Locked Out of Heaven
23 Capítulo 23
Notas iniciais
– Milhões de mulheres têm usado a pílula do dia seguinte sem relatos de complicações graves. – Do outro lado do balcão da farmácia, a mulher de jaleco branco com um pequeno crachá onde se lia “Dóris” estendia uma pequena caixa vermelha para Santana.
– Você tem uma pílula pra minha idiotice? Eu acabei de cometer um dos piores erros da minha vida. – Santana pegou a caixa e suspirou.
– Não estamos aqui para julgar. – A mulher balançou levemente a cabeça e abriu um sorriso bondoso.
– Eu mereço ser julgada! Eu disse a minha melhor amiga que eu a amava, ela me rejeitou por um tempo, mas depois nós começamos a namorar e aí um cara me beijou, meu namoro foi pro espaço e agora eu transei com o cara. E gostei! O que você acha? – Santana disparou as palavras num jato. — Está me julgando agora? – Ela disse, ao ver a boca entreaberta de Dóris.
– Não! Sem julgamentos, eu juro. Mas preciso te lembrar de que isso aqui não vai te proteger contra doenças sexualmente transmissíveis. – A mulher observou.
– Santana! Quem é vivo sempre aparece... – Uma voz sarcástica vinha de trás da latina... Santana virou-se e deu de cara com Quinn.
– Oi... Hum... Essa é a minha melhor amiga! – Ela disse para Dóris, que rapidamente pegou a caixa com as pílulas e embalou em papel pardo, assentindo. – Quer dizer, não minha melhor amiga que é minha ex; minha melhor amiga tipo minha irmã, sabe? – Santana divagou; estava claramente nervosa e Quinn sabia disso, mas precisava descobrir o porquê.
– Ah... Eu ficaria emocionada, se não estivesse tão brava com você. – Quinn disse e estendeu sua própria caixa de remédios para Dóris. – Pode empacotar, ela paga.
Santana revirou os olhos e perguntou:
– O que está comprando? Aliás, o que eu estou comprando pra você?
– Comprimidos pra dor de cabeça. Como eu estava indo pra sua casa, sabia que ia precisar deles depois que saísse de lá. – Disse Quinn, pegando o saquinho que a atendente lhe estendia. A loira notou a cara emburrada da latina e disse: – Ok, eles são pra minha mãe. Mas e você? – Os olhos verdes faiscaram para Santana.
– Hum... É uma longa história. – Santana suspirou. Ela olhou para a expressão no rosto de Quinn e completou: — Mas você sabe que eu vou te contar tudo.
– Sim, eu sei.
As duas agradeceram à Dóris e saíram da farmácia.
[...]
– Naquele mesmo dia, mais cedo –
– Vou tomar um banho. – Sebastian anunciou depois de alguns minutos em silêncio. Ele olhou para o lado em que Santana estava deitada, com os longos cabelos pretos esparramados no travesseiro branco e perguntou: — Quer vir comigo?
– Um banho de verdade ou sexo no chuveiro? – Santana perguntou.
– Por quê? Você está cansada? — Sebastian perguntou sorrindo maliciosamente, enquanto levantava-se da cama. Ele foi até o guarda-roupa e pegou uma toalha azul. Enquanto isso, Santana observou o corpo nu e percebeu que não se cansava daquela visão.
– Não. Estou com fome e sede, é diferente.
– Você pode comer e beber, Santana. E também pode vir tomar um banho comigo. – Ele virou-se para encará-la, mas Santana continuava confortavelmente deitada.
– É melhor você ir sozinho. Eu vou descer e olhar sua geladeira, Smythe. – Ela disse, inclinando o corpo para frente e sentando-se na cama. – Acho bom você ter comida de verdade por aqui.
– Então tá. – Sebastian deu de ombros e seguiu para o banheiro.
Quando Santana escutou a batida da porta, ela puxou o lençol que a cobria para o lado e levantou-se da cama rapidamente. Então recomeçou o processo de catar e vestir suas roupas, encontrando um pouco de dificuldade em subir o zíper do vestido sozinha. Ela saiu para o corredor e olhou para a porta do banheiro. Sebastian continuava lá dentro. Ela pegou suas botas – que estavam há alguns centímetros de distância uma da outra — e calçou-as. Em seguida, desceu as escadas e apanhou a jaqueta de couro, que estava jogada há poucos metros da porta. Ela queria realmente beber água e comer alguma coisa, mas não podia se demorar ali. Conferiu os bolsos da jaqueta e viu que ainda tinha algum dinheiro, mas teria que escolher entre chamar um táxi ou achar algum lugar onde pudesse fazer um lanche. Então ela saiu pela porta silenciosamente e começou a andar o mais rápido que podia para longe dali.
[...]
Sebastian não demorou muito no banho. Ele voltou ao quarto enrolado na toalha e escolheu uma cueca qualquer, vestindo a calça de moletom em seguida. O andar de cima estava silencioso, mas ele não se importou, supondo que Santana estivesse na cozinha naquele momento. O garoto saiu do quarto com a toalha em mãos e começou a esfregar o tecido nos cabelos, a fim de secá-los um pouco. Sebastian desceu as escadas e seguiu para a cozinha, passando pela sala, mas logo descobriu que Santana não estava lá.
Ele nem se deu ao trabalho de checar os cômodos à procura dela ou sair na rua a sua procura. Se Santana tinha escolhido ir embora, ele não podia fazer nada. Uma hora ou outra, ela teria que ir; talvez fosse até melhor que eles não tivessem se despedido. Do jeito que eram, acabariam brigando e trocando insultos novamente. Ou teriam feito mais sexo e aquilo nunca teria um fim.
Sebastian poderia enveredar por uma discussão mental e reflexão sobre tudo o que tinha acontecido nas últimas 24 horas, mas preferiu abrir a geladeira e procurar algo para comer.
Seus conflitos internos teriam que esperar. Afinal, Santana não era a única com fome e sede.
[...]
Santana andou por alguns minutos e entendeu porque, na opinião de Kurt, Sebastian parecia morar no Lima Bean: o Café estava logo ali, há poucas quadras de distância da casa do garoto.
Ela entrou e foi direto ao caixa fazer o seu pedido. Santana demorou-se ali apenas por tempo suficiente para comer um croissant e tomar um cappuccino. Logo que terminou seu rápido lanche, levantou-se da mesa onde estivera sentada sozinha e caminhou para fora do estabelecimento, pegando um táxi parado ali perto. Ela disse seu endereço e o motorista começou a dirigir. Quando chegou, teve que entrar em casa para pegar dinheiro e voltar até o taxista para pagá-lo.
Em seguida, entrou em casa e subiu direto para o seu quarto, agradecendo a Deus porque seus pais estavam trabalhando.
[...]
A latina tomou um longo banho e tirou um cochilo. Ela poderia sentir-se de férias, não fosse a pressão do mundo querendo desabar sobre sua cabeça. Ela olhou o celular enquanto escovava os dentes e descobriu que Quinn e sua mãe estavam quase empatadas no número de chamadas perdidas de cada uma. Havia até mesmo uma ligação de seu pai, o que realmente a preocupou. Se Jorge chegara a ligar para ela, as coisas deveriam estar bem feias para o seu lado. Rapidamente, ela digitou:
“Desculpe não atender o celular. Fiquei sem bateria, mas não se preocupe, estou bem. Passei a noite na casa da Quinn e estarei em casa quando chegarem.
Beijos,
Santana.”
Ela encaminhou a mesma mensagem para Jorge e Maribel e pensou no que deveria enviar para Quinn. Esconder os fatos dela seria difícil e provavelmente não valeria a pena. Assim como Brittany, Quinn era muito boa em ler suas emoções e com certeza descobriria se Santana mentisse para ela. Ela suspirou e recomeçou a digitar:
“Venha para a minha casa depois da aula, vadia.
– S.”
Santana esperou um pouco, mas Quinn não respondeu. Aquilo era um péssimo sinal. Quinn deveria estar furiosa com ela. Mas o que poderia fazer? Só lhe restava esperar até o final da tarde.
Na verdade, havia uma coisa que ela precisava fazer. Ela enfiou algumas notas de dinheiro no bolso de sua calça jeans e saiu de casa.
[...]
– ISSO TUDO ACONTECEU DE ONTEM PRA HOJE? – Quinn estava atônita. Não conseguia acreditar em tamanha reviravolta nos acontecimentos da vida de Santana.
– Sim. Não me pergunte como. Eu mesma ainda não consegui assimilar tudo isso...
– Como poderia, se você também passou uma boa parte do dia fazendo coisas com ele? – Quinn provocou.
– Você é tão fofa, Q... “Fazer coisas”... Eu diria que a palavra correta é “foder”. Foi só isso, uma foda. Ou algumas... Enfim.
Quinn revirou os olhos, mas não comentou nada. Ela não concordava com Santana, porque sabia que, se os dois já tinham chegado àquele ponto depois de alguns meses, muita coisa ainda iria acontecer. Mesmo que houvesse toda essa coisa de ódio e desgosto mútuo e mesmo que Sebastian não fosse de confiança, há muito tempo Quinn não via aquela chama acesa nos olhos de Santana. E ela gostava de ver a amiga assim... Viva. Sendo jovem e fazendo besteiras. Além disso, é de conhecimento universal que a linha entre o amor e o ódio é muito tênue. Quinn sorriu internamente e continuou:
– E então... O que acontece agora?
– O que acontece agora? Bom... Podemos fazer pipoca e assistir um filme ou alguma série. Eu até deixo você escolher. – Santana disse indiferente. A loira revirou os olhos.
– Você sabe o que eu quis dizer.
– E você sabe que eu não sei a resposta pra essa pergunta. – A latina estava séria.
– Ok. Vamos assistir Lost Girl! – Quinn anunciou.
– Tudo bem, Kenz. – Santana disse, levantando-se da própria cama para ir até a cozinha fazer a pipoca. Ela costumava dizer que Quinn era sua Kenzi e Brittany, sua Lauren. Mas agora...
– Agora você tem um Dyson, S! – Quinn comentou alegremente enquanto seguia a latina pela casa.
Santana a fuzilou com os olhos.
[...]
Enquanto Santana tentava não pensar, Sebastian não parava de pensar.
Ele pensava em tudo o que acontecera e em tudo o que poderia acontecer a partir de agora. Não tinha ideia do que fazer. E, para ele, essa era a sensação mais frustrante do mundo. Cruelmente, era exatamente esse o poder de Santana sobre o garoto: ela o deixava sem saber como agir, sem saber como pensar... Sebastian não sabia nem mesmo o que esperar dos próximos dias. Ou o que esperar de si mesmo.
Para um gay convicto e que tinha verdadeira adoração por garotos, Sebastian gostara até demais de fazer sexo com Santana. Até agora, sua única experiência com garotas foram alguns beijos sem graça, e ele nunca sequer tinha pensado em transar com uma menina, porque descobrira muito cedo que preferia os meninos. Fora sua primeira vez com uma garota e era uma sensação diferente – um diferente bom. Não que Santana tivesse alguma importância, mas ele tinha que admitir que ela era um furacão na cama e que aquela fora uma das melhores noites de sua vida.
Em termos de prazer, é claro.
Ele tinha motivos de sobra para odiá-la: ela era arrogante, impetuosa, desagradável e petulante. Mas ele odiava ainda mais o fato de não ter o número dela. “Merda, Sebastian! O que diabos você está pensando? Em correr atrás dela? NUNCA! Concentre-se nas Regionais, seu idiota!”
Sebastian ajustou os fones de ouvido e começou a escutar uma música que possivelmente cantaria na competição. Involuntariamente, ele sorriu.
Regionais – a ocasião em que veria Santana outra vez.
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