Lobos de Veneza
33 Solidão
Notas iniciais
Fechou a porta para abafar os gritos vindos do lado de fora do cômodo, estava exausta. Há dias sentia-se de tal maneira. Sentia-se culpada também. Por muitas coisas. Mas, atualmente, o que mais lhe assombrava era o sumiço de Gendry. Ninguém sabia do paradeiro dele, o garoto sumira do dia para noite.
Sumira bem depois de ela ter dito que não presava mais dele.
Arya não era boba, sabia que não havia sido este o motivo exato da partida de Gendry, ele não era tão sensível a ponto de largar a própria vida por causa de suas palavras. Mas também sabia que, se não tivesse falado o que falara, muito provavelmente ele teria lhe contado para onde pretendia ir. Não se conheciam há tanto tempo e, no entanto, eram próximos como amigos de infância, que passam a vida inteira juntos e guardam os segredos mais valiosos um do outro. Ou pelo menos era isso que ela achava.
— Eu achei que ele nunca fosse parar de gritar, sabe. – Jon entrou em seu quarto sem cerimônias, assim como ela fazia com ele. Sorriu, pois ainda conseguia ouvir os gritos do pai no andar de baixo da casa, o irmão mais velho simplesmente deixara Ned falando sozinho. De novo.
— Você é tão cínico. – Revirou os olhos e caminhou até um canto do quarto, onde ficava o móvel com seu Playstation 2 e sua TV, esta última possuía um arranhão na tela – proveniente de um de seus ataques de fúria. Atirou um dos joysticks para Jon e ele o pegou no ar, dizendo em seguida:
— Você é tão antiquada, insistindo em manter esse dinossauro do mundo dos videogames.
— Não fala isso do meu Playstation 2, ele é um clássico. – Mostrou-lhe a língua. — Mas então, o que vamos jogar? Eu deixo você decidir dessa vez.
— Já que minha adorável irmã gosta de clássicos, vamos de Mortal Kombat. – Jon declarou em tom de brincadeira, sentando-se no chão ao seu lado e bagunçando seus cabelos. Deixou um beijo em sua testa antes de voltar a falar. — Melhor de 3, quem perder vai lá falar com o Ned.
—Acho melhor nós deixarmos isso pro Robb, se algum de nós dois tentar interceder pela Sansa de novo...
— Eu sei, Arya. – O mais velho passou os braços ao redor de seu ombro, deixando o joystick de lado. Ela fez o mesmo, abraçando-o de volta. — Quando será que essa merda toda vai acabar, hein? Quer dizer, esse era pra ser um ano como qualquer outro. Eu não queria que nada mudasse, queria que nossa família continuasse como sempre.
— E olha só para nós agora... – Lamentou-se — Espera só os jornalistas descobrirem sobre a Sansa, os Starks vão virar notícia mais uma vez.
— Ainda quero socar a cara do Joffrey. – Jon confessou.
— E a do nosso pai.
— E gritar com a Sansa até ela entender que a pior coisa que fez na vida foi ter se envolvido com o Joffrey.
— E depois socar a cara dela também!
— Nós não podemos bater na Sansa, Arya. – O irmão tentou soar sério, mas uma risada escapou ao fim da frase.
—Tecnicamente nós também não podemos bater no nosso pai, mas você não falou nada.
—Ele bem que merece apanhar, que homem mais teimoso.
—E hipócrita... – Suspirou e o silêncio pairou entre eles. Não um silêncio confortável como o de sempre, havia muita tensão ali. Porque havia muito a ser dito. Arya sabia que Jon tinha muitas coisas para perguntar, mas (como sempre) ele esperava que ela tomasse a iniciativa e lhe contasse. Era o que teria feito naquele momento, não fossem as batidas na porta. O espaço de tempo ritmado entre as quatro batidas dadas denunciou a pessoa que se encontrava do outro lado e ela e Jon, após olharem um para outro, falaram em sincronia:
— Pode entrar, Robb.
— Oi. – O outro irmão, diferente de Jon, entrou timidamente em seu quarto. Colocando primeiro a cabeça por uma brecha da porta recém-aberta. Ele parecia estranhamente abatido. —Eu falei com o pai.
— Tá explicado porque os gritos pararam. – Jon comentou de maneira ácida. Arya fez uma nota mental, precisava perguntar o motivo de ele estar tratando Robb dessa maneira.
— Acho que esse afastamento da Sansa vai fazer bem pra ela, então não fiquem bravos com o nosso pai. Ele é um pouco cabeça dura e não falou da melhor maneira, mas não quer dizer que essa seja uma decisão ruim. Ela não vai ficar lá pra sempre, quando o pai se der conta de que a gente precisa da nossa família aqui e unida, ele vai trazer ela de volta.
— O Joffrey quase matou a nossa irmã, Robb. Como ela ficar lá pode fazer algum bem?
— Jon, você não entende...
— Não, você que não entende. Qual é o seu problema? A Sansa precisa de nós e precisa agora, não daqui a umas semanas, ela não pode esperar até que o Ned se dê conta de alguma coisa!
— Vocês dois não podem brigar também. – Colocou-se de pé, ficando entre os dois irmãos que começavam a ficar perigosamente perto um do outro. — Somos os únicos que restam nessa casa, precisamos ficar unidos.
— A culpa não é minha, Arya. – Robb falou.
— É minha então? – Jon deu um passo à frente, obviamente nada do que ela falara surtira efeito naquele garoto. No fim das contas, Jon era tão cabeça dura quanto Ned.
Por um momento os dois garotos se encararam furiosamente, com Arya encarando-os alternadamente. A verdade é que, se estivesse em um de seus dias normais, já teria acabado com toda aquela cena, mas estava sem energia. Sentia que se tentasse separa-los acabaria esgotando-se ainda mais. Mas, para sua sorte, após resmungar algo inaudível, Robb virou as costas e saiu do quarto. Ao perceber que mais nenhuma briga aconteceria naquele dia, ela quase pôde sentir um peso sendo tirado de suas costas.
—Não vá atrás dele. – Disse para o irmão que restara consigo no cômodo. Ele ainda estava parado exatamente como antes, desta vez, no entanto, sua raiva era direcionada para o nada. — Por favor, nós não precisamos de mais confusão. – Reforçou o pedido.
— Eu sei. – Ele respondeu depois de um tempo. — Acho que eu vou dormir, o Mortal Kombat fica pra outro dia.
A ironia foi tamanha que Arya quase gargalhou. Definitivamente ela não estava preocupada com o jogo, não quando Jon, por muito pouco, não protagonizara uma luta. Uma luta de verdade. Ao vivo. E com o próprio irmão. Antes que ela pudesse externar seus pensamentos, Jon saiu pelo mesmo caminho que Robb, fechando a porta e deixando-a sozinha novamente. E então ela fez o que passou a fazer de melhor nas últimas semanas. Suspirou. Talvez seu enésimo suspiro naquele dia, não sabia dizer. Suspirar tornara-se um hábito depois que sua vida virara de cabeça para baixo.
Caminhou até a cama e jogou-se lá, o corpo cansado afundou no colchão ao mesmo tempo em que as pálpebras pesadas foram fechando-se. A sensação de alívio lhe tomou e ela desejou poder ficar assim para sempre. Longe dos barulhos das pessoas e, principalmente, longe dos barulhos de sua mente culpada.
Logo tudo se tornou escuro e Arya dormiu, desejando que aquela fosse uma noite sem sonhos. E, claro, sem barulho.
Barulho.
Essa foi a primeira coisa que identificou ao abrir os olhos. As cortinas da janela, que se esquecera de fechar na noite anterior, não puderam fazer seu trabalho e os raios do sol invadiam seu quarto. Piscou diversas vezes até se acostumar com a claridade recente. Estava tentada a ceder ao sono novamente, mas os barulhos no andar de baixo estavam ficando cada vez mais altos.
Levantou-se apressada, por algum motivo o coração batia aceleradamente contras as suas costelas, tinha um mau pressentimento. Nunca na vida aquela escada lhe parecera tão longa. Os gritos ficaram ainda mais altos, agora já podia reconhecer de quem eram. Acelerou ainda mais os passos, chegando à sala bem a tempo de ver seu pai segurando Jon pelo braço. Os olhos dele estavam vermelhos e uma lágrima solitária lhe escorreu pela face.
Os olhos de Arya buscaram Robb e este, por sua vez, estava congelado no sofá. A face dele, vidrada na televisão, induziu-a a fazer o mesmo. O choque foi inevitável. Muito lentamente os sons ao seu redor foram perdendo a força e tudo o que conseguia ver era a reportagem que passava ali. Mais uma vez eles, os Starks, eram o alvo da imprensa. Sentiu o rosto ficar úmido e deduziu que, assim como Jon, ela estava chorando.
Como eles haviam descoberto?
— Você sabia disso, Arya? – A voz de Robb chamou não só sua atenção, mas também a dos demais. Quando Ned e Jon também a encararam, notando pela primeira vez sua presença ali, engoliu em seco. Então chegou a hora de contar tudo?
— Ela só me acobertou, a Arya não tem nada a ver com isso. – Jon se pronunciou e o coração de Arya, que até então batia descontroladamente, pareceu parar. A reação de espanto escapou-lhe sem que pudesse controlar, por que ele estava mentindo?
A culpa fora toda dela. Ela quem pegara a moto quando ele já havia lhe avisado que não deveria fazê-lo. Ela quem acelerara, ela quem perdera o controle, ela quem atropelara a criança. Ela e somente ela. O único crime de Jon foi tentar protege-la. Desviou o olhar de volta para televisão, por que os jornais estavam anunciando que ele era o culpado?
Será que ele...
Não.
—Jon, você...
Por favor, não.
—Eu me entreguei, Arya. – Ele sorriu, um sorriso que não chegou aos seus olhos. — Agora você pode ficar tranquila.
— Não, eu não posso! – Gritou.
Por quê?
— Arya... – Jon foi até ela, abaixando-se um pouco até que suas faces ficassem da mesma altura. Os pensamentos em sua mente estavam mais confusos do que nunca, queria falar e explicar a verdade, queria ir até os jornalistas e dizer-lhes tudo, queria dizer para Ned que aquele filho que ele estava castigando não era culpado. Mas, acima de tudo, queria bater em Jon até que ele aprendesse a não tomar decisões tão importantes sozinho.
Queria fazer muita coisa.
Não fez nada.
Os orbes escuros que a encaravam suplicavam, de uma maneira profunda, que não falasse. Os gritos contidos naquele pedido silencioso eram perturbadores. Deveria falar a verdade. Mas sabia que, se o fizesse, o irmão nunca mais confiaria nela. Também sabia que, se não o fizesse, como estava destinado a acontecer, Jon teria problemas. E não era um dos problemas de sempre, eles não estavam falando de mais uma aula cabulada. Estavam falando de um crime.
Por quê?
Por que ele contou a verdade?
Já fazia tanto tempo. E eles haviam resolvido tudo. Estava tudo bem com a criança que ela atropelara. Ele não precisava. Ele não podia.
— Eu tinha que proteger vocês. – Ele sussurrou respondendo sua pergunta não proferida. — Me desculpa.
— Tá tudo bem. – Disse fungando ao final da frase. — Tá tudo bem mesmo. – Repetiu porque precisava convencer a si mesma. Estava tudo bem, não estava? — O nosso pai vai dar um jeito nisso. Ele não vai deixar nada acontecer com você.
—Dessa vez é diferente. – Robb quem respondeu. Arya estreitou os olhos para ele, tentando captar a mínima fagulha de acidez, mas não havia nada ali. Apenas a preocupação que Robb sempre mantinha para com Jon.
— Sim, é diferente. – O mais velho presente na sala se pronunciou, em seguida pegou o controle e desligou a televisão. — Vamos conversar no meu escritório, Jon.
— Eu vou junto! – Exclamou de modo automático, lançando-se na frente do irmão para deixar claro que não o deixaria sozinho. Principalmente quando a culpa de tudo era sua.
— Você fica, Arya. – O pai rebateu. De alguma maneira o tom empregado na frase, deixou claro que ele não mudaria de ideia e, caso tentasse fazê-lo, Arya só gastaria ainda mais sua energia praticamente inexistente.
Então ela apenas assistiu um cabisbaixo Jon seguir um furioso Eddard, seguiu-os – apenas com os olhos – até que sumissem no corredor que ficava atrás da escada principal. Seu coração se apertou, sentia que o irmão não estava indo apenas levar mais uma bronca, sentia que ele estava indo para longe. Para muito longe de si.
— Hey. – Os braços de Robb aconchegando-a num abraço trouxeram à tona a vontade de chorar mais uma vez.
— Não é culpa dele, Robb. – Confessou. — Eu não sei por que ele está fazendo tudo isso agora, mas a culpa é minha. Toda minha. Nós temos que ajudá-lo.
— Eu sei. – Ele falou calmamente. — Percebi a verdade pela troca de olhares entre vocês. – Era incrível como Robb era calmo em todas as situações, era como se a mente dele estivesse sempre à frente de todos, pensando em uma solução. Arya era grata por isso. — Fica aqui e eu vou conversar com eles, te garanto que eu vou convencer o pai a arrumar o melhor advogado pro Jon.
— Ele não vai ser preso, não é?
— Eu não vou deixar que isso aconteça. – O mais velho afagou seu cabelo e então seu rosto adotou um semblante muito sério. — Mas tenho que ser honesto com você, Arya, não tem como ele sair totalmente impune.
— Como assim? – Indagou, a calma que mal chegara já estava indo embora.
— Bem, talvez ele tenha que fazer algum serviço comunitário.
— Você jura que ele não vai ser preso?
— Juro que eu vou fazer o meu melhor para proteger nosso irmão. – Ele disse com convicção e aquelas palavras encheram Arya de esperança.
***************
Olhou no relógio pela décima vez no mesmo minuto.
Jon estava atrasado.
Ele iria embora naquele dia. Fazia quatro dias que recebera a notícia e quatro dias que não falava com seu pai ou com Robb. O irmão havia prometido que ajudaria no que fosse possível e, no entanto, após a conversa – que durou longas duas horas – os três homens saíram da sala e apenas jogaram a bomba para cima de si. Sem mais explicações. Jon iria embora para uma escola militar. Ponto. Era um decreto.
Arya gritara, exigindo que lhe explicassem e que mudassem tal decisão, e não adiantou de nada. Depois resolvera agir como uma pessoa madura e conversar, mas novamente nada mudou. Então gritara novamente, decidindo-se por fim que não falaria com nenhum deles. E de início até o próprio Jon estava incluído na lista, mas Arya não aguentara ignora-lo. Não sabia que a partida dele logo chegaria. Tinha de aproveitar o pouco tempo que possuíam.
E foi o que fez. Nos momentos em que ele não estava ocupado com os detalhes da sua viagem – que envolviam seus recentes problemas com a justiça e os acordos feitos depois de consultar um time de advogado – estavam sempre juntos. Jogando conversa fora, ignorando o fato de que ele iria embora em breve. Visitaram Sansa e ela parecia bem, melhor do que o esperado. Ao contrário de Robert, que se mostrava cada vez mais doente. E claro, nesse meio tempo também viram Cersei, que, contrariando o que se espera de uma esposa tão – aparentemente – devotada para o marido, estava cada vez mais sorridente.
— Demorei? – Um peteleco foi deixado em sua testa, seguido de um beijo. — Tenho uma surpresa pra você.
— Espero que seja uma boa surpresa, você me fez perder um tempão da minha vida. – Fingiu-se de brava.
— Eu estava me despedindo dos nossos irmãos.
Despedida. Essa ideia a machucava. Mas, apesar de sua vontade de chorar e agarrar-se a Jon, tinha de manter uma conversa com ele e mostrar-se forte. Teria a oportunidade de chorar depois, quando estivesse sozinha e ninguém mais pudesse ver o quão frágil e abalada ela se encontrava.
— Bran?
— E Sansa.
— E o Robb? – Indagou. — Você já fez as pazes com ele?
— Ainda não, mas eu vou falar com ele antes de ir.
Antes de ir. Ouvir isso era doloroso também.
— Você sabe que isso não vai mudar nada entre nós, não é? – Jon falou depois de um curto silêncio. Dava pra ver que ele também estava se esforçando para se mostrar forte e fazer daquela conversa uma conversa comum entre eles.
Mas era difícil.
— Eu queria que ficasse conosco.
— Às vezes – Ele fez uma pausa comprimindo levemente os lábios — diferentes estradas levam ao mesmo castelo.
— E quem disse que eu quero ir pra um castelo? – Brincou, arrancando gargalhas de ambos.
— Bem, não importa para onde você vá, por aonde você vá, eu vou estar lá. Eu vou estar sempre ao seu lado, irmãzinha.
Arya olhou bem no fundo dos olhos de Jon, encarando os orbes escuros a refleti-la. Viu-se como seria dali em diante: sozinha. Mas, estranhamente, sentiu-se tão em paz com aquela solidão, porque ela não era vazia. Porque Jon tinha razão, mesmo que não estivessem juntos de fato, eles nunca estariam separados. Eles eram Arya e Jon, Jon e Arya e estariam para sempre refletidos nos olhos um do outro.
— Você sabe que eu também sempre estarei ao seu lado, não é? Não importa onde, nem quando, eu vou estar sempre com você. – Sorriu largo, gesto que foi repetido por ele. Então se deu conta de algo. — Meu Deus, você tem noção do quão psicótico isso soa? Se você estiver na sala, eu vou estar lá. Se estiver na rua, eu vou estar lá. Não importa onde você esteja, eu vou estar lá.
— Você tem um talento natural para estragar os bons momentos, é incrível. – Ele tentou soar bravo, mas seu divertimento era notável. — Será que eu posso dar seus presentes agora?
Sem esperar por uma resposta, ele levantou batendo uma poeira invisível da calça e abriu a porta do quarto. Saiu e voltou rapidamente, trazendo consigo uma caixa relativamente grande. Sentou-se novamente no chão ao seu lado, com a caixa no colo, mas não a abriu. Primeiro pegou um caderno que estava sobre a tampa e estendeu para ela.
— Pra você.
— Legal, um caderno. – Tentou não soar cínica enquanto pegava o objeto. Apenas tentou. — Obrigada.
— Quanta animação. – Jon riu. — Eu sei que tu não gosta muito de escrever, mas então eu pensei que sei lá, quando tu quiser desabafar e não puder falar com ninguém, escreve. Escreve como se tivesse contando pra mim. Eu só vou ter acesso à internet nos fins de semana, mas só vou poder usar se tiver boa conduta e você sabe.
— É, seu sei. Jon e boa conduta não rola.
— Isso. – Ele parou por um tempo como se pensasse no que fazer a seguir. — Ok, vamos pro segundo presente.
— O presente da caixa? – Perguntou sem conseguir esconder a curiosidade.
— Ainda não. – O irmão lançou mais um sorriso e Arya entendeu o que as meninas tanto viam nele. Ele era, sem dúvidas, muito bonito. — Aqui está o segundo presente. – Uma caneta foi exposta a sua frente. Arya fez uma careta.
— Uma caneta pra escrever no diário, obrigada. – Ia perguntar sobre a caixa novamente, mas a risada do mais velho a fez ficar calada.
— Tu realmente não sabe esconder quando não gosta de algo. – Recebeu um peteleco na cabeça. — Olha direito, essa não é uma caneta comum.
Foi o que fez. Pegou o objeto em mãos e observou-o. Era uma caneta maior que as demais, tanto em comprimento quanto em largura. Experimentou tirar a tampa e se surpreendeu ao notar que ela era rosqueada. Olhou para Jon e ele fez um gesto de incentivo com a cabeça, o irmão parecia uma criança animada. Então Arya fez o que ele queria e retirou a tampa. Não conseguiu conter o som admirado que escapou de seus lábios. Aquilo era...
— É uma adaga. – A reposta veio antes que pudesse perguntar. — Ela é mais fina e um pouco menor que o normal, mas não menos eficiente.
— E ela vem bem embalada. – Falou entretida com a lâmina brilhante. Era tão lindo.
— Provavelmente se nosso pai visse a adaga ele iria confiscar, tive que disfarça-la. Agora que eu não vou estar aqui pra te proteger todos os dias, pensei que essa seria uma boa opção.
Volveu o olhar para Jon, desta vez deixou que as lágrimas caíssem. Aquela era a melhor pessoa que já passara por sua vida. Uma pessoa tão maravilhosa que ela não conseguia expressar com palavras. Seu irmão. Um irmão que a enchia de presentes e que parecia não saber da verdade: Arya não precisava de presente algum, porque ele já era o seu bem mais precioso.
— Você... – Tentou iniciar uma frase inteligente, mas um soluço a impediu. — Você... – Novamente falhou em sua tentativa e desistiu. Largou a adaga no chão e abraçou Jon com todas as forças que tinha. — Eu vou sentir muitas saudades.
— Eu também, Arya. – Jon sussurrou apertando-a contra ele. — Mas ainda temos mais um presente pra abrir.
— A caixa? – Separou-se dele o suficiente para encara-lo com os olhos esperançosos. Como se fosse uma criança birrenta, que escuta a mãe dizer que lhe dará chocolates antes do jantar.
— Exatamente. – O irmão concordou de modo risonho e arrastou o objeto até que ficasse entre eles. Esperou pacientemente até que ele retirasse o laço e abrisse a caixa e, assim que ele o fez, enfiou o rosto lá dentro, dando de cara com duas bolas de pelos. Uma branca, que permaneceu quieta e imóvel como estava antes, e outra cinza, que se remexeu de uma maneira surpreendentemente elegante e a encarou com os olhos amarelados.
Foi amor à primeira vista.
— É um cachorro.
— Nymeria, o nome dela é Nymeria. E é sua.
—Nymeria, como a Nymeria da história. A minha personagem favorita. – Arya pegou Nymeria em seus braços, sentindo o quão macio era o pelo dela. Estava contente que o irmão lembrava-se de tantas coisas sobre ela. — E esse outro? – Apontou para o amontoado branco que ficara na caixa, era um pouco menor que Nymeria e parecia estar dormindo um sono tranquilo. Por um momento sentiu inveja dele.
— Esse é meu filhote, o Fantasma. Ele foi rejeitado pela mãe assim que nasceu, mas a Nymeria ficou ao lado dele, dando apoio. – Como se entendesse o que estava sendo dito, o animal em seus braços emitiu um som baixo, concordando com o que havia sido dito por Jon. — Desde então eles são melhores amigos.
— Como nós.
— Como nós. – Jon anuiu no mesmo momento em que Fantasma abria os olhos sonolentos. Eram vermelhos e, de alguma maneira, expressavam um sentimento muito forte. Ele se parecia com o dono, ambos carregavam certa melancolia em seu jeito misterioso e silencioso. Arya sorriu. E pôde jurar que Fantasma fez o mesmo ao encarar Jon.
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