Lobos de Maeve: Sacrifício

1 Lobos de Maeve: Sacrifício


Notas iniciais
O homem busca viver dia após dia

O Rei busca manter seu povo seguro

O Lobo procura a sobrevivência de seu bando

Aquele era seu último dia na aldeia.

Pela última vez, banqueteou-se como uma rainha, tendo uma generosa torta em sua frente, recheada com o que mais gostava. Ovos de perdiz, queijos e assados, prontos para serem beliscados. Sua taça não parava na metade, sendo enchida com vinho aquecido e ervas logo em seguida. Para a sobremesa, escutou falarem sobre bolos e frutas com calda o bastante para melar os dedos.

Apesar da vista turva pela bebida, sua mente mantinha um certo grau de sobriedade, onde uma voz repetia incessantemente: Nada disso importa mais...

Tentava comer de tudo enquanto ouvia as preces de seus pais e familiares, que pediam por segurança e caçadas fartas naquele inverno por vir. Mas daquela vez havia mais um motivo para aquelas orações, que soavam tão desesperadas naquela ocasião: Acalmar a ira do Rei dos Lobo que rondava àquelas terras.

Uma vez por ano, ele surgia entre aqueles que o cultuavam, nas festividades em sua honra. Acompanhado de sua corte, se misturava ao povo, e celebrava com eles. Aqueles que despertavam sua atenção eram marcados com seu sopro mágico. Então, a pessoa teria um ciclo das estações, a começar a contar daquele dia, para se despedir dos seus e resolver qualquer assunto, antes de ser levada pelo Rei dos Lobos.

Assim era conhecido o Rei da Corte do Inverno, que vaga entre os mundos trazendo o frio e a morte ao mundo. Somente os sábios conheciam o seu nome e mesmo assim não o diziam por medo de atrair sua ira.

A neve e o sangue o acompanham por onde quer que vá. Temido pelos invasores normandos que o consideram um demônio, e pelos invasores vindos do Norte que o consideram uma divindade.

Velhos, adultos, jovens ou crianças, nada disso importava para ele. Aquele que fosse escolhido se tornaria membro de seu séquito, caçaria pelos campos do inverno sem temer a fome ou o frio, tendo uma boa vida ao lado de um Rei. Em troca, a fome não tocaria aquelas terras no inverno e os lobos não caçariam os homens.

Consideravam um preço pequeno a se pagar, embora eventualmente houvesse problemas.

Uma mãe que se recusou a dar sua criança escolhida em sacrifício, amantes que se recusaram a serem separados daquela forma, um irmão que desejou trocar de lugar com o outro que parecia ser bem mais promissor para a aldeia.

Se o sacrifício não era pago, o Rei dos Lobos retirava suas graças daquela região, e seus uivos na noite anunciavam o início das Caçadas Selvagens. Algumas histórias contam de cidades e aldeias inteiras que foram completamente destruídas após um sacrifício não feito. Pagãos ou não, aquela terra era dele, e todos deviam tributos.

E o Rei do Inverno sempre escolhia seus sacrifícios entre aqueles que ainda acreditavam na magia do mundo. Crianças de antigas linhagens reais, nobres bravos e honrados, feiticeiros habilidosos, curandeiros com raízes fortes nas Antigas tradições... Uma vasta lista de perfis que podiam despertar o seu interesse.

Por conta de tudo isso, os povos se esforçavam em manter aquela criatura satisfeita. Isso muitas vezes implicava em fornecer do bom e do melhor para o sacrifício, cuja alma se uniria à alcateia mística e passaria a correr pelos campos, trazendo o inverno ao mundo.

Mas aquele ano foi completamente atípico. Ele escolheu uma jovem que partilhava do mesmo sangue de um outro sacrifício anterior e que fugiu do ritual com a ajuda de um nobre normando. Tal feito trouxe um ano inteiro de escassez ao reino da Irlanda.

Aine, filha de uma antiga linhagem de feiticeiros e sacerdotes. Abençoada com o mesmo nome da Rainha-Fada da Corte do Verão, embora sua aparência remetesse ao outono intenso que antecedia ao inverno. Uma donzela de cabelos vermelhos e olhar vivaz como os de uma raposa nova.

Ele, que sempre se mostrava como um imenso lobo negro, com uma lua dourada envolvendo uma esfera na testa, daquela vez se mostrou como um homem alto e de cabelos escuros. Vestia peles de lobos e trajes de metal, como as dos estrangeiros do além-mar do Norte. Seu cabelo era como a noite sem estrelas, longo como uma mortalha. Pele clara como a morte e olhos tão dourados quanto o símbolo reluzente em sua testa.

Tomou a mão daquela que escolheu para ser seu sacrifício e com ela dançou e festejou por toda a noite. Talvez para evitar que a donzela fugisse, plantou uma semente em seu ventre e a marcou com seu sopro gélido. Toda a aldeia tomou aquilo como um sinal.

A estação passou e a semente vingou, enchendo a todos com expectativas. Trataram a cuidar da jovem futura mãe como a uma rainha, sabendo que suas vidas dependiam do nascimento daquela criança, que veio ao mundo quando a primeira folha de outono caiu de seu galho. Uma menina de cabelos vermelhos, como sua mãe jovem, e olhos dourados como seu pai. Então os anciãos respiraram aliviados.

Até o dia em que um homem apareceu, com seus cavaleiros e uma pesada cruz de prata em seu pescoço, vindo de alguma das cidades muradas pelos normandos. Ordenava por alguém que fizesse uma infusão que tornasse um ventre infértil capaz de gerar. Dizia para quem quisesse ouvir que o futuro daquelas terras dependia disso. A jovem escolhida para sacrifício, versada nas artes necessárias para tal intento, se comprometeu a atender sua necessidade, mas o alertou de que não seria algo imediato.

Ele aceitou seus termos e ela, filha dos curandeiros da aldeia, preparou-lhe uma infusão que garantiria um rebento à mulher que o bebesse em até dois ciclos de estações.

Mas o homem, impaciente, não esperou mais do que dois ciclos lunares, retornando no último dia do outono com espadas e tochas. Acusava a aldeia de heresia e que o filtro mágico de nada servia. Houve sangue derramado e chamas queimando tudo ao redor.

Na esperança de salvar sua filha, a jovem marcada pelo Rei dos Lobos tentou fugir para a floresta, implorando ao Povo Mítico e à Corte do Inverno que viesse em seu socorro. Porém, suas pernas jamais seriam mais rápidas que as de um cavalo, e ela terminou alcançada pelo homem e seus soldados...

Uma lágrima desceu de seus olhos só de lembrar aquele momento. Não sabe ao certo de quanto tempo ficou naquele lugar, em desespero, sozinha e chamando pela filha até que a voz desaparecesse. Foi encontrada no final da noite e sem a criança.

Nenhum dos soldados a tocou, embora tivessem intencionado no começo. Sua raiva a fez pronunciar maldições impensáveis sobre eles: A morte lenta e agonizante de toda uma linhagem, nas presas gélidas do Rei dos Lobos e da Corte do Inverno. A punição de suas almas pela eternidade nas mãos de Deuses que andavam entre os vivos.

O ódio de suas palavras os assustou como cães e os fez correr. Os lobos uivaram por toda noite, enquanto chorava a perda de sua criança. Por dias procuraram e o máximo que encontraram foi a manta que a cobria no momento do ataque. Era impossível que uma criança de peito, indefesa, sobrevivesse na floresta sozinha.

— Aine... – A voz rouca de seu pai a chamou, tocando seu ombro. – Está na hora, minha filha...

O homem trazia um olhar triste. Por mais que servir de sacrifício naquele ritual fosse considerado uma grande honra para a família do sacrificado, nunca era fácil se despedir de alguém tão próximo e querido. Ainda mais com a dor nos olhos da filha e a incerteza do que estaria por vir.

Aquilo a despertou do transe, fazendo com que ela enxugasse a face, rezando para que o Rei dos Lobos ainda a julgasse digna. Vestida com o melhor vestido que sua família conseguiu produzir, feito com o melhor linho que aquele ciclo de estações havia provido, esperava conseguir impressioná-lo e ter o seu perdão.

Uma coroa de azevinhos foi posta em sua cabeça e um manto de peles quentes abraçou seus ombros. Um abraço forte de sua mãe quase a fez desabar. Agora era ela quem estava perdendo a filha para o Inverno. Não devia estar sendo fácil para a mulher mais velha, que passou os últimos meses sabendo que nunca mais veria a mais nova.

Nevava lá fora. Flocos suaves caíam do céu e pousavam sobre suas vestes. Mais para a frente, o portão de madeira que separava a aldeia da floresta, por onde Aine seguiria até seu destino. Não fazia ideia do que a esperaria lá, mas sentia o peito doer apenas em pensar nas possibilidades.

Seu pai a ajudou a montar no cavalo, que também seria sacrificado, e despediu-se da filha a qual nunca mais veria. A dificuldade dele em soltar as rédeas do animal foi visível para todos os presentes. Em uma marcha silenciosa, a jovem conduziu sozinha o animal, um último pedido seu.

Era sua punição por perder a filha do Rei do Inverno.

Com a cabeça erguida, diante daqueles com quem cresceu e se importou ao longo de sua vida, a jovem cruzou as primeiras árvores, e desapareceu depois de alguns metros adiante. A floresta densa para onde tentou fugir com sua criança e que ainda evocavam memórias dolorosas daquele dia.

Não era um caminho difícil de se seguir, principalmente para quem já o conhecia. Passou pelas árvores que marcavam os domínios imortais e logo avistou os primeiros pontos luminosos a flutuar no ar frio. Pequenas fagulhas cor de gelo, que brilhavam como joias ao sol, e que se tornavam cada vez maiores e mais abundantes na medida em que fazia progresso na trilha.

Chegou à clareira, onde os marcos de pedra se erguiam, antigos como o início dos tempos. Árvores altas e de densas copas a saudaram, com pequenas criaturas de luz azul a descansarem em seus galhos para presenciarem o rito. O chão estava limpo da neve, tornando possível ver o símbolo da criatura ali, esculpido cuidadosamente no chão de pedra ancestral.

A jovem desceu de sua montaria, agradecendo-a por acompanhá-la até o final daquela jornada e desejando que seu retorno fosse mais afortunado. Encostou a testa na do animal, rezando aos sussurros. Era a sua preparação para o que estava por vir. E ficou ali, a olhar para o vazio, indefinidamente, pensando no que diria a ele quando o visse. Somente voltou a si quando ouviu os rosnados dos lobos que a cercavam.

Assustada, ela os olhou, procurando por alguma face conhecida e viu sua sombra escondida atrás das árvores. O coração martelava no peito ao ver aqueles olhos dourados a encará-la. Aine o chamou por seu nome, revelado quando entregou seu corpo e sua alma a ele. Ajoelhou-se e abria as mantas quentes, expondo o corpo ao frio e à morte que a cercava.

O Rei da Corte do Inverno se aproximou com sua aparência de homem, vestido com peles negras e ferro escuro. Um guerreiro mortal, acompanhado sua alcateia de lobos imensos.

— Perdão... – A jovem pediu, abaixando a cabeça em culpa. – Eu perdi a dádiva que me deu, minha luz do outono, minha chama...

Ele nada respondeu, enquanto sua guarda a cercava, ignorando completamente o cavalo por perto.

— Eu suplico, meu senhor... Leve minha vida, puna-me pela eternidade, mas salve-a... Eu sei que não sou digna de pedir nada após o que aconteceu, mas... por favor! – Ela implorou, erguendo a cabeça para olhá-lo e expondo a garganta para ele.

Sentiu a mão morna dele tocar seu pescoço, fazendo-a fechar os olhos. Sentiu a palma dele deslizar por sua pele, expondo o corpo frágil ao frio do inverno. Os lobos ao redor uivaram lúgubres e aterradores, enquanto o sacrifício era realizado.

A alcateia se banquetearia pelo restante do dia.

Naquela noite haveria uma Caçada Selvagem.

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