Lobos E Morcegos, Eterna Disputa
1 Sequestro
Era a vez de Marsh passear com seus irmãos menores, Zeu e Seysyu. Eles eram gêmeos e tinham apenas dez anos. Zeu era o mais velho, um rapazinho de cabelos e olhos castanhos; Já Seysyu era uma doce menina, também de olhos e cabelos castanhos, porém, seus cabelos eram longos, diferente dos de Zeu. Apesar de gêmeos bivitelinos, eles eram muito parecidos em certos aspectos.
– Marsh-neesama, para onde nós vamos? – indagou Seysyu.
Seysyu segura a mão direita de Marsh, enquanto Zeu segurava a esquerda.
– Você não sabe? A nee-sama irá nos levar ao cemitério hoje! – Zeu curvou seu corpo para frente para que Seysyu pudesse vê-lo enquanto ele falava.
– Nós vamos mesmo ao cemitério, nee-sama? – perguntou Seysyu, apavorada. Ela apertou a mão de Marsh e hesitou antes de continuar a falar – Eu não gosto de cemitérios, pode ter fantasmas lá!
– Vamos visitar o túmulo de nossa mãe, há quanto tempo não vamos lá? – respondeu Marsh.
– Mas... Mas... Por que tem que ser a noite? É melhor de dia. – choramingou Seysyu.
– Nee, você sabe muito bem que não podemos ir de dia! – objetou Zeu.
– Pare com isso, Zeu, você está fazendo Sey chorar.
– Não podemos ir outro dia, nee-sama? – perguntou Seysyu.
– Não, nós vamos hoje. Se sentir medo, pode apertar minha mão.
– Ah, isso não é justo! – retrucou Zeu.
Eles caminharam por ruas sinuosas que os levaram do castelo a uma pequena capela. Aos fundos havia um cemitério, o tradicional cemitério da cidade de Flanders onde ali descansava todos os mortos da cidade por gerações. A cidade não costumava receber muitas pessoas de fora, as pessoas normais costumavam dizer que aquela era uma pacata cidade do interior. Por gerações os mortos eram enterrados no mesmo lugar, naquele cemitério.
Eles contornaram a capela e foram até os fundos, onde estava o cemitério. Na área mais isolada do lugar, encostadas na encosta da montanha, havia várias catacumbas. Estas eram propriedades das grandes famílias da cidade e onde enterrava seus mortos, todos os descendentes estavam lá dentro, no subsolo das catacumbas.
A maior catacumba fica no centro da fileira de catacumbas, esta pertencia à família Flander, a qual fundou a cidade. A família mais rica e de maior influência, era também a família que comandava a cidade e a qual Marsh, Zeu e Seysyu pertenciam. Eles faziam parte do ramo principal da família, os descendentes diretos do fundador.
Marsh levou as duas crianças para dentro da catacumba, desceram várias escadas até o fundo daquele lugar. Pelas paredes havia vários nichos com caixões de pedras ou urnas pequenas, mas era lá embaixo, após descer todas as escadas, que se encontrava o nicho com o corpo da mãe deles. Estava ao lado do avô de Marsh e as crianças, o nicho do outro lado de sua mãe estava vazio, reservado para seu pai.
– Por que a okaasan está aqui? – perguntou Seysyu.
– Ela está descansando junto do vovô e da vovó. Até parece que você não sabe disso, Sey. – disse Zeu.
– Não entendo. Por que tem um nicho vazio ao lado dela?
– É para o papai, sua tonta.
– Papai está vivo! E pare de me chamar de tonta, seu chato.
– Vocês dois querem parar?! – interveio Marsh.
– Ele que começou.
– Não quero saber, parem com essa discussão. Sey, coloque as flores no túmulo de mamãe.
Ela anuiu, então soltou a mão de Marsh, aproximou-se do nicho e colocou um pequeno vaso de flores, um misto de azaleias e lírios brancos, em cima do caixão.
– Pronto. – Seysyu segurou a mão de Marsh outra vez.
– Agora fechem os olhos e deixem uma mensagem mental para ela.
Eles a obedeceram e fecharam os olhos. Os dois nunca conheceram a mãe em vida, pois ela morrera durante o parto deles e, desde então, quem os criaram foram os servos da família, membros de linhagem mais afastada do fundador.
Enquanto diziam a mensagem mentalmente, um ruído vindo de fora correu para dentro da catacumba junto de uma brisa gelada.
– Nee-sama, podemos ir agora? Eu estou com medo. – disse Seysyu apertando a mão de Marsh com força.
– Os fantasmas vieram te buscar, Sey. – assombrou Zeu.
– Zeu, pare de assustar a Sey! Fantasmas não existem, Sey. Agora vamos.
Marsh levou os dois para fora da catacumba, caminhavam em direção à saída quando tudo aconteceu. Rapidamente eles foram cercados por um grupo de pessoas, ou lobos em forma de gente.
– Ora, ora, olha o que temos aqui, se não é a hime-sama e as duas pestes de seus irmãos! – pronunciou-se a líder do bando, Revolution.
– Não sou uma peste, sua loba fedorenta! – resmungou Zeu enquanto chutava a canela de Revolution.
Revolution se preparou para dar um tapa em Zeu quando Marsh se colocou na frente dos irmãos, protegendo-os.
– Você deveria cuidar mais dessa língua afiada que esse pirralho tem, hime-sama.
– Quem cuida das crianças são os criados.
– Deve ser por isso que essa peste é tão abusada.
Seysyu estava assustada e segurava a mão de Marsh cada vez mais forte enquanto se escondia atrás da irmã. Zeu parecia um valentão, não tinha medo e se colocava ao lado da irmã.
Revolution se aproximou do rosto de Zeu e disse bem próxima a ele.
– Vou colocar você e aquela medrosa da sua irmã num caldeirão e irei comer vocês dois. – a voz e a expressão de Revolution eram sombrias. Ela se endireitou, mantendo a coluna ereta, antes de gritar ordens aos seus soldados. – Peguem as crianças e mate a hime-sama.
Dois homens agarraram Zeu e Seysyu enquanto quatro, sendo um homem e três mulheres, atacaram Marsh. Revolution abandonou o campo de batalha junto com as crianças e os dois homens que as carregavam após gritar a ordem, deixando Marsh sozinha com três soldados.
Não demorou muito para a batalha ter seu fim. Eram três contra um e Marsh ainda tinha a desvantagem de não carregar qualquer tipo de arma consigo, ela só poderia se esquivar, socar ou chutar, o que não dava muito certo já que os lobos eram mais rápidos do que ela. Um soco com toda a força sobre-humana do único homem do grupo na cara de Marsh foi o suficiente para derrubá-la. Ela bateu com a cabeça quando caiu no chão e desmaiou.
Uma das mulheres se abaixou e levantou a cabeça dela pelos cabelos.
– Será que ela está morta? – perguntou a mulher segurando a cabeça de Marsh. – Ela está sangrando demais.
– Se ela não morreu ainda, morrerá em breve. Vamos embora, é perda de tempo continuar aqui. – respondeu o homem.
– Que princesa fraquinha essa, esperava mais. – disse a outra mulher do grupo.
– Ela é uma hime-sama, afinal, deve ser mimada como todos os outros. – disse o homem.
– É, deve ser...
Os três desapareceram enquanto Marsh continuou desmaiada, porém viva.
– Até quando vai ficar deitada ai? – Perguntou um homem furioso.
Marsh se sentou, sentia a cabeça rodar ainda e sentia-se fraca e faminta. Ela olhou para o homem que falava com ela, ele estava a sua frente, tinha os cabelos brancos e os olhos cinza. Era o seu pai, Mallow.
– Otoo-sama, o que está fazendo aqui?
– Estava em casa me perguntando porque diabos você estava demorando muito para voltar com seus irmãos e quando venho aqui ver, encontro a minha filha, a futura líder do nosso clã, desmaiada no chão como uma fraca. Onde estão seus irmãos?
Marsh olhou para os lados um pouco confusa na tentativa de se lembrar do que acontecera. Os irmãos não estavam em lugar algum e havia sangue seco no chão, onde estivera sua cabeça. Ela imediatamente levou a mão para cabeça, apalpando o machucado com sangue seco.
– Eu fui atacada pelos lobos, eles levaram a Sey e o Zeu. Perdoe-me, otoo-sama.
– Perdoar? Não, você não será perdoada até trazer-me seus irmãos para casa. Você é a futura líder de nosso clã, como pretende ser uma rainha sendo fraca desse jeito?! Se você não puder retornar com seus irmãos são e salvos, então não será capaz de nos liderar, será apenas motivo de chacota. Eu não tenho filhos covardes e fracos!
Mallow desapareceu na escuridão da noite, deixando Marsh uma vez mais sozinha e agora com uma ordem, ela deveria invadir o covil dos lobos e trazer seus irmãos de volta, ou morrer tentando.
Fale com o autor