Lobos & Dragões
3 Lobo Alado

Lobo Alado
O céu estava tão negro quanto os pântanos do Gargalo, e a chuva caía suave e constante, abafando o som dos cascos dos cavalos e escorrendo por seus rostos. Avançaram para o sul, para longe do Vau Vermelho, seguindo uma estrada rural cheia de sulcos, através de campos destroçados e atravessando bosques e riachos. Bran tomou a dianteira, incitando o cavalo a um imprudente trote rápido até as árvores se fecharem à sua volta. Seu lobo gigante, Verão, ia ao seu lado, enquanto Jojen e Meera Reed seguiram o melhor que conseguiram. Lobos uivavam à distância, e ele sabia que Jojen estava cansado. Ninguém falou. De tempos em tempos, Bran lançava um olhar, de relance, por sobre o ombro, para se certificar de que os irmãos Reed não tinham ficado muito para trás, e para ver se eram perseguidos.
Quando cruzaram o primeiro riacho, Bran virou o cavalo para o lado e levou-os para fora da estrada, seguindo o sinuoso curso de água ao longo de um quarto de milha até, por fim, subir uma margem pedregosa. Esperava que isso os fizesse perder o rastro. Não podiam ficar na estrada. “Há muitos olhos na estrada”, disse a si mesmo.
A chuva parou, recomeçou e voltou a parar e a recomeçar, mas tinham bons mantos para deixar a água afastada. Bran Stark manteve-os em movimento a um ritmo lento e regular. Estava escuro demais sob as árvores para avançar mais depressa; os irmãos Reed não eram cavaleiros, nenhum dos dois, e o terreno fofo e acidentado era traiçoeiro, cheio de raízes semienterradas e pedras escondidas. Atravessaram outra estrada, cujos profundos sulcos estavam cheios de água, mas Bran evitou. Levou-os para cima e para baixo ao longo das colinas arredondadas, através de arbustos, espinheiros e emaranhados de vegetação rasteira, pelo fundo de barrancos estreitos, onde galhos pesados de folhas úmidas estapeavam seus rostos quando passavam.
A égua de Meera perdeu uma vez o equilíbrio na lama, caindo com força sobre os quartos traseiros e derrubando-a da sela, mas nem cavalo nem cavaleiro se feriram, e Meera fez aquela sua expressão teimosa e logo voltou a montar. Não muito tempo depois, se depararam com três lobos que devoravam o cadáver de um cervo. Quando o cavalo de Jojen detectou o cheiro, espantou-se e fugiu. Dois dos lobos fugiram também, mas o terceiro ergueu a cabeça e mostrou os dentes, preparado para defender a caça, mas recuou quando viu Verão. A pelagem de Verão é prateada misturado com cinza escuro e seus olhos são amarelos dourados. Um lobo gigante é um parente do lobo comum, porém maior e mais forte. Podem crescer até o tamanho de pôneis. Proporcionalmente aos seus corpos, suas pernas são mais longas e suas cabeças e focinhos maiores do que em lobos normais.
— Não — disse Bran a Verão. — Não ataque.
Desviaram as montarias até que o lobo e seu banquete ficaram fora de vista. Foi só então que ele deu meia volta para ir ao encalço de Jojen, que se agarrava desesperadamente à sela enquanto avançava por entre as árvores. Mais tarde, passaram por uma aldeia, abrindo caminho com cuidado por entre as paredes de choupanas. Quando os plebeus viram Verão, ficavam assustados e erguiam os olhos para Bran.
Esse foi o dia sem alvorada. Lentamente, o céu foi clareando ao redor deles, mas nunca chegaram a ver o sol. O negro transformou-se em cinza, e as cores retornaram timidamente ao mundo. Os pinheiros vestiam-se de verdes sombrios, as árvores de folha caduca, de vermelhos escuros e dourados desvanecidos, que já começavam a ficar amarronzados. Pararam tempo suficiente para dar água aos cavalos e comer um café da manhã rápido e frio, desfazendo um dos pães que Jojen tinha em sua bolsa, e passando de mão em mão nacos duros de queijo amarelo.
— Sabe onde estamos? — Meera perguntou.
— Ao sul do Vau Vermelho — disse Bran.
Jojen olhou em volta com ar incerto.
— Para que lado fica o sul?
Bran usou o queijo para apontar.
— Para lá.
— Mas não há sol. Como é que você sabe?
— Pelo musgo. Está vendo como cresce principalmente de um dos lados das árvores? Esse é o sul — disse Bran, que desenrolou o mapa que Howland Reed lhe deu, a fim de lhes mostrar. — Está vendo? Quando chegarmos a Harrenhal, tudo que temos de fazer é seguir até o Olho de Deus abaixo, até chegarmos a Ilha das Faces, aqui — traçou o percurso com o dedo. — É um longo caminho, mas não dá para se perder.
Jojen piscou os olhos para o mapa.
— Qual deles é Harrenhal?
Harrenhal estava pintado como uma torre de castelo.
— Aqui — Bran tocou no mapa.
Nesse dia, Bran apressou o passo, mantendo os cavalos a trote o máximo de tempo que se atreveu, e às vezes pondo-os a galope, quando via uma extensão plana de terreno pela frente. Mas isso acontecia raramente, pois, à medida que avançavam, o terreno ia se tornando mais acidentado. Os montes não eram altos, nem tinham declives particularmente acentuados, mas pareciam não ter fim, e logo se cansaram de subir um e descer outro. Deram por si seguindo o mapa, percorrendo os leitos de riachos e atravessando um labirinto de vales arborizados pouco profundos, onde as árvores formavam um arco sobre suas cabeças.
De tempos em tempos, entrava na pele do lobo gigante para ir à frente, a fim de tentar apagar o rastro, sempre atento ao primeiro sinal de perseguição. Apesar de sua pouca idade, Bran se tornou um warg experiente com o treinamento de Howland Reed em Atalaia da Água Cinzenta. Inicialmente ele só entrava na mente de seu lobo gigante, Verão, durante o sono e acreditava estar tendo apenas sonhos. Uma vez que chegou em Atalaia da Água Cinzenta, descobre que é um warg. É capaz de entrar em seu lobo durante as horas de vigília e controlar o corpo, em vez de simplesmente experimentar tudo o que o lobo gigante faz. Certa vez, do topo de uma serra, vislumbrou uma matilha de lobos. Dentro de Verão, uivou, e quando o maior dos lobos levantou a cabeça e uivou de volta, o som fez Bran tremer.
Por volta do meio-dia, Jojen começou a se queixar. Tinha o traseiro dolorido, disse-lhes, e a sela o estava deixando em carne viva entre as pernas e, além disso, tinha de dormir um pouco.
— Estou tão cansado que acho que vou cair do cavalo.
Bran olhou para Meera.
— Logo todos nós vamos parar, Jojen — disse Meera. — Aguente mais um pouco.
Jojen não caiu do cavalo. A chuva recomeçou pouco depois. Ainda não tinham sequer vislumbrado o sol. Estava ficando mais frio, e uma pálida névoa branca penetrava por entre os pinheiros e era soprada através dos campos das terras fluviais.
Meera enfrentava quase tanta dificuldade quanto Jojen, embora fosse teimosa demais para se queixar. Sentava-se desajeitadamente na sela, com uma expressão determinada no rosto, por baixo dos cabelos longos e castanhos, e olhos verdes. “São cranogmanos”, pensou Bran, “não estão acostumados a cavalgar nos pântanos.”
Os cranogmanos são assim chamados por seu hábito de viver em pequenas aldeias formadas por casas de sapé e junco trançados, em ilhas flutuantes escondidas nas profundezas do pântano. Eles são um povo pobre e raramente deixam suas terras, vivendo da pesca e da caça de rãs. São caçadores talentosos e guerreiros e, apesar de sua baixa estatura e estilo de vida um tanto primitivo, os cranogmanos provaram ser um povo notoriamente difícil de conquistar. Eles usam redes, facas, lanças de bronze, e escudos de couro redondos. Eles lutam com armas envenenadas, táticas de guerrilha, e possuem um domínio de seu difícil terreno. Em Winterfell, Bran montava desde que se conhecia por gente, pôneis quando era pequeno e mais tarde cavalos.
Bran sabia que, sozinho com Verão, avançaria muito mais rapidamente, mas não podia abandoná-los. Era a sua matilha, os seus amigos, e Howland Reed prometeu que seus filhos iriam acompanhá-lo até a Ilha das Faces. “Meus filhos vão auxiliá-lo para o que precisar”, disse Howland em Atalaia da Água Cinzenta, “serão importantes na sua jornada, assim como eu fui durante o seu treinamento.”
Encontrou um riacho, e teve de cavalgar um quilômetro ao longo da margem antes de finalmente encontrar um local onde parecia seguro atravessar, e mesmo aí a égua mostrou-se relutante em entrar na água. O rio, não importa qual fosse seu nome, corria turvo e rápido, e a parte profunda do meio ultrapassava a barriga do cavalo. Verão foi o primeiro a atravessar. Na vez de Bran, a água encheu as suas botas, mas ele pressionou os calcanhares contra o animal mesmo assim e saiu do rio na outra margem. Atrás de si, ouviu um respingar de água e o relincho nervoso de uma égua. Virou-se para observar os irmãos lutando para atravessar e emergindo, pingando, a seu lado.
Anoitecia quando pararam para deixar os cavalos descansarem novamente e para partilhar outra refeição de pão e queijo.
— Estou com frio e molhado — queixou-se Jojen.
Avançando penosamente a passo lento enquanto a luz se desvanecia em volta deles, Bran descobriu que sua própria exaustão pesava bastante sobre si. Precisava dormir tanto quanto Jojen. Mas, ao fim de algum tempo, os movimentos do cavalo tornaram-se tão tranquilizadores quanto o balançar de um berço, e Bran começou a ficar com os olhos pesados. Deixou-os fechar, só por um instante, depois voltou a abri-los, sobressaltada. “Vou cair do cavalo”, pensou, “preciso parar.”
— Vamos parar e descansar — disse Bran.
Estava tão cansado que precisou lutar até para descer da sela, mas lembrou-se de prender o cavalo antes de encontrar um lugar debaixo de uma faia. O chão era duro e estava úmido. Perguntou a si mesmo quanto tempo passaria até dormir novamente numa cama, com comida quente e fogo para aquecê-lo.
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