Lobos de Veneza
23 Anões, loucos e bastardos
Notas iniciais
Olhou para a placa pendurada à porta. Ali estava seu nome, seguido pelo título de psiquiatra. Em dias passados, se dissesse a qualquer um que, um dia, seria o que é, ter-lhe-iam atirado risadas de escárnio à face. Ninguém parecia acreditar em sua capacidade. Nem mesmo sua irmã, seu irmão, sua mãe e... Seu pai. Principalmente seu pai. Tyrion nunca conseguira entender o motivo para tanta discriminação. Na verdade sim, entendia sim. Tudo por causa de sua maldita altura. Ou, no caso, pela falta dela.
Sacudiu a cabeça tentando espantar aqueles pensamentos ridículos, já não era mais um adolescente e não se deixaria abater pelo passado. Não agora. Olhou para o relógio e soltou um suspiro pesado, estava na hora de visitar o seu mais novo paciente. Um garoto que chegara a clínica num estado visivelmente perturbado.
— Bom dia, Drogo! – Tentou ser o mais sorridente possível, para ver se, desta maneira, conseguia arrancar alguma reação do rapaz.
Desde que chegara ali, há duas semanas, ele não falara uma palavra sequer. Vez ou outra tinha surtos de agressividade, que condiziam com o estado ao qual ele chegara. Aparentemente, não possuía família e estava sob custódia da polícia. Cometera um assassinato. Seu crime foi anunciado em todos os veículos midiáticos possíveis, durante cinco dias ininterruptos.
Apesar de tentar diversas formas, o tratamento não surtia efeito algum e, Tyrion temia, que tivesse de mudar sua abordagem para algo mais... Agressivo.
— Você sabe que precisa se defender, não sabe? – Falou calmamente, observando as feições de Drogo. Nada mudou. Ele não vacilou um segundo sequer. – Você precisa me ajudar, assim eu poderei te ajudar.
Nada novamente.
Desistiu do diálogo naquele dia. Teria o dia seguinte para tentar. Limitou-se a sentar na poltrona que ficava em frente à cama do rapaz. O quarto com paredes brancas e acolchoadas, só possuía aqueles móveis: uma cama e poltrona. Todas brancas. Não havia janelas. Aquela era a cena que protagonizavam todo dia. O Lannister encarava seu paciente, em silêncio, por longos minutos, que, por sua vez, olhava para todas as direções – parede, lençol, chão – menos para ele.
Escutou umas batidas na madeira. Logo o rosto de Shae – sua secretária — apareceu pela fresta da porta recém-aberta.
— O senhor tem uma visita esperando. – Disse-lhe e ele concordou com a cabeça, sinalizando que iria em seguida.
Deu mais uma olhada em Drogo antes de sair, como se quisesse dar a ele a oportunidade de falar. Tudo permaneceu como sempre. Frio e silencioso. Tyrion sabia, no entanto, que a cabeça daquele jovem era barulhenta e atormentada. Seguiu pelos corredores com as mãos nos bolsos do jaleco. Chegou até a mesa de Shae e deu duas batidinhas, para que ela lhe olhasse. Uma das maravilhas de ter a altura que tinha, com toda certa, era poder encarar as pernas de sua secretária de “igual para igual”.
— Sim?
— Onde está a pessoa que me procurava? – Perguntou, pois ali não havia ninguém mais além dos dois.
— Ah, o rapaz disse que era um amigo da família e que preferia esperar lá dentro.
— Rapaz... Amigo da família? – Uniu as sobrancelhas numa careta confusa.
— Stark! Esse é o sobrenome.
— Um Stark veio me procurar? – A curiosidade que tinha era tanta, que não se deu ao trabalho de perguntar nada mais para Shae, apenas seguiu até sua sala. Abrindo a porta sem bater, afinal a sala era sua.
Deparou-se com um jovem de cabelos negros, sentado na poltrona em frente a sua mesa, onde suas pernas estavam, displicentemente, estiradas. As mãos estavam atrás da cabeça e a face sustentava um sorriso sem humor algum. Os traços fortes não negavam, era de fato um Stark. Mas... Qual deles?
— Em que posso ajuda-lo?
— Sinceramente? Eu não sei. Mas ou eu vinha aqui, ou teria que encarar mais um diálogo com a Cersei. – O Stark desconhecido deu de ombros – Resolvi tentar a sorte, quem sabe algum Lannister presta. – Tyrion não conseguiu conter a gargalhada.
— De fato, acho que nenhum Lannister presta, rapaz. – Contornou a sala até chegar ao seu lugar de costume, sentando-se em sua poltrona, de frente para o outro, examinou mais atentamente o rosto que lhe encarava. – Mas você não veio aqui pra julgar o caráter da minha família.
— Ah não... Eu vim aqui pra ter acompanhamento psiquiátrico. – O Stark riu e, enfim, endireitou-se na sua cadeira, tirando as pernas de cima da mesa. – Aparentemente, eu sofri um grande trauma há duas semanas e preciso de ajuda.
— Aparentemente?
— Eu não concordo com isso, mas os médicos recomendaram e meu pai não queria me deixar em paz. – Suspirando ele continuou: — Se eu não aceitasse me submeter a isso, seria mandado direto pra um acampamento militar, ou coisa assim.
— Então... – Incentivou que ele continuasse, estava quase conseguindo reconhece-lo. Aquele rosto não lhe era, de forma alguma, estranho.
— Pensei em vir aqui nas quartas e sextas. É quando tenho tempo livre e... – Ele parou de falar de repente. – Você sabe quem eu sou?
— Você sabe quem eu sou? – Devolveu a pergunta.
— Você é Tyrion Lannister, o irmão da psicóloga.
— Oh sim... — Soltou um risinho que deixava transparecer uma pontada de amargura. -Esta é a minha maior honra. – E então a lembrança lhe veio clara a mente, como não conseguiu lembrar-se dele de imediato? — E você é o bastardo do grandioso Ned Stark, não é? — O garoto lhe encarou diretamente, pela primeira vez, com uma expressão quase indecifrável. Mas os olhos o denunciavam... — Eu o insultei? Desculpe-me. Mas... — Fez uma pausa e remexeu-se em seu acento, inclinando o corpo para frente, o apoiando sobre a mesa. – Você estar ofendido ou não, isso não muda nada. Você continua a ser um bastardo.
— Eddard é o meu pai! – Jon ergueu-se bruscamente, espalmando as mãos no móvel em que Tyrion apoiava os cotovelos. Sem deixar-se abalar pela mudança comportamental do mais novo, o psiquiatra continuou em seu costumeiro tom:
—Sim, isso é claro. Qualquer um pode ver: você tem em si mais sangue Stark do que qualquer um de seus irmãos.
— Meio- irmãos. – Jon o corrigiu com certa petulância. Tyrion sorriu, decidiu que gostava daquele garoto.
— Me deixa te dar um conselho, bastardo: Nunca se esqueça de quem é, porque é certo que o mundo não se esquecerá. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela nunca poderá ser usada para magoá-lo¹.
— E o que alguém como você sabe sobre ser um bastardo?
— Eu? – Riu de maneira amarga novamente. – Todos os anões são como bastardos aos olhos do pai, Jon Stark. — Desceu de sua cadeira e caminhou até a porta. — A propósito, quarta é meu dia de folga. Ficamos com a sexta. — Saiu de sua sala sem se importar em deixar o garoto sozinho. Aquela conversa estava encerrada.
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