Livro II: O Eco dos Nossos Passos

9 Café Preto e Olhares Antigos



​O aroma de café fresco e panquecas na chapa preenchia a enorme cozinha americana da cobertura. O sol da manhã de Nova York entrava sem pedir licença pelas vidraças, iluminando a bagunça típica de um pós-festa em família.

​Garret estava encostado no balcão de granito, vestindo um moletom cinza confortável e segurando uma caneca gigante. Ele parecia o mesmo rapaz do colégio, exceto pelos fios brancos que começavam a aparecer na barba bem aparada.

​— Eu estou dizendo, Sofia! A piada é genial, você é quem não aprecia o humor refinado da manhã — Garret insistiu, dando uma cotovelada de leve no braço da esposa.

​Sofia, que ajeitava uma cesta de pães doces na mesa, soltou um suspiro teatral, mas com um sorriso no canto dos lábios.

— Garret, são oito e meia da manhã. Ninguém na face da Terra quer ouvir um trocadilho sobre ovos mexidos a essa hora.

​— Ah, eles querem sim. Olha lá o quarentão da família chegando — Garret apontou com a caneca quando James entrou na cozinha.

​James Lâfrer mantinha a postura impecável de sempre, embora vestisse apenas uma calça de moletom preta e uma camiseta branca justa. Ele passou a mão pelo cabelo escuro, ainda um pouco bagunçado pelo sono, e soltou uma risada nasalada ao ouvir a provocação do melhor amigo.

​— Quarentão é o teu passado, Garret. Eu ainda estou nos trinta e nove — James rebateu, a voz grave e rouca pelo despertar recente. Ele caminhou até a garrafa térmica, servindo-se de café preto puro. — Qual é a tragédia em forma de piada que você está tentando vender agora?

​— É clássica, Lâfrer! — Garret limpou a garganta, empolgado. — Por que o ovo foi ao banco?

​James fechou os olhos por um segundo, dando um gole no café. — Não faço a menor ideia.

​— Para ver se o saldo estava... gema-do! Entendeu? Gema-do! Saldo zerado! — Garret riu da própria piada, uma risada alta que ecoou pela cozinha.

​— Meu Deus, pai. Essa foi, sem dúvidas, a pior dos últimos cinco anos — a voz de Hope surgiu do arco da porta.

​James virou-se devagar. O coração dele deu uma batida mais forte no peito ao vê-la. Hope usava um short de pijama confortável e um moletom oversized que pertencia a James — um hábito que ela claramente não pretendia abandonar. O cabelo loiro estava preso em um coque frouxo, com alguns fios caindo pelo pescoço, exatamente onde os lábios de James haviam tocado na madrugada anterior.

​Hope caminhou até a mesa e, ao passar por James, seus olhos azuis cortantes colidiram com os escuros dele. Foi um vislumbre de frações de segundo, mas carregado de uma cumplicidade incandescente. O deboche habitual estava lá, mas havia um brilho novo, uma posse mútua que fez a pele de James formigar. Ela deu um sorriso de canto, quase imperceptível, que dizia exatamente: eu lembro de cada toque.

​— Bom dia, aniversariante — James disse, mantendo o tom de voz controlado, embora o olhar tenha descido rapidamente para os lábios dela antes de voltar para a caneca. — Dormiu bem?

​— Muito bem, tio James — Hope enfatizou a palavra com uma pitada de ironia que só os dois entenderam, sentando-se à mesa e pegando uma torrada. — A sua cama de hóspedes é quase tão confortável quanto a sua conversa.

​— Acho bom. Cobro caro pela estadia — ele rebateu, sentando-se na cadeira de frente para ela.

​A mesa foi se preenchendo. Lucian e Elise desceram logo em seguida, juntando-se à conversa. Garret continuava disparando seus comentários infames entre uma garfada e outra de panqueca.

​— ...e aí eu disse para o cliente: "Se a obra atrasar, o senhor não vai ficar no tijolo, vai ficar no prejuízo!" — Garret contava, gesticulando com o garfo.

​Enquanto Lucian ria e Elise tentava mudar de assunto, Hope esticou a perna por baixo da mesa de madeira. O pé descalço dela roçou intencionalmente a canela de James sob o moletom cinza.

​James quase engasgou com o café. Ele endireitou a postura na cadeira, jogando os ombros para trás e fixando um olhar severo em Hope, as sobrancelhas arqueadas em um aviso silencioso. Hope, no entanto, apenas mastigou um pedaço de morango com a maior inocência do mundo, sustentando o olhar dele com uma audácia que desafiava qualquer protocolo familiar.

​Aos vinte anos, ela sabia exatamente o poder que tinha sobre o homem de quase quarenta que comandava aquela mesa. Havia uma pergunta silenciosa parando no ar entre os dois a cada troca de olhares: será que daria certo? A diferença de idade, o peso do passado, o título de "tio" de consideração... nada disso parecia forte o suficiente para frear a eletricidade que haviam descoberto no quarto de cima.

​James pigarreou, afastando o pé discretamente e cruzando os braços.

​Do outro lado do balcão, Sofia parou o que estava fazendo. Ela segurava o bule de chá, mas seus olhos castanhos estavam fixos na interação silenciosa entre a filha e o melhor amigo de seu marido.

​Sofia não era boba. Ela conhecia a filha que criara e conhecia o homem que James havia se tornado. Ela notou a fração de segundo em que o olhar de James desceu para o pescoço de Hope, onde a pulseira nova brilhava no pulso da menina. Viu a tensão na mandíbula de James e o rubor sutil nas bochechas de Hope que não vinha do calor do café.

​Um estalo de pura percepção atingiu a mente de Sofia. O coração dela falhou uma batida, uma mistura de surpresa e preocupação morna invadindo seu peito.

​— James — Sofia chamou, o tom de voz saindo um pouco mais sério do que o normal, quebrando a algazarra que Garret fazia com Lucian.

​James desviou os olhos de Hope imediatamente, encarando Sofia.

— Oi, Sofi.

​— Você... vai precisar ir para o escritório hoje à tarde? Ou vai conseguir acompanhar a gente no passeio pelo Central Park? — Sofia perguntou, mantendo os olhos fixos nos dele, analisando cada microexpressão do amigo.

​James engoliu em seco, sentindo o peso do olhar analítico de Sofia. Ele ajeitou a postura, a armadura corporativa voltando ao lugar.

— Não, eu limpei a agenda para o fim de semana. Estou livre. Vou com vocês.

​— Ótimo — Sofia deu um sorriso contido, mas seus olhos continuaram semicerrados por mais alguns segundos antes de ela voltar a servir o chá.

​Hope percebeu o movimento da mãe e recolheu a perna por baixo da mesa, voltando a focar no prato com um sorrisinho travesso. O jogo entre ela e James havia cruzado a linha da clandestinidade, e o primeiro sinal de que o mundo ao redor começaria a notar já havia sido dado. Mas ali, sob o sol da manhã de Nova York, nem a maturidade de James e nem a barreira da família pareciam capazes de parar o que o tempo havia guardado para os dois.