Locked Out of Heaven
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Sebastian abriu os olhos devagar e foi como se despertasse de um sonho. Porque só mesmo em sonho que os eventos da noite passada teriam acontecido com tanta facilidade. Entretanto, ele virou-se na cama e constatou que tudo fora real. Santana ainda dormia tranquilamente ao seu lado, com os longos cabelos pretos espalhados de qualquer jeito pelo travesseiro. A expressão da latina revelava uma paz que ele nunca antes vira nela e Sebastian desconfiou que aquilo só fosse possível enquanto ela dormia. Ele estendeu uma mão e afastou uma pequena mecha de cabelo que cobria parcialmente a bochecha macia. Sebastian demorou-se mais alguns segundos decorando os traços daquele rosto e suspirou. Era perfeitamente compreensível que qualquer garoto – ou garota – se sentisse atraído por ela... Então por que era tão inadmissível que ele se sentisse assim? Ele não tinha certeza. Mas sabia que não adiantava mais negar que a queria mais do que qualquer outra pessoa que já conhecera.
Querer não significa amar, certo? Certo. Entretanto, também não podia negar a si mesmo o quanto estava assustado com toda aquela situação. E se Santana acordasse e decidisse que queria alguma espécie de relacionamento? Ou pior: e se ela acordasse e fosse embora sem dizer qualquer palavra, como da última vez? Não havia nada que justificasse uma possível visita dela à Academia Dalton ou uma visita dele ao McKinley. Não havia mais nada que obrigasse os dois a manterem contato e aquilo atingiu Sebastian em cheio. E se ela viera até sua casa apenas para terem uma última vez? Não estavam apaixonados, certo? Então era uma hipótese perfeitamente cabível.
Ele odiava não saber o que fazer, mas, depois de todos esses meses, estava quase se acostumando àquela sensação. Quase. Sebastian levantou-se cuidadosamente da cama e começou a fazer uma pequena mala.
Estava na hora de voltar ao estranho refúgio chamado Columbus.
[...]
Eram as primeiras horas da manhã e Santana odiava acordar cedo, ainda mais em um sábado de inverno. Ela não sabia o que a fizera despertar, mas desconfiou que fosse aquele ruído distante de um carro dando partida — o que era estranho, porque o sono dela era pesado e, em condições normais, ela nunca acordaria por causa disso. Ela esfregou os olhos e espreguiçou-se, percebendo que estava sozinha numa cama que não era a dela; os lençóis deslizaram pelo seu corpo quando ela se levantou, indo até a janela, a tempo de ver um carro prateado que já estava chegando à esquina da rua. O carro dele.
Ela deu meia-volta e se deixou cair sentada na cama. Aonde ele tinha ido? Ela passou uma mão pelo cabelo e olhou para o lado, vendo uma folha de papel dobrada ao meio repousada na mesa de cabeceira. Ela pegou a folha, que descobriu ser um bilhete. Numa caligrafia apressada, ele dizia:
“Shakira,
Quando você acordar, eu espero já não estar mais aqui. Estou te poupando o trabalho de fugir de mim outra vez, então estou saindo eu mesmo. Vou para Columbus, visitar meus pais, então demore o tempo que precisar por aqui. Não seja orgulhosa: coma e beba alguma coisa antes de ir embora, porque eu sei que te fiz gastar muita energia ontem à noite.
Você venceu e, mesmo que eu ainda custe a acreditar nisso, te dou meus parabéns. Ainda não tenho as respostas que você procura, mas, se eu descobrir alguma coisa, não deixarei de contar a você. Até lá...
Te vejo em outra vida.
– S.
P.S.: Eu gostaria muito de encontrar a casa como deixei, então agradeceria muito se você não chamasse nenhum de seus amiguinhos do subúrbio para esvaziá-la na minha ausência. Sei que o seu povo tem necessidades, mas você sabe o que dizem... O crime nunca compensa. Enfim. Deixe a chave na casa ao lado esquerdo, com a Sra. Jenkins.”
De todos os sentimentos que teve ao ler cada palavra, a raiva era o que mais predominava em Santana. Ela é quem fora até ali, ela o beijara primeiro no dia anterior, ela queria respostas para as quais ele parecia não dar a mínima importância. E tudo o que ele tinha a dizer eram palavras de cinismo e deboche.
Santana se sentia mesmo o ser mais idiota desse mundo.
[...]
– Sebastian! Estava com saudades a ponto de cair da cama num sábado para dirigir até aqui? — Uma Emma surpresa abria a porta da frente para que Sebastian entrasse.
– Claro, mãe. – Sebastian revirou os olhos enquanto recebia o abraço de sua mãe.
– Pois eu estava morrendo de saudades de você. Há tempos estou planejando ir até Lima, mas Bonnie esteve doente e...
– Bonnie está doente? O que ela tem? Onde ela está? – Sebastian interrompeu-a agitado.
– Mais dentinhos estão nascendo e ela esteve bem inquieta. Foram dias difíceis, mas agora está tudo bem. – Emma assegurou. Eles caminharam até a cozinha e Bonnie estava em sua cadeirinha, com um prato de mingau quase vazio a sua frente. Quando seus olhos caíram sobre Sebastian, a garotinha abriu um sorriso e estendeu os bracinhos na direção do irmão. Ele pegou-a no colo e Emma continuou: — Agora me fale, quero saber de tudo! Como estão as coisas no colégio? Como foram as Regionais?
Sebastian achava impressionante o fato de que Emma sempre se lembrava de tudo o que ele falava, mesmo que seus comentários sobre determinado assunto fossem mínimos, como era o caso das Regionais.
– Perdemos. Eu fui ótimo, é claro, mas o outro coral levou a melhor. – Sebastian deu de ombros, como se fizesse pouco caso do ocorrido. Ele colocou Bonnie de volta na cadeirinha e foi até o armário, onde pegou uma caixa de cereal e uma tigela. Emma observou aquela atitude e soube que o desinteresse do filho era calculado, mas achou melhor não comentar nada. Perder era um assunto um pouco delicado para Sebastian.
– Sei... E o que mais? Não tem mais nada que você queira me contar?
– Continuo tirando A em cálculo e trigonometria... B em inglês e biologia... O treinador deu uma pausa nos treinos de lacrosse... É. Nada que seja realmente novo ou extraordinário. – Sebastian estava colocando os cereais na tigela e, quando ele virou-se para aceitar a caixa de leite que Emma oferecia, a mulher notou uma pequena mancha na curva do pescoço do garoto. Ela estreitou os olhos e estendeu a mão para tocar o local, enquanto Sebastian preparava-se para dar a primeira colherada em seu lanche matinal.
Quando ele notou o que ela estava fazendo, já era tarde demais.
– E agora? Tem alguma coisa que você queira me contar? – Emma disse, com os olhos faiscando em vitória, enquanto olhava o próprio dedo. Uma fina camada do que parecia ser base para pele estava ali e o pescoço de Sebastian agora exibia uma grande marca arroxeada.
Sebastian tentou não se engasgar.
– Imagino que você saiba o que é um chupão, mãe. – Ele disse, num tom pretensamente casual.
– Sim, eu sei. Mas pra você estar escondendo de mim, é porque tem algo que não quer que eu pergunte. – Emma disse com sagacidade. – Em outras circunstâncias, você exibiria tudo que pudesse para irritar o seu pai.
– Mas agora ele me ama de novo, não é? Não preciso esfregar na cara dele que um garoto me fez isso. – Sebastian replicou.
– Isso ou... Não foi um garoto. – Emma rebateu. Por que ela tinha que ser tão perspicaz? — Sebastian, isso tem algo a ver com aquela garota que você mencionou em dezembro? – E por que ela tinha que ter uma memória tão boa? Sebastian fez uma careta e largou a colher que segurava.
– É, foi ela. E...? Satisfeita agora?
Emma começou a rir.
– Você tem noção do quanto é estranho se envergonhar por ter ficado com uma garota? Quer dizer, você nunca se envergonhou de ficar com garotos e agora...
– Não estou envergonhado! – Sebastian indignou-se.
– Não, é claro que não. – Ela continuava a rir e o filho assumira uma expressão emburrada. — Desde quando você usa maquiagem?
– Mãe, eu só achei que você não precisasse ver os detalhes da minha vida sexual. Mas, se você quer...
– Não. – Emma interrompeu. – O que eu quero é que você me conte o que está acontecendo. Você saiu daqui dizendo que ela nunca iria querer nada com você, e eu já sabia que você estava errado, mas quero saber o que houve.
– Ah, mãe... Não é nada demais. A gente acabou ficando e... Só.
– Sebastian, eu acho bom você estar tratando essa garota direito, porque eu não te criei pra desrespeitar mulher alguma. – Emma estreitou os olhos, ao passo que Sebastian revirou os seus.
– Por que toda essa preocupação agora? Você nunca me disse nada antes e agora... Está até falando sobre respeito...
– Porque eu me lembro de como você estava quando veio pra cá da última vez. Se todo aquele silêncio e melancolia foram por causa dessa garota... Eu não acredito que ela não signifique nada pra você.
Sebastian desviou o olhar.
– Acho que você está supondo coisas demais, mãe.
– E eu acho que você está tentando fugir do assunto.
– Sim, eu estou. Mas há alguém me impedindo.
– Tudo bem! – Emma ergueu as mãos em sinal de rendição. — Não está mais aqui quem falou. Mas você sabe que pode falar pra mim tudo o que quiser, não sabe?
– Sim, mãe, eu sei...
– E pra mim também. – Uma mulher alta e loira entrou na sala. Ela usava um longo roupão e tinha os cabelos levemente bagunçados. Claramente, tinha acabado de acordar. Ela bocejou e dirigiu-se até Sebastian, parando ao lado dele. – Não sei do que estão falando, mas tanto faz. Não vai me dar um abraço, querido? – A mulher estendeu os braços para Sebastian, que se levantou e abraçou-a com empolgação.
– Holly! O que tá fazendo aqui? – Sebastian perguntou.
– É uma história bem interessante, mas eu vou precisar de um pouco do delicioso café da sua mãe pra contar tudo. – Holly disse, puxando uma cadeira para se sentar.
Emma revirou os olhos e serviu o café. A loira deu um gole e suspirou satisfeita.
– A melhor coisa que o Tom já fez foi ter casado com você, Em. Não me canso de repetir isso. – Holly disse e tomou mais um gole de sua xícara. – Onde estávamos? Ah... Bem, você sabe que eu sou professora substituta e que sou conhecida por ministrar aulas não convencionais. Há algum tempo, eu adotei um método que consiste em aparecer de surpresa nas escolas e dar aulas para as quais não fui contratada, o que, falando em voz alta, parece bem menos divertido do que soa na minha cabeça. Os alunos adoram esse tipo de quebra na rotina, mas os professores e demais funcionários... Nem tanto. – Ela suspirou. – Então estou sendo processada. Como Columbus foi um dos últimos lugares em que trabalhei por um período razoavelmente grande, a minha defesa está montada aqui. Além disso, ser prima de um advogado do Estado é algo bem positivo na minha atual situação.
Sebastian se segurava para não gargalhar. Holly era mesmo inacreditável.
– Falando no grande juiz Smythe, onde ele está? – O garoto perguntou.
– Foi pra Nova York com o Ronald... – Holly começou.
– É Robert. – Emma corrigiu.
– Esse mesmo! Algo sobre a bolsa de valores e checar investimentos, essas coisas chatas de adultos chatos. Mas, se você me perguntar, acho que eles devem estar comprando ingressos para alguma maratona de musicais da Broadway agora mesmo. – Holly comentou em tom conspiratório.
– Tom não é louco de sair para ver um musical sem mim. – Emma disse.
– Isso, Em! É sempre bom manter as rédeas da situação. – A loira ergueu sua xícara como se brindasse à Emma.
– Trouxe seu violão, Holly? – Sebastian perguntou, virando-se para ela.
– Achei que nunca fosse perguntar. – A mulher abriu um sorriso.
[...]
No outro dia, Sebastian estava sentado com Bonnie no quintal. Não estava tão frio e ele se certificara de agasalhar bem a irmã. Ele estava brincando com ela quando Holly chegou e sentou-se ao seu lado.
– E então? Não vai me contar o que está afligindo este seu coração?
Sebastian apenas a olhou.
– Qual é, Seb! Você sabe que eu não sou como nenhum outro adulto. Não sou chata, nem vou pegar no seu pé. Mas eu sei que tem algo te incomodando.
Ele suspirou e colocou Bonnie no carrinho. Em seguida, abraçou os próprios joelhos.
– É que... Você sabe, Holly. Eu passei por muita coisa desde que me assumi. Meu pai me tratou mal, me jogou sozinho em uma casa numa cidade que eu detesto, tirou toda a vida que eu tinha em Paris...
– É, eu já sei o quanto o Tom foi idiota. E...? Você passou por tudo com a cabeça erguida, Seb. Está se deixando abalar justo agora? Depois de todo esse tempo? – Holly questionou.
– Não, não é isso. É que... Eu passei por tudo isso e agora... Agora eu conheci uma garota. E senti coisas por ela. Coisas que eu nunca tinha sentido por nenhum garoto antes. Eu passei por tanta merda e agora ela chegou e bagunçou tudo. E eu nem gosto dela! É só sexo. A gente mal se conhece e eu já sinto tanta raiva dela... E ela também sente muita raiva de mim. É complicado. – Sebastian despejou tudo aquilo e Holly apenas ouviu em silêncio.
– Realmente, é muita coisa. Mas qual é o seu medo, Sebastian? Se entregar? Quebrar a cara? Porque, se for isso, o fato dela ser uma garota não é tão relevante. Você podia estar com um cara e mesmo assim se dar mal. As chances são as mesmas.
– As chances seriam as mesmas, se ela também gostasse de garotos. Mas ela não gosta. Ou não gostava, sei lá. A questão é que, até nos beijarmos pela primeira vez, ela era lésbica e eu era gay. E isso não é algo que dá pra deixar de ser. É sobre quem somos, Holly. Ela é tão complicada quanto eu e eu nem mesmo sei se quero tentar algo, já sabendo que as chances de dar certo são tão pequenas. Me apaixonar... Seria um erro. – Sebastian disse a última parte mais para si mesmo do que para sua atenta ouvinte.
– Ok, Sebastian. Essa é, de longe, uma das histórias mais loucas que eu já ouvi. Mas vamos lá. Feche os olhos e concentre-se no que você sabe, no que você tem certeza. – Holly pegou as mãos do garoto e fechou os olhos também. Sebastian suspirou e fez o que ela pediu.
– Gosto de estar com ela. Mas quando estamos nos beijando ou... Você sabe. Fazendo outras coisas. – Sebastian abriu um sorriso malicioso, mas logo ficou sério de novo. — É o único momento em que não brigamos. – Ele continuou: — Temos temperamentos muito fortes, mas eu gosto disso. Sempre achei que, se fosse mesmo pra eu ficar com alguém, teria que ser com alguém tão teimoso quanto eu. Alguém que apenas concordasse em tudo comigo seria extremamente chato. – Ele sorriu minimamente e continuou: — Deixa eu ver... Gosto do modo como ela não se deixa intimidar. Ela é forte. E é uma amiga leal também. É uma pena que não tenhamos começado como amigos. Talvez fosse tudo mais fácil... Ou menos difícil.
Sebastian ficou em silêncio e Holly disse:
– Continue. Fale também sobre o que você não gosta, o que te intimida, do que você tem raiva...
– Bem... Eu não sei o que fazer. Isso é o que mais me dá raiva. Estou acostumado a ficar com garotos sem criar qualquer tipo de laço afetivo, sem envolver sentimentos. Mas ela... Ela é diferente. Ela tem algo a mais, eu não sei o que é. Mas não consigo pensar em simplesmente... Deixá-la ir, deixar tudo isso pra lá. – Sebastian ponderou, de sobrancelhas franzidas. – Não, eu não quero. O sexo é bom demais e ela é muito instigante. Talvez eu queira ver aonde isso tudo vai dar. Mas, ao mesmo tempo, eu não tenho a mínima ideia do que ela pensa ou do que ela quer. E se ela não me quiser? Ela tem os próprios conflitos e tem tanto com o que lutar quanto eu. Se ficássemos juntos, seria como uma batalha contra nós mesmos. Isso não é saudável... Eu tenho tanto medo de me machucar... E acho que é isso que me faz paralisar. É isso que me diz pra parar por aqui e não levar isso adiante. Será que vale a pena abrir mão de tudo o que eu sou – ou o que eu acho que sou – por uma única pessoa?
– Será que você já não sabe a resposta pra essa pergunta? – Holly rebateu. – E se você já estiver mudado? Talvez não haja volta, Sebastian; talvez a opção de retroceder já não exista. Se for assim, cabe a você escolher se vai parar por aqui e ficar estagnado nesse ponto, deixando a oportunidade passar, ou se vai atrás dessa nova aventura. Você pode se dar muito mal, eu não vou mentir. Mas e se essa for a sua chance de felicidade? Você vai deixá-la passar por medo? Sexualidade não é algo em preto e branco, Sebastian. Não se trata de por quem nos sentimos atraídos. Você pode transar com ela e depois acabar achando um cara que seja tudo o que você sempre quis. Isso não muda nada. Trata-se de por quem nos apaixonamos.
– Então você acha que eu já estou apaixonado? – Sebastian ergueu uma sobrancelha, ainda de olhos fechados. Holly respondeu:
– Talvez. Mas se você nem mesmo tentar, nunca vai saber.
– Sebastian! – A voz de Emma ressoou, vindo da frente da casa. – Vem me ajudar com as compras! – Ela acabara de voltar do supermercado e, com isso, a conversa de Holly e Sebastian havia acabado. Eles se levantaram e Holly pegou Bonnie no colo cuidadosamente, porque a garotinha havia adormecido. A loira fixou seus olhos em Sebastian e disse:
– Só mais uma última coisa, Sebastian. Posso saber o nome dessa garota?
– Santana. Santana Lopez. – Sebastian respondeu já se encaminhando para onde sua mãe o esperava. Por isso mesmo, ele não viu os olhos esbugalhados de espanto que Holly tinha no rosto.
Era a mesma garota que pedira a ajuda da loira dois anos atrás. Afinal, quantas Santanas Lopez poderiam haver em Lima?
[...]
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