Notas iniciais
Oiii lobinhos e lobinhas! Desculpem a demora. Espero que gostem do capítulo, fiz com muito carinho pra vocês! Aproveitem! E não se esqueçam de comentar no final!

— E então suas mãos se unem e seus lábios se encontram, num beijo ardente… — Minha melhor amiga Helen larga o livro e solta um suspiro audível, juntando as mãos sobre o peito — Mal posso esperar para encontrar meu parceiro.

Eu bufo. Ah, se ela soubesse que nem sempre é encantador assim encontrar seu par ela não estaria desse jeito. Mas não posso fazer nada além de revirar os olhos e dizer que ela é muito sonhadora, não sem revelar o segredo que venho guardando a duas semanas: que eu encontrei meu par, que ele é um completo babaca, e que eu espero nunca mais vê-lo novamente.

Estamos no meu quarto, eu sentada no chão, as costas contra a cama, e Helen sobre meu colchão de solteiro,deitada de costas, com as pernas na parede.

—Ué, não era você quem dizia que não ia namorar ninguém até encontrar seu parceiro?

—Eu amadureci — Não precisava dizer a ela que já o havia encontrado.

—Sei — Ela bufou — Ou será que você conheceu alguém que te fez mudar de ideia?

Eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas. Ah, ela não faz nem ideia do quanto está certa. Bom, mas pelo motivo contrário do que acha.

—E como vão as coisas com o Mike? — Resolvi mudar de assunto antes que acabasse me comprometendo.

— Não quero mais nada com ele. Eu mereço coisa melhor.

Mike era o quase namorado de Helen já fazia seis meses. Eles viviam terminando e voltando, então não dei importância quando ela disse que terminaram. E não era como se ela não ficasse com ninguém no período em que ficavam separados.

—Esse “coisa melhor” tem nome?

—Na verdade tem — Ela ri- Mas não vou falar quem é

— Vai falar sim — Eu salto sobre a cama, as mãos a postos — Ou você vai me obrigar a te torturar?

— Cosquinhas não! — Ela tenta me acertar com o travesseiro mas eu sou mais rápida. Em meio segundo estou sobre ela, as mãos em suas costelas — Tá bom, eu falo!

Me deixo cair de costas sobre a cama, um sorriso satisfeito no rosto. Esse truque sempre funciona.

— O nome dele é Harry. Não tivemos a chance de sair ainda, mas sei que ele está de olho em mim.

É claro que está, penso. Helen é uma das garotas mais bonitas que eu conheço. Ela é poucos centímetros mais baixa que eu, cabelos loiros cacheados pouco abaixo do ombro e olhos no tom mais escuro de dourado. Além disso ela é super simpática e animada, o que acaba tornando um mistério o porquê de sermos melhores amigas. Quero dizer, eu não sou conhecida por minha simpátia e amistosidade. Na verdade, se não fosse por Helen eu provavelmente passaria o ensino fundamental rosnando para as crianças que quisessem ir no meu balanço no parquinho.

— Da onde você o conhece?

—Ele está na turma do meu irmão, do treinamento de guerreiros.

Justo quando achei que podia ter uma conversa normal sem pensar em Erick, Helen fala do treinamento de guerreiros, e a lembrança do meu parceiro sem camisa vem à minha mente. Franzo a testa. Faz duas semanas que não consigo parar de pensar nele. Sem falar nos sonhos. Todas as noites tenho voltado aquele momento, mas ao invés de fugir eu fico. Me vejo olhando para o seu peitoral bem definido, ouvindo sua voz dizer “parceira” repetidas vezes… Em seguida não existe mais a grade de metal entre nós, e eu estou em pé junto dele. Mesmo eu tendo um metro e setenta e oito preciso inclinar a cabeça pra cima para olhar seu rosto. No sonho, meus olhos começam fixos nos dele, mas então meu olhar desliza para o resto de seu rosto, até parar em sua boca. Me elevo nas pontas dos pés, meus dedos percorrendo seu cabelo castanho e puxando sua boca para a minha… E então eu acordo, suada e ofegante, praguejando seu nome.

—Terra para Alyssa! — Helen me puxa de volta a realidade — Ouviu alguma palavra do que eu disse?

— Sim — Não, não ouvi, mas não precisava dizer isso a ela.

—Ah é? — Ela franze as sobrancelhas, descrente — Então o que eu acabei de dizer?

Sou salva pelo gongo quando ouço batidas na porta, que se abre logo em seguida.

—Filha, as vagas para para o teste de aptidão abriram mais cedo esse ano! — Minha mãe entra super animada no quarto — É a sua chance! Você sempre quis se tornar uma beta!

Uma alcateia é dividida entre classes; os alphas, que são a família do líder, com o Alpha, com A maiúsculo, sendo o mais forte da alcateia; os betas, que são os mais fortes depois dos alphas, e normalmente são designados a segurança da alcateia; os gamma, responsáveis pelos empregos de prestígio, que escondem nossa espécie, atuando como médicos e advogados; e por fim os ômega, como eu, que tem empregos comuns e sustentam a alcateia financeiramente.

A cada 4 anos, lobisomens que têm entre 18 e 21 anos podem fazer um teste de aptidão física para ver se podem mudar de ômega e gamma para beta. Também é possível mudar de classe por casamento, mas raramente um parceiro é de uma classe diferente da de outro, e tirando encontros de parceiros, betas, gammas e ômegas não costumam misturar-se uns com os outros.

—Eu não quero ser uma beta, mãe — Não era realmente verdade. Mas depois de encontrar meu parceiro o que eu queria não fazia mais sentido. Ainda mais porque sendo uma beta eu teria que me mudar para o lado lupino da cidade e seria mais fácil trombar com ele. Definitivamente não era uma opção. Aqui eu estaria "segura".

—É claro que quer! — Helen se voltou contra mim — Não falou de outra coisa o verão todo!

—Digo, eu achava que queria, mas…

—Calma querida, é só nervosismo — Minha mãe me interrompeu sentando do meu lado na cama e afagando meu ombro — Eu também fiquei nervosa no meu teste, mas olhe para mim, e olhe para você! Com certeza você vai passar!

Minha mãe era uma ômega comum. Ela tinha 1,70 de altura e tinha o corpo desenhado por músculos suaves. Quando jovem treinara ao ponto de conseguir derrubar um touro com as mãos nuas e sem precisar se transformar. Então fez o teste e todos os seus exames (força, velocidade, destreza, agilidade, instinto, combate, rastreio, etc) deram resultado acima da média. Para uma ômega. Ela tinha 21 anos e havia treinado a vida toda pela oportunidade de subir de classe na matilha e não foi o suficiente. Então seus olhos se voltaram para mim. Eu era mais alta, mais forte e mais rápida do que ela jamais fora. Ela tinha sua confiança depositada em mim. Confiança essa que eu também tinha: se eu fizesse o teste, eu passaria. E isso estava fora de questão.

—Mãe, me escute. Eu já pensei nisso e estou decidida — Respirei fundo, pronta para destroçar as esperanças que a minha mãe tinha em mim — eu não quero fazer o teste, e eu não quero ser uma beta. Quero continuar sendo uma ômega, como você e o papai.

Pude ver a expressão de minha mãe mudar, primeiro para um desânimo deprimente, em seguida para uma sombra do que havia sido sua animação.

—Você pode ao menos fazer o teste, por mim? Só pra ver se você passaria, não precisa ir depois se não quiser — ela lutava para esconder um pequeno sorriso.

— Mamãe! Eu não vou mudar de ideia se passar no teste.

— Está bem — ela disse relutante- mas vai ser você a contar para o seu pai.



Contar para o papai foi mais fácil do que eu esperava. Ele não havia feito o teste de aptidão na época dele, então era de se esperar que ele não se importasse com isso, mas não. Desde quando eu era pequena ele falava que eu tinha que estar sempre preparada, e que apenas me tornar uma beta era a opção.

—Apenas um beta consegue se proteger de outras matilha e de caçadores — ele dizia, sempre olhando por cima do ombro quando treinávamos na floresta — você deve se tornar forte minha filha, o máximo que você pude ser.

Ele tinha vindo de outra matilha, que havia sido atacada, e carregava consigo as cicatrizes de um sobrevivente. Ele nunca havia contado a história toda para mim, apenas dizia que se ele tivesse se preparado melhor tudo seria diferente.

Por isso quando, reunidos na varanda após o jantar, eu disse que não queria me tornar uma beta, a reação dele me surpreendeu; ele começou a rir.

—Pai! — Eu fiz sinal para ele rir mais baixo quando ele soltou uma gargalhada estrondosa

— Então era só isso? -Ele deu um tapa no próprio joelho, como quem mata uma mosca — Sua mãe quase me mata de susto quando disse que vc tinha algo importante para me contar.

—Mas é algo importante- eu não podia acreditar no que estava ouvindo — é o meu futuro papai! O que poderia ser mais importante?

Ele colocou sua mão sobre meu joelho, afagando com o dedão.

—Só fico feliz que não tenha nada a ver com um garoto — Eu congelei, por que absolutamente tudo tinha a ver com um garoto — você é nova demais pra essas coisas. Imagina só se você arruma um parceiro nessa idade? Ia estragar sua juventude.

Meu rosto devia estar demonstrando meu completo horror, porque, em seguida meu pai levantou e ficou de costas pra mim, olhando as estrelas.

—Sabe Alyssa, uma coisa eu aprendi quando conheci sua mãe, que existe um amor que pode te transformar totalmente em alguém novo, melhor, além de tudo o que você acredita. E existe uma coisa que eu aprendi quando você nasceu. Que os lobisomens podem amar mais do que apenas seus parceiros. Então aproveite a vida primeiro minha filha, e quando você conhecer alguém…

Nessa hora eu estava mergulhada no mais profundo pânico. Como pode uma conversa evoluir tão rápido?

—Bem, por mais que eu queira que você seja mais velha quando começar a procurar, você sabe que não precisa esperar a vida inteira por um par predestinado…

Eu olhei pros lados, procurando desesperadamente uma saída dessa conversa constrangedora.

—Calma pai — Comecei, tentando afastar a conversa do assunto em questão — é cedo pra pensarmos nisso.

— Sim, eu espero que sim. Só não quis deixar você preocupada com o meu jeito de pai superprotetor — ele se voltou pra mim sorrindo — você fez uma cara horrível quando eu falei em garotos. Saiba que quando chegar a hora de me apresentar alguém eu vou estar do seu lado.

—Não vou apresentar ninguém. Quero dizer, não tem ninguém para apresentar. — Eu me corrigi rapidamente, mas senti minhas bochechas ficarem vermelhas com a mentira.

Meu pai estreitou os intensos olhos castanhos, brilhantes no escuro.

—Não minta para mim — Sua voz era de partir o coração — Será que você não quer se tornar uma beta porque está de olho em um dos garotos da vizinhança?

—Não estou de olho em garoto nenhum! -Minha voz subiu uma oitava.

—Sabe que pode confiar em mim, filha — Eu podia sentir a mágoa em suas palavras, mas não havia nada que eu poderia fazer.

Se eu dissesse que havia encontrado meu parceiro nada poderia me manter longe dele. Meus pais jamais entenderiam, nunca haviam ficado sequer meio dia separados desde que se conheceram. E havia a lei. Um parceiro não pode ficar a mais de um dia distância um do outro, e não deveriam passar mais de um dia sem se ver. Isso causaria enfraquecimento da nossa forma de lobo e grande sofrimento para ambos. Além de tudo, meu par é filho do Alpha, me afastar dele, seu enfraquecimento, poderia colocar a alcateia toda em perigo.

Apesar disso eu não me sentia realmente mal por estar longe de Erick. Quero dizer, ainda não tinha tido nenhuma lua cheia para eu saber se minha forma de lobo estava enfraquecida. Às vezes a nossa ligação poderia ser mais fraca do que as outras, e daí eu poderia esquece-lo de vez e viver minha vida como se nada tivesse acontecido. Era nisso que eu depositava minhas esperanças.

Notas finais
Gostaram? Não? Deem críticas construtivas nos comentários!!!! Beijinhooos!