Lobos de Veneza

30 Só as mães sãos felizes


Notas iniciais
Pov. Cersei

Observou o homem deitado ao seu lado com um sorriso no rosto. Se qualquer pessoa entrasse no quarto do casal, e a visse daquela maneira, pensaria que era uma mulher apaixonada a vigiar o sono do marido. Mas Cersei estava longe disso. Sorria sim e, no entanto, seu sorriso provinha de uma motivação tão obscura que chegava assustar até a si.

Levantou e, após dar mais uma olhada em Robert, saiu do quarto enrolada em um roupão felpudo. Estava frio naquele dia e, como se tivessem vontade própria, suas pernas caminharam até o antigo quarto de Jaime. Eles costumavam partilhar o cobertor em dias como aquele.

Passos arrastados atrás de si lhe chamaram a atenção, fazendo-a virar e se deparar com Myrcella. Demorou-se um segundo contemplando a beleza da filha, perguntando-se como esta conseguia ser tão bonita mesmo ao acabar de acordar. Por fim, se aproximou e fez um afago nos cabelos da garota, não gostava da maneira como ela estava ultimamente. Sempre abatida e cabisbaixa.

— Eu não gosto de te ver assim. – Confessou. A voz saindo abafada.

— Me desculpe, mãe. Eu só… Estou preocupada. – Esperou que ela continuasse. – Essa doença do papai que não passa, já faz quase duas semanas. Isso não é só uma indisposição, não é?

Não, não era. Cersei tinha plena consciência do que estava acontecendo ao seu marido. Robert estava morrendo. Lentamente. Sofrendo como ela sofreu durante anos. E era isso que a fazia acordar com um sorriso todas as manhãs, mesmo que sua vida estivesse de ponta cabeça. No entanto, ao abrir a boca para responder a filha, falou apenas:

— Não se preocupe, meu bem. Seu pai sempre trabalhou demais e agora está sentido as consequências disso. – Myrcella assentiu com um sorriso fraco. – Mas não é só isso que está preocupando você, é?

— Como esconder alguma coisa de uma psicóloga? – Deu uma risadinha. – O Robb também me preocupa. Agora que o pai dele assumiu a diretoria lá da escola, ele ficou responsável pela empresa da família e pela família inteira. Eu queria ajudar, mas ele não deixa…

Ah, Sim. O garoto Stark. Ele também era um problema, bem como toda sua família.

— Talvez ele só precise de um tempo, querida. – Mentiu. Precisava manter a filha afastada daquela gente. – Não fique precionando o Robb, deixe-o resolver a situação por si só. Quando ele estiver pronto, virá procurá-la.

— Será? – Com certeza não. Cersei conhecia Robb Stark. Ele não fazia essas coisas.

— Sim, meu bem. Você verá. – Ensaiou um sorriso. – Agora venha, vamos tomar café da manhã que teremos um longo dia pela frente.

*************************

Abriu a porta de sua sala e, ao se deparar com a figura ruiva sentada sobre sua mesa, um grito ficou preso em sua garganta. Aquela garota era tão petulante. Fez de conta que não havia acontecido nada e continuou normalmente. Colocou a bolsa na poltrona branca — que ficava no canto ao lado da porta — e retirou de lá seu celular. Checou rapidamente suas redes sociais e respondeu alguns e-mails. Só quando fez mensão de sair da sala novamente — iria tomar um café — a garota resolveu falar.

— Eu quero saber o que você fez com o meu irmão. – Ela foi curta e grossa.

— O que te faz pensar que eu fiz algo para ele?

— Você é a mãe dele, é claro que sabe onde ele está.

— Sim, eu sou a mãe dele, mas eu não soube onde ele estava durante 17 anos.

— E agora você quer que eu sinta o que você sentiu? Por favor, Cersei. Eu não tive culpa.

— Eu também não.

— Você não pode separar o Gendry da família dele.

— Entenda, Ygritte: Eu sou a família do Gendry agora.

— Eu vou descobrir onde ele está, você não pode fazer isso comigo. Você é…

— Cruel? – Arqueou as sobrancelhas. – Eu sou capaz de qualquer coisa para defender minha família.

— Pois saiba que eu também.

— Ótimo, enfim temos algo em comum. Mas, por favor, defenda sua família longe da minha sala.

Sem falar mais nenhuma palavra, Ygritte se foi. Não sem antes dar-lhe um esbarro proposital com o ombro. Como que para desafiar a garota que acabara de a confrontar, Cersei pegou seu celular novamente e discou o número de Gendry.

O telefone chamou três vezes antes da pessoa do outro lado da linha atender. A voz sonolenta que falou consigo, confirmou o que já desconfiava: ele estava matando aula mais uma vez. Não pôde deixar de rir, aquele menino era impossível.

— O Diretor me ligou novamente, Gendry.

— Qual é, Cersei, você vai pegar no meu pé também?

— Não, mas você poderia ir pelo menos para uma aula, não acha? – Prosseguiu a conversa no mesmo tom. Como se o fato de Gendry nunca ter usado a palavra mãe não a afetasse em nada. Precisava dar tempo a ele. Tinha esperanças que um dia ele lhe reconheceria. Por hora, já se sentia feliz por ele ter aceitado sua oferta para sair da cidade por um tempo. Precisava resolver tudo com Robert antes de assumir o filho para todos.

Fora uma conversa difícil. Estava na casa da família adotiva de Gendry. Com uma furiosa Ygritte a encará-la. Esperavam o menino voltar, sabe-se lá de onde. Quando enfim ele chegou, pareceu não notá-la ali. Mas, após um pigarro nada discreto, Cersei conseguiu a atenção que queria para si.

Em nenhum momento ele chorou. Apenas fez perguntas estratégicas, para entender a história que lhe era contada. E Cersei contou-lhe tudo. Principalmente a parte em que fora o próprio pai do garoto o culpado pelo afastamento de mãe e filho. Ele também não esboçou grande reação com isso. Gendry era um garoto forte. E difícil. Muito difícil.

— Vou pensar nisso. Mas então, como está tudo por aí?

Fez um impulso com os pés para girar a cadeira antes de respondê-lo. Sempre que falava com o filho, ele fazia essa pergunta. Soava despreocupado, como quem não quer nada, mas Cersei sabia que ele tinha um alvo para estas palavras: Arya Stark.

Sinceramente, que tipo de feitiço os Starks lançaram sobre seus filhos?

— Tudo como sempre, meu filho.

— Ela não tem perguntado por mim?

— Ela quem?

— Você sabe, Cersei. – Sabia

— Não sei.

— Arya…

— Por que você não liga pra ela e pergunta? – Não queria que o filho fizesse isso.

— Você já deu o meu número novo a ela e se ela não me ligou… Eu não vou ficar atrás de uma garota que não se preocupa comigo.

Um sentimento de quase culpa passou por seu coração, mas tratou logo de afastá-lo. Gendry havia mudado de número para que sua família adotiva, pela qual ele sentia raiva, não pudesse contatá-lo. Porém, para surpresa de Cersei, pedira que ela entregasse suas novas informações de contato para garota Stark mais nova.

— Gendry, eu tenho que desligar agora. Tenho que atender um aluno.

— Tudo bem, Cersei. Até amanhã, então?

— Ate amanhã.

Como se fosse uma cena ensaiada, no exato momento em que desligou o telefone, a porta de sua sala foi aberta. Era Tommen, que correu até ela e puxou sua mão, forçando-a a se levantar da cadeira. Soltou-se do aperto do filho mais novo e lançou-lhe um olhar interrogativo. O que ele estava fazendo ali?

— Myrcella e Joffrey estão brigando. – O que havia demais? Aqueles dois sempre brigavam. – Estão brigando no refeitório. Myrcella está batendo em Joffrey.

— O quê? – Myrcella estava batendo em Joffrey? Correu em direção ao refeitório, sem se importar em deixar Tommen sozinho em sua sala.

Enquanto atravessava a escola a passos largos, muitas situações passavam por sua cabeça. O que faria Myrcella bater no irmão mais velho? Era certo que eles não eram os melhores amigos do mundo, mas tampouco brigavam a ponto de partir para atitudes violentas. Principalmente a filha. Será que Joffrey fez alguma coisa para Robb?

— Parem os dois! – Gritou assim que chegou ao refeitório. Myrcella se debatia furiosamente nos braços de Robb, que tentava contê-la, enquanto Joffrey estava sentado no chão, segurando um dos lados do próprio rosto. Ao escutarem sua voz, ambos se assustaram. – O que é isso?

— Pergunta a tua filhinha. – Joffrey foi o primeiro a se pronunciar – Eu tava aqui almoçando numa boa e ela chegou me falando um monte.

— Você é tão sínico, como pode?

— Myrcella!

— Mãe!

— Quero que os dois me acompanhem até minha sala. Onde está o Diretor dessa escola que não veio parar esta confusão?

— Foi levar minha irmã no Hospital. – Robb quem respondeu.

— O que houve com a Arya? – Preocupou-se. Pensando se contaria ou não para Gendry.

— Não foi com Arya, foi a Sansa.

— Sansa? O que aconteceu com a Sansa? – Joffrey levantou num pulo e pôs-se a frente de Robb e uma raivosa Myrcella

**********************

Estava sentada ao lado de Joffrey. De frente para Ned Stark e seu bastardo. O Médico havia lhes cedido seu escritório, assim as famílias poderiam conversar sem tumultuar os corredores do Hospital. Arya também estava lá e, assim como os outros dois de sua família, encarava Joffrey como se quisesse matá-lo. Cersei sabia que o filho não havia feito boa coisa, mas o defenderia com unhas e dentes.

— Espero que possamos resolver isso de maneira civilizada. – Iniciou a conversação em tom neutro, apesar de seu sangue estar fervilhando. Ned Stark havia levantado a mão para seu filho, como pôde?

— O que esse garoto fez não foi nada civilizado. – O patriarca Stark levantou a voz. Cersei soltou uma risada irônica. Malditos hipócritas.

— Claro, é um grande crime fazer sexo.

— Fazer sexo não é crime nenhum, Cersei. Mas não assumir a responsabilidade pelos próprios atos é.

— Quem é você para falar assim de mim, Jon? Você não passa de um…

— Se você continuar essa frase, eu juro que quebro a tua cara, Joffrey. Nem que você nascesse de novo seria como meu irmão.

— Um bastardinho? – Cersei observou os músculos de Jon se contraírem e decidiu intervir antes que fosse tarde demais.

— Joffrey, por favor.

— Mas mãe…

— Eddard. – Decidiu ignorar os protestos do filho. – Eu sei que o Joffrey errou e lhe garanto que ele irá assumir toda a responsabilidade. Se você preferir, Sansa pode mudar para nossa casa, assim você não precisará se preocupar ainda mais. Eu cuidarei dela até que a criança nasça e, se após essa criança nascer, ela e meu filho ainda estiverem namorando, os dois se casarão.

— Casar? – A garota Stark riu em deboche. – Em que época da história você vive? O nosso pai nunca permitiria que Sansa casasse, ela não é nem maior de idade!

— Eu concordo. Com tudo. – Eddard disse já se levantando da poltrona. – Jon, assim que Sansa acordar, diga a ela que eu mandarei suas malas e daqui ela pode ir direto para casa de Cersei.

— Você não tá falando sério… – O outro também se levantou. Cersei acomodou-se mais na poltrona, iria assistir uma briga entre os Starks de camarote. Que excitante! — A Sansa é sua filha, é da nossa família. Nós temos que cuidar dela e não abandoná-la na casa do garoto que quase a matou.

— Pai, foi ele quem entregou para Sansa os remédios para indução de aborto. Você não pode… – Arya interveio.

— Se vocês querem tanto cuidar dela, então se mudem com ela. Na minha casa ela não fica.

— Você é tão hipócrita.

— O que disse, Jon? – Eddard, que até então estava de costas, virou-se para encarar os filhos. Algo dentro dela flamejou, vingar-se de Ned Stark seria mais fácil do que pensara.

— Eu disse isso que você ouviu. Expulsando a Sansa de casa como se ela tivesse cometido um crime, quando você traiu a sua mulher e levou o fruto dessa traição para dentro da casa dela.

Uau. Jon Stark era de fato corajoso. E, a julgar pela expressão do mais velho, ele atingira num ponto sensível.

— Jon, Arya. – Chamou-os. Precisava falar algo antes que aquele dois delinquentes convencessem o pai a deixar Sansa ficar em casa. Isso estragaria seus planos. – Eu vou cuidar da Sansa como se fosse minha própria filha.

— Eu não confio em você.

— Arya, Myrcella estará lá também. Você não confia nela?

Bingo! Se havia algo que Arya e Jon Stark possuíam era a crença em relação aos amigos.

— Tudo bem. – A garota concordou após uma troca de olhares com o irmão. – Mas nós iremos visitá-la todos os dias.

Alargou o falso sorriso que carregava no rosto e repassou mentalmente seu plano. Era perfeito. Sem atrapalhar a vida de seu filho, ela se livraria da criança indesejada e daria a Srtark malcriada o tratamento que merecia.

Quase não conseguiu reprimir a gargalhada ao apertar mão de Eddard Stark. Aquele idiota estava tornando tudo tão fácil.

Notas finais
Sim, era pra ser o capítulo da Dany. Mas eu estou viajando e o capítulo da Dany está salvo no meu computador, não no drive. Como consequência adiantei o capítulo da Cersei. Fiquem tranquilos, a ordem não muda nada. Até o próximo capítulo. PS:. Ainda não revisei isso, então... sorry.