Livre para todos os públicos
1 Prólogo
Notas iniciais
- Maddie, você tem que descer daí agora.
Eu não ia descer. Ainda não. Minha mãe estava do lado de fora do meu quarto há quase uma hora, e eu tinha me trancado lá dentro. Eu não queria voltar, pelo contrário: queria fugir. Pela janela, pelo sótão, ou até pela própria porta, eu só não queria ter de ficar mais tempo ali.
- Madison, eu te dou mais 20 minutos, e você vai sair. A senhora sabe muitíssimo bem que eu tenho uma segunda chave. – ela disse. Mentira, não tinha. Eu sabia disso, pois aquela não era a primeira vez que eu me trancava no quarto. A única diferença é que nas outras, eu não estava tão determinada assim. Agora, eu sabia o que fazer: arrumar as malas, sair pela janela, e não voltar. Eu já estava farta daquilo: era todo dia, minha mãe me criticava, dizia que eu era uma “desmiolada sem-juízo que só faz isso pra torturá-la”. Eu já tinha explicado que não, juro. Falei inúmeras vezes que não, que isso era quem eu sou, e se ela não podia aceitar, alguém poderia. Tinha de existir ao menos uma pessoa que compreendesse minha pansexualidade. – Vai sair agora?
- Não. – eu respondi, num tom mais alto do que o normal, e peguei uma última blusa, enfiei na mala com força e fechei. Coloquei-a no chão, e amarrei o cabelo num coque bem desajeitado, só pra não cair nos meus olhos. Eu sempre tive cabelos castanhos claros, e os olhos da mesma cor. Nunca pintei, mas confesso que já tive vontade. Todas as garotas “populares” tinham feito isso pelo menos uma vez, e eu nem tinha usado papel crepom.
- Okay Madison, você não me deixa escolha. Eu vou pegar uma chave de fenda e abrir a porta.
Aquela era a hora. Passei uma perna pela janela, e depois a outra, e então a mala. Era pequena, e vermelha. Provavelmente não duraria um mês, ainda mais se eu não conseguisse dinheiro pra pagar ma lavanderia. Mesmo assim, eu queria sair da casa. Limpa ou não, eu sabia que ficaria bem.
Assim que saí da casa, eu corri. Corri muito, e longe. Tentei me distanciar o máximo possível de lá, até que não consegui correr mais. Droga. Pensei. Valeu, bronquite. Você chegou bem na hora.
Tive de encontrar algum apartamento barato, com algum colega de quarto se fosse necessário. Peguei um ônibus até o centro, e fui até uma loja de imóveis pra olhar as minhas opções. A atendente chegou a rir de mim. Imagina, uma menina de 17 anos, baixinha e magricela, com olhos grandes e quase inexpressivos, procurando uma casa. Claro que ela teria dinheiro pra pagar.
- Me desculpe, senhorita, não acho que vou ter nenhum com o preço que você procura.
- Madison. Não é “senhorita”. E tem sim. Eu tenho um cartão de crédito, consigo pagar. – retruquei, mas ainda estava fitando a parede atrás da mulher, o que não ajudou muito na impressão que eu causei.
- Certo,hã..Madison. Cartão, é? Deve ser filha de alguém rico, então..
A verdade era que não, obviamente. Não cheguei a conhecer meu pai, que largou minha mãe quando descobriu a gravidez, e ela sempre trabalhou como professora de Ioga, que não rendia muito. O nosso dinheiro vinha da irmã dela, a tia Colbie, mas ela tinha falecido por causa de um infarto no ano passado, então agora nós estávamos bastante ferradas. O cartão que eu tinha estava com o dinheiro da minha tia. Era o que ela me deixou de “herança”. Acho que se ela soubesse da verdade, não teria deixado. Felizmente, só contei esse ano.
- Bem, é, eu..meu pai é empresário. – menti, mordendo o lábio inferior. Nunca fui boa em mentir, eusempre fazia isso. Mesmo assim, a atendente não me conhecia.
- Entendi. Então, pelo que eu estou vendo, acho que o melhor seria este aqui. – ela disse, e apontou uma casa pequena e marrom no mapa que ela tinha. – Você teria que dividir a casa com o dono, mas tenho certeza que vocês podem se dar bem. Ele é só um ano mais velho que você, e comprou mês passado. Deixe-me ver o nome.. mmhm, é Ivan Kelley.
-...Kelly? Tipo, o nome de garota, Kelly? – eu perguntei, erguendo a sobrancelha. Ela riu.
-Não, mas é o mesmo jeito de falar. Ele não parecia gostar muito do sobrenome.
É, também, que bela bosta é esse sobrenome. Eu pensei, virando os olhos e dando de ombros.
-De qualquer jeito, acho que você vai ficar bem. Negócio fechado?
-Claro. – respondi, e paguei pelo quarto com o cartão. Deveriam sobrar uns mil reais ainda, o que não era muito, mas era bom. Fiquei ansiosa pra conhecer o tal de “Kelly”. Já tinha até arrumado um apelido irritante pra ele. Talvez ele pudesse entender o que acontecia comigo, ou pelo menos não me chamar de ”puta”. Só isso já estaria bom.
Notas finais
Como eu disse antes, sem preconceito, se não "aprova", não leia.
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