Livre para todos os públicos
2 Capítulo 1: Nem Ivan, nem Kelly.
Notas iniciais
Logo que eu entrei naquele apartamento, já percebi alguma coisa no mínimo estranha. Todas as janelas estavam fechadas, e as cortinas também, apesar de o tempo não estar tão ruim assim lá fora. Não sabia onde estava o tal de Kelley, mas provavelmente descobriria logo.
Abri a porta da cozinha com a chave que eu recebi daquela atendente, e ergui uma sobrancelha para o que eu vi: Uma pessoa alta, de costas, comendo alguma coisa da geladeira como se estivesse faminta há dias, e com um olhar desconfiado.
–...Oi? – eu disse, quase como uma pergunta. A pessoa deu um salto pra trás e caiu com tudo de costas, mas se levantou surpreendentemente rápido para alguém que fez tanto barulho quando caiu. Eu assumiria que, no mínimo, tinham deslocado alguma coisa.
–O-Oi! Eu, hã..eu...eu posso explicar, juro! Sério, eu não estava roubando nada, era só-
–Só você comendo alguma coisa. – interrompi. Era um garoto, bem mais alto do que eu, ou pelo menos parecia.
–É,bom...mais ou menos isso. Eu..eu queria achar uma lata de atum pro gato, mas tinha leite condensado, e..leite condensado é bom. – explicou. As bochechas dele estavam u pouco vermelhas, e ainda tinha leite condensado nos dedos. Eu tentei não rir, mas a expressão que eu consegui deve ter sido bem pior, porque a cara que ele fez pra mim não foi das melhores.
–Espera. Gato? Tem um gato aqui? –perguntei, porque a atendente não falou nada sobre um gato. Eu nem teria ficado com esse apartamento se eu soubesse, sempre fui alérgica a eles.
–É, hã..acho que não devem ter te contado. Eu adotei um gato na semana passada. Ah, e meu nome é Corey. Não devem ter te falado essa parte.
–Corey? Me disseram que era Ivan-
–É, eu sei, eles não me chamam pelo nome certo. Ivan é o nome da carteira de identidade. Mas ainda é Corey.
–Corey Kelley? O.K, agora isso parece um nome de garota. – disse, e dei de ombros. Ele virou os olhos pra mim, e inspirou fundo, como se não fosse a primeira vez que alguém dizia isso. Provavelmente não era.
–É, eu..okay, vai ser um pouco difícil de explicar. Não vai ser pior do que foi com o meu pai, mas..lá vai. Eu não sou uma garota, e também não sou um garoto.
–Então você é..um alien? –perguntei, estreitando os olhos. Ele riu e fez um sinal de positivo com a mão.
–Quase isso. Eu sou seu pai, Luke. – ele disse, num tom sarcástico, e eu ri também. – Não, eu sou agênero. Corey é um nome neutro, então eu prefiro assim.
–Tudo bem. Então é Corey. –confirmei, para guardar a infomação. Corey sorriu, bem discretamente. Me fez pensar se as pessoas ignoravam o nome muito.
–Isso. E você é..? – ele perguntou, fechando a geladeira, finalmente.
–Madison Creek. –respondi, e estendi a mão. Ele apertou bem forte, e soltou depois. Meus dedos começaram a doer, mas eu não disse nada.
–Então, Maddie, é..bem, posso te chamar assim, né?
–Vai em frente. –respondi.
–Okay, Maddie. Você não quer conhecer o gato? O nome dele é Alfred Hansen.
Olhei estranho pra ele. Quem diabos chama um gato de Alfred Hansen? Isso nem é um nome de gato, certo?
–Hã..Alfred Hansen?
–Ah! É, porque..eu vou assumir que você não assiste muitos filmes.
–Não, eu tenho mais vida do que comer leite condensado o dia inteiro. – retruquei, com um sorriso de canto. Ele revidou o sorriso.
–Muito engraçado, mas isso foi só uma vez. De qualquer jeito, Alfred Hansen é um personagem de um filme. Ele é um milionário com uma cara amarrada,e..é gostoso pra cacete. Desculpa, força de hábito. – ele disse, e ficou um pouco vermelho. Não que eu me importasse, mas pensei que talvez, Corey pudesse ser um pouco mais legal do que parecia. É, um corte de cabelo bem mal feito e cacheado com a expressão de animação esquisita dele não são lá muito excepcionais, mas até que ele poderia ser uma pessoa legal. Pelo menos ele parecia animado em me conhecer.
–Espera. Você curte homens?-perguntei, mas num tom mais esperançoso do que de zoeira. Talvez eu pudesse ter encontrado alguém parecido comigo, e isso me deixava muito animada.
–É, eu..bem, sou pansexual. Eu curto qualquer um, desde que eles sejam gente-boa e bonitos. Ou seja, não sejam você. – ele disse, e riu. Eu nem fiquei ofendida: estava muito animada em, finalmente, conhecer uma pessoa assim. Eu não estava quebrada, não estava apenas “curiosa”. Eu só estava sendo quem eu sou. –Basicamente, Corey Kelley é livre para todos os públicos.
–Boa frase, vou usar. Sabe, eu..eu também sou pan. – eu disse, um pouco mais nervosa do que estava antes. Sair do armário não era normalmente tão..casual. Era muito mais estressante.
–Sério? Isso é..eu não achei que..
–É. É isso mesmo. – eu falei, para que ele parasse de fazer o mesmo.
–Acho que você vai se dar bem aqui, Maddie. Pode ficar.
–E você tem escolha? –perguntei, rindo. Ele riu também, e me deu uma cotovelada. Doeu, mas também não disse nada. Nós podíamos nos dar bem de verdade.
–Claro. Agora vai conhecer o Alfred. –ele disse, e foi até um dos quartos no fim do corredor. Eu o segui. Em cima da cama, tinha um gato bem pequeno e marrom, peludo, espalhado no sol. Me segurei pra não fazer nenhum barulho esquisito.
–Esse aí é o Alfred? – perguntei. Ele fez que sim com a cabeça, e pegou o gato no colo, com um sorriso.
–Pode encostar nele, ele não vai comer sua mão. – ele brincou. –Sério, ele é de boa.
Eu fiz carinho na cabeça do filhote, que rolou pra fora dos braços de Corey. Nenhum dos dois se desesperou, e o gato voltou a dormir na cama.
–É bonitinho. –falei.
–É. Encontrei ele na rua, então eu levei pra cá. Se importa?
–Não, eu..compro mais anti-alérgicos. Tem mesmo que se chamar Alfred Hansen? – perguntei. Corey riu e bagunçou o pelo do bichinho.
–Não, pode chamar do que você quiser. – ele disse, e eu pensei por um minuto, mas nada me ocorreu.
–Alfred serve.
–Okay. Então esse é o Alfred Serve.
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