Lobo e o gato selvagem
1 Capítulo 1 - Precisam de um guarda-costas?
Notas iniciais
Três pessoas entraram em um alojamento que estava em chamas. Eram dois senhores de idade e um homem com um frio e afiado olhar que lembra muito Hijikata em seus tempos de juventude.
Depois do conflito ocorrido na cidade de Barato, eles finalmente iriam conseguir mais uma das peles tatuadas, um passo mais próximos de seu objetivo principal na caçada ao ouro que estavam.
Porém, alguém havia sido mais ardiloso em ir atrás e conseguir a pele antes deles. Um soldado atraente, com o cabelo arrumado para trás, cicatrizes em cada lado de seu maxilar e uma rala barba no queixo, os aguardava sentado, segurando um rifle e fora baleado em seu braço esquerdo, com a pele bem dobrada no topo de sua cabeça.
O soldado estreitou o olhar e sorriu mais ainda ao reconhecer o homem que acompanhava aqueles senhores, com certo ar de surpresa e descrença.
— Vejam, não foi tão difícil! — disse o soldado, apontando para a pele dobrada em sua cabeça, sorrindo com bastante orgulho e ousadia.
— Huh, você é realmente habilidoso.- observou o mais baixo e careca dos senhores, Nagakura Shinpachi, com certo tom sombrio. — Nós consideramos queimar o alojamento para obrigar a senhora Hidoro a revelar onde ela escondeu a pele, mas achamos que era muito arriscado. Afinal de tudo, se a gente cometesse um mínimo erro, a pele também seria queimada. Mas acredito que isso não impediu você de agir.
O senhor mais alto, de longos e lisos cabelos brancos devido a idade avançada, e uma barba branca e cheia, estava um passo à frente dos outros dois e observava aquele soldado com desconfiado olhar analítico.
— Você poderia ter me matado facilmente assim como matou o cavalo…- continuou Nagakura, desconfiado porém calmo.- O que exatamente você quer?
O sorriso astuto não sumia do rosto do soldado, que tirou a pele de cima da cabeça e encostou a testa na madeira que fazia parte do rifle.
— Eu só vim para Barato porque acabei escutando um rumor sobre a pele tatuada, mas quando vi você na frente da barbearia… Bem, eu sou subordinado de um excelente órgão de inteligência oficial, então reconheci você logo na hora senhor… Hijikata Toshizou…
O homem mais jovem tomou a frente após ouvir o nome de seu mentor ser pronunciado e encarou o soldado com um olhar afiado, sua mão esquerda repousava cautelosamente no cabo da katana que carregava consigo. Ele tinha uma postura bem imponente e confiante, olhando de cima com seus penetrantes olhos azuis.
— E quais são suas intenções, Soldado Sênior… Ogata Hyakunosuke?
Aquele jovem estava surpreso e aliviado em ver Ogata novamente. Disfarçava suas verdadeiras intenções, pois não esperava ver o sniper ali, em Barato. A última vez que o vira fora acamado do hospital após quase ter sido morto em Otaru.
— Por acaso você gostaria de contratar um habilidoso guarda-costas?- Ogata perguntou para Hijikata.
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— Então, resumindo, todas as peles tatuadas que nós conseguimos… A minha, é claro, da Ienaga, do Hijikata Toshizou… Também tem as duas cópias que nós fizemos em papel manteiga e, finalmente, a pele que o Ogata Hyakunosuke conseguiu em Barato. Isso dá seis no total.- observou Tatsuuma Ushiyama, mais conhecido como Ushiyama, o Invicto, enquanto dava comida para Ienaga que estava acamada.
Hijikata e seus aliados haviam voltado para se recuperarem após os conflitos e recentes acontecimentos. Ienaga ainda estava muito fraca e por isso era quem mais precisava descansar. Afinal, não era todo dia que alguém era capaz de sobreviver ao desabamento de um hotel inteiro após uma enorme explosão e ficar soterrada nos escombros.
O grup agora consistia em Hijakata, Nagakura, Ushiyama, Ienaga e Ogata, e estavam reunidos em uma espécie de sala de estar em uma típica residência japonesa.
Discutiam sobre as verdadeiras intenções de Nopperabou, um prisioneiro de Abashiri, que antes de ser preso escondeu em algum lugar do Japão uma grande quantidade de ouro que fora roubada do povo indígena Ainu.
A localização do ouro ainda era um enigma, mas Nopperabou mapeou o local exato em que o escondeu na pele de outros 24 detentos, voluntários de seu plano de fuga. Era como um quebra-cabeça, porém inteligente e doentio. Isso porque sabia que os presos matariam uns aos outros para conseguir suas peles e completar o mapa que levaria ao ouro. Uma verdadeira, intrigante e mortal caça ao tesouro.
Ogata, de forma bem analítica, com base em suas informações como um soldado da inteligência, compartilhou seu raciocínio de que Nopperabou era, na verdade, um partidário russo, conhecidos como partisans, que roubou o ouro dos Ainus e tinha a intenção de fugir de volta para fazer uso do ouro na causa russa.
Além disso, Ogata comenta ainda que era difícil acreditar que o detento pudesse ter agido sozinho, e por isso deveria ter aliados. Um desses aliados devia ser também um partisan que estivesse agindo e vivendo como um Ainu…
Nesse momento, o homem de antes, vinha chegando após ter ido coletar informações. Ele calçava botas e vestia calças pretas com uma listra vermelha descendo pela lateral com uma camisa branca de botões, as mangas arregaçadas acima dos cotovelos, um colete marrom por cima, na cintura uma katana com cabo azul e branco, o longo cabelo negro preso em um rabo de cavalo, com alguns fios do cabelo lhe caindo na testa. Hijikata se sentia nostálgico de sua juventude toda vez que olhava para aquele jovem.
— Oh, Hagiwara-san, você voltou. — perguntou Hijikata, sorrindo levemente, com sua grave voz envelhecida.- Conseguiu algo?
Ogata fitava o chão a sua frente mas estava atento, um leve sorriso desenhado em seus lábios.
Com a formalidade e respeito de um subordinado diante de seu superior, Hagiwara Yuki se curvou levemente para frente, em direção ao velho Hijikata.
— Sim, Hijikata-sama. Tsurumi e seus homens foram vistos indo em direção a Yubari. — respondeu, voltando a ficar com a postura ereta.- É uma pequena cidade não muito longe daqui.
Ogata se levantou de onde estava, se alongando um pouco depois de ter ficado muito tempo sentado. Hijikata fez o mesmo e se aproximou de Yuki, colocando a mão em seu ombro.
— Muito bem, Hagiwara-san. Devemos partir em breve. Vocês dois irão na frente.
Yuki fez um gesto respeitoso com a cabeça antes de seu mentor se afastar. Havia um brilho de orgulho em seu olhar, como um aluno que fica contente de receber um elogio de seu professor.
— Ora, ora, ora… — Ogata estava de braços cruzados, sorrindo de lado de jeito debochado. – Segundo Tenente Hagiwara Yuki. De todos os lugares, nunca pensei que o veria aqui. Ainda mais com o grupinho do Hijikata. É agora capacho dele?
— Desertar te deixou mais ousado, Ogata, a língua afiada como sempre. — disse Yuki, sorrindo muito levemente no canto da boca, seu olhar frio ao encará-lo. – Não é da sua conta.
Yuki fixou seu olhar naquelas linhas finas em cada lado do rosto do soldado, resultado da cirurgia feita para juntar os ossos de seu maxilar. Seus olhos azuis se suavizaram ao olhar para ele naquele mero instante, e voltaram a ficar frios. Ogata quase foi morto e Yuki queria saber quem fez isso com ele. Mataria quem quer que tenha tentado matá-lo. Ogata disse “imortal” quando foi resgatado, era a única pista que tinha.
— E você? Desertar te deixou ambicioso ou a ambição que o fez sair do exército? Se está aqui, está atrás do ouro também. Porém não acho que isso possa ser sua única razão para estar aqui...
— Oh, intrometido como sempre, Soldado Sênior Ogata. – retrucou Yuki asperamente, e arqueou uma sobrancelha. – No entanto, eu deveria ter previsto isso. Você nunca foi de conversar muito, mas sempre soube o que perguntar.
Ogata sorriu com aquele elogio.
— E como se juntou ao grupo do Hijikata? Se Tsurumi soubesse onde o velho estava, tenho quase certeza de que a essa altura ele estaria ou morto ou na prisão. Mais provavelmente morto.
Ogata sempre foi um homem perspicaz, não era à toa que tinha se tornado um Soldado Sênior sem ter frequentado a Academia do Exército e ser o subordinado de um soldado da inteligência. Isso, porém, a depender da situação podia ser bastante irritante ou vantajoso.
— Isso realmente importa agora? Foi apenas uma coincidência nossos caminhos terem se encontrado – Yuki pareceu irritado.
Uma total mentira.
Yuki sabia sim como encontrar Hijikata. Fora muito bem treinado — talvez bem demais — e não teve dificuldades para saber o paradeiro do velho samurai na cidade de Otaru. Quando soube que um corpulento homem de terno e gravata andando nas ruas de Otaru, um dedicado frequentador de bordéis chamado Ushiyama, Yuki apenas precisou esperar de tocaia no melhor bordel da cidade. Já sabia de quem se tratava Ushiyama.
Tinha a impressão de que o velho vice-capitão do Shinsengumi apareceria ali por Ushiyama, afinal, ambos eram dois dos vinte e quatro prisioneiros tatuados. Essa 'coincidência' para Yuki era como matar dois coelhos com um só tiro.
Obviamente, quando Yuki se apresentou e pediu para entrar no grupo, não foi facilmente aceito. Entrou em um surpreendente combate com o velho Hijikata, muito surpreso por um homem de idade tão avançada ser ainda um habilidoso e ágil espadachim. Yuki sorriu durante toda a luta pois não era todos os dias que tinha uma batalha tão divertida e à sua altura assim.
Admitindo a derrota depois de ter se deixado ser vencido, Yuki enfim foi reconhecido e aceito para servir como guarda-costas pessoal de Hijikata e assim está desde então.
— Sim, importa, porque você está mentindo – Ogata afirmou e Yuki revirou os olhos.
— Não estou não – sim, Yuki estava – Eu abandonei o exército e cá estou. O que você espera que eu diga então?
— Sabe, é muito intrigante ver você aqui, Segundo Tenente Hagiwara. Um desertor! Quem diria! – Ogata atiçou, estreitando o olhar para Yuki – Você sempre foi tão próximo e tão leal ao Primeiro Tenente Tsurumi que é realmente muito difícil para mim acreditar que você poderia ser capaz de traí-lo e estar aqui por conta própria. Ele o enviou atrás de mim? É por isso que está aqui? Oh... O objetivo dele deve ser outro porque mandar seu melhor soldado apenas para me caçar seria um erro estratégico da parte dele.
Ogata levou a mão à alça presa ao rifle que carregava. Yuki levantou as mãos para mostrar que veio em paz. Considerando as habilidades de combate de Yuki, Ogata sabia que levantar as mãos daquele jeito não significava nada, pois todo o corpo do Tenente era como uma arma.
— Acredite ou não, estou aqui por contra própria – Yuki disse com seriedade. É o oposto do que você pensa… Eu não quero que Tsurumi o capture, Ogata, não antes de eu poder conversar com ele…
Ogata nada disse ainda apenas encarando Yuki com sua costumeira inexpressividade.
— Ah, qual é, Ogata, nós dois sabemos que se eu estivesse aqui para capturar você eu o já teria feito. Então pare de ser tão irritante com essas perguntas. Relaxa.
Ogata estreitou o olhar e nada disse, mas tirou a mão da alça do rifle. Por mais que ele odiasse ter que admitir isso para si mesmo, aquilo era verdade. Ele podia não ter avistado Yuki durante a batalha que aconteceu na cidade de Barato, mas, se Yuki esteve lá todo esse tempo e o vira, poderia tê-lo matado tão facilmente quanto ele poderia ter atirado na cabeça do velho Nagakura antes.
— E quanto a você? Atrás do ouro também? – Yuki perguntou, tentando mudar de assunto.
Ambos se encararam por alguns segundos em silêncio. Havia algo no olhar de Yuki que Ogata não conseguia distinguir. Era algo muito para dentro daqueles olhos azuis frios e por isso era difícil de definir. Havia uma estranha familiaridade no fundo desse olhar intenso que o incomodava por alguma razão indefinida.
— Heh… – Yuki sorriu sarcasticamente diante do silêncio. – Se prepare. Seremos eu e você a agir em Yubari. O tempo é precioso.
Yuki deu as costas de repente, se afastando, deixando um Ogata, agora sério e desconfiado, para trás olhando para suas costas.
Algo intrigava-o, não sabia o quê ainda. Yuki, por sua vez, sentia uma ansiedade inexplicável e um alívio ao revê-lo ali, de pé e muito bem.
— Hijikata-san vê utilidade em suas habilidades e eu tenho trabalho a fazer. – disse, afastando-se. – Apenas não me atrapalhe, Ogata.
Ogata apenas deu um leve sorriso, interessado.
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