Notas iniciais
Narrador: Ezra Localização: planeta Terra

A viagem de táxi foi um tanto silenciosa. Sempre que eu tentava puxar assunto, a garota ruiva me mandava calar a boca. Sem falar no motorista, que continuou me encarando de vez em quando daquele jeito que era um misto de bizarro e apavorante.

Passamos por quase todos os pontos turísticos de Nova York em menos de dez minutos e paramos no fundo do Brooklyn, o que foi decepcionante, afinal, com tantos lugares legais para ir, paramos no bairro que, supostamente, é o mais perigoso da cidade. Bem, que seja.

Assim que desceu do táxi, Sarah já olhava para todos os lados, provavelmente a espera de algum monstro, ou de Uni parte dois, A Revolta.

Eu fiquei no táxi, esperando que ela gritasse comigo para sair, só porque gostei da carranca que ela fazia quando estava irritada. Funcionou. Ela fez cara feia e disse:

– Vamos logo, garoto – desci do táxi com um grande sorriso no rosto, isto pareceu deixá-la confusa, ela me fitou com um olho maior que o outro, como alguém que acha algo estranho demais para simplesmente parecer surpreso.

Ela foi até o fundo de um beco escuro – ótimo, mais um beco escuro que provavelmente tenha um unicórnio doentio –, ainda andando como se alguém a estivesse observando das sombras. Eu a segui, obviamente, não pretendia mais andar por aí sozinho pelo menos pelos próximos quarenta anos.

Quando chegamos ao fundo do beco ela empurrou um container e, embaixo dele, havia uma alavanca que parecia enferrujada demais para se mover. Ela a moveu sem esforço algum.

O chão se abriu bem à nossa frente, revelando uma escada de granito que descia para o escuro, escuro esse que se parecia mais com um buraco negro de tão escuro. Ela me observava com ar de satisfeita, como quem dizia mentalmente: “E agora, espertalhão?”, não pude deixar barato.

Criei uma bola de fogo e fui à frente. A deixei bufando de raiva.

Descemos as escadas – Sarah agora à minha frente – e archotes foram se acendendo à medida em que passávamos por eles. Estava começando a me sentir inútil com uma bola de fogo nas mãos, mas antes que eu pudesse apagá-la por conta própria ela se apagou. Sarah riu da minha cara, obviamente, e eu decidi não tentar me aparecer mais, por ora.

Atrás de nós, o buraco que havia sido aberto se fechava aos poucos. Aquilo parecia surreal, mas, para mim, que há poucos segundos atrás tinha uma bola de fogo nas mãos, era fichinha.

Depois que terminamos de descer a escadaria – o que pareceu durar mais que uma maratona nível Quênia – cheguei ao lugar mais legal que eu já vi em toda a minha curta vida.

Era como um metrô abandonado, o que combinava com o nome Metrô Mestiço. Eu gosto tanto de coisas antigas quanto de tecnologia, e adivinha? O Metrô Mestiço tem muito das duas coisas. Eu me apaixonei por aquele lugar assim que saí da escadaria, realmente. Era uma plataforma enorme de metrô, com dois trens como os que eram usados no metrô de Nova York há uns vinte anos atrás parados, um de cada lado. Os pilares que pareciam sustentar o mundo acima de nós exibiam imagens dos resultados das rodadas de futebol americano, basquete e fórmula um. O local estava praticamente vazio, afinal, já era tarde e todos deveriam estar dormindo. Ao fundo havia mais uma escadaria – esta iluminada.

Fiquei intrigado: se a escadaria levava para cima, significava que provavelmente ia dar no meio do pátio do condomínio que ficava sobre o metrô.

Fomos passando pelo corredor central e um garoto nerd, mais magricela que eu, com cara de retardado veio apertar minha mão, mas eu não pretendia contar a história assim para Peter. Aliás, se ele pudesse ver o metrô...

Quando chegamos ao fundo do corredor, pude ver que havia uma coisa parecida com uma bilheteria à esquerda das escadas. Tomei um susto quando um cara saiu de lá abrindo a porta com violência. Sarah ria às minhas custas novamente. Conseguiu parar de rir um pouco para falar:

– Este aqui é o garoto do qual lhe falei.

– Você falou sobre mim para ele? Quando? – ou ela já sabia da minha existência antes de me encontrar, ou ela havia mandado uma mensagem de texto para o cara sem que eu percebesse. Será mesmo que eles tinham celulares? Eu já nem me importava tanto assim com meu iPod, havia conseguido ficar sem tocar nele por... Três horas e quarenta e seis minutos. Aliás, havia tocado nele para ver as horas, o que quebrou a contagem. Triste.

– Fique quieto, garoto – agora a ênfase na palavra garoto começava a me incomodar novamente. Eu sei, sou insuportável, mas ela conseguia ser pior ainda. Se passasse mais dez minutos na companhia dela, a chamaria para uma luta livre – e perderia, mas o que vale é a intenção.

O cara que me assustou estava parado ao meu lado, sorrindo com cara de idiota. Eu o encarei por algum tempo. Ele parecia hiperativo, tinha olhos verdes brilhantes e durante o pouco tempo que fiquei na companhia dele já estava ficando mais ansioso do que já sou normalmente. Aquele cara ficava estalando os dedos, mexendo no cabelo e gritando coisas para todas as poucas pessoas que passavam por nós. Então ele resolveu falar, para terminar a tensão do silêncio, imagino.

– Sei que pensa que sou louco, mas acredite, não sou. É só que, depois de mais de dois mil anos de vida, aprendi a sorrir por qualquer coisa e interagir com todos. Isso é o que me faz não ficar louco – ele disse mais de dois mil anos?

– Ah, não... Que isso... Você nem parece louco...

– Relaxa, eu sou filho da Lua e posso ler seus pensamentos. Aliás, vou te explicar melhor o que você é.

– Seria bom saber que tipo de coisa eu sou, realmente. Prossiga.

– Vamos ali para dentro, podemos beber chá e ficar sentados, vai ser mais confortável – ele indicou a porta de onde havia saído antes.

Fiquei pasmo pela quarta vez naquele dia. O lugar era uma réplica exata da cozinha da minha casa, só faltava minha mãe gritando. Inclusive, gostaria de saber como minha velha estava.

– Sua mãe está bem, já a informamos que estava vindo para cá. Até contamos para ela que ajudou Sarah a matar o unicórnio – eu teria de me acostumar com aquele cara lendo minha mente e respondendo antes mesmo que eu pudesse perceber que era comigo que falava. – Então seu lugar favorito é a cozinha da sua casa? Cada pessoa vê seu cômodo favorito ao entrar aqui.

– Eu... Ah... Não, acho que não... – meu lugar favorito sempre foi meu quarto, eu sabia disso. Era lá que eu passava horas fazendo tudo que eu gosto de fazer. Na cozinha eu só ficava conversando com a Dona Lillian. Ok, algumas vezes ela era legal, até mesmo engraçada, mas nunca, nunca mesmo, melhor que meu quarto.

– Você deveria passar mais tempo com sua mãe. Ela parece uma pessoa incrível. Falei com ela usando a Mensagem de Vácuo – fiquei me perguntando o que era mensagem de vácuo, mas ele pareceu não querer responder. – Bem, que seja. Aqui, leia este pergaminho, vai te ajudar a entender como funciona sua arvore genealógica e o resto todo – e me entregou um pergaminho, não tão grande assim. Pensei que o pergaminho era até novo demais para algo que conta uma história tão antiga.

Antigamente, antes do Big Bang, antes da Era Mesozoica, antes de tudo e de nada, o Sol comandava sozinho. Nada existia. Somente ele durante um longo período de solidão.

Épocas passaram-se até ser detectada uma partícula de poeira a cerca de cento e cinquenta milhões de quilômetros da estrela de Sol. Tratava-se de algum resíduo de outra galáxia recém-destruída que voou através de um buraco negro até aquele ponto. Preocupado com sua estabilidade, o Sol dedicou seu tempo a cobrir o grão com camadas e mais camadas de… Amor.

Quando o Sol pensou que estava tudo bem, que finalmente poderia descansar, eis que percebe uma presença, alguém que esteve ali desde o inicio, observando-o durante todo o processo, a cada camada, e nunca foi notada. Era a Tellus. A regente daquele ponto escuro que dizia chamar-se Terra. O Sol apaixonou-se por ela de tal forma que, até os tempos atuais, jamais pôde superar.

O amor deles gerou todos os regentes conhecidos e qualquer um que venha a ser. O mundo é cheio de mistérios. Não podemo-nos enganar pensando a tudo conhecer. Depois de Saturno, Júpiter, Urano, Vênus, Ceres, Marte, Mercúrio, Netuno, Makemake, Haumea, Plutão e Éris nascerem, cada qual ganhou um planeta. Cada regente possuía sua característica única e cada planeta se modificou a partir desta.

Foi neste período que o mesmo buraco negro que trouxe Tellus, abriu-se novamente, trazendo pequenos novos resíduos que originaram as pequenas estrelas e constelações. Essas foram abençoadas, cada uma com um dom. Esses dons melhoraram a vida dos regentes e nosso universo mergulhou em plena paz.

Porém, chegou o dia em que o Sol teve, para proteger seus filhos, de ver Tellus por apenas uma parte do dia. Foi na outra parte que o inesperado aconteceu. Ela apaixonou-se novamente. Órion era um grande caçador, mas, além disso, era a constelação favorita de Tellus.

Mesmo que seu amor por Tellus fosse coisa antiga, jamais se colocaria entre ela e o Sol. Ele sabia do amor que Sol nutria por ela, mas foi assim que ela quis. Era muito inconsequente. Quando Sol descobriu tudo virou escuridão por uns tempos. Isso extinguiu quase todas as espécies existentes da Terra, naquele tempo. Tellus, tentando proteger-se, foi para o céu. Dentro de pouco tempo ela foi descoberta e punida, tendo de iluminar as noites, não podendo mais gerar ser algum e nem pôr os pés, sequer por um segundo de toda a eternidade, em seu planeta. O que não foi de todo ruim, pois ainda hoje, ela está junto à Órion.

Ela nunca mais permitiu que qualquer um a chamasse de Tellus. Nos tempos atuais, só se deixa ser chamada pelo nome Diana. Ela nunca mais encontrou forças para voltar. Seus filhos nada fizeram. Cada qual com seus motivos. Alguns por egoísmo, outros dão razão ao Sol e condenam Diana, mas existe um motivo que é maior que todas as alegações: Uma guerra contra o Sol poria fim a Terra e a humanidade.

– Então quer dizer que há vida em outros planetas?

– Sim, mas não são humanos, são todos servos dos regentes que nasceram da fonte de deus poderes e se reproduziram. E a humanidade nunca desconfiaria, pois o planeta Éris (mais conhecido como planeta da magia), que se encarrega de esconder todo e qualquer acontecimento suspeito, controla a mente dos governantes para que não vejam aquilo que querem ver, e nas poucas vezes em que eles tentaram visitar outro planeta além de marte “algo de ruim aconteceu”. Na verdade as pessoas enviadas sofreram de uma pequena perda de memória forçada e foram transformadas em criaturas. A maioria delas foi enviada para Saturno, o planeta do regente que controla os animais selvagens, e lá são felizes caçando uns aos outros.

– E quando eu vou poder ver minha mãe? – me preocupava o fato de que talvez mandassem algum monstro para matá-la só por eu ser filho de Mercúrio.

– Em breve. Os responsáveis humanos pelos mestiços tem direito a visitas sempre que tiverem vontade. Claro que a maioria dos pais prefere não ver mais os filhos, afinal, vocês vão partir para missões perigosas. É uma pena, mas os seus pais míticos não estão nem aí para vocês. Cada um é só mais um filho – aquilo me deixou com um pouco de medo, mas não quis demonstrar. – Esqueça isto rapaz, você recém chegou aqui, não vamos mandá-lo numa missão suicida ainda – ele deu um enorme sorriso, como se brincar com a vida de mestiços novatos fosse uma atividade engraçada. – Deixe-me apresentá-lo o restante do metrô.

Ele se levantou energicamente como sempre fora nos menos de vinte minutos de convivência que tivemos, e saiu da sala. Eu ainda nem tinha terminado de tomar meu chá, e acabava de lembrar que ainda nem sabia o nome dele, não que isso me importasse. Sinceramente, achei aquele cara muito chato.

Bebi mais um gole do chá gelado e dei um pique para que pudesse alcançá-lo ainda nas escadas que subiam. Quando cheguei perto dele, ele parou e me olhou com cara de mal por alguns segundos. Pensei que eu tivesse feito algo de errado e já me preparava para dizer “não fui eu” quando ele disse:

– Esqueci alguma coisa... Mas que coisa? – eu tenho cara de vidente?

– Não, você não tem cara de vidente – esperava ansiosamente pelo momento em que me acostumasse com o fato de que ele pode ler minha mente. – Ah! Meu celular – e voltou correndo para a sala onde estávamos antes.

Fiquei ali, parado no meio da escada com cara de tacho, enquanto ele não aparecia. Muita gente passou por mim e ficou me encarando como se eu estivesse com algum problema sério, até respondi para um garoto de uns doze anos: “perdeu alguma coisa aqui, idiota?”. Fiquei com pena dele, mas não ia pedir desculpas e parecer uma mulherzinha. Foi então que percebi que o cara sem nome já havia chegado e me olhava com uma cara muito, muito feia. Ele disse:

– Você é sempre prepotente assim? Porque eu posso ler sua mente, e sei que não é de verdade. Se continuar assim realmente não vai ter mais nenhum amigo além de Peter – aquelas palavras pareciam me apunhalar a bola esquerda. Sério, doeram do mesmo jeito. – Aliás, eles estavam te olhando assustados porque seu olho está muito vermelho – ele foi metendo as mãos no meu rosto para observar melhor meus olhos. Senti-me incomodado pelo contato...

Ele tirou as mãos de mim quase imediatamente. Eu deveria começar a parar de pensar por perto daquele cara para não passar por tantas situações constrangedoras, mas sério, ele era tão metido e irritante. Ele conseguia ser mais irritante que eu. E quanto mais ele falava e agia, menos eu conseguia acreditar que ele tivesse mais de dois mil anos.

– Então, por que meus olhos estão tão vermelhos?

– Mercúrio está discutindo com alguém. Isto não é normal – ele encarou o nada coçando o queixo. Enfim consegui acreditar que ele tivesse mais de dois mil anos. Era como se centenas de informações flutuassem em seus olhos. Ele se moveu rapidamente, como que saindo de um transe. Pareceu preocupado por um instante, mas então sorriu para mim e me empurrou gentilmente como um sinal para prosseguirmos.

– Ah! A propósito, meu nome é Olaf.

– Hm... Certo.

Havia muitos andares no metrô, mas nunca se deixava o subsolo, ou seja, algum tipo de magia foi usado para que se coubesse mais em menos espaço. Sei lá como se faz isso. Já havia me acostumado com todas as loucuras que envolviam ser filho do regente de um planeta.

Paramos no segundo andar apenas para que ele me mostrasse a porta dos aposentos do filho único de plutão – que estava em missão. Eu era proibido de entrar lá sem uma ordem especial e, segundo Olaf, o filho de Plutão era frio e raivoso na maior parte do tempo e, provavelmente, me trataria tão mal quanto uma cobra trata um rato de laboratório, caso estivesse ali.

O segundo andar era de Netuno; eles mantinham a porta sempre aberta, mas não eram muitos, havia apenas três: uma garota estava dormindo no sofá, um garoto jogava vídeo game e um cara estava atirado numa poltrona. Ao fundo do cômodo, havia uma porta que levava aos quartos. Convidaram-me para entrar e tudo, mas tive que negar, pois meu guia turístico tinha pressa. Conversei um pouco mais com o cara que jogava vídeo game e depois fui arrastado por Olaf até a saída.

O terceiro andar era dos filhos de Urano. Fui alertado de que eles eram egocêntricos e inteligentes, mas quis entrar mesmo assim, e isto foi um erro. Eles não estavam nem aí para mim. Apesar de estarem entre treze, possuíam uma quantidade menor de carisma que os poucos filhos de Netuno. Quase todos liam livros enormes e, os poucos que não liam, escreviam ou faziam cálculos em um quadro branco. Quando saímos, Olaf disse:

– Eu te avisei...

Não quis respondê-lo, pois sabia que ele estava certo e leria minha mente de qualquer jeito, mas decidi que ia passar reto por todos os outros dormitórios para não sofrer de constrangimento novamente. Passamos rapidamente por todos os andares e eu percebi que, realmente, não havia aposentos de Terra nem de Sol.

O último andar era o meu: Mercúrio. Parecia até que sabiam que eu odiava subir escadas e haviam projetado aquele lugar com o meu quarto o mais alto possível em forma de gozação. Antes de entrar, disse:

– Esse lugar tem algum elevador escondido, não tem? Diga que sim, por favor.

– Estamos pensando sobre isso há anos, mas nunca ninguém se propõe a executar o projeto... Desculpe – só não reclamei porque ele pareceu realmente ter pena. – Bem, a partir daqui deixarei que se entenda com seus colegas de quarto. Até mais.

A porta estava entreaberta e eu fui entrando. Era meu quarto, oras. Sempre sonhei com o quarto perfeito, mas em nenhum dos meus sonhos cheguei a idealizar um lugar tão legal quanto o cômodo de Mercúrio. Era simplesmente incrível! Havia coisas moldadas em ferro por todo o cômodo, até mesmo um Batman em tamanho real – o que significava que ele era muito maior que eu. Os sofás pareciam tão confortáveis que eu acho que dormiria neles pelo resto da vida sem pedir por uma cama. Ao invés de uma televisão normal, o aposento tinha um telão quase do mesmo tamanho que o de um cinema. Só fiquei decepcionado com os meus irmãos. Todos eram magricelas e idiotas, apesar de saber que haviam moldado todas as figuras de ferro incríveis que ficavam espalhadas pela sala, não conseguia respeitá-los. O que mais me surpreendeu foi ver que o mesmo cara imbecil que foi o único a me cumprimentar quando cheguei estava lá, sentado, me observando com um grande sorriso que eu entendi como: “você vai ser meu amigo, querendo ou não”. O que eu sentia por aquele cara? MEDO. Alguém me salva desse psicopata, por favor?

Dei um sorriso forçado desconfortável para ele e fui conhecer o restante dos meus amigos. Éramos seis filhos de Mercúrio, o que significava que papai tinha mais bala na agulha que Netuno, mas não fazia filhos mais bonitos. Qualidade ou quantidade? Eu sei lá o que vale mais. Dos seis filhos de Mercúrio, apenas duas eram garotas.

Um garoto alto que estava sentado no sofá lendo uma HQ do homem aranha se levantou e veio falar comigo. Parecia ser o mais velho do grupo. Ele disse:

– Seja bem vindo ao grupo. Meu nome é Jason. Estes são Nicholas – apontou para o garoto que parecia psicopata –, Leona – uma garota de cabelos castanhos lisos, mais compridos que os próprios braços –, Diana – essa me encarava assustada, era ainda mais baixa e magra que eu – e Jax – o único gordinho do grupo, com uma expressão mais vazia que a de Peter, era negro e tinha cabelos curtinhos. E qual seu nome? – ele parecia estar se esforçando para fazer aquilo, como se ser sociável não fosse seu forte. Não que eu seja bom nisso. Pra falar a verdade até que ele se saía bem se comparado a mim.

– Me chamo Ezra. Sim, minha mãe é doida, por isso me deu essa droga de nome – todos riram. Pretendia arrumar amigos sendo engraçado, era só o que eu sabia fazer mesmo.

– Relaxa, já vi piores – ele continuou sorrindo enquanto me indicava a porta do quarto. – Vamos. Você tem que escolher uma cama.

Senti os olhos dos outros às minhas costas até passar pela porta. Alguns pareciam me julgar mentalmente enquanto outros apenas pareciam felizes com mais um irmão – principalmente o garoto psicopata, ou só ele.

­A porta se fechou às minhas costas e o garoto que sorria até poucos instantes agora me olhava com tanta raiva que parecia prestes a me esfaquear. As mãos do rapaz começaram a pegar fogo e seus olhos ficaram vermelhos como sangue. Ele não movia os lábios, mas pude ouvir:

Você matou meu unicórnio e vai pagar por isso!

Eu queria gritar por ajuda, queria dizer que o unicórnio tentou me matar primeiro, mas acho que aquele cara não ia me deixar falar sequer um “Ai”.

Palavra do dia: Sorte.

Quando Jason levantou a mão direita para trás e fez menção de atear fogo em mim, Olaf apareceu e segurou seu braço. Pareceu uma eternidade o tempo em que eles ficaram ali, brigando em silêncio. Jason não pareceu se interessar por Olaf. Não tirou os olhos incandescentes de mim em nenhum momento. Até que os fogos se apagaram e Jason voltou a ser Jason.

Ele estava confuso, como se não fosse ele a controlar o corpo que ia me matar poucos segundos atrás. E parte de mim dizia que, realmente, não era ele. Ele soluçou, dizendo:

– Eu... Eu não...

– Eu sei – disse Olaf, sério.

– O que exatamente aconteceu aqui? – esperava que Olaf soubesse a resposta. A meu ver, se ele não soubesse ninguém saberia.

– Parece que Mercúrio quer matar o próprio filho.

– Mas o unicórnio era do Sol.

– Não, não pode ser. O Sol não tem forças – claro que ele não tem, ele só dá luz todos os dias para alguns planetas e mantém todos os seres da Terra vivos.

– Mas foi isso que o unicórnio disse. Que era enviado do Sol.

– Se o que você está dizendo for verdade, estamos todos ferrados – acho que ele quis dizer outra palavra que começa com f.

Ele ficou com aquele olhar de novo, o que faz parecer que ele tem mais de dois mil anos. Depois de alguns segundos, ele olhou para mim, para Jason, para o chão, e franziu a testa, dizendo:

– É, parece que estamos fodidos.