Livro Da Perdição
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Já havia passado da meia noite quando Alan começou a abrir os olhos e percebeu que estava com uma imensa dor de cabeça. Antes mesmo de ver onde estava, sabia que não era a sua casa. Olhou para os lados. Estava em um quarto confortável, repleto de livros, deitado em uma cama de casal. Pela porta entreaberta, ouvia dois homens conversando.
– Eu não sei o que possa ter acontecido, Dilan... Realmente a senhora McGregor estava muito assustada e me pediu que eu viesse. Queria ter ficado lá, mas...
– Acalme-se, Derek. Helena sempre foi durona. Eu me lembro dela. Perdi muitas vezes para ela. – e riu amargamente. – Pois é. Mas, como eu ia dizendo, ela é durona, aposto que conseguiu dar um jeito na situação.
– Não sei, Dilan... Ela não quis me dizer o que era, mas eu senti algo terrível por perto, desde o aniversário do Alan. Se ela não me tivesse mandado fugir...
– Ei, você não fugiu! Você ficou encarregado de proteger o garoto! Afinal, se isso tudo for verdade, ele será muito precioso daqui para frente. Precisamos dele vivo!
– É verdade... Acho que tem razão.
Alan, não compreendia o que era aquilo. Quem eram aqueles homens e porque estavam falando de sua mãe com vozes tão tristes? Arriscou levantar da cama e dar uma olhadela pela porta, para ver quem eram os dois. Um deles ele reconheceu. Era o homem que estava conversando com a tia e a mãe no dia em que Lohan... O outro ele não reconhecia de lugar algum. Estavam sentados em uma mesa, fumando um cachimbo cada e olhando pensativos para o nada.
– Dilan, eu acho que... eles podem não ter...
– Quem são vocês? Porque me raptaram? Cadê minha mãe? Onde eu estou? – Alan esbravejava e ameaçava avançar sobre os dois, apesar dos dois homens não se sentirem ameaçados por ele.
– Alan, por favor... – começou Derek.
– ME RESPONDAM! – gritou Alan, indo para cima de Derek, com os punhos fechados.
Antes que Alan atingisse Derek, Dilan levantou-se de sua cadeira e o segurou. Esperou Derek esperou que Alan se acalmasse um pouco, e começou a tentar explicar:
– Alan, eu sei que é muito difícil pra você, mas eu vou tentar explicar. Foi sua mãe que me mandou te trazer aqui. Você se lembra do chá que ela te mandou tomar?
Contrariado e ainda preso por Dilan, Alan confirmou com um aceno de cabeça.
– Pois então, — Derek continuou – ela quis que você adormecesse, pois tinha certeza que se estivesse acordado, você não teria aceitado escapar.
– Escapar? De quê?
– Para ser sincero, Alan, eu também não sei. Sua mãe não quis me revelar o que ela sabia, mas eu tenho uma boa sugestão do que pode ter sido. Mas enquanto eu não tiver certeza, eu não posso te falar.
– Como assim não pode me falar? Você quer que eu fique aqui, em um lugar que nem ao menos eu sei onde, sem notícias da minha mãe, porque VOCÊ está falando que ela pediu pra me trazer aqui?
– Se você puder se acalmar um pouco, eu posso explicar. Eu vou pedir para que Dilan te solte agora. Você promete se comportar?
Dilan o soltou e ele chegou a cogitar a ideia de tentar acertar Derek novamente, mas achou mais prudente ouvir o que ele tinha para lhe dizer. Mesmo que fossem sequestradores, ele precisaria de tempo para pensar e executar um plano. Então, por enquanto, sentou-se a mesa com eles e ficou olhando para Derek, esperando explicações.
– Bem, Alan, para começar, esse é Dilan Hoffman, um primo seu. Na verdade, ele é primo direto de sua mãe, mas de qualquer forma, isso o faz seu primo também. – Alan nem sequer olhou para Dilan. Ainda estava irritado por ele o ter segurado. – Meu nome é Derek. Você provavelmente me viu pela primeira vez há 3 dias, quando cheguei de carroça com sua mãe e tia, mas eu já trabalho para os McGregor faz muitos anos e eu sempre os considerei minha própria família.
“Se seu objetivo era me fazer mais amigável por dizer isso, está completamente enganado” – pensou Alan. Ele tinha que dar um jeito de escapar dali.
– Mas, desde o seu último aniversário, algo estranho esteve acontecendo em Leimbra. Eu alertei sua mãe, mas mesmo quando Lohan esteve atrasado, ela não quis me ouvir. Afinal, é sempre melhor tentar pensar positivo...
– O que você quer dizer? Que é culpa dela que Lohan tenha morrido? É isso mesmo?
– Claro que não, você não está entendendo o que eu quero dizer. Quero dizer que devemos ficar alertas a partir de agora, pois sabemos que coisas ruins estão voltando a acontecer. Isso pode ser um anúncio de tempos terríveis, Alan.
– Voltar a acontecer? Como assim?
Derek e Dilan trocaram olhares significativos, no qual Dilan parecia querer dizer: “desembucha logo”.
–Essa é uma história longa, Alan. Começou há muito tempo atrás. Na criação do universo, Deus, Yaweh, ou qualquer nome que queira dar para o Ser Supremo, o Criador, separou a Luz e as Trevas, para começarem a compor e ajudar a construir tudo o que existia. Então, após construído o universo, o Criador fez as plantas, animais e enfim, os seres humanos. Criou tudo em perfeita harmonia, planejou tudo com perfeita sabedoria. Olhou para tudo o que havia criado e viu que estava tudo muito bom. E então, essa parte da história é um mistério. Uns dizem que o Criador ainda descansa em seu templo, em algum lugar do universo, outros defendem que Ele vaga pela Terra disfarçado de mendigo, para observar de perto a sua criação. Na verdade, ninguém sabe ao certo. Eu, pessoalmente, acredito que Ele se retirou, pois havia outro plano sublime para iniciar. O fato é que o Criador não deixou a sua criação à mercê de seu próprio destino. Ordenou que as primordiais forças, que existiam antes mesmo do Universo, revezassem a tutela da Terra. Portanto, Luz e Trevas ficaram incumbidas de tomar conta de toda a criação, até que Ele retornasse.
Derek deu uma pausa para Alan digerir tudo o que havia ouvido até então. Mas ele tinha a leve impressão de que Helena o havia instruído quanto a esse assunto. Portanto, continuou:
– A partir de então, a Luz cuidava do Universo e seus habitantes durante o “dia” e as Trevas cuidavam durante a “noite”. Aqui na Terra, nós temos bem definidos o que é “dia” e “noite”, mas na verdade é um período de tempo que não é necessariamente cronológico e sim espiritual.
Derek percebeu que Alan fazia força para tentar compreender o que ele queria dizer, então acrescentou:
– Mas isso não importa. O que importa, é que as Trevas começaram a se agitar e se rebelar. Não aceitavam que tivesse que gastar toda sua energia cuidando da criação, ao invés de poderem usufruir de seu potencial para seus próprios desígnios. Mas nem mesmo as Trevas se compreendiam. O Caos dentro dela era tanto que se rompeu, dando origem a 6 demônios: Baal, Belzebu, Kantur, Doki, Sucubus e Horgof. E os demônios começaram a agir por contra própria, destruindo a criação e satisfazendo seus próprios desejos, ao invés de respeitar a ordem do Criador. A Luz então, em perfeita Ordem e Harmonia, decidiu que deveria também se dividir, para combater os demônios, pois só assim poderia cumprir a ordem de proteger a criação. E assim, surgiram os 7 Guardiões: Animus, Amael, Ciroth, Pompurian, Sohan, Tanterion e Umin.
Derek fez outra pausa. Esperava que Alan estivesse compreendendo e atento ao que ele estava falando, pois isso seria crucial para eles nos tempos que estavam para vir.
– E assim, começaram diversas guerras entre as antigas forças da Luz e Trevas. Os demônios se tornaram ainda mais caóticos, ao ponto de que outros 3 demônios surgiram: Morgot, a partir de Kantur; Fakar, a partir de Doki; e Zulgor, a partir de Horgof. Depois de muitos anos de batalhas terríveis, onde muitos humanos pereceram, o mal foi contido. Os 7 Guardiões conseguiram aprisionar os demônios no porão espiritual, o que nós conhecemos por Inferno. Seguros de que a criação estaria mais segura agora, mesmo que continuasse sofrendo influência dos demônios indiretamente, os Guardiões decidiram não deixar a Terra desprotegida. Escolheram seis famílias de poderosos sacerdotes da época, e cada um confiou parte de suas habilidades à uma família, desde que prometessem que passariam esse conhecimento para os outros humanos e principalmente aos de sua família, que receberiam também, pelo sangue, a benção derramada sobre eles. É claro que o processo é muito mais complexo e detalhado que isso, mas estou simplificando para que você...
– Seis famílias? Mas não são sete guardiões? – era a primeira vez que Alan se pronunciava desde que Derek começou a contar a história.
– Bem, este é outro ponto de mistério. O sétimo Guardião, Animus, sumiu ao enfrentar Belzebu, o mais poderoso e cruel dos demônios, e uma horda terrível de criaturas geradas por ele. A teoria de que temos é que Animus tenha perecido na batalha, mesmo que com seus esforços tenha conseguido derrotar Belzebu e auxiliar os outros 6 Guardiões na magia de aprisionamento deles.
Alan permaneceu um tempo pensativo. Será que aquilo tudo era verdade? Grande parte de tudo que Derek havia falado, sua própria mão havia contado para ele, desde pequeno, mas nunca com tantos detalhes.
– Bem, continuando, depois de escolherem as famílias, os 6 guardiões se retiraram para o Castelo Iluminado, que nós conhecemos por “céu”. Lá eles descansam, pois realizaram grandes feitos durante séculos de batalha, o que os debilitou imensamente. Durante um bom tempo, tudo correu bem na Terra. O poder recebido dos Guardiões foi passado de pai para filho, ou mão para filha, dependendo do caso, até ser criada a Academia de Treinamento Mágico, onde as famílias que os guardiões haviam escolhido repassavam o conhecimento de magia para todos aqueles que quisessem e conseguissem aprender, para que se subitamente fossem atacados pelos demônios, tivessem seus próprios meios de se defender, até que os Guardiões pudessem chegar. Mas, nada é perfeito. Muitos começaram a utilizar a magia para atingir objetivos egoístas e maléficos. Outros começaram a deturpar a magia divina ensinada pelos Guardiões. E outros ainda, tentavam o pior: libertar os demônios. Então se iniciou outra guerra, entre os próprios humanos: magos ou não. Anos de uma sangrenta guerra se passaram, terminando com um decreto imposto a todos. O decreto proibia, sob pena de morte, qualquer ensino ou manifestação mágica de qualquer tipo. Assim, a Academia foi destruída e as famílias começaram a ser caçadas pelos mais exaltados, levando a errada culpa de terem iniciado essa guerra. Por várias outras vezes as famílias tentaram se reunir novamente, temendo que essa separação pudesse fazer com que os demônios se aproveitassem e ressurgissem, agora que estavam indefesos. Nessas reuniões, vários magos utilizavam máscaras e mentiam o próprio nome, pois tinham muito medo de que fossem descobertos. Mesmo assim, muitas reuniões foram descobertas e várias pessoas mortas. Seu avô mesmo presidia uma reunião que começou muito forte, mas depois que descobriram um traidor entre eles, ela foi finalizada. Seu avô dizia que não tinha medo de mostrar o rosto, tinha medo realmente de que os demônios voltassem a agir livremente sobre a Terra. Mas ninguém o ouviu, e ele não teve escolha senão parar com a reunião que presidia.
Alan achava estranho pensar no seu avô como uma pessoa forte, um líder, um grande visionário, pois estava acostumado que ele fosse frágil, que estivesse sempre em uma cama, necessitando de cuidados e remédios. Pensar que ele era um mago poderoso... Isso era demais para Alan.
– Muito interessante isso tudo que você inventou, Derek. O problema é que você fala de magias, fala de seres de Guardiões, sobre demônios, mas eu não vejo nada sobrenatural. Se meu avô era um mago poderoso, então porque ele está tão doente? Porque minha mãe e tia não saem voando e curam o meu avô?
– A cura para o que o seu avô tem está muito longe do alcance dos poderes de sua mãe, ou dele, até mesmo no auge de seus poderes. Sua tia sempre foi contra a magia, sempre teve medo, portanto nunca deixou que isso aflorasse nela. E lembre-se que ainda estamos sob um decreto de proibição de magias, sob quaisquer circunstâncias. Por isso você nem ao mesmo ouve falar sobre isso. Os reis querem que nós nos esqueçamos sobre a magia, de que paremos de falar sobre ela, que se torne uma lenda, para que apenas o poder que eles têm sobre toda a população prevaleça. O motivo sempre foi esse, mesmo que alguns defendessem o decreto com o intuito de parar com a destruição e matança.
– Continuo sem acreditar no que você diz. – retrucou Alan, contrariado, mesmo que tudo parecesse fazer sentido em seu inconsciente.
– Bom, Dilan, se você puder fazer as honras.
– Derek, não acho que seja prudente fazer isso aqui, mesmo dentro de casa e a noite... O moleque tem que acreditar no que estamos falando, não temos que ficar provando o que estamos dizendo.
– Dilan, por favor. Alan tem o direito de pelo menos vislumbrar o que é a magia. Aposto que ele acredita em tudo que falei, mas a “razão” dele precisa de uma prova, algo que ele possa ver, para poder finalmente se firmar no que falei. Além do que, Alan passou por coisas ruins nesses últimos dias. Por favor, um pequeno truque já basta.
– Tudo bem.- respondeu Dilan, contrariado.
Ele se levantou da cadeira e foi até a cozinha. De lá, trouxe uma pequena folha de uma planta. Colocou a folha sobre a mesa e olhou fixamente para ela. Logo em seguida, recitou algumas palavras que Alan não conseguiu compreender e passou o dedo indicador sobre a folha. De imediato nada aconteceu, mas segundos depois, patas começaram a surgir da folha, ela começou a alongar-se e tomar outra forma. Rapidamente, um louva-deus estava no lugar onde instantes antes a folha estava. Alan não conseguiu se conter e abriu a boca de espanto. Ele não queria acreditar em uma palavra que Derek havia dito, mas, apesar de ser fantasiosa, a história fazia todo sentido para ele. Mas isso o fez lembrar de outra coisa:
– Mas e minha mãe? Porque ela não está aqui?
– Esse é o problema. Acredito que um mago maligno estava atrás de você. O porquê eu não sei, mas sua mãe pediu para que eu o trouxesse para cá. Ela disse que viria logo em seguida. – antes que Alan falasse outra coisa, Derek concluiu – Mas, como eu sei que você está preocupado, assim como eu estou, voltarei agora para ver se está tudo bem e ajudá-la na vinda.
– Eu também vou.
– Não. Você deve ficar. Sua mãe pediu para que viesse e de forma alguma retornasse para lá, pelo menos por enquanto. Tenho certeza de que está tudo bem. Mas você deve ficar. Por favor.
– Mas...
– Alan, — Derek se ajoelhou para poder olhar fixamente nos olhos de Alan – eu não vou deixar que nada de ruim aconteça com você. Sua mãe me fez prometer que o protegeria com a minha própria vida, se preciso, assim como ela estava disposta a fazer para te proteger desse mago que estava em seu encalço. Não faça desse ato de sacrifício, um ato vazio, em vão. Por favor, fique aqui e te trarei boas novas quando voltar.
– Não quero boas notícias, quero a minha mãe de volta.
– Eu sei, Alan... Eu sei...
Derek respirou fundo e se levantou. Arrumou suas coisas e partiu, mesmo sendo de madrugada. Antes de ir, prometeu a Alan que voltaria o quanto antes e pediu que respeitasse Dilan e não fizesse nada que o atrapalhasse. Dilan não pareceu gostar muito da ideia de tomar conta do primo menor, mas não reclamou. Sabia que aquela visita não era um bom sinal mas também sabia que deveria prestar apoio à Helena.
E o resto da madrugada passou com que Dilan e Alan não trocassem uma palavra sequer. Dilan se retirou para o quarto e Alan reparava o louva-deus, que andava de um lado para outro no interior da casa, tentando entender o que fazia ali.
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