Livro Sem Titulo-por Enquanto-
1 Capítulo 1-Parte 1
Notas iniciais
Hoje é dia 30 de setembro de 2012, exatamente 6:15 am, ouço a campainha do meu apartamento. Havia acordado um pouco antes com uma pedra batendo na janela o que me causou alguns segundos de fadiga. Um pouco zonza e ainda sonolenta me dirijo a porta lentamente e a abro.
– OI. Ainda na cama? — dizia a mulher, mais precisamente, minha irmã Beatrix Berseau. Ela era loira, meio gorda e com olhos esbugalhados. Tinha dois filhos mal educados e um marido calmo de mais para chamar-lhes atenção. — Vamos à imobiliária? Encontrei uma casa perfeita para mim. — Eu continuava meio zonza e sonolenta, mas tive que me apressar e me arrumar para acompanhar aquela gorda inútil.
Para a minha sorte, os filhos de Beatix não a acompanharam nesse dia. É um verdadeiro inferno quando eles me visitam. Na ultima vez, que eu me lembre, o saldo da visita foi: uma televisão quebrada, dois vasos atirados pela janela, um banheiro inundado, paredes repletas de rabiscos, inúmeras multas por barulhos excessivos e um gato morto. E eu realmente amava aquele gato.
–VAI LOGO RICE! — gritou minha irmã, incompetente, interrompendo meus pensamentos.
– Já estou pronta Bê. Podemos ir.
Descemos até o carro, uma minivan verde musgo antiquada e nada bonita. Admito que, algumas vezes, eu tinha vergonha de andar naquilo. Sentamos nos acentos dianteiros e seguimos viagem até alguma imobiliária. Para a minha alegria, minha irmã se perdeu algumas vezes, o que fez a viagem dobrar o tempo de duração. Quando, finalmente, ela conseguiu chegar à imobiliária, teve dificuldade em estacionar o carro. ¬¬' só Deus na vida dessa mulher.
– Por favor, a Renata Michelangelo está? Tenho uma visita marcada para às 09:00 desculpe o atraso. — Sim, Beatrix chegar 30min depois da hora marcada. — ela ainda está disponível?
Com ar de desprezo e indignação, a moça da recepção pediu que aguardasse enquanto a chamava. Em paços apressados, uma moça demasiadamente pequena e desengonçada surgiu por uma porta. Deduzi que aquela seria Renata e que provavelmente nos levaria até a importante casa. Eu estava certa.
Renata conversou durante um bom tempo com a minha irmã, enquanto eu observava as pessoas que passavam na rua, depois nos pediu que a acompanhasse até o carro. Com Renata nos guiando, foi menos perturbador chegar ao destino. Passamos por várias casas também á venda, mas não paramos em nenhuma e também não recebemos nenhuma informação sobre ela, pois estávamos em caros separados. Renata em seu esportivo e nós numa minivan verde musgo antiquada e nada bonita. Eu já disse que tenho vergonha de andar naquilo? Continuamos nossa viagem até chegarmos na tal casa.
Assim que olhei para aquele lugar, um arrepio tomou conta do meu corpo, e os cabelos da minha nuca se espicharam, como os de um gato raivoso. Eu me senti mal e lagrimas encheram os meus olhos. Ele era estranhamente familiar e eu sentia uma presença crescente e de enorme importância, a medida que nos aproximamos. Aquele lugar era, aparentemente, uma velha escola. Tinha um playground, mastro para bandeira, arvores gigantescas, janelas com vidros quebrados e não tinha muros. Era um lugar realmente assustador. As paredes eram amareladas, velhas e manchadas de preto, para contribuir com o aspecto macabro, o dia estava nublado e ameaçava uma forte chuva. Paramos no estacionamento.
– Lar doce lar. — disse minha irmã. — depois de meses de procura, finalmente achei o lugar perfeito, não acha Rice?
NÃO, eu não achava que aquilo era um lugar perfeito. Eu realmente odiei ali, não sei como ela poderia chamar aquele terrível lugar de lar. Mas me contentei em apenas assentir com a cabeça e sair do carro.
Renata nos deu alguma informações sobre tamanho e preço antes de entrarmos. Depois de uma rápida conversa, ela entregou a chave da casa para Beatrix, e a autorizou entrar no lugar. Abrindo a porta da frente, depois de uma pequena escada, havia um grande corredor, cheio de outras portas dos dois lados. Cada porta tinha uma placa à cima que indicava um numero. Nesse corredor, haviam 6 portas que se alternavam. Minha irmã fez questão de abrir uma a uma. Eu senti um enorme incomodo e quanto mais pra dentro eu ia, mais aumentava até que cheguei ao final do corredor e esse incomodo se tornou pânico.
Eu não suportava mais ficar ali, precisava sair. Minha mão tremia, minhas pernas perdiam a força e eu suava frio. Minha irmã não percebeu, parecia encantada de mais com o lugar.
Me virei e tive a impressão de ter visto alguém entrando em uma das salas. Fui até ela de vagar, abri a porta com cuidado e olhei. Não havia ninguem. Pensei que talvez fosse apenas um truque do meu cérebro até me virar novamente e ver um homem. Loiro, alto e delicado. Era ele, eu tinha certeza. Aquilo piorou o meu pavor.
Corri o mais rápido que eu pude pelo corredor, olhava para trás, tinha a sensação de estar sendo perseguida. Vultos passavam pelos cantos dos meus olhos, estava com medo e segurando o choro. A porta, parecia cada vez mais distante, pensei que nunca chegaria até ela, mas consegui. Eu estava a alguns metros de distancia quando meu corpo travou. Lutei contra aquele descontrole, aquilo doía, não aguentei e comecei a chorar. Depois de muita dor e luta, emfim, toquei a porta. Tudo estava começando a voltar ao normal. O pavor foi abandonando meu corpo, o choro cessou, meus movimentos voluntários retornaram, mas ainda estava com medo.
Lá fora estava um clima agradável, ainda nublado. Fui até o carro esperar minha irmã, mas no meio do caminho, do outro lado da rua, um gato me chamou atenção. Ele era preto, e tinha olhos amarelos. Me espantei com a semelhança entre ele e Will, a vitima dos pirralhos. Ele era realmente parecido. Para brincar com o gato, resolvi chama-lo pelo nome de Will. Para minha total surpresa, o gato soltou um miado e veio correndo na minha direção.
Muito simpático, o gatinho me saldou com uma batida de cabeça e se esfregou entre minhas pernas. Me abaixei para a caricia-lo e depois de um tempo, minha irmã terminou sua visita à "casa" e retornou para o estacionamento.
– Rice! O que esta fazendo aí sozinha? Vamos embora. Tenho um contrato para assinar. — Me levantei e, sem olhar para trás, segui até o carro junto com Beatrix.
– Você viu como aquele gato era parecido com o Will? — perguntei a Bê.
- Que gato menina? Tá maluca? Não tinha gato nenhum com você. Muito menos parecido com o Will.
Eu estava em uma praia completamente deserta. O dia estava claro e ensolarado com alta umidade no ar, como se fosse chover mais tarde. Eu apreciava o mar e contemplava a maravilhosa presença da natureza. Estava sentindo-me calma e feliz. Eu não sabia como tinha parado ali, mas me contentei em aproveitar o momento. Eu pensava na minha vida quando de repente surge um gato. Era o gato igual ao Will. Ele veio na minha direção calmamente e quando me alcançou começou a se esfregar entre as minhas pernas. Eu o peguei e fiz um carinho atrás das suas orelhas. - Oi Will. Quanto tempo né? — Brinquei. — Como anda a vida por aqui? — Perguntei colocando-o no chão. Em alguns segundos, o pequeno gato preto com olhos amarelos se transformou em um garoto alto, negro e forte. Aparentava ter uns 16 ou 17 anos, estava vestido com uma camiseta branca, larga e amarrotada, uma calça jeans clara, também larga, e estava descalço. Por algum motivo, aquilo não me assustou. Era como se aquilo já tivesse presenciado aquela cena antes, como se aquilo acontecesse frequentemente em meus sonhos, pensamentos. - A vida esta bem boa por aqui mãe. Eu sinto sua falta. Por isso fui te visitar na casa de Beatrix. — disse Willian enquanto passava as mãos de leve no meu cabelo. Ele sempre foi carinhoso assim. Do nada, o céu começou a ficar escuro e um vento forte veio do norte. - Mãe, a senhora precisa sair daqui. — disse Willian enquanto sacudia o meu braço desesperadamente. - Por que Will? O que vai acontecer se eu não sair? - Saia mãe. Apenas saia. - Mas eu quero ver o que esta acontecendo. - Não, mãe! Eu vou te tirar daqui. O céu estava mais escuro e alguns raios saiam das nuvens. Eu estava com medo, porém curiosa. Não queria sair dali, porém precisava. Will estava correndo e eu logo atrás. Era difícil acompanha-lo, mas eu tentava. Fomos o mis rápido que podíamos até o outro lado da praia. Havia um enorme morro, de pedra. - Corre e se bate nele. — Disse Willian gritando, mas com certa tranquilidade na voz, como se aquilo fosse algo normal. - O que? Você quer que eu me bata no morro? - Sim, sim. Vai fazer você acordar. VAI LOGO!!!! Com medo, peguei certa distancia e corri. Corri muito e a medida que eu me aproximava do paredão, meu medo aumentava. Quando cheguei bem perto, fechei os olhos e cerrei os punhos.
Eu estava de volta ao meu apartamento. Acordei apavorada e suando frio. Algo me assustara. Mais precisamente, meu telefone. O susto me causara um ''curto circuito'' no cérebro e eu me esquecera completamente do que havia sonhado. O que quer que tenha sido, foi ruim e eu não gostaria que se repetisse. Fui atender o telefone, mas parara de tocar há alguns segundos. Olhei no relógio. Eram 17:00 horas. Lembrei-me que inda não tinha comido nada, então fui fazer alguma coisa para reverter essa situação. Depois de jantar, tomei um banho e coloquei minha roupa de dormir. Ainda eram 19:00, mas eu já estava com muito sono e teria que trabalhar no dia seguinte. Tentei ligar para o Gustavo de novo e ele ainda não atendia. Com certa preocupação e receio, resolvi ir para a cama. Não queria ter aquele sonho novamente, mas tentei dormir. Consegui. Na manhã seguinte, acordei um pouco antes de o meu despertador tocar. Aparentemente, não tivera aquele sonho novamente. Todas as manhãs de segunda-feira, me levanto, faço um café, tomo o meu banho, me troco, tomo o café e saio para o trabalho naquele inferno de ônibus lotado. Porem, essa manhã, foi diferente. Para começar, acordei um pouco antes de o meu despertador tocar ás 5:15h am. Aparentemente, não tivera aquele sonho novamente. Me levantei e percebi eu estava tonta e enjoada. Algo me dizia que esse seria um dia daqueles. As desgraças estavam apenas começando. Depois de notar minha fragilidade, fui até o banheiro. Lá aconteceu uma coisa que não deveria. Provavelmente, na noite anterior, eu deixara a porta do armarinho aberta e, como sou distraída, não vi e bati minha cabeça nela com força suficiente para deixar minha testa com uma pequena marca roxa. Fui para o banho e me lembrei de duas coisas. Primeira: havia esquecido de pegar a minha toalha e roupa. Segunda: não coloquei a maquina de café para funcionar. Tomei meu banho correndo e imaginando como eu pegaria minha toalha. Meu quarto ficava há cerca de 3 ou 4 metros de distância e o chão era revestido com um carpete de pelo. Eu não queria pisar nele molhada, seria nojento, mas não tinha escolha. Ainda escorrendo, sai do banho e fui correndo até o quarto. Chegando lá, notei que a minha toalha não estava na cama como imaginado, estava no varal lá na varandaa. Desisti e peguei uma nova que estava no meu armário. Me sequei, me troquei, e fui fazer o café. Na cozinha, liguei a cafeteira, coloquei água e quando fui pegar o pacote de pó... adivinha... ACABARA UM DIA ANTES. Ignorando o café, peguei minha bolça e desci para pegar o ônibus. Trabalho em uma empresa que administra shoppings da cidade. Eles são extremamente rigorosos e pedem para evitar atrasos ou violar qualquer regra. Temos que trabalhar de roupa social e salto, cabelo preso (de preferencia um rabo de cavalo), maquiagem leve e unhas feitas. Na verdade, eu não sei pra que, pois trabalhamos em um escritório fechado que não recebe visitas de nenhum cliente nem nada. Para variar, o ônibus estava cheio. Depois de alguns pisões e cotoveladas, consegui entrar nele e seguir viagem para meu trabalho. Obviamente, não consegui um acento logo no começo, mas, à medida que o ônibus foi esvaziando, alguns ficaram livres e eu decidi me sentar. A minha esquerda havia um garoto alto, forte e moreno. Como sempre, era familiar. Fiquei observando-o durante alguns segundos e depois peguei o um meu livro. A viagem foi quase totalmente tranquila. Quase por um pequeno detalhe. Um pequeno detalhe que, talvez, me faria perder o emprego. Ao sair de casa, e desistir do café, eu não desliguei a cafeteira e, como era da lojinha de R$ 1,99 provavelmente ela derreteria e explodiria fazendo meu pequeno apartamento em Wishivile pegar fogo, ou, no mínimo, a minha cozinha. Sem ter o que fazer, segui para o trabalho tentando esquecer aquilo. Lembra que eu estava enjoada? Então, tinha passado, mas com o balanço do ônibus, o enjoo voltara e com ainda mais força. Me segurei, tentei ler mais, pensar em outras coisas, etc. ainda bem que pude conter o enjoo. Seria ruim se não o fizesse. Como você já pode perceber, demorei um pouco mais para sair de casa e o ônibus estava, um tanto quanto, lento. Eu estava realmente impressionada com a minha sorte. Finalmente cheguei no trabalho e, só então, me dei conta de que eu saíra MUITO tarde de casa. Acordei 5:13, sai só 6:22 e teria que chegar ás 7:30. O percurso dura, em média, 1 hora e meia, mas hoje levara um pouco mais. Com tudo, para chegar 7h30 no trabalho, deveria ter saído umas 10 pras 6h, então se deduz que cheguei atrasada. - Senhorita Berseau. Está atrasada outra vez. — era a voz do meu supervisor. Agora tava tudo danado. — Já é a quinta vez esse mês. - Senhor Augusto, peço desculpas, hoje m... - Sem desculpas, a senhorita foi avisada quatro vezes e o erro voltou a se repetir. Não temos mais lugar para você nessa empresa. Senhorita Berseau, a senhora está sendo convidada a se retirar de nossa equipe. Passe em sua sala, retire seus pertences e depois venha ao meu escritório. Acertaremos tudo. Ótimo, eu perdi o emprego. Sabe quando você esta meio chateada e vem alguém e te chama de retardada? Então, foi assim que eu me senti. Aquele foi o segundo pior momento da minha vida e só perdia para a noticia de morte dos meus pais. Enquanto me dirigia à minha sala, quer dizer, antiga sala, fui pensando em como eu me viraria daqui pra frente. Ocorreu-me de pedir à Beatrix, para morar com ela e ajudar nas despesas vendendo meu apartamento e a maior parte dos móveis. Era isso que eu ia fazer, mas só depois que ela comprasse a casa. Eu tiraria esse tempinho de férias. Entrei na minha sala e comecei a juntar meus objetos pessoais na mesa. Enquanto fazia isso, de costas para a porta senti alguém entrar e, quando me virei, vi um homem baixo, com cabelos longos (presos em um rabo de cavalo baixo), olhos escuros, barba bem feita e rosto fino. Aquele era Demétrius, amigo do trabalho muito simpático. - Olá. Vejo que dessa vez não teve jeito né Rice. — disse-me com voz de ''eu te avisei'' — eu não queria que passasse por isso — ''por favor, não diga isso'' pensei — mas... ah... eu bem que te avisei. Aquelas palavras me atingiram como um soco na cara, eu queria morrer naquele momento, sem aguentar, comecei a chorar e tremer, entre soluços, dizia algumas palavras ao Demétrius e ele, sem entender, tentava me acalmar. - Calma Rice, calma. Eu estou aqui. — dizia enquanto passava a mão no meu rosto — vai ficar tudo bem. Consegui parar de chorar e contei a ele o que acontecera hoje pela manha. Ele ficou surpreso com tamanha desgraça, mas ouviu tudo até o final apenas assentindo com a cabeça. Eu estava com medo do que mais podia acontece naquele dia, e apara ajudar, Gustavo não atendia minhas ligações. Depois de tirar as coisas da minha sala e conversar com Augusto, iniciei minha viagem de volta para casa. No caminho, tentei ligar mais algumas vezes para Gustavo, mas ele não atendeu de novo. Desci do ônibus e fui, com medo até meu prédio. Aparentemente estava tudo numa boa. Abri o portão, subi as escadas e parei em frente a porta. Com medo e ainda tremendo, peguei as chaves e coloquei na porta. Abri de uma vez. Graças aos bons deuses, estava tudo bem. Fui até a cozinha e lá também estava tudo bem. Minha cafeteira estava desligada, não sei como, da tomada. Joguei a minha caixa de coisas no sofá e fui para a cama. Eu pretendia tirar meu sono dos justos quando o telefone toca. - Alô? - Alô, Clarisse?? — era uma voz de mulher com um tom de urgência. - Sim, quem fala? — respondi. - Oh, minha filha. Graças aos deuses. — senti uma tensão naquela voz- Aqui é a Alessandra, mãe do Gustavo. — ali meu coração quase pulou do peito, mas eu o segurei e esperei a dona Alessandra falar — Clarisse, meu filho foi atropelado no sábado e ele estava em estado grave, minha filha, hoje ele acordou chamando por você. Tem como vir no hospital ve-lo. - MEUS DEUSES. GUSTAVO NO HOSPITAL?! Qual? Me passe o endereço. Estou indo agora. - Estamos no hospital principal. No centro. Venha logo Clarisse, ele precisa de você.
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