Livro I - A viagem a Netuno
2 II – A Ira
Notas iniciais
Fiquei um pouco chateado com Ezra por não me convidar para passear no Central Park, e mais chateado ainda por ele não ter aparecido para meu jantar de aniversário. Era o único convidado, o que significa que não comemorei nada. Tive apenas um jantar, como todos os outros, com meu pai e minha madrasta – que é insuportável.
Meu pai havia se juntado às Forças Armadas dos Estados Unidos. Era aposentado há mais de quinze anos e, agora, apenas se vangloriava sobre suas aventuras como sargento. Imagino que tenha se aposentado para cuidar de mim quando minha mãe foi embora.
Enfim, jantamos frango frito feito pela imbecil da minha madrasta. A única coisa que eu gostava sobre ela era o fato de que ela cozinhava muito bem.
Durante o jantar, meu pai perguntou onde estava o Ezra, e falou mal dele, o que era normal. Só porque ele era engraçado, garanto. A inveja que meus familiares tinham de gente engraçada era, provavelmente, o principal defeito da família. Herdei um pouco desta inveja, mas não demonstro. Não quero ser tão idiota quanto meu pai e meus irmãos.
Minha casa, como é de se imaginar, parece um campo de batalha. Meu pai não sabe conversar, ele só grita. Isso me irrita um pouco, mas não deixo transparecer. Ele não vai mudar porque eu quero. Assim como ele me quer nas Forças Armadas, mas não vai ter. Eu não vou ser do jeito que ele quer.
Por culpa desta criação conturbada, acabei virando um cara tímido e fechado. Acho que é mais ou menos o que acontece quando não se tem uma mãe e é obrigado a conviver com um militar rigoroso por mais de dez anos.
Quanto à minha mãe? Nunca vi, nem em fotos. Tudo o que sei sobre ela é o que meu pai contou, e como ele não é muito de falar, isso é o mesmo que quase nunca. Vez ou outra ele fazia questão de confirmar que não havia sido traído, que eu não era adotado, que ela não morreu. Só não explicava o porquê do sumiço.
Eu costumava sonhar com ela. Eram visões turvas, provavelmente do tempo em que eu era bebê. Nem sei se eram mesmo visões do passado ou apenas sonhos, mas se é que aquilo era meu passado, já poderia ter certeza da origem dos meus cabelos – loiros e lisos.
A verdade é que eu odeio ser loiro e alto. Sei que muita gente gostaria de ser assim, mas a verdade é que eu não gosto que prestem atenção em mim. Prefiro que não me notem.
As pessoas esperam demais de mim só porque eu sou filho do sargento Robert. As pessoas esperam demais de mim só porque eu sou alto e robusto. Elas esperam demais de mim o tempo todo. Isso é irritante.
Gostaria de ser como o Ezra. É egoísmo eu sei, mas a vida dele é perfeita. Ele tem uma mãe legal, ninguém espera nada dele, qualquer ato da parte dele já é o bastante, ele é engraçado, nada pode abalar aquele baixinho. Pensando bem, não estou com raiva dele... Sei que ele não veio porque algo aconteceu. Ele não me deixaria aqui esperando feito um bobo se não tivesse um motivo forte.
Liguei para ele dezenas de vezes, mas a única resposta que tive foi “o celular chamado encontra-se desligado ou fora da área de cobertura”.
A bateria do Ezra nunca acabava. Ele era um pouco neurótico, sempre que ia dormir ligava o celular à luz e o deixava carregando até a hora de acordar. Ou seja, das quatro barras de bateria, a única que sumia vez ou outra era a última. Pelo menos três sempre estavam lá.
Sendo assim, só sobrava uma possibilidade: Ezra estava fora da área de cobertura. Mas onde será que ele foi parar?
Depois do jantar, fiquei no meu quarto lendo sobre a matéria que o professor de física tinha passado hoje. Não havia entendido nada do que ele dissera, porque a cada três palavras, Ezra citava um dos problemas de física do Ezra, que eram tipo: ”Ei Peter, calcule aí: sabendo que o professor pisca os olhos trinta vezes por segundo e lambe os lábios cem vezes por minuto, quanto tempo ele leva para se encher de baba e ficar com cãibra nas pálpebras?”.
Mesmo depois de meia hora lendo, não entendi nada. Minha mente vagava muito longe daquelas páginas. Eu estava preocupado com meu melhor amigo. Isso pode soar gay, mas eu me preocupo mais com ele que com qualquer outra pessoa. Ele é, na verdade, a única pessoa importante que tenho. Choraria mais no enterro dele do que no enterro do meu próprio pai. Se bem que nem consigo chorar.
Essa era uma característica minha que meu pai adorava. Segundo ele, não chorei nem quando nasci. Os médicos ficaram todos pasmos ao retirar uma criança silenciosa, chegaram a dizer que eu estava morto, mas como meu pai sempre dizia: “... ah, eu disse pra eles, meu garoto não vai morrer assim tão fácil, ele só é macho demais para chorar...”. Idiota. Entendo minha mãe por tê-lo deixado.
Após escovar os dentes, fiquei deitado na cama olhando para a janela por um bom tempo; não conseguia dormir.
Quando finalmente peguei no sono tive um pesadelo. Eu estava em um lugar estranho, e um cara com uma barbicha esquisita parecia estar esbravejando comigo. Eu não conseguia desviar o olhar nem sair de perto. Assim funcionam os piores pesadelos: queremos parar de sofrer e não conseguimos.
Acordei quase instantaneamente, como se não tivesse dormido nada depois do pesadelo, ou como se ele tivesse durado a noite toda. Meu corpo estava encharcado de suor. Parecia que alguém havia urinado em mim.
Era sábado, ou seja, não tinha aula. Mas eu acordava cedo nos fins de semana também, coisa de filho de militar.
Pus minha roupa de cama para lavar e levei o colchão para o quintal dos fundos, deixei ele sobre duas cadeiras para pegar um pouco de sol, a fim de secá-lo e tirar o cheiro de suor.
Tomei um banho e fiquei consertando coisas pela casa com meu pai – não por vontade própria, é claro. Durante o conserto do encanamento da pia ele resolveu começar com a gritaria:
– Ah garoto, por que você não faz nada direito? – e ele só dizia aquilo porque eu, sem querer, tinha entregado uma chave errada para ele.
Resolvi não dizer nada. Apenas entreguei a chave correta e permaneci em silêncio. Ele continuou reclamando enquanto girava parafusos.
– Eu devia ter te mandado para uma escola militar... Lá você aprenderia a ser um garoto decente.
Um garoto decente? Eu era o mais educado possível até mesmo com ele, que era um grande imbecil. Se ele não fosse tão idiota, poderíamos até mesmo ser, tipo, amigos, ou coisa parecida. Mas não, ele tinha que ser um militar cem por cento do tempo.
Ele ainda resmungava baixinho.
– Eu não devia ter me aposentado. Podia ter ficado trabalhando no exército com gente competente. Se sua mãe tivesse abortado tudo seria mais fácil... – tentei parecer calmo enquanto ele falava sobre o quão desnecessário eu era.
A verdade era que eu estava quase explodindo de raiva.
– E se eu tivesse te mandado pra adoção? Te jogado num rio? Ah, que maravilha...
– JÁ CHEGA! – estava de pé, com os punhos cerrados, não pude controlar o grito que escapou de minha garganta, mas agora que já havia gritado, pretendia seguir em frente com a afronta.
– Como é que é, garoto? – ele ficou de olhos arregalados por algum tempo, então deixou os olhos semicerrados como se estivesse me desafiando a falar mais. E eu aceitei o desafio.
– Não vou deixar continue falando de mim como se eu fosse só uma pedra no seu caminho. Se continuar a me tratar deste jeito, vou embora daqui!
– Então vá, garoto. Vá embora. Mas espere... Para onde? Você não tem para onde ir. Sente-se aí e me ajude a terminar de consertar esta pia, ainda temos outras coisas a consertar nesta casa. Faça isto por bem ou por mal.
Corri para meu quarto, a raiva me fazia não pensar direito. Pude ouvir a voz dele às minhas costas.
– Volte aqui, garoto.
Não queria mais vê-lo, ia fazer as malas e partir. Ele estava certo, não sabia para onde. Mas qualquer lugar era melhor que aquela casa.
Ele não subiu atrás de mim, provavelmente pensava que era só um acesso meu e que eu voltaria em pouco tempo pedindo desculpas pelo mau comportamento. Que seja.
Enchi minha mochila de roupas e saí a passos firmes do quarto. Ele estava parado, escorado na mesa de jantar com cara de despreocupado.
– Você não está pensando mesmo em ir embora? Está? – ele falava aquilo como se não fizesse diferença. Não respondi, apenas fui andando em direção à porta. Quando pus a mão na fechadura ele segurou meu braço.
Ficamos ali algum tempo encarando um ao outro como dois touros prestes a bater chifre com chifre. Senti um formigamento estranho no braço. Talvez porque ele estivesse apertando forte demais, não sei.
De repente, ele me soltou e disse:
– AI! – parecia que havia levado um choque. E aquela era minha chance. Abri a porta e saí correndo de casa.
Quando estava na metade da quadra ainda podia ouvi-lo gritando dezenas de palavrões. Sabia que não poderia voltar para aquela casa nunca mais.
Mas e agora? Para onde diabos eu iria?
Talvez pudesse mentir que era órfão e ir para um orfanato, assim o desejo do sargento seria atendido. Talvez vivesse nas ruas, pedindo trocados.
Deveria existir um curso de Como ser mendigo? Assim as pessoas saberiam por onde começar quando resolvessem fugir de casa.
Fiz a coisa mais idiota de todas: fui para o Central Park. Simplesmente o parque mais conhecido do mundo. Era óbvio que se meu pai resolvesse chamar a polícia, este seria o primeiro lugar onde me procurariam.
Andei pelo parque em lugares onde não pudesse ser encontrado tão facilmente por duas horas, até me certificar de que a polícia não apareceria. E não apareceu. Sussurrei sozinho:
– Aquele velho não se importa mesmo comigo...
Tinha alguma esperança, lá no fundo do meu subconsciente, de que ele se importasse um pouco. Queria que ele mandasse a polícia me buscar. Fui decepcionado pelo meu próprio pai. Não que ele já não fosse uma grande decepção como pai.
Saí do parque e comecei a andar pelas ruas. Já estava ficando escuro, decidi ir até a casa de Ezra ver se a mãe dele me deixaria dormir lá. Esperava encontrá-lo por lá para que ele me explicasse que seu celular havia caído e se partido ao meio ou coisa do tipo.
Bati à porta três vezes e esperei. Ninguém atendeu. As luzes estavam todas apagadas. Comecei a pensar que eles haviam ido viajar ou coisa do tipo.
Quando eu já estava desistindo, um carro de polícia parou na frente da casa. Eu gelei. Pensei que estivessem me procurando. Mas quando já estava quase correndo, a mãe de Ezra saiu do carro, agradeceu pela carona e foi subindo a escadaria que levava à porta da casa, sem olhar para mim.
Ela parecia muito triste. Os cabelos, encaracolados como os de Ezra, pareciam sem vida, e os olhos, vermelhos de tanto chorar. Ela seguiu caminhando lentamente.
Fiquei ali, parado como uma árvore, em silêncio. Quando ela viu que eu estava lá parado, deu um grito e levou a mão ao peito, dizendo:
– Deuses garoto... Você devia ter feito um sinal ou dito alguma coisa...
– Desculpe... – estava muito envergonhado por ter dado um susto nela, mas não poderia ter feito um sinal. Se a polícia estivesse atrás de mim era melhor não ser espalhafatoso perto de um carro deles.
– Tudo bem. Mas... O que você está fazendo aqui?
– Vim procurar pelo Ezra. Liguei para ele muitas vezes e ele não me atendeu. Estou preocupado – não era de todo mentira. Mas não pretendia contar a ela que havia fugido de casa a não ser que fosse extremamente necessário.
– Bem, vamos entrar, vai ser melhor conversar bebendo chá – ela disse aquilo enquanto abria a porta e me fazia sinal para entrar primeiro.
A casa de Ezra era a mesma de sempre: aconchegante. A cozinha era rodeada de armários, muitos armários. Como ela conseguia encher todos eles eu nem sei, seria preciso muito material de cozinha para guardar em todos aqueles espaços. E Dona Lillian vivia fazendo chás e bolos de chocolate. Queria eu ter uma mãe como ela.
Fiquei ali sentado bebendo chá e comendo bolinhos por um bom tempo enquanto ela me observava silenciosamente, como se estivesse pensando sobre o que eu estava pensando. O jeito como ela me observava me deixou muito mais envergonhado do que já sou normalmente. Resolvi falar, assim talvez acabasse com a tensão existente.
– Então... Nenhuma notícia do Ezra? Nada mesmo?
– Segundo registros, ele esteve ontem no Central Park. Viram isso nas câmeras. Depois disso: nada mais – deu para ver que ela ia chorar uma hora ou outra de novo.
– Ele deve estar bem, sabe se virar – nem eu acreditava naquilo. Sabia que ele era um pouco indefeso. Mas algo me dizia que ele estava vivo.
– Assim espero... Não imagino por qual motivo ele fugiria de casa. Ele deve ter sido sequestrado...
Não sabia mais o que dizer. Ele realmente não fugiria de casa. Nossa melhor opção era o sequestro com possibilidade de resgate.
– Eu vou encontrá-lo – disse aquilo sem pensar. Lillian me olhou como se eu fosse louco.
– Não Peter, você não pode. Se nem a polícia consegue achá-lo... Temo que você não consiga. Desculpe-me por não acreditar em você... Só estou tentando ser realista.
– Eu prometo, vou buscá-lo.
Ela continuou me olhando, triste. Eu sabia que ela não acreditava em mim, mas algo me dizia que eu voltaria a vê-lo.
Ouvi um som estranho vindo da sala de estar. Corremos até lá, a janela estava aberta, mas nem sinal de quem a havia aberto. A mãe de Ezra se segurava em meu braço, tremendo de medo. Era baixinha, sua testa mal chegava ao meu ombro.
Fiz sinal para que ficasse à porta e em silêncio. Dei alguns passos pelo cômodo observando todos os lugares em que alguém pudesse estar escondido: embaixo do sofá, atrás da estante, atrás das cortinas... Nada. Olhei pela janela e a rua parecia calma como um deserto.
Dei as costas para a janela para poder falar com Lillian e neste pouco espaço de tempo alguma coisa surgiu e me agarrou pelos braços, me fazendo cair de cara no tapete. A mãe de Ezra estava boquiaberta.
Não consegui ver o que era, até que a coisa me soltou como se tivesse levado um choque, assim como meu pai havia feito algumas horas antes.
No pouco tempo em que a criatura me soltou, consegui rolar para o lado em que estava Lillian e me interpus entre eles.
Que coisa era aquela?
Um demônio parecido com um zumbi estava parado bem no meio da sala de estar da casa de Ezra. Que dia. Ele usava roupas rasgadas, tinha olhos totalmente negros, sem vida, mas a boca parecia demonstrar raiva. Os dentes eram simplesmente enormes e todos tortos. Aquele demônio tinha uns dois metros e meio e era magro como um graveto, mas provara ter força o bastante para me derrubar.
Eu ainda estava meio tonto do baque contra o chão. Sentia-me perdido e, para falar a verdade: não sabia o que fazer. Eu diria para corrermos, se tivéssemos para onde correr. Certamente aquela coisa nos venceria na corrida.
Fiz a coisa que qualquer pessoa retardada faria: comecei uma conversa com a besta.
– Quem e você?
Eu sou a Ira, garoto. O demônio não moveu os lábios, aquele som estava saindo dentro de minha mente, não era uma voz. Eu simplesmente entendia o que ele queria dizer, sem som algum.
Percebi que a mãe de Ezra me olhava assustada, como se dissesse com o olhar “Por que está conversando com um demônio no meio da minha sala de estar?”. Mas ela não disse nada, parecia em choque.
Não, ela não pode me ouvir. Ele parecia não só ler meus pensamentos, mas também prevê-los.
– O que você quer? – tentei parecer o mais corajoso possível.
Preciso levá-lo. Sua cabeça vale muito.
– Me levar para onde? – minha coragem já não era a mesma de antes.
O Sol quer você morto. Será que ele estava falando sobre o sol que eu estava pensando? O sol que ilumina nossos dias? Difícil. Mesmo que o sol pudesse ser alguém, seria alguém do bem, imagino.
Nosso assunto acabou ali. Ele simplesmente partiu para cima de mim. Eu estava certo de que aquele seria o dia da minha morte. Aquela coisa tinha garras enormes. Quando resolvesse usá-las em mim ia me fazer em vários pedaços instantaneamente.
Algo dentro de mim, como um instinto selvagem, moveu meu corpo. Eu não pretendia socá-lo bem no meio dos olhos; mas foi o que fiz. O demônio ficou sentado me olhando – eu sabia que ele me olhava, apesar de ele não ter pupilas.
Fiquei parado, absorto. Sabia que ele não seria tão burro de correr se oferecendo para um soco novamente. Dessa vez, não me daria chance de derrubá-lo.
Mas ele não fez o que eu esperava.
Ele parecia ter se enchido de ira. E correu para meu soco novamente, só que desta vez parecia mais determinado, vinha urrando.
Eu o acertei novamente no meio dos olhos, com mais força que no soco anterior. O demônio ficou berrando sentado por algum tempo, então sumiu.
Pensei que estava tudo bem, que eu o havia matado – não que seja possível matar um demônio. Mas não, ele não havia sumido de verdade, apenas sumiu para poder reaparecer atrás de Lillian, que agora estava presa no mata-leão de um demônio raivoso de dois metros de altura.
Eu não podia deixar que a mãe do meu melhor amigo morresse. Já o havia perdido, não suportaria vê-la morrendo.
Comecei a me envolver em ventos fortes. Como se um minitornado estivesse se formando ao meu redor. Não tive tempo de pensar sobre o que estava acontecendo, nem para perceber o quão louco tudo aquilo era, mas, de repente, as tomadas da sala de estar haviam saltado, deixando à mostra os fios desencapados, que agora saíam pelos buracos.
Foi então que a coisa mais estranha de todas aconteceu: choques incríveis começaram a voar dos fios até o rosto de Ira, deixando-o paralisado. Após algum momento a mãe de Ezra conseguiu se libertar do mata-leão e se por ao meu lado.
O demônio ficou lá, sentado, chamuscado dos choques. E então, novamente, fiz algo que não esperava fazer: estendi a mão para o lado de um dos buracos na parede de onde saía a maior quantidade de fios e envolvi minha mão esquerda em choques.
O soco que dei no nariz de Ira foi tão forte que ele simplesmente se desintegrou, virando um plasma verde que ficou lá, no chão da sala de estar da casa do meu melhor amigo.
Então a mãe de Ezra disse:
– Então aquele cara não era maluco...
– Que cara? – perguntei.
– Quando eu... Bem, fiz Ezra, o pai dele me disse que vivia em Mercúrio, e que aos quinze anos eu deveria mandar Ezra para um lugar, no Brooklyn, e que eles cuidariam dele lá. Eu, obviamente, não acreditei. Ele disse que nosso filho seria um mestiço, e que não teria espaço para ele no mundo em que vivemos. Que seria morto assim que descobrisse seus poderes. Eu duvidei dele... E agora, Ezra está morto... E você vai ser caçado também. Fuja Peter. Vá para o local onde deve ir!
– Mas e a senhora? – talvez aquilo tudo fosse verdade. E, pensando bem, Lillian tinha a mesma cicatriz que meu pai, na testa, como uma letra de alguma língua que eu não conhecia.
– Eles não virão atrás de mim – ela estava certa.
Eu ainda estava parado na sala de estar conversando com ela quando um táxi enorme chegou. Pude vê-lo pela janela, e um cara de cabelos compridos, negros como a escuridão, desceu do veículo e bateu à porta.
Lillian me olhou assustada, mas eu fiz sinal para que atendesse à porta. Não podíamos ser tão azarados a ponto de ser atacados duas vezes consecutivas.
Ela abriu a porta e o cara nem fez menção de entrar. Apenas disse:
– Venha, filho de Júpiter, fui encarregado de levá-lo para o Metrô dos Mestiços e estou com pressa – ele tinha um ar melancólico.
– Este é o nome do lugar Peter, é melhor ir logo – disse a mãe de Ezra, que agora parecia triste, mas antes que eu e o cara melancólico entrássemos no carro ela perguntou – Espere. Vocês não encontraram nenhum garoto chamado Ezra hoje?
O cara olhou para ela com cara de cansado e respondeu:
– Infelizmente não sei senhora. Estava em busca deste garoto aqui fazia um bom tempo e ainda não sei se alguém mais foi para lá hoje. Assim que descobrir, posso pedir que alguém envie uma Mensagem de Vácuo para você.
Fiquei curioso para saber o que era mensagem de vácuo, e como funcionava, mas ele não me deu tempo para perguntar. Apenas me forçou a entrar no carro enquanto Dona Lillian abanava para nós.
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