Lobos de Veneza
28 V de veneno
Notas iniciais
Sua mente parou de processar aquela conversa e, como se fosse um CD arranhado, apenas ecoou as últimas palavras que ouviu sair dos lábios de Jaime. Uma. Duas. Três vezes a frase se repetiu. “Eu não posso mais mentir para ela” Ele disse. “Temos que contar a verdade sobre a criança”
A verdade.
Sobre a criança.
Sobre sua criança.
O ar lhe faltou de repente. E, talvez pela primeira vez na vida, ela não sabia o que deveria fazer. Deveria entrar na sala e gritar com os homens que guardavam aquele segredo tão tenebroso? Deveria exigir explicações? Ou deveria ignorar aquilo tudo, fingir-se de desentendida? Passos aproximando-se da porta em que estava encostada, interromperam seus pensamentos. Não tinha muito tempo para tomar uma decisão. Nem queria tê-lo, na verdade. Ter mais tempo, naquele caso em especial, significaria ficar ainda mais no escuro. E Cersei só apreciava o escuro na hora do sexo — ainda assim, nem sempre.
Deu dois passos para trás, afim de afastar-se da superfície de madeira, mas permaneceu em frente a sala. Estava decidida. O semblante de Jaime, assim que a viu, mudou de raivoso para assustado. Ele sabia que ela havia escutado tudo, porque aquele gêmeo, conhecendo-a como conhecia, sabia de cada um de seus hábitos. Principalmente os maus.
— Acho que precisamos conversar, você não acha? — Quebrou o curto silêncio que se instalou no corredor. O outro abriu a boca para responder, mas ela o interrompeu. — Não aqui. Não vou falar sobre isso aqui. Vamos. — Seguiu andando sem olhar para trás, não precisava certificar-se de que Jaime estava em seu encalço. Afinal, era Jaime. Jaime, que ela conhecia como a palma da mão. Jaime, o homem que mais amava na vida. Jaime, por quem colocaria a mão no fogo.
Jaime, que a traiu.
O som dos seus altos batendo no chão era o único ouvido. Enquanto passava pelos corredores, alguns alunos sorriam e lhe cumprimentavam. Não devolveu nem um deles. Nem um sorriso ou cumprimento. Não estava com disposição o suficiente para forçar um bom humor que nunca teve. Abriu a porta de sua sala e esperou que seu irmão entrasse, só depois fez o mesmo. Girou a chave na maçaneta e guardou-a no bolso da calça, Jaime não iria fugir de jeito algum.
Ele a encarou.
Ela o encarou de volta.
Precisava manter-se calma para saber tudo o que precisava — e queria — saber. Seu olho ardia e sua cabeça doía. As pernas estavam bambas também. No entanto, ela não daria a ninguém, a absolutamente ninguém, o gosto de vê-la chorando. Seu orgulho vinha em primeiro lugar. E, mesmo que fosse um princípio egocêntrico, era ele que a mantinha de pé naquele momento.
— Sobre o que você e Eddard Stark estavam conversando? — Perguntou. A voz transmitindo um controle que seu interior não possuía. Queria bater em algo. Ou melhor, em alguém.
— O que exatamente você ouviu, Cersei? — O tom da voz de Jaime denunciou o quão preocupado ele estava. Se deu conta então de que aquilo era muito pior do que imaginara. Respirou fundo. Não podia perder a linha de raciocínio. Mantenha-se fria. Repetiu o mantra algumas vezes antes de voltar a falar.
— Eu ouvi tudo, Jaime. Absolutamente tudo. — Mentiu, apesar do descoberto ter sido o suficiente, não tinha ouvido muito coisa. — Estou aqui fingindo que não sei de nada e dando a chance para que você me conte. É meu último voto confiança em você, não me traia novamente. — Apelou. Sabia que aquelas palavras o fariam se agarrar ao último fio de esperança para ser perdoado.
— Eu não tive culpa. Tudo que fiz, foi por você. Foi por amor.
— Amor? — Não conseguiu evitar o tom debochado ao pronunciar tal palavra. — Foi por amor que você me disse que meu filho estava morto?
— Sim. — Murmurou de cabeça abaixada.
Sem aguentar um minuto mais daquela atuação de arrependimento, Cersei atravessou a sala — estava encostada na porta até então — e, puxando o cabelo loiro do homem, o obrigou a encará-la. Lágrimas escorriam de seus olhos. Lágrimas de crocodilo. Aquele pedido de desculpas, que os olhos marejados lhe imploravam, não seria aceito. Ele era um traidor. Assim como Ned Stark. Um sorriso de escárnio repuxou seus lábios para cima. Era irônico. O nobre e justo Eddard, logo ele.
— O Stark sabia de tudo?
— Ele descobriu, acho que ele desconfiava disso a muito tempo e.. Descobriu.
— Então ele sabia. Ele sabia que você arrumou um jeito de sumir com o primeiro filho do Robert, mas não teve a decência de contá-lo. Que belo melhor amigo… Talvez meu marido tenha nascido para ser traído.
— Robert também sabia de tudo Cersei. — A afirmação, dita com uma segurança ímpar, a fez recuar de imediato. As pernas perderam as forças de vez. Se não fosse a poltrona acolchoada logo atrás de si, teria caído no chão. Sim, era muito pior do que imaginara.
Muito pior.
Robert.
Robert, ele sabia de tudo.
— Quando você descobriu que estava grávida, Robert ficou louco.Ele estava envolvido com a Lyanna e tinha medo que seu filho atrapalhasse a relação dos dois. — Jaime prosseguiu. — Eu fui procurá-lo para tirar satisfações, saber se ele não iria assumir a criança, nós discutimos e Lyanna chegou bem na hora. Ela então disse que sim, que Robert assumiria seu filho. Depois ele me procurou, sozinho, e o que ele me falou, Cersei… Eu tive medo. Eu fui fraco. Mas, mas…
— O que ele disse, Jaime? O que aquele infeliz te mandou fazer? — Cersei já sabia a resposta, mas queria ouvi-la.
— Ele disse que eu tinha de dar um jeito de sumir com o bebê, ou ele mataria vocês dois. Ele disse que nada o impediria de ficar com Lyanna. Nada. Nem ninguém. Muito menos uma qualquer como você e um bastardinho.
— Uma qualquer? Naquela época, eu era ingênua e achava que o amor de verdade existia, mas aquele homem, depois de me usar como consolo, voltou correndo assim que Lyanna lhe estalou os dedos. E eu sou a qualquer? — A enxurrada de palavras saiu sem que pudesse controlar. — Aquele homem disse que mataria o próprio filho. O próprio filho. E eu sou uma qualquer?
— Cersei eu…
— Cale a boca! — Gritou, levantando-se. Forças lhe foram dadas do nada. Ou talvez não fosse força exatamente o que a movia naquele momento. Talvez não fosse. E não era. O que a controlava era a raiva. O ódio. Precisava vingar-se. — Eu não quero ouvir mais uma palavra sequer dessa sua boca imunda. Eu não quero mais ver você na minha frente, saia da minha casa hoje mesmo Jaime Lannister.
— Eu só queria falar que ele está aqui.
— Está aqui?
— Seu filho, está aqui.
— Na Itália?
— Mais exatamente nesta escola.
Desta vez, não conseguiu conter-se. Sentiu as lágrimas quentes lhe escorrerem pelo rosto. Seu filho… A criança que ela mais desejou e que achou que houvesse morrido. A criança por quem sofreu e por quem, silenciosamente, ainda sofria. Seu filho estava vivo. E estava ali, ao seu lado. Precisava vê-lo, precisava encontrá-lo.
— Quem é ele? Quem é o meu filho, Jaime?
— Seu filho é o Gendry, do segundo ano. Gendry Waters.
Não esperou por mais nada, apenas obedeceu seus instintos e correu em direção ao prédio das aulas. Jaime tentou alertá-la de algo, mas nem sequer ouviu o que falou, não estava minimamente interessante. Largou sua sala, após atrapalhar-lhe com a chave e a fechadura, correndo a passadas largas. Nunca tivera equilíbrio o suficiente para correr usando saltos, porém, naquele momento, isso não parecia ater qualquer influência sobre seu andar.
Escancarou a porta da turma 2-2. Estava ofegante e uma fina camada de suor lhe descia pelo rosto. Pares de olhos curiosos voltaram-se para encará-la. Mas, somente quando o professor que dava aula no momento, lhe perguntou — em falso tom de gentileza — o motivo de estar ali, foi que se deu conta. O que raios estava fazendo? Iria correr e abraçar o garoto na frente de todo mundo? Choraria, chamando-o de filho e dizendo que estava com saudade? Não poderia fazê-lo.
Cersei não agia daquela forma, espontânea. Não, ela planejava. Dava cada passo com cautela. E, para aquele assunto em especial, por mais que quisesse ter seu filho o quanto antes junto de si, deveria ser cuidadosa. Não que não fosse contar a verdade a Gendry, porque iria, ansiava por isso, no entanto, necessitava antes conhecê-lo a fundo.
Será que ele herdara algo de si?
— Estou procurando Gendry Waters, ele é desta turma? — Mascarou-se com seu costumeiro falso profissionalismo. Pelo canto do olho pôde ver o garoto levantar-se. Ele tinha os cabelos e carregava todos os traços de um Baratheon, mas também havia aquele brilho em seu olhar, um brilho peculiar que apenas a família Lannister possuía.
— Sou eu. — Ele respondeu de uma maneira altiva, era como se estivesse desafiando-a a lhe falar o que queria. Cersei sorriu internamente. Aquela criança carregava dentro dela o pior de seus lados, o orgulhoso.
— Preciso que me acompanhe.
— Estou em aula agora.
— Garanto que seu professor irá entender perfeitamente o motivo de sua saída. — Encarou o homem. — Não é?
***************
Gesticulou para que o garoto sentasse na poltrona a sua frente, como se aquela fosse mesmo mais uma de suas consultas de apoio psicológico, e enquanto, muito tímida e lentamente, ele obedecia ao seu pedido, ela aproveitou para observá-lo um pouco mais. Sabia que ele tinha 17 anos, pois jamais esqueceria a idade do próprio filho, ele era um ano mais velho que Joffrey. Tatuagens cobriam os dois braços do menino, elas tinham formas e tamanho diferentes, não conseguia entender seus significados. Se é que possuíam algum.
— Você vai me falar logo o que quer, ou vai ficar me encarando o dia todo? — Gendry foi direto e, sem dá-la a chance de responder, prosseguiu. — Se bem que, eu sei exatamente o motivo. Meus tios te mandaram aqui, não foi? Eles ficaram preocupados que eu fizesse alguma coisa depois que descobri o segredinho deles.
— Você quer conversar sobre isso? — Indagou, tentando manter ao máximo seu tom profissional. A verdade é que estava curiosa, pela primeira vez na vida, estava realmente atenta às palavras de um aluno. Mas este não é qualquer aluno, não é mesmo? Seu subconsciente sussurrou e ela concordou de imediato.
— Não quero conversar sobre nada. — Ele suspirou e afundou-se na poltrona. E então, como todos eles sempre faziam, começou a falar. Sorriu. No fim das contas, Gendry era apenas um adolescente confuso. A diferença é que, agora, ela interessava-se por toda aquela confusão. — Eles me esconderam uma coisa séria, sabia? Todos. Até minha irmã. Quer dizer, nem minha irmã ela é. Eu não sei de mais nada…
— Ser adotado não é o fim do mundo.
— Ser adotado não é o problema. O problema é que eu cresci achando que meus pais tinham morrido e que éramos só eu e minha irmã contra o mundo. Mas eu nem tenho uma irmã! — Sim, você tem uma irmã. E dois irmãos. — Eu não tenho nada…
O semblante perdido de Gendry fez algo perigoso inflamar dentro dela. Sentia que poderia explodir a qualquer minuto.
Maldito Robert.
— Você não pensa em conhecer sua verdadeira mãe?
— Pra quê? Ela me jogou fora, não jogou?
Maldito, maldito Robert.
— Talvez, Gendry, a história seja diferente do que imagina. Talvez sua mãe também sinta falta de você…
— Então por que ela nunca me procurou? — Porque eu não sabia que estava vivo!
— Ela vai te responder essa pergunta da próxima vez que se encontrarem, eu garanto.
***********
Robert indagou, pela terceira vez seguida, o motivo de Jaime ter ido embora. E, pela terceira vez seguida, ela o ignorou. Estavam, ela, seu marido e seus três filhos, sentados a mesa do jantar. Havia um lugar vazio, mas ela não pensava no seu irmão gêmeo para preenchê-lo, pensava em seu filho. Gendry, o garoto cheio de dúvidas e magoas com quem ela conversara em sua sala. Deixá-lo lá, sem saber de nada, foi uma das coisas mais difíceis que fez. No entanto, não poderia revelar-se assim para ele, não tão repentinamente.
Era incrível o quanto seus sentimentos mudaram em relação aquele menino. Antes, quando ele passava por ela no corredor, quase não chegava a notá-lo. Talvez, se ele não fosse tão propenso a encrencas quanto Arya Stark, nem soubesse quem ele era ao escutar seu nome. Incrível também o quão fácil foi acostumar-se com a notícia de que aquele era seu filho. Era engraçado. E trágico ao mesmo tempo.
Estava feliz.
E também estava triste.
Mas, ainda mais que isso, estava com raiva.
Maldito Robert.
— … Por isso eu pretendo deixar o Ned no comando e tirar umas férias. — A menção ao nome do patriarca Stark lhe fez prestar atenção a conversa. Cersei não podia esquecer que, mesmo que há pouco tempo, ele havia descoberto a verdade. Eddard Stark também era culpado. — O que acha, querida?
— Você quer tirar férias e deixar Eddard no comando da escola? — Perguntou para ter certeza do que tinha ouvido. Se aquilo fosse mesmo verdade e se existisse mesmo uma força superior no mundo, ela estava, definitivamente, ao seu lado.
— Sim, querida, eu preciso recuperar minhas forças por completo e Ned precisa se distrair, nada melhor que trabalho pesado! — O Baratheon riu. Não foi acompanhado. O cérebro de Cersei estava ocupado demais, encaixando as peças restantes para que seu plano funcionasse. — Darei plenos poderes ao Ned sobre a escola, enquanto eu estiver afastado.
— Acho ótimo, querido. Uma ótima ideia. — Sorriu largamente. Aos que viam, interpretavam aquele sorriso como sendo um apoio ao seu estimado marido, mas apenas ela sabia a verdade. Sorria apenas para si mesma. — Recomendo que faça isso por escrito, através de um contrato, que tal? Não que Ned não seja de confiança, mas é sempre bom assegurar-se, não acha?
— Claro, concordo com você.
Dito isso, voltaram a comer em silêncio.
O repuxar nos lábios de Cersei ainda estava lá, porém mais discreto do que antes. Em sua cabeça, no entanto, o som de gargalhadas era estridente. Mal sabia ele, seu tolo e des-amado marido, que estava se jogando, com as próprias pernas, para morte.
Robert havia a enganado. Mas ela o faria entender, da pior maneira possível, o significado da palavra vingança.
Era como dizia a Lei de Tabelião: Olho por olho, dente por dente.
E traição por veneno.
Fale com o autor