Lobos
6 Eu não a reconheci
Notas iniciais
6º Capitulo – Eu não a reconheci
O hospital de Konoha contava com uma sala de espera particularmente grande. O local era confortável e continha dois pares de sofás de três e dois lugares, uma mesinha de centro, cheia de revistas para proporcionar distração àqueles que esperavam por notícias. Também havia uma mesa onde sempre havia água, chá e café, isso sem contar na máquina de refrigerante.
Naquele momento Kakashi, Inoichi e Sasuke aguardavam por notícias do estado de saúde da humana que havia sido trazida às pressas para o hospital.
Sasuke se mantinha afastado de todos, ainda não havia aceitado o que havia feito. Mantinha-se em silêncio, preso em pensamentos.
A porta da sala abre-se automaticamente à aproximação de Naruto. O loiro estava com um curativo sobre o olho esquerdo e seu queixo estava inchado e arroxeado. Ele cumprimenta Kakashi e Inoichi com um movimento de cabeça e se aproxima em silêncio de Sasuke, que mantinha a cabeça apoiada sobre o encosto do sofá com os olhos fechados.
– Teme.
O chamado faz com que o moreno reaja rapidamente, pondo-se de pé em dois segundos. Estava tão perdido em pensamentos que nem havia sentido o cheiro de seu Beta se aproximar. Seu olhar de culpa foi facilmente percebido por todos.
– Nem me venha com essa cara Teme. São só arranhões. Em alguns dias não terei mais nenhuma marca. – Fala despreocupado como sempre.
– Não sei o que me deu. – Justifica-se.
– Fiquei sabendo da humana. – Muda o assunto. – Já tiveram notícias?
– Já fazem três horas e nada. Karin e Tsunade estão cuidando dela. – Fala voltando a sentar-se sendo acompanhado pelo amigo que senta-se a seu lado.
– Elas são boas. Detesto minha prima, mas Karin é uma boa médica. Se houver um meio de ajudá-la elas o farão.
Eles voltam a ficar em silêncio, os minutos tornaram-se horas e o dia rapidamente dá lugar à noite. Somente após o sol esconder-se por completo é que Karin e Tsunade entram na sala de espera. Ambas tinham a expressão do cansaço estampado em suas faces. Seus uniformes de médicas estavam sujos de sangue em algumas partes, e através do cheiro do sangue conseguiram identificar que o mesmo pertencia à humana.
Em silêncio, todos se levantam e esperam que Tsunade prossiga.
– Sasuke. – Fala a médica chefe. — Ela esta estável agora. Deu bastante trabalho parar a hemorragia, mais um pouco e ela não teria sobrevivido, está muito fraca. Seu corpo encontra-se muito debilitado pelos inúmeros ferimentos e pela falta de alimentação adequada. Ela perdeu muito peso nos últimos dias, os exames mostram que está com anemia. Vai demorar mais por ser humana, mas acredito que em média de quinze dias, com muito cuidado, esteja recuperada dos ferimentos, isso se não tivermos mais complicações.
– E o bebê? – Pergunta Inoichi se pronunciando pela primeira vez desde que entrara naquela sala.
– Por milagre conseguimos manter a gravidez. A ação rápida de Karin conseguiu impedir que o aborto ocorresse.
Sasuke solta o ar que nem havia notado que estava prendendo e deixa-se cair novamente sobre o sofá apoiando os cotovelos nos joelhos e escondendo o rosto nas mãos. Estava aliviado, afinal não havia matado seu sobrinho.
– Pelo que Karin me contou, a criança é um lobo. – Continua a médica. – Acredito que só por isso o aborto não tenha acontecido. É provável que a magia que nos envolve tenha fortalecido o útero da garota. Realmente não sei dizer, só sei que é um milagre. Sua gravidez é muito recente, poucos dias, deverá ficar de repouso por no mínimo um mês até estar bem recuperada e não correr risco de que essa situação se repita.
– Obrigada. – Agradece o moreno voltando a se levantar, agora mais calmo. Ele se aproxima de Karin e a puxa para seus braços lhe beijando longamente como agradecimento, deixando a ruiva surpresa.
Os demais olhavam chocados para a cena, pois era a primeira vez que Sasuke demonstrava em público que estava com Karin.
– Obrigado por salvá-lo. – Agradece sinceramente a ruiva assim que se afasta logo voltando sua atenção para Tsunade – Posso vê-la?
– Sim, me acompanhem. – Fala já se afastando, sendo seguida por todos.
Eles andam pelos corredores do hospital até chegar às escadas que davam para o segundo andar. Em silêncio sobem e encontram um longo corredor cheio de portas. A médica anda até parar em frente à porta do quarto número dez e a abre, revelando um cômodo simples, mas prático e confortável.
O quarto era claro, além da cama de hospital onde a rosada estava deitada possuía também um sofá de dois lugares, uma pequena mesa redonda contendo uma jarra d’água e a porta que dava para o banheiro.
– Os remédios que lhe demos vão mantê-la adormecida pelas próximas vinte e quatro horas. Ela precisa repousar o máximo possível, não deve se estressar. Ou seja, deve ter a gravidez mais calma possível.
Sasuke se aproxima do leito e para aos pés da cama farejando o ar. Facilmente identifica o odor que procurava.
– Agora sinto o cheiro. – Fala mais pra si do que para os outros.
Para eles, lobos que tinham os sentidos mais aguçados que de um humano normal, era possível sentir o cheiro diferenciado de uma fêmea prenha, ou se preferir, grávida. Mas antes daquele momento não havia sentido nada, apenas o cheiro de sangue que ela emanava.
– Ela estava imunda e machucada, cheirava a sangue, o que serviu para encobrir o cheiro da gestação. – Explica Tsunade.
Sasuke analisa cada detalhe daquela humana, ela estava bastante ferida no rosto devido a seu acesso de fúria, seu olho estava inchado e roxo, seu lábio inferior partido e inchado, vários hematomas apareciam nos braços dela. Em sua mão direita havia o acesso que permitia que a medicação fosse aplicada diretamente em sua corrente sanguínea. Um acesso de oxigênio estava em seu nariz. Os aparelhos ao lado da cama monitoravam seus batimentos cardíacos e emitiam um bip irritante e constante.
O remorso lhe atormentava. Nunca havia perdido a cabeça dessa forma antes. Nunca achou que poderia fazê-lo alguma vez. Era um homem de cabeça fria, era muito difícil algo lhe tirar do sério. Seu coração estava apertado por ver as consequências de seu descontrole.
– Se não se importam, gostaria que saíssem. – Pede Tsunade falando para todos. – Ela precisa de repouso e não vai acordar tão cedo. Então vão pra casa ou qualquer outro lugar, quero-os fora do meu hospital.
Suas palavras eram ásperas, Tsunade não costumava medir suas palavras quando estava irritada e todos sabiam que ela estava furiosa por Sasuke ter espancado aquela humana sem motivo algum, só não tinha dito nada em voz alta em consideração à sua posição de líder.
Em silêncio, todos fazem o pedido pela médica e deixam o hospital. A noite estava clara e morna. Kakashi e Inoichi se despendem com poucas palavras de Naruto e Sasuke, logo partindo.
– Vamos Teme, muda essa cara. – Pede Naruto jogando o braço sobre o ombro do amigo e tentando lhe animar.
– Eu preciso beber. – O moreno estava cansado e precisava relaxar por alguns minutos.
Em silêncio andam até o bar que sempre costumavam frequentar. Sentam-se em uma mesa afastada e pedem cerveja ao garçom que prontamente lhes atende. Somente quando estavam já na segunda garrafa é que começam a conversar em tom baixo e discreto, para não chamar mais a atenção do que normalmente chamavam por serem simplesmente o que eram, Alfa e Beta.
– Nunca tinha te visto perder a cabeça daquele jeito Teme. – Comenta Naruto olhando diretamente para o amigo que estava com a cabeça baixa.
– Estava fora de mim. – Comenta, brincando com o copo de cerveja. – A ideia de que Itachi prejudicou a matilha é ridícula.
– Concordo. – Fala Naruto apoiando as costas no encosto da cadeira. – Conheci o Itachi e ele estava pronto para ser um excelente alfa. Jamais nos prejudicaria... Eles devem estar obrigando-o a ficar do seu lado. Talvez estejam com Maya.
Sasuke também se recosta sobre a cadeira e olha pensativo para seu melhor amigo. Naruto poderia estar certo, se ameaçassem ferir Maya, Itachi faria qualquer coisa para protegê-la. Eles eram lobos, e lobos eram leais e fieis. Maya era a esposa de Itachi e Sasuke sabia o quanto seu irmão lhe amava. Um sorriso saudoso surge em seus lábios ao lembrar-se de seu irmão e cunhada. Eles eram tão felizes juntos.
– No que está pensando Teme? – Pergunta Naruto retirando o moreno de seus pensamentos.
– Lembrando. – Seus olhos ainda estavam distantes. – Lembra-se de quando encontrei Maya?
– Lembro. – Comenta sorrindo, tomando mais um gole de sua bebida gelada. – Você foi à cidade comprar algumas coisas com sua mãe e quando voltaram você estava eufórico. Até parecia uma criança. – Debocha para desagrado de Sasuke. — Queria porque queria falar com o Itachi. Até mesmo invadiu a sala do conselho para encontrá-lo. – Uma gargalhada escapa de seus lábios com a lembrança. – Seu pai e os conselheiros ficaram furiosos pela sua entrada, mas você não deu bola. Correu até Itachi e começou a falar todo atrapalhado, parecia uma vitrola engasgada.
– Eu fiquei realmente contente naquele dia. – Comenta depositando o copo vazio sobre a mesa. – Itachi era meu ídolo, queria ver meu irmão feliz. Quando minha mãe parou para conversar com uma mulher e sua filha, eu fiquei apenas olhando para aquela garota desconhecida na minha frente. Pelo cheiro eu sabia que era humana, estranhei porque minha mãe as conhecia. Fiquei intrigado, até descobrir que era a família dela que nos arranjava as sementes para as plantações. Quando minha mãe as convidou para um café eu me sentei ao lado de Maya e algo nela começou a chamar minha atenção. Eu fiquei por vários minutos lhe encarando, ela já estava com vergonha e raiva por causa disso. Foi quando lhe encarei diretamente nos olhos e senti algo completamente diferente. A imagem de Itachi me veio à mente na mesma hora e meu coração disparou... Me lembro de ter ficado bem confuso, sem saber o que aquilo significava. Quando elas foram embora minha mãe me questionou o porquê de ter ficado encarando Maya daquela forma. Eu contei tudo o que tinha sentido. Mamãe abriu um enorme sorriso pra mim e me explicou o que aquilo significava. Disse que eu tinha encontrado a companheira de meu irmão... Depois disso eu não via a hora de encontrá-lo e contar-lhe que havia encontrado sua parceira.
“Nii-san. Eu a encontrei. Encontrei ela pra você.”
– Foi a única frase que conseguimos entender. – Comenta Naruto. – Você parecia que estava para explodir de alegria. Itachi e seu pai lhe olhavam confusos até que sua mãe entrou e contou que você tinha encontrado a companheira do seu irmão.
– Itachi me olhou confuso por alguns instantes, até que sorriu pra mim. Nunca o vi sorrir daquela forma antes. Maya tornou-se o centro do seu mundo naquele dia. Ele jamais permitiria que alguém lhe ferisse.
– É o único meio de obrigá-lo a fazer o que querem. – Comenta Naruto erguendo o braço e pedindo nova cerveja ao garçom que os serviu prontamente logo se afastando. – Pelo lado bom, sabemos que ele está vivo.
– Hm! Chega a ser irônico. – Fala apoiando os cotovelos sobre a mesa. – Descobri que meu irmão está vivo, estive bem perto de encontrá-lo e o perdi.
– Não esqueça que descobriu que terá um sobrinho da mulher que seu irmão estuprou. – Conclui Naruto.
Sasuke deita a cabeça sobre a mesa escondendo o rosto entre os braços. Sentia-se frustrado e perdido. Itachi sempre quis ter filhos. Durante anos ele e Maya tentaram até descobrirem que Maya tinha problemas nos ovários que dificultavam uma gravidez, não impediam, mas era muito difícil de uma gravidez natural acontecer. Havia tratamento, mas era muito caro e eles não tinham condições, naquela época, de custear. Por isso, mesmo com tristeza, Itachi havia aceitado o fato que dificilmente seria pai. E agora aquela humana aparecia do nada carregando o filho que seu irmão sempre quis ter com a esposa.
OoOoOoOoOo
Ele andava tranquilamente por Konoha. O dia estava ensolarado e quente, as pessoas andavam tranquilamente pelas ruas sempre lhe cumprimentando. Aquele era o dia da semana que sempre tirava para andar pela vila fazendo uma inspeção do que poderia ser feito para melhorar a vida de seus habitantes, afinal em Konoha moravam quase duzentas pessoas, tinha de ser bem administrada.
Volta e meia parava de andar e conversava com algum morador questionando suas necessidades. As crianças sempre lhe cercavam, pois afinal ali estava seu líder.
Quando estava na feira que sempre era realizada no centro da cidade tem sua atenção atraída por uma mulher. A mesma estava de costas para si e usava um vestido floral. Seus cabelos eram compridos e rosados. Ela estava comprando maçãs, sua fruta preferida. Com um sorriso nos lábios se aproxima dela e a abraça por trás lhe surpreendendo e acariciando sua barriga de cinco meses de gestação.
– Sasuke! — Reclama a mulher pelo susto que havia levado.
A senhora que estava cuidando da barraca lhes sorri encantada.
– Bom dia alfa. – Cumprimenta-o com um movimento de cabeça.
– Bom dia. – Cumprimenta educado e de excelente humor. – As maçãs estão com uma cara boa hoje.
– Este ano o pomar nos surpreendeu. – Comenta animada. – Sua companheira estava escolhendo as mais bonitas para o senhor, levando em consideração que são suas preferidas.
– E isso me agrada. – Fala apertando os braços que circulavam a cintura de sua esposa.
– Sasuke, está me apertando. – Reclama irritada. – Me largue.
– Estou lhe agradando, porque está irritada? – Questiona estranhando o comportamento irritadiço enquanto se afastava.
– Você está me sufocando, me deixe em paz um pouco. – A voz que sempre era doce estava irritada naquele dia. – Está sempre em cima de mim, me apertando, é irritante. Quer saber de uma coisa, não quero mais as maçãs. Passar bem.
Sasuke assiste estupefato a esposa se afastar.
– Mais que porcaria é essa? – Questiona para ninguém em especial já se preparando para segui-la.
– Espere alfa. – Pede a senhora com quem estava falando há pouco. – Deixe sua companheira um pouco sozinha. Não precisa ficar preocupado com esse comportamento, pois é normal.
– Normal? Normal uma ova. Eu não fiz nada.
– Sua esposa está prenha, os hormônios dela estão fora do controle. Qualquer coisa a irrita e a desagrada. Tem de ter paciência com ela. – Aconselha de forma sábia.
– Mas eu só a agrado. Tudo que faço é pra ela e meu filhote. – Sabia que estava resmungando como criança, mas se sentia frustrado.
– Essa fase vai passar. Dê-lhe algum tempo sozinha e vai perceber que ela vai agir como se nada tivesse acontecido. E não duvido que ela passe a reclamar que você não lhe dá atenção. – Comenta divertida com a situação de seu líder.
– E depois dizem que os machos é que são complicados. – Comenta emburrado cruzando os braços.
– Pense que em breve terá seu filhote em seus braços, assim ajuda a aguentar essas alterações de humor.
*** *** ***
Lentamente abre os olhos e percebe que o dia já estava claro do lado de fora da janela, o aposento estava bem iluminado devido ao fato de suas cortinas serem claras.
Um sorriso inocente ainda dançava em seus lábios devido ao sonho tranquilo e prazeroso que há anos não tinha. Seu sono sempre era agitado devido aos pesadelos causados pelas lembranças de seu cativeiro. Mas naquela noite, apenas sonhos agradáveis lhe visitaram. Sonhos com sua família.
O suspiro de prazer fica entalado na garganta no mesmo instante que senta-se apressado na imensa cama. Chocado prega os olhos na parede, suas mãos apoiadas no colchão para lhe dar apoio.
Ele havia sonhado com sua família.
Mas sua família eram Mikoto, Fugaku, Itachi e Maya. E ele com certeza não possuía uma esposa.
Ele lembrava-se com perfeição da mulher que surgira em seus sonhos. Era a humana que haviam interrogado e que agora estava no hospital se recuperando de um quase aborto que ele mesmo havia causado.
A verdade daquele sonho lhe atinge de forma agressiva como um tapa no rosto. Causando uma dor que nem imaginava poder existir. Somente em uma coisa conseguia pensar naquele momento. Precisa ir imediatamente para o hospital.
Com pressa, corre até seu banheiro e toma o banho mais rápido de sua vida. Veste-se apenas com uma bermuda jeans clara que ia pouco abaixo de seus joelhos, uma camiseta azul escura e sua costumeira sandália. Seus cabelos ainda estavam molhados e pingavam pelo caminho. Assim que sai de dentro de casa se transforma em lobo e começa a correr pelas ruas de Konoha. As pessoas já circulavam por todo o local indicando que já era hora avançada da manhã.
Foram necessários poucos minutos para chegar ao hospital. Antes de atravessar as portas automáticas do prédio já estava novamente em sua forma humana, e sem falar com ninguém anda apressado em direção às escadas. Por mais estranha que fosse a sua presença naquele prédio àquela hora do dia, não foi barrado por ninguém.
A porta do quarto de número dez estava aberta e o mesmo vazio. Um rosnado de frustração escapa de seus lábios e ele apura seu sentido de olfato para tentar localizar a humana que procurava. Consegue distinguir inúmeros cheiros de produtos de limpeza, remédios e de vários funcionários, mas não o dela.
Irritado começa a andar apressado pelo corredor abrindo todas as portas daquele andar. Um novo rosnado escapa ao chegar ao último quarto e não encontrá-la. Apressado volta pelo corredor. Ao chegar ao andar inferior encontra uma funcionária sentada no balcão de informações, a mesma estava distraída com alguns papeis e só percebe a aproximação do alfa quando este bate uma das mãos sobre a bancada lhe assustando.
– A-alfa!
– A humana, onde está a humana que foi trazida ontem? – Pergunta com a respiração descompassada.
– Na sala de exames com a Sra. Tsunade.
Mal a mulher havia terminado de falar e Sasuke já não estava mais presente. Andava quase correndo pelos corredores até chegar à seção do hospital que era destinada aos equipamentos para exames médicos. Ao atravessar a porta de vidro fumê que separava aquele lado do hospital encontra alguns enfermeiros passando pelo corredor. Pensou em questionar algum deles o paradeiro da humana, mas não foi necessário, pois naquela parte do hospital o cheiro dela era forte. Seguindo seu olfato avançado andou pelo corredor sem ligar para os olhares espantados que recebia de todos por qual passava.
Encontrou-a deitada sobre uma maca hospitalar na sala de ecografia. Tsunade e Karin estavam paradas ao seu lado olhando algumas imagens em uma grande tela que continha imagens escuras e embaçadas. Sakura estava inconsciente, em sua mão ainda estava o acesso da medicação que recebia. Sua pele permanecia extremamente pálida, seu lábio partido estava arroxeado e os hematomas em seu rosto pareciam ainda maiores que no dia anterior. Ao dar mais um passo em direção da sala, a porta de vidro automática da sala se abre lhe dando passagem e alertando as duas médicas de sua presença.
– Sasuke?
– Alfa?
Questionam Karin e Tsunade ao mesmo tempo. Mas ele não lhes olhava mais, olhava para a mulher deitada sobre a maca enquanto se aproximava lentamente ouvindo a porta se fechar atrás de si. Para de se aproximar quando estava apenas a dois passos de distância e ainda sem olhar para as médicas ordena.
– Saiam!
O tom utilizado, não era o que normalmente usava ao falar. Havia usado seu tom de alfa, um tom mais grave que o normal atribuído ao comando que somente o alfa e o beta da matilha tinham. Um comando proferido naquele tom era supremo para os de sua matilha, deveria ser seguido independente do comando.
Fêmeas lobos eram poderosas e corajosas, mas acima de tudo eram submissas a seus companheiros e a seu alfa. Quando Tsunade e Karin ouviram aquele tom vindo de Sasuke foi como se um choque elétrico lhes atingisse e as obrigassem a lhe obedecer, mesmo reticentes a ideia de deixar o alfa sozinho com a humana que ele mesmo havia machucado no dia anterior, seus instintos mandavam-nas saírem da sala e por isso lhe obedeceram rapidamente, em completo silêncio e de cabeças baixas, submissas ao seu líder.
Agora sozinho com a humana inconsciente, Sasuke se aproxima até chegar à maca e de perto lhe analisa. O moreno a olhava com intensidade, gravando em sua memória cada pequeno detalhe daquela mulher em sua memória. Ela parecia estar tão fraca e frágil naquele momento que lhe deixava angustiado. As marcas de seu descontrole estavam mais que claras em seu rosto e braço.
O barulho da porta automática sendo aberta o distrai de sua análise, o cheiro de Inoichi e Kakashi sendo identificado rapidamente. Sasuke ainda mantinha a mesma posição e nem sequer havia desviado os olhos da mulher adormecida à sua frente.
– O que faz aqui Sasuke? – Questiona Kakashi com a voz séria.
Sasuke sabia que seu mentor ainda estava irritado consigo pelo comportamento anormal do dia anterior, pois afinal um Alfa, nunca deveria perder a calma e muito menos machucar um dos seus.
– Eu tinha de vê-la. – Sabia que suas palavras iam causar estranheza aos dois. E sabia melhor ainda que eles iriam querer explicações. Explicações que ele incrivelmente queria dar. Normalmente era um homem muito calado e fechado, não gostava de perder tempo falando o obvio, não gostava de estar cercado de pessoas. Mas naquele momento ele precisava do contrário. Precisava de alguém ao seu lado para lhe dizer o que e como fazer as coisas, pois estava perdido e confuso.
Apenas um sonho havia sido o suficiente para fazer com que seu mundo, já complicado, desse uma pirueta mortal.
– O que pretende alfa? – Questiona Inoichi.
Sasuke estende a mão esquerda e passa delicadamente os dedos sobre os cabelos rosados alisando-os.
– Eu sonhei com ela. – Explica ainda concentrado em fazer uma leve carícia.
O silêncio apresentado por Inoichi e Kakashi indicava como ambos estavam confusos com sua explicação.
– No sonho, ela estava prenha, esperava o meu filhote. – Fala passando a acariciar sua bochecha ferida com delicadeza. – Era minha esposa.
O som da respiração de Kakashi e Inoichi desaparece com suas palavras.
– Ela é...
– Sua companheira.
Inoichi havia começado a dizer, mas a frase foi concluída por Kakashi, que estava no mesmo estado de choque que o outro.
– Eu não a reconheci. Eu senti algo de diferente nela, algo estranho, mas não liguei, ignorei. – Falava agoniado. – Eu a feri.
Eles voltam a ficar em silêncio. Até que Sasuke sente a aproximação de Kakashi que lhe toca no ombro direito e fala com calma.
– A Deusa lhe concedeu a benção de encontrar sua companheira alfa, deveria estar contente, não são todos de nós que encontram seu par perfeito. – Fala com felicidade, a raiva que o acompanhava até aquele momento havia evaporado.
– Eu a machuquei Kakashi. Perdi o controle e lhe feri. – Angustiado, vira-se de frente para seu mentor.
– Se acalme Sasuke. – Pede Kakashi segurando o moreno pelos ombros com firmeza. – Agora entendo o que aconteceu com você ontem. O porquê você perdeu o controle daquela forma. – Suas palavras eram firmes, mas calmas, não tinha mais motivos para estar irritado com seu ex-aluno. – Mesmo não tendo reconhecido sua companheira assim que a encontrou, seu lobo sabia quem ela era.
– Exato alfa. – Concorda Inoichi também se aproximando. – Seu lado animal sabia que ela era sua, mas ela estava marcada. Alguém havia marcado a “sua” companheira.
– Lobos não dividem fêmeas Sasuke. E a sua foi marcada por outro. – Continua Kakashi.
– Itachi. – A voz de Sasuke havia saído amargurada, sofrida.
– Sim. E seus instintos piraram com isso. É completamente normal, poderia ter acontecido com qualquer um. – Conclui Inoichi.
– Sasuke olhe pra mim. – Pede Kakashi. – Mesmo que Itachi tenha marcado Sakura ele não a reclamou. Não significa que ela pertença exclusivamente a ele. Será um pouco mais difícil, mas você pode reclamá-la pra si, quebrar a magia que a liga à ele. Ela ainda poderá ser sua.
– Se prepare alfa, porque essa humana está ferida, abalada, fragilizada e assustada. A única coisa que ela não vai querer no momento é ficar perto de um lobo. E quando ela souber que carrega uma criança de seu estuprador vai ficar descontrolada. Terá de ter muita paciência para lidar com ela. – Informa Inoichi já preparando-se para o que estava por vir.
Todos ali sabiam que longos e tensos dias estavam por vir.
Continua...
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