Livro 1: Fogo

2 A prisioneira Dobradora de Água - Parte 2


O novo senhor do fogo relatava sua versão dos eventos, sentado no colchão que outrora pertencera à jovem dobradora de água, Mayumi.

— Foi isso que aconteceu. — Sua voz ecoou, atravessando o silêncio, enquanto seus olhos encontravam os demais membros do grupo.

— Eu não acredito. — Aang expressou sua surpresa.

— Cara, não é à toa que ela está furiosa com você. — Toph, também no colchão, interveio com seu tom duro.

— Com certeza, Zuko. Você vai ter que provar que merece ser perdoado — Suki concluiu, ecoando o sentimento do grupo. Sokka apenas assentiu em aprovação.

— Mas não se preocupe, amigo. Com o tempo, ela vai ver o quanto você está diferente e vai te perdoar. — Aang aproximou-se de Zuko. — E você ainda tem a Mai.

— Oh, droga. — Zuko levantou-se abruptamente. — Eu esqueci completamente da Mai. Ela vai ficar furiosa ao saber que a Mayumi está de volta.

— Afinal de contas, esquentadinho, de quem você gosta? Mai ou Mayumi?

— Eu não sei mais, Toph. — Ele olhou para o grupo. — Quero dizer, há alguns dias, quando ainda estávamos esperando o cometa de Sozin chegar, eu só conseguia pensar na Mai, se ela estaria bem depois da fuga da prisão. Mas agora que finalmente tudo acabou e a Mayumi está livre, tudo está confuso. Mesmo eu tendo previsto algo parecido, não aconteceu como eu esperava. Na realidade, eu só quero que ela me perdoe. — Ele respirou fundo. — Espero que a Katara consiga amenizar a situação.

— Ah, com certeza ela consegue. — Aang sorriu ao pensar na namorada, adorava saber que agora podia chamá-la assim.

— Falando nela. — Toph sentiu as vibrações que Katara fez ao correr.

— Consegui conversar com ela.

— E...

— E nem eu lhe perdoaria pelo que fez, Zuko. Ela confiou em você.

— Vai com calma, Katara. — falou Aang. — Você ouviu a versão de Mayumi e não a de Zuko. Garanto que são extremamente diferentes.

— Eu acredito nela, afinal, Zuko nunca foi flor que se cheirasse.

— Katara, eu não... — começou o senhor do fogo a falar, mas foi interrompido.

— Isso não importa, teremos tempo para ouvir as duas versões da história. A convenci a voltar para a nação do fogo com a gente e não na aeronave.

— Você pirou? — perguntou Sokka se desencostando da parede da cela — A mulher praticamente assumiu a forma de um assassino em série, fria e calculista, só em ficar cinco minutos com o Zuko. Imagine passar dias na cela do Appa?

— Garanto que tudo vai correr bem. — respondeu a mestre da dobra d’água com um sorriso estampado no rosto.

...

— Eu não aguento mais esses dois. — Katara, já com olheiras marcadas pelo cansaço, expressou sua exasperação. Mayumi e Zuko discutiam há quatro horas sem parar. — Aang, por favor, dá um jeito nisso, você é o Avatar.

— Eu avisei.

— Cala a boca, Sokka.

— Está bem. — Aang posicionou-se entre os briguentos. — Já chega! — Ele gritou, desferindo uma rajada de vento que arremessou Zuko para um lado e Mayumi para o outro. — Vocês não conseguem conversar sem se agredir não? Como vocês se amaram no passado?

— Ele nunca me amou. — Mayumi gritou, avançando em direção ao jovem.

— Você não tem o direito de dizer isso, não sabe de nada. — Zuko também se levantou e tornou a se aproximar da dominadora de água.

Eu mandei calarem a boca! — Aang explodiu com raiva, surpreendendo os demais membros do grupo com sua intensidade. — Sokka!

— O que eu fiz? — Perguntou o jovem, com os olhos arregalados.

— Faz o Appa descer.

— Sim, senhor — respondeu o guerreiro, prontamente obedecendo às ordens. Appa desceu e pousou em uma clareira. Katara, Suki e Toph armaram as barracas, Zuko acendeu a fogueira, Aang foi buscar água com Mayumi, e Sokka afiou seu bumerangue. Quando todos estavam instalados, o jovem Avatar reuniu-os ao redor da fogueira.

— Agora que estamos em terra, vocês vão se acertar. Só sairemos daqui depois que esse clima de hostilidade passar. — Mayumi cruzou os braços e virou as costas para Zuko, e vice-versa.

— A noite vai ser extremamente longa — comentou Sokka. — Eu vou me deitar.

Ninguém sai daqui! — gritou Aang.

— Você está exagerando — falou Katara.

— Não estou não. — Ele encarou a todos. — Estou cansado de discussões e brigas bobas. Tudo se resolve se eles conversarem.

— Talvez nós possamos ajudar se ouvirmos as duas versões da história — Toph sugeriu, sentada ao lado de Katara.

— Talvez — concordou Aang. — Mayumi, conte o que ocorreu pelo seu ponto de vista.

— Eu tinha recém entrado na adolescência e ajudava a minha mãe no restaurante que ela tinha na nação do fogo...

— A família real vai jantar aqui essa noite, Umi. Por isso, pedi que me ajudasse nos preparativos e no servir. — A mãe da jovem explicou enquanto mexia na panela.

— A família real? — Mayumi questionou, cortando alguns legumes. — Eles não têm cozinheiros próprios?

— Têm, filha, mas parece que a fama da minha comida chegou ao palácio. E como seu pai é conhecido do senhor do fogo Osai, ele resolveu jantar conosco esta noite. — A mulher sorriu.

— Fico feliz pela senhora, mãe.

— Você é um amor, querida. — Ela sorriu. De repente, a chegada de dois homens mais velhos da família foi anunciada. — Li e Ho, meus bebês! Não acredito que meus filhos estão em casa, finalmente.

— Oi, mãe. — Ho abraçou-a e dirigiu-se à irmã em seguida. — E aí, maninha?

— Você cresceu. — Li também abraçou Mayumi. — Está com quantos anos? Doze?

— Exatamente. Vocês não esperavam que eu continuasse aquela menininha de sempre, não é?

— Não mesmo. Só queremos dizer que o tempo passou rápido.

— Com certeza.

— Então, vão ficar quanto tempo dessa vez? — A mãe perguntou.

— Duas semanas. — Ho respondeu, sentando-se no balcão.

— O senhor do fogo Osai convocou todos os soldados do sul. Acho que vai haver algo grande — Li concluiu, pegando um pedaço de pão que estava em um cesto no balcão.

— Falando no senhor do fogo, é melhor corremos, querida, daqui a pouco eles estarão aqui.

— Já está tudo pronto, mãe. — Mayumi sorriu orgulhosamente.

— Com certeza, minha irmãzinha cresceu. — Li beijou a testa da jovem.

Após esses momentos de reunião familiar, a atmosfera serena foi abruptamente quebrada pela entrada de um soldado da nação do fogo, anunciando a chegada da família real.

— Apresento-lhes sua majestade o senhor do fogo Osai. A sua alteza real, o príncipe coroado, Zuko, e a sua irmã, a sua alteza real, a princesa Azula. — O homem entrou seguido de outros soldados, formando um corredor de honra. Todos na sala abaixaram a cabeça em sinal de respeito.

— É uma honra receber tão estimada família em meu humilde restaurante. — A dona do lugar expressou sua reverência.

— Agradecemos pela hospitalidade, Oggi. — Osai foi cordial. — Viemos em honra do meu melhor general de guerra, o seu marido, Lok.

— Se o senhor me permite perguntar, como ele está? Não obtive resposta nos últimos meses.

— Ele está próximo a Ba Sing Se. — Osai respondeu, se acomodando em uma mesa preparada para eles. Azula, com uma expressão de desdém, observava o ambiente. — Tentará tomar a cidade no próximo mês, depois do fracasso do meu irmão.

— Sinto muito por isso, senhor. Tenho certeza de que a nação do fogo obterá vitória dessa vez. — Oggi respondeu, curvando-se novamente.

— Assim espero. Principalmente porque o bem de Lok depende disso. — Osai sorriu, mas logo ficou sério. — Então, pode nos servir.

— Sim, senhor. — A dona do restaurante respondeu apreensiva. — Mayumi, vá anotar o que eles desejam. — A jovem pegou um bloco de papel e seguiu até a mesa, curvando-se novamente ao parar diante deles.

— Boa noite, Majestade. — Mayumi reverenciou o senhor do fogo e dirigiu-se a Zuko e Azula. — Boa noite, Altezas. Estou aqui para servi-los no que desejarem.

— Você poderia trazer um copo com água para mim, por favor? — Zuko pediu, sorrindo para Mayumi.

— Absolutamente, senhor. — Mayumi respondeu, evitando o olhar do príncipe. — Retorno em segundos, senhor.

Esse breve encontro deixou Mayumi perturbada, com seu coração acelerado diante do sorriso sincero de Zuko. Corada, ela saiu apressadamente para cumprir o pedido real, enquanto Azula observava tudo com um interesse peculiar.

— Vou contar a Mai — Azula declarou, fixando o olhar no irmão.

— Eu não tenho nada com a Mai — Zuko respondeu, adotando um semblante sério. Algo naquela garota havia mexido com ele e Zuko estava determinado a descobrir o que era. Nem que para isso ele tivesse que retornar todas as noites.