Lobos da Alvorada
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Avaliei meu corpo antes de levantar. Nenhuma fratura. Haviam cortes já cicatrizando nos meus braços e na lateral do meu tronco. E o que parecia ser uma marca de garras de lobo. Então significava que eu estivera em uma briga. E pela quantidade de sangue em minhas mãos eu não fora a única a sair ferida. Mas eu teria tempo pra pensar nisso depois; agora os primeiros raios de sol ameaçavam despontar no horizonte, e eu precisaria de roupas pra poder voltar para casa. Quando se acorda longe de casa só é preciso se manter dentro da mata o suficiente para não ser vistos por ninguém e farejar pelo aroma de lavanda, que é colocado junto das roupas — escondidas na mata pela matilha — justamente para nos guiar pelo olfato. Junto de um conjunto de calças e blusas de diversos tamanhos, além de meias e tênis unisex, sempre têm um conjunto de mapas, para que possamos nos orientar.
Levantei-me e comecei a farejar ao redor na minha forma humana. Depois de uma transformação de lua cheia, o corpo fica cansado demais para que consiga se transformar, então o jeito é torcer para não encontrar ninguém até achar as roupas. Passados quinze minutos procurando ao redor pelo aroma sem sucesso, é que percebi que eu deveria estar mais longe do que o habitual. As árvores eram muito antigas e juntas uma das outras, o que significava que eu estava muito dentro da floresta, e isso explicava a ausência do perfume de lavanda. Eu devia estar numa área privada de algum beta, ao norte da área em que os outros lobos costumam correr, ou na pior das hipóteses, fora da área da alcateia, à leste. No momento em que percebi isso o sol já havia nascido, então, acreditando na hipótese menos pior, decidi seguir para o sul, no que supus ser a área da floresta acessada por todos da matilha.
Vinte minutos de caminhada depois isso revelou-se ser o caminho correto, quando cheguei a uma cerca de arame farpado próxima a um riacho, que só poderia ser um dos muitos braços do Rio da Prata que percorre todo lado o território da nossa matilha. Atravessei a cerca sem dificuldades e, após lavar o sangue que estava em mim na água gelada, segui o riacho à distância, ainda na direção sul, nariz e ouvidos atentos, pois eu sabia que muitos dos que estavam na floresta ainda iriam na direção do rio também, e eu não queria ser vista em hipótese alguma. Passado mais meia hora senti, finalmente, o aroma de lavanda. Me guiei por ele até um buraco próximo às raízes de um pinheiro, que já havia sido revirado, a julgar pelo cheiro, por duas outras pessoas. Puxei rapidamente uma blusa branca e a vesti, e em seguida vesti uma calça para caminhadas preta e um tênis cinza claro. Finalmente vestida pude respirar em paz, apesar da blusa marcar os meus seios, e a calça ser larga demais pra mim. Peguei um dos mapas disponíveis e percebi que ainda faltava um longo caminho. Agora meus ferimentos já estavam, à exceção da marca de garra na lateral do meu abdome, praticamente cicatrizados. Então alonguei-me e avancei num trote rápido para casa.
Cheguei em casa faltando quinze minutos para as nove horas. Meus pais estavam no quintal dos fundos, me esperando, embora fosse dia de semana e papai devesse estar no trabalho.
—Ah Alyssa, o que aconteceu? -minha mãe me abraçou, as narinas dilatadas, percebendo a presença de sangue — rápido, vamos para dentro
—Minha filha, onde você estava? — meu pai também me abraçou, me guiando através da porta da cozinha.
Sentamo-nos todos à mesa de jantar, e os dois fitaram-me com o olhar, cheio de perguntas.
Acabei contando que acordara num dos terrenos de mata privativa de algum beta, machucada e sem me lembrar o que havia feito quando transformada. Brigas eram incomuns na nossa alcateia, e eu ainda não sabia o porquê havia ido tão ao norte, a não ser… É claro, que eu estivesse indo atrás de Erick. Nesse caso eu era incrivelmente sortuda por ter entrado numa briga, caso contrário sabe-se lá até onde eu conseguiria ir em forma de loba.
—Mãe, pai, eu estou bem, é sério — Falei pela enésima vez — Não precisam se preocupar. Deve ter sido apenas uma briga idiota. Eu vou tomar um banho e descansar agora, e você pai, deveria estar no trabalho — Dei uma longa olhada para ele, frisando minhas palavras.
—Tudo bem, mas não me culpe por me sentir preocupado com você, garota — ele sorriu afetuosamente para mim, me puxando pra mais um abraço — Você ainda é minha filha.
Quando ele finalmente me soltou minha mãe estava lá rindo de nós dois.
—E eu fico sem abraço? — Ela estendeu os braços e então eu a abracei também — Da próxima vez vai entrar na floresta junto comigo e com seu pai, e não vamos perder você de vista.
—Da próxima vez — respondi em seus cabelos — vou dar um jeito de levar minhas próprias roupas.
Meu pai chegou mais cedo do trabalho naquela tarde. Estava tão esbaforido que pulei da cama e desci as escadas de dois em dois degraus para ver o que o havia deixado daquele jeito. Quando cheguei à sala minha mãe já estava lá, perguntando o que houve.
—Mais uma garota foi atacada noite passada, não foi apenas a nossa Alyssa.
—Como assim atacada? — eu perguntei.
—Alguém ivadiu a floresta privativa da família dela, derrubou o segurança particular e a atacou. Ela está hospitalizada. Disseram que era um lobo muito forte para ter derrubado o segurança, ele trabalhava para a família a anos, é um beta de linhagem antiga.
—Graças a Deus não aconteceu nada pior a nossa Alyssa! — Minha mãe levou as mãos ao peito, e eu podia perceber que ela estava tremendo.
—Pai, quem era a garota? — Perguntei de forma séria.
—A filha da família Henfield -Ele olhou pra mim, e então percebeu meu tom de voz — Por quê?
—Pra qual hospital ela foi levada?
—Por quê? O que você sabe Alyssa?
—Qual hospital, pai?
—Hospital Maria Elizabeth. Por quê?
—Preciso checar uma coisa — E dizendo isso peguei meu casaco pendurado ao lado da porta de entrada e saí.
O hospital Maria Elizabeth era o maior hospital da cidade e ficava no centro, entre a parte humana e a parte lupina. Era uma boa escolha de hospital para a filha de um beta rico; tinha a privacidade de quartos individuais junto com a administração e equipe médica composta por gammas. Além de ser um hospital de renome em se tratando de cirurgias.
Chegando em frente ao hospital comprei um vaso com flores desejando melhoras. Descobri ali — graças a vendedora, que já havia escrito muitos cartões hoje — o nome da garota: Claire. Em seguida fui até a recepção onde disse à uma enfermeira idosa que eu era amiga da família e ela me deixou subir.
Como ela já havia recebido muitas visitas hoje, a minha presença não chamou a atenção de ninguém; quem olhasse de fora viria apenas mais uma das muitas amigas de Claire Henfield.
Somente quando cheguei à porta do quarto que percebi que não havia usado nada para esconder meu cheiro, e agora era tarde demais para voltar, se a minha teoria estivesse correta, ir embora agora só traria mais problemas. Só me restava torcer para que, misturado ao cheiro do hospital — químicos e produtos de limpeza principalmente — e de outras pessoas indo e vindo, o meu cheiro na forma humana não ficasse em evidência.
Bati duas vezes e então pude ouvir:
—Pode entrar.
Empurrei a porta devagar. O quarto privativo contava com um leito, uma poltrona reclinável e um sofá de dois lugares, além de uma mesinha, que estava totalmente ocupada por flores e presentes e uma TV, que passava o noticiário no mudo. Na cama de hospital, estava uma garota loira. Eu sabia que ela era bonita e alta, apesar de agora ela estar deitada com o corpo enfaixado por múltiplos ferimentos, o supercílio inchado, um hematoma na bochecha.
Como eu desconfiava. Era ela. A garota que eu vi dançando com Erick. Eu a havia atacado.
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