Lobos & Dragões
4 Dama de Prata

Dama de Prata
— Daenerys — disse o tio, Príncipe Viserys. — Se Aegon é realmente filho de Joffrey, não devia ter nenhuma dificuldade em prová-lo no tribunal.
Daenerys Targaryen deu as costas à janela.
— A quem cabe me julgar?
— A justiça pertence ao Trono de Ferro. O rei é parte interessada, portanto, cabe à Lorde Tywin, como Mão.
Daenerys se sentiu pouco encorajada.
— Serei autorizada a exigir julgamento por combate?
— Não o aconselharia.
— Por que não? Não será permitido que eu tenha um julgamento por combate, e um campeão para provar a minha inocência?
— Certamente, se for esse o seu desejo. No entanto, é melhor que saiba que o rei pretende nomear Sandor Clegane como o campeão dele, no caso de um julgamento desses.
“Jon conseguiria vencê-lo”, pensou.
— Vou ter de dormir sobre o assunto — disse Daenerys. — Tenho de enviar um corvo para Jon, e depressa — não queria pensar no que era provável que aquilo lhe custasse. Não fazia ideia onde Jon estava. — Cersei tem testemunhas contra mim?
— Mais a cada dia que passa.
— Então tenho de ter testemunhas minhas.
— Diga-me quem quer, e Janos Slynt enviará a Patrulha da Cidade para trazê-las ao julgamento.
— Preferia ser eu próprio a procurá-las.
— É acusada de alta traição. Será que realmente imagina que lhe não será permitido ir e vir a seu bel-prazer? — Viserys fez um gesto na direção da mesa. — Tem pena, tinta e pergaminho. Escreva o nome das testemunhas de que necessita, e eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para apresentá-las, dou-lhe a minha palavra. Mas não sairá desta torre, exceto para ser julgada.
Daenerys não se rebaixaria a suplicar.
— Vai autorizar a minha amiga a ir e vir? Margaery Tyrell?
— Decerto, se for esse o seu desejo. Vou mandá-la para cá.
— Faça isso.
Quando ouviu a porta se abrindo, virou-se e disse:
— Tio?
Príncipe Viserys fez uma pausa.
— Sim?
— Acredita na minha palavra ou na de Cersei?
— Gostaria de poder acreditar na sua.
Quando a porta se fechou, Daenerys Targaryen içou-se para a cadeira, afiou uma pena e pegou um pergaminho em branco. “Quem falará por mim?” Molhou a pena no tinteiro.
A folha continuava virgem quando Margaery Tyrell apareceu, algum tempo mais tarde.
— Minha rainha — disse. Possuía suaves olhos de corça e cabelos castanhos encaracolados. Seu sorriso era tímido e doce.
Daenerys pousou a pena.
— Amiga. Preciso de você para testemunhar a meu favor.
— Sim, claro — disse Margaery. — Conte comigo para tudo, minha rainha.
Margaery foi sua companhia na cela até ao pôr do sol. Depois, Daenerys adormeceu na modesta cama e acordou tensa e dolorida à alvorada. Um criado trouxe mingau de aveia e maçãs para o desjejum, com um vinho tinto da Árvore. Comeu à mesa, com o pergaminho apenas com o nome de Margaery na sua frente. Uma hora mais tarde, o criado voltou para levar a tigela. Suspirando, virou-se para a mesa e pôs de novo tinta na pena. “Robb Stark”, escreveu no pergaminho. Ficou fitando o nome, pensando se o primo de Jon testemunhasse a seu favor.
Mesmo assim, deu o pergaminho ao tio no dia seguinte. Príncipe Viserys franziu a testa ao vê-lo.
— Margaery Tyrell, Robb Stark, Sor Loras Tyrell e Renly Baratheon. Os irmãos Tyrell e os herdeiros de rebeldes? Só isso?
— Pensarei em outras há seu tempo.
— É melhor que pense nelas já. Lorde Tywin pretende dar início ao julgamento dentro de três dias.
— Isso é cedo demais. Vocês me têm aqui fechado e guardado, como vou encontrar testemunhas da minha inocência? Como Jon vai saber a tempo?
— Cersei não teve nenhuma dificuldade em encontrar testemunhas da sua culpa — disse Viserys, enrolando o pergaminho. — Varys ofereceu cem veados de prata por notícias sobre o paradeiro de Jon Snow. Se ele puder ser encontrado, eu vou trazê-lo até você. Lembre-se que Jon também está sendo acusado de alta traição.
Príncipe Viserys fez-lhe outra visita mais tarde nesse dia, e mais uma no dia seguinte. O tio informou-a polidamente de que Jon Snow não havia sido encontrado. “Desejaria convocar mais testemunhas? Não desejava. Como vou provar que Aegon não é filho bastardo de Jon?” Não pregou o olho naquela noite.
Em vez de dormir ficou deitado no escuro, fitando o dossel e contando os seus fantasmas. Viu Jon sorrindo enquanto a beijava, viu Aegon tremendo de medo. Viu os olhos de Cersei e seu sorriso malvado. E então chegou a alvorada, e a hora de seu julgamento começar.
Não foi Viserys que veio buscá-la naquela manhã, mas Janos Slynt com uma dúzia de homens de manto dourado. Daenerys tinha quebrado o jejum com ovos cozidos, bacon queimado e pão frito, e vestiu a sua melhor roupa.
— Senhor — disse Daenerys. — Achei que Lorde Tywin enviaria a Guarda Real para me escoltar até o julgamento. Ainda sou um membro da família real, não sou?
— Sim, minha rainha, mas temo que a maior parte da Guarda Real seja testemunha contra a senhora.
O julgamento teria lugar na Sala do Trono. Quando Janos Slynt a escoltou através das altas portas de bronze e pelo longo tapete, sentiu os olhos postos nela. Centenas de pessoas tinham se aglomerado dentro da sala para vê-la julgada. Pelo menos esperava que tivesse sido por isso que tinham vindo. “Pelo que sei, são todas testemunhas contra mim.” Viu Margaery na galeria, pálida e bela. O estrado ainda se encontrava por baixo do Trono de Ferro, onde seu marido Joffrey se elevava. Lorde Tywin Lannister sentava-se abaixo de Joffrey no lado direito do Trono de Ferro.
O Alto Septão começou com uma prece, pedindo ao Pai no Céu que os guiasse à justiça. Quando terminou, Lorde Tywin inclinou-se para frente para dizer:
— Rainha Daenerys. O Príncipe Aegon é filho legítimo do rei?
O maldito não quer perder um segundo.
— Sim.
— A Rainha Cersei alega que o Príncipe Aegon é filho bastardo de Jon Snow.
— Mentira — disse Daenerys. — Sou noiva do Rei Joffrey desde que meu pai Rhaegar nos prometeu. Só dormi na cama do rei.
— Há testemunhas contra você — disse Lorde Tywin. — Vamos ouvi-las primeiro. Então, poderá apresentar as suas testemunhas. Só pode falar com a nossa licença.
Nada havia que Daenerys pudesse fazer além de assentir com a cabeça. Janos Slynt tinha falado a verdade; o primeiro homem a ser introduzido na sala foi Sor Balon Swann, da Guarda Real.
— Senhor Mão — começou, depois do Alto Septão ter aceitado o seu juramento de dizer apenas a verdade. — Minha rainha é uma mulher de honra, corajosa, e não quero acreditar que tenha cometido este ato.
Um murmúrio percorreu a sala, e Daenerys perguntou a si mesmo que jogo louco estaria Cersei jogando. “Por que convocar uma testemunha que me julga inocente?” Em breve ficou sabendo. Sor Balon falou relutantemente de como tinha visto Daenerys trocando olhares com Jon Snow nos corredores da Fortaleza Vermelha, disfarçando quando alguém se aproximava.
— Pareciam estar escondendo algo — concluiu.
Sor Meryn Trant expandiu alegremente o relato de Sor Balon, quando ocupou o seu lugar como testemunha.
— A Rainha Daenerys sempre ficava aos risinhos ao lado de Jon. A alegria dela ao lado dele era nítida. Imaginem o que faziam quando estavam sozinhos.
Daenerys começou a compreender o plano de Cersei. Ela começou com um homem sabidamente honesto, e ordenhou dele tudo o que podia dar. Cada testemunha que seguir contará uma história pior, até que Daenerys pareça tão má quanto Maegor o Cruel e o Rei Louco combinados, com uma pitada de Aegon o Indigno, para dar sabor.
— Imaginem? — disse Daenerys. — Está fazendo suposições, Sor Meryn?
— Silêncio, por favor — disse Lorde Tywin para Daenerys.
Os Kettleblack vieram a seguir, todos os três, um de cada vez. Osney e Osfryd contaram a história de seu almoço com Cersei antes do casamento e relataram que Daenerys não queria se casar com Joffrey.
— Ela disse a Rainha Cersei que não queria se casar — disse Sor Osfryd.
O irmão Osney detalhou.
— Ela disse que queria se casar por amor e não por dever.
Sor Osmund Kettleblack, um retrato da cavalaria com uma imaculada armadura de escamas e manto branco de lã, jurou que viu Daenerys e Jon Snow se beijando uma noite.
— Foi no dia em que me deram o manto branco — disse ao Lorde Tywin. — O castelo já dormia, mas eu estava muito feliz pela honra que Vossa Graça concedeu a mim, portanto, bebi muito, por toda noite. Quando estava voltando para Torre da Espada Branca, vi a Rainha Daenerys nos braços do bastardo.
Lorde Tywin olhou de relance as janelas e levantou-se.
— A hora já está bem adiantada. Continuaremos de manhã.
Daenerys olhou para cima, no Trono de Ferro, para Joffrey. O rei possuía os traços Lannister de Cersei, alto para sua idade, com cabelos loiros encaracolados, olhos verde-claros, lábios cheios e um olhar de desdém.
— Está gostando deste circo, Vossa Graça? — Daenerys perguntou.
Joffrey nada respondeu. Naquela noite, sozinha em sua cela de torre e uma taça de vinho, Daenerys deu por si a pensar em Aegon. O amor dele estava mais próximo do que o de Jon. Mais tarde, quando Viserys lhe fez a visita da noite, Daenerys perguntou pelo príncipe.
— Meu filho. Mande-o aqui, tio, por gentileza.
— Como quiser.
Bebia junto à janela por quase uma hora, até ouvir vozes do lado de fora da porta. “Meu filho está chegando”, pensou de imediato, mas Aegon não entrou sozinho.
— Sor Barristan?
O velho cavaleiro fez uma reverência. Barristan Selmy tem um rosto gentil, enrugado e solene, que possui grande dignidade e força. Mesmo tendo idade avançada, é um dos mais respeitados cavaleiros de Westeros.
— Estou protegendo dia e noite o Príncipe Aegon, minha rainha — disse ele.
— Oi, mãe...
Aegon tinha completado cinco anos, era magro e ágil, com o rosto bem escanhoado, traços elegantes, cabelo cinza prateado e reluzente que caia até o colarinho e olhos violeta escuros que combinava com seu gibão de seda preta com acabamento em cetim.
— Olá, meu amor — disse Daenerys, se abaixando e beijando o rosto do filho. O calor do abraço a fez esquecer dos problemas por um instante.
Sor Barristan sentou-se, enquanto Daenerys colocou Aegon junto a ela, no colo.
— Obrigado — disse Daenerys. — Deveria ir, sor. Lorde Tywin pode não gostar de você estar aqui.
— Lorde Tywin nunca esteve numa posição elevada em minha lista de interesses — disse Barristan.
— Aceita vinho, sor? Vinho da Árvore.
— Não, obrigado, minha rainha. Estou aqui para lhe dizer algo importante. Não sei se Aegon é filho do rei, e não sei se Aegon é filho de Jon. Sei que Aegon é seu filho, e isso basta. Rei Joffrey e a Rainha Cersei estão afundando o reino, e a senhora é uma pessoa melhor que esses dois.
— Deveria ter mais cuidado com as palavras, sor — disse Daenerys. — Varys o Aranha tem olhos e ouvidos nesse castelo. Se isso chegar para Lorde Tywin terá problemas.
— Não se preocupe comigo. Lorde Tywin tenta corrigir os erros, mas não vai viver para sempre. O Rei Louco era insano, mas não tinha dragões como Joffrey tem. Uma arma poderosa dessa em mãos erradas trará caos ao reino.
Algo no modo como Barristan disse aquilo arrepiou os pelos na nuca de Daenerys. “Joffrey tem muitos defeitos, mas seria ele capaz de superar a loucura de Aerys?”
— É provável que seja condenada — Barristan continuou. — A justiça é um bem escasso em Porto Real.
— Que jogo é esse que está jogando, sor? — disse Daenerys.
— Não estou jogando nenhum jogo, minha rainha. Valdocaso foi meu melhor momento, mas essa memória tem um gosto amargo. No entanto, meus fracassos que me assombram à noite. Jaehaerys, Aerys, Rhaegar. Três reis mortos. Rhaegar, o melhor deles, morreu tão jovem. Morto, cada um deles, mas eu ainda vivo. Eu, que jurei protegê-los.
— Agora você protege Joffrey — disse Daenerys.
— E a senhora está aqui. Não me importa quem é o pai do Príncipe Aegon. Ninguém naquele tribunal a salvará.
— Margaery, Robb, Renly e o Cavaleiro das Flores vão testemunhar a meu favor — disse Daenerys. — Há esperança...
O velho cavaleiro sorriu.
— Mas eu talvez o faça.
— Você? — Daenerys disse. — Vai testemunhar a meu favor?
— Como sua testemunha... não — disse Barristan. — Como seu campeão.
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