Liz
2 Capítulo 2
Notas iniciais
2
Acordei por volta das nove e meia da manhã, as aulas ainda não tinham começado, mas Tia Sandra já tinha começado a dar aulas na Faculdade que ela trabalhava e costumava chegar as dez da noite por ter o dia muito cheio.
O dia estava começando a ficar entediante . Ouvi meu celular vibrar em cima da mesa e então vi que era um sms de Bruna e dizia assim:
‘’sinto sua falta, qdo iremos fazer uma
vídeo-chamada para matar a saudade? :( -B”
Um sorriso automaticamente se abriu no meu rosto. Eu sentia falta de Bruna, de conversar e passar um tempo com ela, porque isso foi a única coisa que eu fiz com ela nos últimos vinte e dois dias.
Ela mora em uma cidade vizinha a minha. Há uma hora e meia de distância para falar a verdade. Eu planejava chamar ela para passar alguns dias aqui em casa, ela insistia em dizer que a casa dela é ‘’chata e não tinha nada pra fazer’’.
Respondi seu sms no mesmo minuto:
“Faremos em breve,
sinto sua falta tbm. –Becca”
Desci até a cozinha para ver o que tinha para o café da manhã e o que tinha para eu preparar para o almoço. Tinha duas tapiocas prontas e café ainda morno na cafeteira, e um bilhete na porta da geladeira de Tia Sandra que estava escrito:
‘’Bom dia e bom café da manhã.
Estarei de volta ao meio dia –se eu tiver sorte-.”
Tomei meu café e lavei a louça. Preparei macarrão e bife acebolado o suficiente para dois. Fui até o supermercado para comprar algumas frutas.
Chegando lá, separei cinco laranjas e quatro mangas e fui direto para a fila do caixa. Por coincidência, o garoto chamado Felipe que mora no fim da minha rua estava na fila passando algumas compras mexendo no celular. Ele mora em uma casa enorme e divide só com os pais, sempre que os pais viajavam de ultima hora, ele convidava vários amigos e dava uma festa caseira e nunca perdia a oportunidade de me chamar mas eu sempre inventava alguma desculpa para não ir, porque é aquele tipo de festa em que rola muita bebida e gente mais velha. Eu falava algumas vezes com ele na internet e as vezes no colégio.
Ele está vestindo uma camiseta, short e um tênis de academia, ele levantou a cabeça para trocar algumas palavras com a mulher do caixa e quando olhou pro lado e me viu ele gritou:
– Becca! – ele abriu bem os olhos, mostrando que estava surpreso e me deu um abraço – Você está de volta! Como foi a viagem? – ele abriu um sorriso.
– Oi, Lipe! – abri um sorriso e tirei o cabelo dos olhos – A viagem foi ótima, perfeita! Depois eu publico todas as fotos na internet para você ver como tudo lá é incrível! – falei empolgada.
– Como vai a sua Tia? Sandra, né?
– Ela vai bem... e os seus pais?
– Estão ótimos.
– Então, você soube né sobre o que houve com os Bryner? – falei, com o objetivo de tirar dele coisas que eu ainda não sabia.
– Sim, eu fiquei sabendo. Bem chato, né? – assenti com a cabeça.
– É sim, horrível. Você sabe como estão indo as coisas?
– Não sei de muita coisa, mas o pai da Liz está tentando resolver tudo, e o namorado dela, o Gustavo está muito mal pelo o que aconteceu. – ele tirou o cartão de crédito de dentro da carteira e entregou para a atendente do caixa que já estava impaciente.
– É, ele faz faculdade de quê mesmo?
– Medicina! – disse ele com firmeza e pegando as sacolas de cima do caixa já se preparando para ir embora.
– Ah, sei.
– Tchau Becca. Posta as fotos depois, ta certo? Fiquei muito curioso para ver os lugares que você visitou.
– Pode deixar!
Ele já estava passando pela porta da saída quando deu meia volta e veio até mim novamente.
– Ah! Já ia me esquecendo. Meus pais vão viajar no fim da semana e eu vou fazer uma festinha lá em casa de fim de férias. Topa ir? – ele levantou uma sobrancelha tentando me ceduzir – pode levar um acompanhante se quiser.
– Claro – sorri – tudo bem, vou falar com a minha tia e depois falo com você, ok?
– Combinado – ele disse sorrindo e andando em direção a saída – espero te ver lá!
Respondi apenas com um sorriso.
Passei minhas compras e fui para casa. Estava um barulho infernal vindo da minha rua, quando cheguei mais perto de casa, tinha vários operários trabalhando na antiga casa dos Bryner. Estavam derrubando as paredes e uma parte do teto da casa.
Na calçada estava um homem mais velho, bem vestido com postura e cabelo bem penteado. Logo percebi que era o Gustavo. Ele deu uma olhada de canto para mim e virou o rosto. O que ele estava fazendo ali? A mesma curiosidade que me pegou ontem de noite estava me pegando ainda com mais força agora. Eu precisava saber o que estava acontecendo.
Entro em casa e dou de cara com Tia Sandra.
– O que você está fazendo aqui tão cedo? – pergunto surpresa.
– Eles me dispensaram mais cedo hoje. Não irei dar aula de tarde e nem de noite! Isso não é ótimo? – ela abriu um largo sorriso. – Vou por minhas novelas em dia.
–Ah, que ótimo! – digo fechando a porta e andando em direção a cozinha ainda assustada pelo fato de encontrar Gustavo aqui na frente da minha casa e Tia Sandra aqui tão cedo.
Coloco as sacolas com as frutas na mesa e reviro os armários a procura do liquidificador.
– Humm, este almoço está com um ótimo cheiro. – disse ela destampando e tampando as panelas.
– Obrigada, vou fazer suco agora. Quer esperar?
– Claro, querida. Ah, merda! – ela abaixou a cabeça e levou as mãos até a testa. – Esqueci o celular e o notebook na faculdade!
– Você vai lá agora buscar?
– Sim, você quer me fazer companhia até lá?
– Claro, espera só um minuto?
Ela assentiu com a cabeça.
Fui até La em cima, escovei os dentes, penteei o cabelo, troquei de blusa e desci.
– Vamos? – disse indo em direção da pia para guardar as frutas.
–
No caminho da faculdade lembrei que Gustavo fazia Medicina e que Tia Sandra trabalhava em uma Faculdade de Medicina.
– Quantas Faculdades de Medicina existem aqui na cidade, Tia?
– Apenas uma querida, porque?
– Nada – murmurei.
Chegando lá, fiquei sentada na recepção enquanto Tia Sandra pegava suas coisas lá dentro. Levantei e caminhei até o pátio. Estava muito quieto, pois os alunos já tinham deixado o anexo e o lugar parecia assustador com ninguém por perto. Paredes sujas, tinta descascando e árvores grandes e velhas com folhas secas espalhadas pelo chão. Um vento forte passou por mim e levei minhas mãos até os ombros para me aquecer. Ouvi uma voz familiar e fui ver de onde ela vinha. Fui mais adentro do pátio e me assustei ao ver Gustavo de costas e falando ao celular.
– Sim, sim. Já fui até lá hoje de manhã. Sim, estão derrubando tudo, como prometeram – fiquei curiosa para saber com quem ele estava falando sobre a casa – pode deixar, eu irei até lá quando o senhor quiser, Sr Bryner.
Bryner? Meu corpo inteiro tremeu quando o ouvi pronunciar aquele nome, meu coração bateu mais forte quando ele se virou e viu que eu estava ouvindo a sua conversa em particular. Se virei e quando eu estava caminhando de volta para a recepção ele falou comigo e senti um frio na barriga.
– Não é bonito bisbilhotar a conversa dos outros, senhorita.
Eu se virei e ele estava sorrindo com o celular ainda na mão. Ele não estava falando sério, ‘’ufa’’ pensei.
– Desculpe, e-eu não queria... – gaguejei e ele me interrompeu.
– Sem problemas, Rebeca. – como ele sabia o meu nome? – Eu estava brincando.
Ele caminhou até mim e esticou o braço.
– Gustavo – apertamos as mãos, cruzei o braço e fiz uma cara séria.
– Como sabe o meu nome? – eu ainda estava nervosa.
– Bem – ele exitou antes de falar o nome dela – Liz já me falou sobre você.
O que? O que ela já falou sobre mim para ele? Ou melhor, o que eles já conversaram sobre mim? Minha cabeça estava uma bagunça a qual eu não conseguiria arrumar rapidamente. Tentei ligar os fatos mas antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, ele me interrompeu.
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