Livro 3: O Cálice do Arrependimento - Os Vanne Ros
4 Capítulo 4: Batismo de Fogo
O silêncio que se seguiu à ordem de Julian foi subitamente estraçalhado. Não por um tiro de Leo, mas por uma rajada de fuzil que atravessou as paredes de madeira da cabana, estilhaçando os vidros e fazendo a terra saltar do chão.
— Todos no chão! — gritou Julian, derrubando Isadora e Elena para trás da antiga prensa de vinho feita de pedra.
Leo, cujos instintos de soldado foram reactivados instantaneamente, esqueceu a sua fúria contra Lorenzo. Ele mergulhou para o lado da janela, espiando entre as frestas. Lá fora, três SUVs pretos cercavam a clareira. Homens armados com tácticas militares avançavam de forma coordenada.
— Não são os Rossi — sibilou Leo, recarregando a sua Beretta. — E não são os homens do porto.
— É o espólio do meu pai — disse Lorenzo, a voz sombria enquanto pegava numa barra de ferro do chão, já que estava desarmado. — São os antigos parceiros dele de Milão. Eles acham que eu escondi o dinheiro que o meu pai desviou antes de morrer. Eles não vieram para conversar.
Uma Aliança de Sangue
Julian olhou para Leo e depois para Lorenzo. A situação era suicida: eles estavam encurralados numa cabana de madeira contra um pequeno exército.
— Leo! — Julian chamou, a sua voz de comando cortando o barulho das balas. — Dá-lhe uma arma!
Leo hesitou por um segundo que pareceu uma eternidade. O homem à sua frente era a razão da sua ruína. Mas, ao olhar para Elena, encolhida e aterrorizada nos braços de Isadora, ele soube que não tinha escolha. Ele tirou a arma reserva do tornozelo e lançou-a para Lorenzo.
Lorenzo apanhou-a no ar com a destreza de quem já conhecia o peso do chumbo. Os dois ex-amigos trocaram um olhar rápido — um pacto silencioso de que as contas pessoais seriam resolvidas apenas se sobrevivessem àquela noite.
— Leo, cobre a esquerda! Lorenzo, comigo na direita! — ordenou Julian, assumindo a liderança da batalha.
O Resgate sob Chamas
A luta foi brutal. A cabana começou a arder quando uma granada incendiária atingiu o telhado. O fumo negro preenchia os pulmões, tornando a visão quase impossível. Leo e Lorenzo lutavam lado a lado, as costas um do outro protegidas enquanto disparavam contra os mercenários que tentavam invadir a porta principal.
Num momento crítico, um dos atacantes conseguiu contornar a prensa de pedra e apontou o fuzil directamente para Elena.
— Não! — gritou Elena.
Lorenzo não pensou. Ele atirou-se sobre ela, usando o próprio corpo como escudo. O som de dois disparos ecoou quase simultaneamente. Leo abateu o atacante com um tiro na cabeça, mas Lorenzo soltou um gemido abafado, caindo sobre Elena.
— Lorenzo! — Elena gritou, sentindo o calor do sangue dele molhar o seu vestido.
A Fuga do Inferno
— Temos de sair agora! — rugiu Julian, enquanto o teto começava a colapsar.
Leo ajudou Lorenzo a levantar-se, passando o braço do seu inimigo pelo pescoço. Pela primeira vez em oito anos, Leo sentiu o peso de Lorenzo Bernardi, mas não era o peso do ódio, era o peso de um homem que acabara de salvar a sua irmã.
Eles atravessaram a cortina de fogo e saíram para a mata, onde os reforços da mansão Rossi, chamados por Isadora via rádio, finalmente chegavam para dispersar o resto dos mercenários.
Horas depois, na biblioteca da mansão, Lorenzo estava deitado no sofá, com o ombro enfaixado e o rosto pálido. Elena não saía do lado dele, segurando a sua mão com uma força que desafiava qualquer ordem de Leo.
Leo estava parado à janela, observando o amanhecer sobre as ruínas da cabana. Ele sentiu uma mão no seu ombro. Era Julian.
— Ele podia ter deixado que ela fosse atingida, Leo. Mas não deixou — disse Julian em voz baixa.
Leo olhou para as próprias mãos, ainda sujas de pólvora e do sangue de Lorenzo.
— Isso não apaga o passado, pai.
— Não apaga — concordou Julian. — Mas o futuro não se constrói sobre cinzas, constrói-se sobre o que sobreviveu ao fogo.
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