Não é que eu não queria aceitar, mas meu instinto me alertou: é hora de negociar!

Nunca entre numa negociação sem saber o que você quer, e não saia até conseguir o que você necessita!

Os termos pareciam claros: O Um necessitava de um destruidor, de alguém acostumado a matar, para executar uma limpeza de território!

OK, isso eu sabia fazer.

E o que eu queria?

Uma família? Pertencer a uma comunidade? Respeito, segurança?

Antes de tudo, eu precisava de Poder, poder além do imaginável, um poder que somente um Deus poderia dar...

Sem querer parecer pretensioso, perguntei para O Um:

- Que tipo de ajuda poderá me dar para cumprir a tarefa?

No que ele respondeu:

- O que você deseja? Que tipo de poder gostaria de ter para garantir que poderá exterminar esses humanos? O que você quer para poder deixar fluir essa raiva que corrói o seu ser?

Aí eu pensei em todos os super-heróis e todos os animes de Isekai. A lista era grande, mas deveria começar pelo básico, algo que sempre quis nesse mundo.

- Desde que me entendo por gente, sempre desejei mover as coisas com o poder da mente, telecinesia!

Um poder que sempre achei subestimado e que, do meu ponto de vista, se bem utilizado, faria toda a diferença na prática, seja numa situação de combate (puxando o pino da granada no corpo do inimigo), seja em tempos de paz (como na hora de abrir uma porta, puxando um trinco pelo lado de dentro).

Mas uma decisão eu já tinha tomado: qualquer que fosse minha nova vida, seria uma vida "normal", de alguém sem cara de ser super, de forma que eu pudesse passar despercebido na multidão, sem me destacar. Afinal, é o prego mais alto que é martelado primeiro.

— Sim, isso pode. Algo mais?

Pensei: é agora, hora de pedir algo bem apelão?

— Aqui neste mundo temos computadores, que têm essa coisa de recortar, copiar e colar. Posso fazer isso com as pessoas? Remover, copiar e colar seus pensamentos, poderes, habilidades, força vital, HP, MP, poderes mágicos e tudo o mais?

- Hum, isso parece meio demais não? Você quer o poder de um Deus? Será que me enganei ao escolhê-lo?

- Veja bem, isso me permitiria tirar o poder dos milagres dos humanos, de forma que seria uma ferramenta para destruir a falsa igreja, cortar as fontes dos milagres. Parece lógico, não?

- Sim, parece, mas já vou lhe adiantando: não estou confortável com isso. Parece um poder muito grande para uma só pessoa! Temo pela sua capacidade de se manter íntegro. Como vocês dizem neste seu mundo: o poder corrompe, e o poder absoluto, corrompe absolutamente. Mas entendo que seria uma ferramenta útil para destruir a Igreja, então tudo bem; considere concedido!

Perfeito! A construção de minha nova vida estava indo de vento em popa!

Nem bem estava me achando o negociador, quando ele continuou falando:

- Como sacerdote, esse dom poderá ser usado para dar bênçãos aos meus filhos. Você poderá copiar, absorver e, assim, ficar mais forte, mas só poderá manter aquilo que compartilhar com meus filhos. Melhor dizendo, quanto maior o poder, mais terá de compartilhar com eles para poder mantê-lo, assim poderei fazer algum controle. Ah, essa decisão se dará a cada dia de renovação, quando eu decidirei o que fica e o que lhe será retirado.

— Dia de renovação?

— Sim, quando ocorre o alinhamento das nossas três luas, e o poder dos meus filhos se mostra em todo o seu esplendor!

OK, não sei de quanto em quanto tempo isso acontece, mas parece que não tenho muito como negociar.

— Peço desculpas. Mas tenho uma pergunta tola: nesse mundo há magia?

— Sim, eu permito que a magia aconteça como uma forma de iluminar nossos dias e facilitar a vida dos meus filhos.

E agora? Será que eu errei em não ter pedido para ter magia em vez da habilidade de manipular a matéria com a mente (telecinese)? Será que me ferrei aqui?

- Não tema, como meu enviado, você terá todos os atributos (água, vento, etc...), nada assim excepcional, e há também o atributo de magia sagrada. Afinal de contas, você será um emissário divino!

Ufa, parece que não errei dessa vez. Como se diz: mais sorte que juízo...

Hora de fazer os ajustes finais!

- Em todas os desenhos e animes que eu vi, quem encarna parece ter um conjunto de habilidades básicas, tipo: avaliação, caixa de artigos, entender, falar e escrever todas as línguas do planeta. Isso também vai valer para mim?

- Hum, parece que você já está formando uma ideia melhor sobre como viver nesse seu novo mundo. Eu acho que já lhe dei muitas habilidades, mas sim, vai lá, posso lhe dar esse que você chamou de kit básico de encarnação. Muitos antes de você também tiveram esse desejo, então acho que é uma coisa deste mundo, para diminuir o medo do desconhecido.

- Perfeito, muito obrigado!

É sempre bom manter os poderosos do nosso lado e de bom humor.

Hora do golpe final...

- Se entendi bem, eu vou reencarnar como um homem-fera, e você quer que eu possa destruir essa falsa igreja, certo? Então acho que seria bom eu ter uma forma de poder me “disfarçar” de humano, assim eu poderia me infiltrar melhor e destruir por dentro, você não acha?

- Hum, sim a ideia de poder se infiltrar parece ser útil. O que você está pensado?

- Teria um meio de vestir a pele de uma pessoa e poder se passar por ela? Tipo um lobo em pele de cordeiro? Só que às avessas, é claro! Como você mesmo falou, essa seria uma habilidade super útil, né?

- Você quer poder se passar por humano? Isso está me cheirando a traição!!! Não acho essa ideia tão legal, seria um passo a mais e pronto, você poderia nos abandonar e passar para o outro lado, como os demais humanos já fizeram comigo no passado!!!! Você está abusando, humano insolente!!!

- Como ousa brincar comigo!!! Como ousa abusar da minha benevolência?

- Veja bem, não é se passar por humano, é usar uma pele de humano como disfarce. Por baixo, continuaria como seu leal servo, mas teria como – ao menos momentaneamente – parecer humano para poder entrar e desferir um golpe mortal, antes mesmo que qualquer um pudesse se dar conta.

- Penso que seria uma forma também de evitar mortes desnecessárias em caso de um conflito aberto. Sabotagem atrás das linhas inimigas, atacar onde o inimigo menos espera, atingir onde mais dói, destruir o que o inimigo tem de mais precioso. Não parece algo que lhe daria algum prazer? Ver esses humanos sofrerem o abuso que cometeram contra você?

- Hum, entendo seu ponto de vista. Sim, num conflito global, esse tipo de habilidade seria mesmo um importante recurso, de grande potencial. Porém, acho que devo impor algumas restrições, só para poder me sentir um pouco mais seguro e garantir que você não mudará de lado.

- Poderá usar as peles dos seres do meu mundo como disfarce, mas manterá a minha marca, como prova de sua lealdade. Assim, não será tão fácil escapar de seu juramento, caso – algum dia – venha a considerar isso.

- Para mim, parece justo! Aliás, queria aproveitar e perguntar: não há nenhum humano que seja seu devoto? Devo eliminar esses também?

- Sim, é verdade, há alguns humanos entre meus adoradores. Bem lembrado! Farei com que você também consiga ver a minha marca neles, para que possa protegê-los e saber direitinho a quem matar e a quem proteger. Muito bem pensado!!

- Com isso, acho que temos tudo pronto!! Posso me despedir deste mundo que só me deu dor, angústia e sofrimento.

- Eu lhe rendo graças, ó ser de divina luz. Eu o aceito como meu novo Deus, O Um, criador e único deus verdadeiro de Eurethia, a quem eu sirvo de corpo e alma!

- Tenho grandes expectativas de seu desempenho, meu Arauto, ou como vocês costumam dizer neste mundo: com grandes poderem vêm grandes responsabilidades.