Livro 1: Fogo
5 A prisioneira Dobradora de Água - Parte 5
Versão da Mayumi (ON):
Já se passava das oito da noite quando Mayumi terminou de varrer a frente do restaurante. Estava acabada depois de um dia estressante e tudo o que mais queria era ir para casa.
Na realidade, ela parecia ter entrado em uma espécie de depressão gravíssima. Não queria mais comer e muito menos trabalhar. A menina alegre e descontraída, agora vivia pelos cantos, sempre chorosa e muito mal humorada. A mãe pensou se tratar de uma fase, talvez a transição para a maturidade, mas mal sabia ela que a culpa disso tudo era do príncipe Zuko.
– Mãe, já vou indo. – falou ela pegando a sua capa e pondo nas costas.
– Mas ainda preciso de você aqui, Umi.
– Não estou me sentindo bem. – respondeu ela com a fisionomia caída.
– Então pode ir. – Oggi saiu de trás do balcão e trouxe três vasilhas e entregou a filha. – Leve-as para mim.
– Sim senhora. – respondeu ela e cobriu a cabeça. Pegou as vasilhas e saiu do restaurante.
Enquanto seguia para casa, pensava bastante em Zuko, mas agora ela havia desenvolvido um sentimento que sempre entrava em conflito com outro já existente, a magoa. Ele a havia machucado muito e por conta disso, o amor que sentia estava morrendo a cada dia, quando se lembrava dos últimos acontecimentos.
Nas primeiras semanas, ela achava que algo extremamente grave havia acontecido com ele, mas depois de algum tempo, começou a surgir o boato na aldeia de que o príncipe havia iniciado um relacionamento com uma amiga da família, filha única de pais ricos. Seu nome era Mai.
A partir daí, ela começou a ver Zuko não mais como aquele garoto que ela conhecia, mas como um cafajeste rico que só queria ter um “casinho” com uma garota qualquer antes de anunciar um relacionamento com alguém de sua classe.
– Idiota. – falou ela para si mesma.
Faltava apenas alguns metros para ela chegar em casa, quando ela avistou alguém sentado na porta. Ela parou no meio do caminho e observou atentamente, sabia muito bem quem era.
O cabelo não estava preso com o tradicional rabo de cavalo, estavam soltos, caindo nos olhos e aquela mesma capa de sempre, estava presa nas costas. Ele permanecia de cabeça baixa enquanto Mayumi decidia se seguia para casa ou se dava meia volta e fugia.
A segunda opção lhe pareceu tão atraente que ela apenas a fez. Zuko levantou as vistas no momento exato que ela deu as costas para a casa e saiu apressadamente pelo caminho de areia. Ele levantou-se de onde estava e correu o mais rápido que conseguiu, alcançando-a um pouco depois.
– Mayumi, espere.
– Não se aproxime ou juro que vou fazer uma besteira.
– Me perdoe. – falou ele e se ajoelhou.
– Você mentiu para mim, me enganou, brincou com meus sentimentos, me aparece aqui depois de seis meses e tudo que diz é me perdoe? – Zuko ouviu calado enquanto ainda permanecia de joelhos e depois se levantou. Assim que ergueu a cabeça, recebeu uma tapa no rosto. – Eu não quero te ver nunca mais. – falou ela quando o choro começou a surgir, porém ela se fez de forte e não chorou, nem uma lágrima sequer. Passou por ele e começou a refazer seu caminho de volta para a casa, mas Zuko a segurou pelo braço.
– Eu sei que você está com muita raiva de mim, mas me deixe explicar. – Mayumi permanecia de costas para ele. – Por favor. – ela abaixou a cabeça e depois se virou, cruzou os braços e o encarou seriamente.
– Você tem cinco minutos.
– Primeiramente, eu amo você. – Zuko olhou nos olhos azuis de Mayumi. – SÓ você. Esse boato que anda se falando pelo vilarejo é mentira. Azula espalhou isso por ai, a pedido de meu pai. Que a propósito, descobriu que eu estava namorando com uma garota que morava aos pés do vulcão. Ele me proibiu de voltar aqui e para ter certeza que eu não o desobedeceria, pôs vários guardas ao meu encalce. Eu não podia dar um passo sem que ele não soubesse. – Zuko deu as costas para Mayumi. – Durante esses seis meses, eu tentei fugir, mas sempre era pego por eles. Até que hoje eu escapei, mas tenho certeza que eles já estão a minha procura. — Ele se virou e pegou na mão da menina. — Por isso eu tenho que ser breve. Não me odeie, a culpa não foi minha, eu juro. — Ele se aproximou ainda mais e ficou a centímetros do rosto dela. — Não se magoa quem amamos. Minha mãe me ensinou isso.
Zuko abaixou a cabeça e ficou a espera da reação de Mayumi. Ela, porém permaneceu parada, tentando assimilar tudo aquilo.
– Como vai ser agora? — perguntou ela. — Seu pai sabe que sou eu?
– Não. — Zuko sorriu. — Ele nem desconfia.
– Então é melhor sairmos daqui, já que você disse que os guardas estão atrás de você, não quero que minha família corra nenhum perigo.
– Isso quer dizer que estamos bem? — Zuko olhava curioso.
– Estamos. — respondeu Mayumi. O príncipe sorriu e lhe roubou um beijo.
– Você não imagina o quanto senti sua falta. — falou ele e abraçou a garota.
– Eu também senti.
– Vamos logo sair daqui. — Zuko pegou a mão de Mayumi e ia começar a correr.
– Eu tenho que deixar as vasilhas em casa.
– Eu não posso esperar. — ele tomou as coisas da mão dela e colocou a beira do caminho. — você volta antes de sua mãe chegar e guarda.
– Está bem.
Mayumi guiou Zuko até uma gruta, que foi esculpida pela lava do vulcão quando ainda era ativo e encontraram um campo repleto de flores vermelhas com a cor azul no centro.
– Que lugar lindo, eu nunca havia vindo aqui antes. – Falou Zuko. Os dois se aproximaram do campo de flores e se sentaram a beira do lago.
– Era esse lugar que eu queria te mostrar, os campos das orquídeas de fogo. – o jovem puxou Mayumi para perto e a abraçou. – Reza a lenda que há um século, os cidadãos da nação do fogo que dominavam a água, viviam nessas casas. – ela apontou as ruínas do lado direito e esquerdo do campo. – Todos viviam em paz e harmonia, até que o senhor do fogo Sozin, iniciou a guerra com a passagem do cometa. Naquele dia houve uma batalha inimaginável nessas terras e muitos dobradores de água morreram aqui. O sangue deles banhou este local. – Zuko olhava Mayumi assustado. – Depois de alguns meses, as pessoas das aldeias vizinhas, começaram a ver que no lugar onde havia tido a batalha e que era infrutífero, começaram a nascer alguns botões, que viraram flores. – Mayumi arrancou uma que estava na margem do lago. – Os sábios disseram que se não fosse o sangue dos dobradores de água e o calor provocado pela dominação de fogo dos soldados, essa flor nunca nasceria. Foi a junção deles que criou essa linda flor.
– Nossa, que história triste e ao mesmo tempo fascinante.
– É. – Mayumi cheirou a orquídea e passou para Zuko. – Observe que a cor no centro da flor é azul, como o símbolo da tribo da água e nas extremidades é vermelha...
–... Como o símbolo da nação do fogo. – Zuko observava a flor curiosamente.
– Sabe por que lhe contei essa história?
– Não. – respondeu ele.
– Porque eu preciso lhe contar algo, mas antes, preciso saber se realmente você me ama da forma que falou mais cedo.
– Não duvide de nenhuma das minhas palavras
– Eu confio em você. – falando isso Mayumi se levanta e começa a fazer movimentos suaves com as mãos. Uma enorme bolha feita de água saiu de dentro do lago e ficou entre ela e Zuko, que havia se levantado. — Eu sou uma dominadora de água. – O jovem príncipe encarava a bolha em sua frente e parecia hipnotizado. – Foi assim que curei você. Não havia unguento algum. Nós aprendemos a curar através da dobra d’água.
– Eu não acredito...
– Eu sinto muito ter escondido isso de você. – ela fez com que a água voltasse para o lago. – Eu sei que não deveria ter feito, mas fiquei com medo de você achar que sou inimiga da nação do fogo e... – ela fez uma pausa.
– Essa é a coisa mais legal que eu já vi.
– Você não está chateado? Afinal, é o filho do senhor do fogo.
– Tá brincando? – Zuko se aproximou de Mayumi e lhe beijou. – Eu achei o máximo. – Ele olhou para os lados. – só não fique fazendo isso por ai, nem todos pensam como eu.
– Eu fiquei com tanto medo de você me criticar. Eu posso dominar a água, mas sou cidadã da nação do fogo, morreria por ela.
– Não fale isso. Eu jamais deixaria nada acontecer com você, eu vou te proteger. – Zuko abraçou a garota e voltaram a se sentar. O casal ficou admirando o local até que ouviram as vozes dos soldados que o senhor do fogo havia posto para escoltar Zuko.
– Vai embora. – falou Zuko se levantando preocupado. – Se te pegarem aqui, não sei o que farão.
– Não vão me pegar. – Mayumi abraçou Zuko. – você vai tentar vim me ver com mais frequência?
– Vou, eu prometo. – Ele olhou bem para ela. – E se eu demorar, não se preocupe. Eu voltarei para você nem que se passe uma vida para isso ocorrer. – Mayumi sorriu.
– Não demore tanto, tá?
– Você me espera?
– Espero. – os dois se beijaram e então Mayumi entrou no lago. Ela fez com que a água formasse uma enorme bolha ao seu redor e afundou. Zuko se sentou no lago e fingiu que não viu os soldados se aproximarem.
– Senhor? – falou o guarda se aproximando cautelosamente e tocando no ombro do jovem. – Está sozinho?
– Sim. – falou ele. – Com quem mais eu estaria?
– Mas me disseram que o senhor veio para cá com uma garota.
– Quem lhe disse isso está mentindo.
– De qualquer modo, o senhor vem conosco. – O guarda pegou Zuko pelo braço. – o seu pai, o senhor do fogo Osai, quer falar com você.
...
Mayumi se certificou que não havia mais nenhum soldado no campo e saiu do lago. Puxou a água de suas roupas e seguiu rapidamente para casa.
– Onde você esteve? – Perguntou Oggi furiosa. – Chego em casa e encontro tudo apagado, as vasilhas largadas pela estrada e nenhum sinal de você.
– Eu estava no lago, mãe. Aquele que fica do outro lado da ilha.
– O que? Sabe que aquele lugar é extremamente perigoso a noite. Ainda mais para uma moça sozinha.
– Eu não estava sozinha. – Ela se aproximou da mãe e lhe beijou o rosto. – Boa noite. – Mayumi seguiu para o quarto.
– Definitivamente, a nossa irmãzinha cresceu. – falou Ho.
– Como ela pode ficar por ai com alguém que nem sabemos quem é? E se for um rapaz?
– Com certeza é um rapaz. – falou Li. – Não vê que ela andava toda tristonha pelos cantos. Devem ter se acertado.
– Como vocês podem ficar tão tranquilos vendo a irmã mais nova de vocês andando para cima e para baixo com um rapaz?
– Mãe, ela é jovem e está quase na idade de casar.
– E se ele se aproveitar dela?
– Mayumi é responsável até demais. Não se preocupe, ela sabe se cuidar. – Li seguiu para fora da casa e foi acompanhando por Ho, deixando Oggi sentada na sala, pensativa.
...
Eram quase três da manhã e todos na casa já estavam dormindo há muito tempo. A noite estava extremamente silenciosa e qualquer movimentação se podia ouvir, mas, no entanto, Mayumi dormia tão sossegada que nem percebeu quando os soldados da nação do fogo entraram em seu quarto e a cercaram. Eles a puseram ajoelhada e prenderam suas mãos ás costas com uma corrente.
– Mayumi... – falou Oggi quando viu o que estava acontecendo. – Soltem-na, ela não fez nada, por favor.
– O que está acontecendo aqui? – falou Li. Ele era tenente das tropas do sul. A menina tentava se soltar e nem percebeu quem acabara de entrar no quarto. Zuko e Azula pararam próximo da porta.
– Por ordens do senhor do fogo Osai. – começou Zuko a falar. – Mayumi, você está presa por ser uma dobradora de água e portanto, inimiga da nação do fogo. Por ameaçar a segurança dos cidadãos, será levada até a prisão de Zanghai e lá permanecerá... – Zuko fez uma pausa. –... Pelo resto da vida.
– O que? – falou Oggi.
– Ela não é uma dobradora de água.
– O meu irmão, o príncipe Zuko, presenciou uma demonstração do poder dela, ainda essa noite. – falou Azula e o jovem apertou o maxilar.
– Isso é verdade Mayumi? – Ho encarava a irmã que começou a chorar.
– Eu sinto muito. – A dominadora abaixou a cabeça quando viu o olhar de tristeza de sua mãe e seus irmãos. – Eu juro que tentei contar, mas eu não consegui.
– Eis ai uma confissão. – falou Azula. – Podem levar.
Os soldados seguraram Mayumi e a levaram, mas antes de sair, ela ficou frente a frente com Zuko que trajava as vestes reais. Ao invés de seu olhar expressar tristeza ou desapontamento, eles expressavam a raiva, talvez beirando o ódio.
– Eu confiei em você. – falou ela encarando Zuko que nem ao menos piscava. – VOCÊ NÃO VAI DIZER NADA?
– Tirem-na da minha frente. – Zuko falava como se não quisesse dizer aquilo.
– Para o seu bem, é bom que eu realmente fique presa até o fim, porque se um dia eu sair de lá, eu venho atrás de você... E você vai se arrepender de ter me traído.
– Como ousa ameaçar o futuro senhor do fogo? – falou um dos soldados e veio na direção da jovem, ergueu a mão para dar um tapa no rosto dela, mas foi impedido por Zuko.
– Não vou deixar você machucá-la. – falou ele seriamente.
– Desculpe senhor. – falou o homem se abaixando em reverencia.
– O que foi Zuzu, quer dizer alguma coisa? — falou Azula sarcasticamente.
– Nada, apenas vamos acabar logo com isso. — Os soldados prosseguiram e tiraram Mayumi de casa, a colocaram em uma caixa de ferro e saíram em direção ao palácio. Pegariam o primeiro comboio em direção a prisão Zanghai.
– Estou orgulhosa de você. Agora sei que você é fiel a nação do fogo. – falou Azula sorridente e entrou na liteira. Zuko olhou a família chorosa da jovem e fez uma reverencia. Seguiu apressadamente até a sua liteira e saiu logo atrás de Azula.
Versão da Mayumi (OFF).
– Você não fez isso Zuko. – falou Suki triste. – Ela confiou em você e você a traiu dessa forma. Você é um covarde.
– Você não tinha nos contado isso. – Falou Aang.
– Mayumi, esse ponto eu faço questão de dar a você. – Toph deu uma pisada tão forte na terra que o tronco onde Aang, Mayumi e Katara estavam sentados tremeu. O risco se formou no nome da ex-prisioneira.
– Empatado. – falou Sokka. – E agora Zuko?
– Agora é a minha vez de contar a versão dessa história. – Ele se aproximou do grupo. – A versão que tive que engolir pelos últimos três anos.
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