Lobos de Veneza

2 Ano novo, aposta nova


Notas iniciais
Pov. Arya

– Não acredito que você já se meteu em confusão, Arya. — Escutou a voz familiar, numa falsa tentativa de repreensão.

Virou-se para o mais velho que estava a sua frente, e não soube muito bem o motivo teve vontade chorar. Talvez fosse o clima de ano novo que estava a transformando numa garotinha imbecil e chorona. A voz dele tornou a falar mas não era de verdade, era uma lembrança de sua cabeça. Uma coisa que ele sempre lhe dizia, que ela guardava consigo. Mesmo que as vezes ela fingisse que havia esquecido aquele poema, era mentira. Nunca conseguiria esquecer aquilo, mesmo que quisesse.

A garota mais bonita que eu conheço
não é nenhuma miss, nem engata tantos olhares quando passa por aí
A garota mais bonita que eu conheço
nem acha que é bonita.
Acha graça e não acredita
quando eu à digo assim
A garota mais bonita que eu conheço
não faz nada para parecer bonita
Não faz boa maquiagem,
não usa jóias ou roupas da moda,
não vai pra academia nem tem belo manequim
A garota mais bonita que eu conheço simplesmente sorri,
e, quando sorri,
ela é a garota mais linda do mundo!

– Não acredito que você ainda não se meteu em confusão, Jon! — Exclamou e ele mostrou-lhe a língua.

Nos seus 15 anos de vida Arya não tinha conhecido ninguém tão legal quanto seu irmão mais velho. Sua relação com Sansa era das piores, Robb, não entendia seu jeito de ser, Bran, ficava procurando uma razão para tudo que ela fazia. Ele sempre começava as explicações com um: "De acordo com os estudos...”. Rickon, bem, ele era só uma criancinha boba. Jon era o único, o único que a entendia e que a aceitava como era.

– Você sabe – Deu de ombros – Não faz nem 30 minutos que eu cheguei aqui.

– Acho que eu vou roubar o título de pior filho de você, pode se preparar pra passar a coroa, João! – Deu-lhe uma tapa nas costas.

– Arryn, você nunca vai me superar, precisaria socar uns cinco caras pra roubar minha coroa!

– Então vamos fazer uma aposta.

– Você gosta mesmo de perder. – Gargalhou Jon

– Não se gabe João. Você sabe que eu iria ganhar aquela outra aposta, você roubou! – Protestou.

– Se você diz...

A aposta era simples, teria que ficar sem falar durante um dia inteiro. E assim o fez. Não falou durante as aulas, não respondeu as provocações de Sansa, apesar das muitas vezes que quase abriu a boca para xinga-la. Mas Jon, ou João, como costumava chama-lo quando o queria o chatear, sabia muito bem como irrita-la.

Jon Arryn era o marido de sua tia Lisa. Quando Arya nascera, ele fora o que mais mostrara entusiasmo. Dissera a todos que seu mais novo sobrinho levaria seu nome, se chamaria “Arryn”, em sua homenagem. Pois os dois eram parecidos. Desde então, seus irmãos a enchiam-na com comparações ao Tio Arryn. Se ao menos ela gostasse dele.

Faltando 15 minutos para o dia acabar. E para ela ganhar a aposta, Jon chamara a todos da família na sala de vídeo. “Boa coisa não deve ser”. Pensara Arya enquanto ia, junto com os outros, assistir a atração tão ‘imperdível’ que Jon fizera questão mostrar.

– Como todos sabem, a Arya é a irmã com que eu mais converso aqui. – Sorrira para ela. – Por isso decidi lhe fazer uma homenagem – Merda!

À medida que ele falava iam-se passando alguns slides na TV. Era uma “evolução” de Arya, com o passar dos anos. “Então, todos nós nos perguntamos, como nossa irmã, tão amada irmã, será daqui a alguns anos”. Continuara falando. ”É simples, ela será igual ao nosso mais querido membro da família...” Merda, merda, merda... “Tio Arryn!”. Dizendo isso passara para o último slide, uma montagem da cabeça de Arya no corpo do tio.

Seu filho da puta! – Gritara e correra para batê-lo

– Bem, maninha, acho que ganhei a aposta. – Dissera em meio às gargalhadas.

A esta altura já estavam bastante afastados dos outros. Caminhavam calmamente pela orla. Já passava das quatro da manhã e o sol estava nascendo. Enquanto andavam, tudo em que pensava era nas “cláusulas” da aposta. Não iria perder, não desta vez.

– Tá vendo aquela menina ali? – Apontou para uma garota ruiva sentada nas pedras.

– Sim. – Jon olhou para garota, depois para Arya, e para garota novamente. — Não me diga que ela tem algo a ver com a aposta?!

– Awn, João, você me conhece tão bem. – Sorriu sarcasticamente.

Jon respirou fundo. Era o tipo de coisa que ele sempre fazia quando estava pensando em que decisão tomar. Olhou novamente para a garota ruiva sentada nas pedras. Ela estava sozinha, não deveria ser muito mais velha que seu irmão, observou Arya. E se fosse, melhor ainda, assim, seria mais difícil dele vencer a aposta.

– Certo, o que você quer que eu faça? – Perguntou por fim.

– É simples, quero que você consiga o número daquela garota. Chame-a pra sair, leve-a pro seu quarto de hotel, e eu vou dar um jeito do papai pegar vocês dois.

– ARYA! – Ele quase gritou- Eu não vou fazer isso. Não vou ficar com uma mulher desconhecida...

– Qual é, você precisa deixar disso Jon! – Socou-lhe de leve no rosto – Provavelmente ela está bêbada, mais fácil, mais rápido, talvez mais prazeroso... – Observou a expressão aturdida do irmão – Não é como se você se importasse com o sentimento das outras pessoas, você já enrolou outras garotas antes. Faça isso agora.

– Não. Não posso fazer isso Arya, eu...

– Virou um molenga! João flor, como eu disse, pode me passar sua coroa de delinquente juvenil! – Provocou-o

– Você é terrível – Empurrou-a, com um pouco mais de força que o normal.

– Você é mais! – Gritou de volta, enquanto ele ia em direção a ruiva misteriosa.

Às vezes, mais do que fazer escolhas simplesmente, precisamos fazer apostas. A escolha calculada é sábia mas a aposta apaixonada faz parte do amor humano. A coragem vitoriosa dá um sabor especial ao enredo que muda a história.

E lá estava ela, apostando com Jon. E desta vez iria ganhar. Nem que para isso, tivesse que aprontar algo três vezes pior.

Notas finais
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