Lobos & Dragões

6 Dama de Prata II


Dama de Prata

Quando a alvorada chegou, descobriu que não era capaz de enfrentar a ideia de comida. “Ao cair da noite, posso estar condenada.” Tinha o estômago ácido de bílis e sentia frio na barriga. “Aguentar uma última testemunha, e depois é a minha vez. Mas o que fazer? Negar tudo? Ou confessar, na esperança de passar o resto de meus dias no exílio com Aegon? Jogar os dados e rezar para que Sor Barristan consiga derrotar Sandor Clegane?”

Daenerys Targaryen apunhalou com indiferença uma salsicha gordurosa e cinzenta, desejando que fosse Cersei. Faz um calor dos demônios nas Cidades Livres, mas pelo menos ficaria isolado de Cersei. Seria uma rainha exilada, mas ainda casada com Joffrey. Aegon não poderia ser o herdeiro e Tommen, irmão mais novo do rei seria nomeado herdeiro. “Joffrey manteria o casamento sabendo que jamais teria um herdeiro seu? Esse casamento comigo é um obstáculo para ele se eu for julgada culpada.”

Viver exilada não era a vida com que sonhara, mas era vida melhor do que continuar ao lado de Joffrey. E tudo que tinha de fazer para conquistá-la era confiar em Lorde Tywin, erguer-se e dizer: “Sim, Aegon é um bastardo, filho de Jon Snow.” Essa era a parte que lhe dava nós nas entranhas. Por mais que fosse verdade, isso arriscaria sua vida, e mais importante, a vida de seu filho.

— Minha rainha? — disse Margaery Tyrell. — Eles estão aqui. Janos Slynt e os homens de manto dourado. Estão à espera lá fora.

— Margaery, diga-me a verdade... acha que sou culpada?

A amiga hesitou.

— Claro que não, minha rainha.

“Estou perdida.” Daenerys suspirou.

— Mesmo assim, foi uma boa amiga para mim. Uma das poucas que tenho nessa cidade.

Janos Slynt esperava à porta com seis homens de manto dourado. Nada tinha a dizer naquela manhã, aparentemente. “Outro homem que julga que trai Joffrey.” Daenerys armou-se de toda a dignidade que conseguiu arranjar e desceu as escadas. Sentia todos a observá-la enquanto cruzava o pátio; os guardas nas muralhas, os palafreneiros junto aos estábulos, os ajudantes de cozinha, as lavadeiras e as criadas. Dentro da Sala do Trono, cavaleiros e fidalgos afastaram-se para deixá-los passar e murmuraram aos ouvidos de suas senhoras.

Assim que Daenerys ocupou seu lugar perante Lorde Tywin, outro grupo de homens de manto dourado introduziu suas testemunhas de defesa na sala. Uma mão fria apertou-se em volta de seu coração. Todos que havia pedido estavam no local, exceto Jon Snow.

Margaery disse que Daenerys sempre foi tímida para os assuntos de cama, e nunca teve olhos para outro além do rei. Robb Stark afirmou que seu primo Jon via Daenerys como uma irmã para protegê-la dos perigos.

— Snow sempre me disse que seu maior sonho era envergar o manto branco da Guarda Real e proteger seus meios-irmãos, Joffrey e Daenerys. Disse que os irmãos nasceram para governar, e ele nasceu para servi-los com sua espada.

Renly Baratheon, com seus cabelos negros como carvão, finos e lisos, disse que Daenerys jamais trairia o rei, pois a prova viva eram os cabelos do Príncipe Aegon.

— Os meistres podem falar melhor do que eu, mas se o príncipe herdeiro fosse um bastardo, ele teria cabelos mais escuros, como Jon. Eles são prateados, mais escuros do que os Targaryen puros, admito, mas ainda sim prateados. Aegon também tem sangue Lannister nas veias. Sangue do Rei Joffrey.

Sor Loras Tyrell, conhecido como Cavaleiro das Flores, exaltou o espírito gentil de Daenerys, com seus trabalhos de caridade na Baixada das Pulgas e ajuda aos pobres do reino.

— Minha rainha tem a alma pura. Eu mesmo presenciei atos dela que fariam qualquer homem chorar de emoção. Ela mantinha Jon ao lado, mesmo sabendo que ele é um bastardo, para dizer ao povo que todos nós somos iguais. Não há ninguém melhor do que ninguém nesse mundo. O coração dela sempre pertenceu ao Rei Joffrey.

Daenerys ergueu o olhar para os olhos duros e verdes de Lorde Tywin, com as suas manchas de ouro frio e brilhante.

— Ouviram tudo isso e ainda acham que sou culpada? Querem uma confissão?

Lorde Tywin disse:

— As testemunhas da Rainha Cersei afirmam ter visto você aos beijos com Jon Snow. São vários relatos. Isso é um caso sério.

— Tudo mentiras — disse Daenerys. — E você sabe disso. Isso tudo é um circo. Eu já estou julgada e condenada. Fui condenada desde o dia em que me casei com Joffrey. Cersei nunca aceitou que meu pai me prometesse para Joffrey. Quando meu pai estava perto, Cersei me tratava como uma princesa. Quando meu pai desapareceu em Valíria, a mulher que podia ser uma mãe que eu nunca tive me maltratou e me humilhou. O único que me confortava e me dava paz era Jon. Por isso sempre fomos próximos. Se quiserem me culpar... já não me importa, mas não encostem um dedo no meu filho. Se ele sofrer...

— Isso é uma loucura — declarou Lorde Tywin. — Fale do assunto que aqui nos traz. Não tem nada a dizer em sua defesa?

— Nada a não ser isto... Aegon é meu filho com Joffrey! — Daenerys gritou. — Ele não é um bastardo! É o herdeiro do Trono de Ferro! Eu sou inocente, mas aqui não terei justiça. Não me deixam alternativa exceto apelar aos deuses. Exijo julgamento por combate.

— Perdeu o juízo? — Tywin disse.

— Exijo julgamento por combate!

Cersei Lannister não podia estar mais satisfeita.

— Ela tem esse direito — disse Cersei, que estava observando em silêncio todo esse tempo. — Deixem que os deuses julguem. Sandor Clegane, o Cão-de-Caça, lutará por Joffrey.

O rosto de Lorde Tywin estava sombrio. Foi o Rei Joffrey quem se virou para Daenerys e fez a pergunta, de cima, sentado no Trono de Ferro.

— Tem um campeão para defender a sua inocência?

— Tem, Vossa Graça — disse Sor Barristan Selmy, em pé. — A rainha conseguiu me convencer.

A algazarra foi ensurdecedora. Daenerys sentiu especial prazer na súbita dúvida que vislumbrou nos olhos de Cersei. Foi preciso que cem homens de manto dourado batessem com o cabo das lanças no chão para que a Sala do Trono voltasse a se aquietar. A essa altura, Lorde Tywin já estava recomposto.

— Que o julgamento por combate seja decidido amanhã — declarou Tywin.

Mais tarde, de volta à cela da torre, Daenerys serviu-se de uma taça de vinho e mandou os criados irem atrás de queijo, pão e azeitonas. Duvidava ser capaz de manter no estômago qualquer coisa mais pesada. “Achava que eu iria docilmente, Cersei?” Perguntou à sombra que as velas desenhavam na parede. Sentia uma estranha paz, agora que tinha tirado o poder de vida e morte das mãos de Cersei e o depositado nas mãos dos deuses. Assumindo que existem deuses, e que eles não estão pouco se lixando para o jogo dos tronos. Caso contrário, estou em mãos de Sor Barristan. Não importa o que acontecesse, Daenerys estava satisfeita por saber que tinha feito em pedaços os planos de Cersei. Se Sor Barristan ganhasse, isso iria inflamar ainda mais os Lannister. E se o Cão-de-Caça triunfasse, Jon Snow poderia perfeitamente querer saber por que motivo Daenerys tinha sido brindado com a morte em vez da justiça que o rei lhe prometera. Jon Snow podia liderar uma rebelião nos Sete Reinos, assim como Robert. E coroar Aegon.

Naquela noite, surpreendentemente, Daenerys Targaryen dormiu longa e profundamente. Acordou à primeira luz da aurora, bem repousada e com um robusto apetite, e quebrou o jejum com pão frito, morcela, bolinhos de maçã e uma dose dupla de ovos cozidos com cebolas. Depois pediu licença aos guardas para visitar o seu campeão. Janos Slynt consentiu.

Daenerys foi encontrar Sor Barristan Selmy enquanto punha a armadura branca esmaltada. Era servido por quatro de seus fidalgos mais novos.

— Um bom dia para a minha rainha — disse Sor Barristan.

— Bom dia, sor. Conhece bem as habilidades do Cão-de-Caça, né?

— É um guerreiro extremamente forte e muito rápido, mas posso vencê-lo — disse Barristan, erguendo os braços para que os fidalgos pudessem enfiar uma longa camisa de cota de malha por sua cabeça.

Para o combate fora escolhido o pátio exterior. O dia estava cinzento e ventoso, e o sol lutava para abrir caminho por entre as nuvens, mas Daenerys não seria mais capaz de indicar quem iria vencer a luta da qual a sua vida dependia.

Muitas pessoas apareceram para ver se ela iria sobreviver ou morrer. Aglomeravam-se ao longo dos adarves do castelo e acotovelavam-se nos degraus de torres e fortalezas. Observavam a partir de portas de estábulos, de janelas e pontes, de varandas e telhados. E o pátio estava repleto, tanta gente que os homens de manto dourado e os cavaleiros da Guarda Real tinham de empurrar todos para trás, a fim de abrir espaço suficiente para o combate. Alguns tinham trazido cadeiras para assistir com mais conforto, enquanto outros se empoleiravam em barris. “Devíamos ter feito isso no Fosso dos Dragões”, pensou amargamente Daenerys. Alguns dos espectadores até tinham crianças pequenas montadas sobre os ombros para verem melhor. Gritavam e apontavam ao ver Daenerys.

A própria Cersei parecia quase uma criança ao lado de Sandor Clegane. Cão-de-Caça vestia cota de malha, armadura negra como fuligem, um assustador elmo ornamentado com a forma de uma cabeça de um cão negro rosnando com dentes arreganhados e um manto carmesim sobre a armadura.

Daenerys tinha suas próprias dúvidas, agora que se encontravam à beira do combate. Quando olhou para Sor Barristan viu-se desejando ter Jon Snow para defendê-la, ou melhor ainda, seu dragão Archonei.

Tinham erigido uma plataforma ao lado da Torre da Mão, a meio caminho entre os dois campeões. Era aí que se sentava Lorde Tywin com seu tio, Príncipe Viserys. O Rei Joffrey não estava visível; pelo menos por isso Daenerys sentia-se grata.

Lorde Tywin deu um breve relance a Daenerys, e então levantou a mão. Uma dúzia de trombeteiros soprou uma fanfarra para aquietar a multidão. O Alto Septão avançou com passinhos curtos e rezou para que o Pai no Céu os ajudasse naquele julgamento e para que o Guerreiro emprestasse a sua força ao braço do homem cuja causa era justa. Sor Osmund Kettleblack trouxe a Sandor Clegane o seu escudo, uma coisa enorme de pesado carvalho reforçado com ferro negro.

O combate começou. Sor Barristan girou, erguendo o pesado escudo. Cão-de-Caça virou-se para enfrentá-lo. As espadas ressoaram, uma, duas vezes, testando-se. O Cão-de-Caça recuou um passo. O cavaleiro avançou, segurando o escudo à sua frente. Tentou um golpe, mas Clegane saltou para trás, bem para lá do seu alcance, e a lâmina prateada apenas cortou ar. Sandor Clegane rodeou-o pela direita. Sor Barristan virou-se, seguindo-o, mantendo o escudo entre ambos. O cavaleiro avançou, pousando com cuidado os pés no chão. Cão-de-Caça cedeu. Sor Barristan atacou, lançando estocadas, mas Clegane saltou para fora de seu alcance, pulando com rapidez.

Agora, Clegane flanqueava pela esquerda, para longe do escudo, na direção do lado desprotegido do cavaleiro. Sor Barristan tentou uma estocada nas suas pernas, mas não tinha alcance suficiente. Clegane dançou mais para a esquerda. Sor Barristan girou no mesmo lugar. “Uma dança onde o menor passo em falso significaria a morte.”

Sor Barristan atacava Clegane com força, caindo-lhe em cima com o escudo e a espada. Cão-de-Caça recuava, parando todos os golpes, saltando agilmente, sem nunca afastar os olhos do inimigo. Daenerys viu que ele era o mais rápido; a espada prateada de Barristan nunca chegava perto de tocá-lo.

Clegane deu um passo para o lado e deslizou para trás. Sor Barristan golpeou o local onde ele estivera, fazendo saltar uma faísca do chão. Sandor Clegane saiu de trás, duro e rápido, ainda deslocando-se para a esquerda, desferindo um golpe a duas mãos no desprotegido lado direito do cavaleiro. Sor Barristan o parou, mas de forma desajeitada, e a espada do Cão-de-Caça relampejou para cima, na direção de sua cabeça. Metal ressoou, e o elmo de Barristan fez um estrondo. Sor Barristan deu meio passo para trás a fim de se recuperar do golpe e ergueu o escudo. O Cão-de-Caça voltou a dar um passo para a esquerda, para longe do escudo, e apanhou Sor Barristan no estômago, abrindo um corte brilhante quando o aguçado gume da espada penetrou no peitoral do cavaleiro.

Sor Barristan apoiou-se no pé para avançar, fazendo descer sua lâmina prateada num arco violento. Clegane afastou-o para o lado e dançou para longe. Barristan deu um passo para trás, virando a cabeça para um lado e para o outro em busca do adversário. A ranhura na viseira do elmo estreitava seu campo de visão.

Clegane fez cair a espada, com ambas as mãos, apanhando Sor Barristan no cotovelo do braço que empunhava a arma. As finas tiras de metal que protegiam a articulação se quebraram. O cavaleiro soltou um grunhido, virando-se, torcendo a espada para cima. Dessa vez, Cão-de-Caça manteve-se firme. As espadas voaram uma contra a outra, e a canção de aço encheu o pátio exterior.

Daenerys via o brilhante sangue que corria ao longo do braço de Barristan Selmy, a umidade dentro da articulação do cotovelo. Cada parada era um pouco mais lenta e um pouco mais baixa que a anterior. Sor Barristan virou o flanco ao adversário, tentando usar o escudo para bloquear a espada de Clegane, mas Cão-de-Caça deslizou ao seu redor, rápido como um gato. Parecia ficar cada vez mais forte. Seus golpes agora deixavam marcas. Profundos golpes brilhantes cintilavam por todo lado, na armadura branca do cavaleiro da Guarda Real, na sua coxa direita, na viseira, no peitoral.

Sor Barristan avançou e chocou-se contra Clegane e atirou a aresta do escudo contra o rosto do Cão-de-Caça. Clegane quase perdeu o apoio, cambaleando para trás. Atirando fora o escudo, Sor Barristan guinou sobre ele, usando ambas as mãos para erguer a espada. O braço direito estava agora com sangue do cotovelo aos dedos, mas seu golpe teria talhado Sandor Clegane do pescoço ao umbigo, se o Cão-de-Caça tivesse se levantado para recebê-lo. Mas Clegane saltou para trás. A bela espada prateada resvalou em Clegane.

Num instante, Clegane estava sobre Barristan, a fim de expor o ponto fraco entre o braço e o peitoral. Sor Barristan jazia de lado. Daenerys ouviu o cavaleiro gemer quando Clegane ergueu sua arma com ambas as mãos e a baixou, pondo no golpe todo o seu peso, por baixo do braço e por entre as costelas. Sor Barristan Selmy estremeceu e ficou imóvel.

Pairou o silêncio no pátio. Sandor Clegane arrancou o elmo na forma de cão. Tinha o lábio amassado e sangrento onde fora atingido pelo escudo, e os cabelos estavam empapados de suor. Cuspiu um dente partido.

“Perdi”, pensou. Não chegou a ouvir Lorde Tywin proferir as palavras que a condenavam. Talvez não houvesse necessidade de palavras. “Pus a minha vida nas mãos de Sor Barristan, e ele deixou cair.”

Já tinha descido metade da escada em espiral quando percebeu que os homens de manto dourado não a estavam levando de volta à sua cela na torre.

— Fui mandado para as celas negras? — Daenerys perguntou. Não obteve resposta. Para que gastar saliva com os mortos?

Notas finais
Obrigado pela leitura. Todo feedback será ouvido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.