoal.
Prendo a respiração e fecho as mãos em punho em cada braço da poltrona, enquanto o medo enfim me toma. Desde que decidi nem sequer me permiti ter medo , pois tudo ficaria bem e logo eu estaria em casa e pronta para tomar qualquer decisão.
Mais um tremor forte e as aeromoças já não parecem estar tão confiantes como antes, elas ainda tentam aclamar todos, mas dessa vez também ensinam as pessoas caso aja uma queda. Aperto meu cinto, desço-o ate a minha pelvis e observo a garotinha ao lado que continua a dormi sem nada notar, observo se esta utilizando o cinto e tento avistar qualquer pessoa que possa ser um parente da criança, ao não encontrar aperto o sinto dela.
Outro tremor ainda mais forte faz com que uma aeromoça que esta de pé caia de joelhos ao chão, uma campainha soa alto e a luz vermelha que fica em cima da porta do piloto pisca. Sinto um bile subir em minha garganta, quando a mesma aeromoça que caiu se senta em sua poltrona afivelando o cinto e sussurrando para a colega em voz baixa sem notar que presto atenção no que diz "Esse avião vai cair"
A garotinha acorda assustada com o novo tremor e chora chamando pela mãe, ela tenta soltar o sinto mas seguro suas mãos para que não o faça.
O sacolejar se torna mais amedrontador quando o corredor se enche de fumaça, olho pela janela e vejo o fogo tomar a ponta da asa do avião. Máscaras de oxigênio caem na frente de cada tripulante, coloco a minha rapidamente e volto minha atenção para a garotinha que se encontra desfalecendo e tossindo pela fumaça, coloco a mascara nela. Vejo uma senhora ao meu lado desacordada sem utilizar o sinto e sem máscara, meu intuito é de ajuda-la.
Fui impedida de ajuda-la quando o avião se inclina e todos agora gritam desesperados não tem mais solução, ele está caindo. Inclino-me para frente e coloco o peito nas coxas e a cabeça entre os joelhos, cruzo os pulsos adiante das minhas panturrilhas e pego os tornozelos. Faço o mesmo com a garotinha ao meu lado tentando por meu corpo sobre ela.
O avião gira descontrolada mente e junto ao zumbido do motor e o barulho de fogo escuto pessoas gritando e algumas rezando, lagrimas escorrem por meu rosto, amaldiçoo-o o momento em que Decidi deixar minha casa. Sinto meu pulmão pesar, respiro com dificuldade mesmo utilizando a mascara.
E como se por despedida penso em meus pais e entendo o por que de não ter escolhido algo para fazer da vida, por que era tão difícil pensar no futuro, tudo fazia sentido eu não teria um futuro.
Antes mesmo do impacto eu já sentia me desgrudando da vida, tudo escureceu quando um barulho ensurdecedor que fez quando o avião colidiu contra o solo e explodiu.
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