Livre junto ao vento

1 O terceiro elemento


Notas iniciais
Eu só... Não sei. Saiu lá do fundo. Boa leitura.

Clarice deu partida no motor ao fim da tarde de uma sexta-feira no começo de janeiro.

Ela não se prestaria a olhar para trás, pois a saída da cidade estava cada vez mais próxima dos pneus fronteiros de sua caminhonete velha de tinta descascada. Depois de escancarar as janelas dos dois lados, Ângela gargalhava no banco do passageiro, os cabelos voando com a brisa fresca do dia outrora chuvoso.

Clarice insistira em ligar o rádio numa estação qualquer apenas para completar o clima da viagem. Ângela discordara, alegando que música iria distrair a motorista.

“Não estou a fim de morrer em um acidente de carro aos dezoito anos.”, foi o que ela disse.

Logo a borracha das rodas da caminhonete girava a cerca de 90km/h sobre o asfalto gasto. Clarice estava animada, sentia até cócegas na nuca só de lembrar que não tinha rumo; seguiria em frente, adentrando o verão e a noite de lua cheia que se aproximava cada vez mais dos vidros claros do veículo.

Ângela jogava a cabeça para trás e colocava o braço para fora da janela, sentindo o vento. Imprudente, julgava Clarice, controlando-se para não revirar os olhos e tentando não lembrar o quanto aquilo a encantava.

— Eu poderia gritar para toda essa merda que eu estou livre — comentou Ângela, depois de mais de duas horas na estrada.

O sol estava recém se encostando ao horizonte, pronto para se esconder e puxar a lua com sua cordinha invisível, como Clarice costumava imaginar. Pelo canto do olho, ela podia ver Ângela ainda com o braço apoiado na janela sempre aberta; suas mãos batucavam na lataria uma melodia que só ela poderia identificar, enquanto sua cabeça e seu pescoço acompanhavam o ritmo de alguma música animada que tocava alto em sua mente.

Clarice riu discreta, voltando sua atenção à rodovia. Sabia que Ângela não estava assobiando porque não sabia, embora estivesse fazendo um bico iludido e olhando para frente. O mundo estava envolto no silêncio do atrito dos carros que passavam na direção contrária e ultrapassavam a velha caminhonete, o vento ricocheteando de maneira violenta devido à alta velocidade.

Clarice não respondeu ao comentário de Ângela. Porém sentia o mesmo. Queria parar o carro no meio daquela ponte cinzenta e sair correndo, pular no rio ou gritar para o vento. Sabia que Ângela estava ao seu lado para acompanhar suas loucuras. Fora de Clarice a ideia de fugir no último verão antes da faculdade.

E Ângela concordara tão rápido que chegara a ser assustador. Era agosto e as duas sorriram grande uma para a outra, em cumplicidade. A liberdade estava ali.

Não era como se elas quisessem ver as pessoas que sempre conheceram até o fim do verão. Poderia ser uma ideia tão insana quando se jogar na frente de um caminhão, mas a diferença entre as duas coisas era clara: se alguém se atirasse na frente de um caminhão em movimento, morreria ou iria para o hospital com uma boa quantidade de ossos quebrados; se Clarice e Ângela saíssem de viagem sem avisar ninguém, se fugissem, como estavam fazendo, era porque queriam se sentir vivas. Compartilhavam aquela vontade reprimida.

A causa era mais do que justa. Não era?

Vento é liberdade.

Ângela escrevera a frase com batom violeta no espelho do banheiro da escola, quando as duas ainda estavam no segundo ano do ensino médio. Foi quando se conheceram e, juntas, construíram conceitos e ideias em cima de tal afirmação.

Clarice não poderia concordar mais com as ideias malucas da melhor amiga. Era inevitável. Ângela poderia estar sempre errada, mas para Clarice ela sempre teria razão de alguma forma. Seu realismo era autêntico e libertário. Elas só queriam voar sem ter asas, apenas gasolina e uma caminhonete azul caindo aos pedaços.

Nunca tiveram previsão de volta. Só um prazo. Antes do começo do semestre na faculdade. As mães de ambas, Judite e Helena, surtariam se vissem o tanto de coisas que Ângela e Clarice levavam de bagagem.

(Bem, elas surtariam de qualquer forma. As malucas de suas filhas embarcaram em uma viagem inesperada por quem estava de fora, sem avisar ninguém. Quando você chega do trabalho e lê um bilhete de cinco linhas deixado por sua filha mais velha na porta da geladeira e descobre que ela fugiu e que volta antes das aulas começarem, provavelmente nem um copo de água e dois comprimidos de calmante são suficientes.)

Eram duas mochilas. Uma para Ângela, outra para Clarice. As mudas de roupa que carregavam era apenas o necessário, além das bolachas recheadas, pacotes de batatas fritas, sanduíches com pão integral, queijo, alface e tomate e as garrafas d’água acompanhando as de tequila numa caixa de isopor.

Aquilo ia durar até quando durasse. Era simples assim. Ninguém estava pensando no futuro, o fim do verão, ou o dia seguinte. Apenas o presente, em uma conexão que as duas garotas tinham: elas pensavam igual, de certa forma, embora fossem tão diferentes quanto água é de tequila.

Ângela comentava sobre uma cantora que descobrira outro dia, sem parar, dizendo que estava viciada nas músicas da mulher e que era simplesmente maravilhoso. Letras incríveis, voz confortável e até entorpecente. Ângela comentou que se sentia drogada quando ouvia. Lembrando a Clarice sobre a vez em que lhe dera um susto após fumar maconha pela primeira vez.

Clarice não tinha problema algum com isso, só não gostava de lembrar. Ela ficou tão preocupada que as duas brigaram feio no dia seguinte. Ângela nunca mais teve coragem de usar a erva novamente.

Era confortável para Clarice lembrar que, em sua amizade, elas sempre se preocuparam uma com a outra e se ajudaram em todas as necessidades. Desde a primeira vez em que bateram as mãos em cumprimento até o dia em que saíram dirigindo sem rumo naquele fim de tarde.

E Clarice agora pensava no asfalto. Na rodovia, na linha amarela pontilhada separando a direita da esquerda. Ela pensava em Ângela também, em parte. Sentia sua presença, o calor humano e adolescente que emanava da garota. A energia interminável de seus olhos alegres. Isso carregava Clarice com uma dose extra de animação e fazia com que ela nunca tivesse vontade de desistir do que estava fazendo.

Depois de sete horas de viagem noite adentro, ela acordou Ângela, que dormira após o falatório sobre a tal cantora. Parou no acostamento, cansada e com a visão embaçando. Ângela assumiria o volante a partir dali.

Era uma da manhã e a estrada deserta era perigosa, sem dúvidas. O problema das duas amigas era não ter medo de nada. O tanque ainda estava acima da metade e Clarice esperava ser acordada somente para ver o sol nascer.

Ela sentiu uma unha comprida cutucando o seu quadril dolorosamente e abriu os olhos. Lá estava Ângela, rindo alegremente com toda a sua energia e brilho adolescente e apontando para o horizonte à sua frente enquanto mantinha a outra mão no volante e os olhos na estrada.

— Achei que você iria querer assistir comigo, esse silêncio é insuportável!

Clarice piscou os olhos, encarando a luz dourada surgindo na linha horizontal enquanto o céu dissipava gradativamente o seu tom rosado que acompanhava as entradas e saídas do sol. Ela suspirou e relaxou no banco, estalando o pescoço.

— Está com sono? — perguntou.

— Ainda não — respondeu Ângela, sorrindo. — Posso aguentar mais umas duas horas... Acho que a gente devia parar mais ou menos nesse espaço de tempo para abastecer o tanque, está no fim já e, pelo que sei, o posto mais próximo fica a pouco mais de uma hora.

— Tudo bem, mas vou ficar acordada — informou Clarice. — Não consigo mais dormir por sua culpa — brincou.

— Seria culpa minha também se você não tivesse acordado para ver o sol nascer, sua hippie encubada. — revidou Ângela

— Ah, cala a boca. — riu-se a amiga.

Apesar da noite mal dormida, Clarice estava bem. Ângela parecia estar também. Elas pararam no posto de gasolina quando o combustível já estava quase acabando mesmo. Encheram o tanque, tomaram café com o que encontraram na lojinha de conveniências, pois o que trouxeram de casa era para o almoço, e seguiram viagem.

Ângela dormiu enquanto Clarice dirigia com atenção completa na estrada. O sol estava quente e sua testa começou a suar perto do meio-dia. O estômago se remexia como se tivesse vida própria, mas a garota teve de dirigir por mais meia hora até encontrar um lugar descente e com sombra para poder estacionar, acordar Ângela e devorar pelo menos três daqueles sanduíches quase sem gosto que as duas prepararam no dia anterior.

— Eu não quero dormir na estrada essa noite.

Clarice arregalou os olhos, intrigada, encarando a amiga tomar um grande gole de uma das garrafas d’água para engolir o que restava do pão em sua garganta.

Ela teve medo de que Ângela estivesse desistindo. Mas não podia ser verdade. Ângela nunca desistia. Quando aceitava um desafio, ia até o fim e nunca decepcionava. Pelo que Clarice conhecia de sua melhor amiga, Ângela jamais teria entrado naquele carro se fosse para desistir depois de quase um dia inteiro de viagem.

— Quero dizer, nós precisamos parar para descansar de verdade. Você não acha?

Ela prendeu os cabelos escuros com as mãos e fez um coque apertado no alto da cabeça. Encarou Clarice com seus olhos castanhos penetrantes e decididos, a franja reta tapava as sobrancelhas bem-feitas.

— Podemos passar a noite em um desses postos de gasolina onde os caminhoneiros dormem. — Ela desviou os olhos para as mãos. — Não vai acontecer nada com a gente. Temos uma à outra e... eu acho que é suficiente.

Clarice reprimiu um sorriso, mordendo seu sanduíche mais uma vez para ficar de boca cheia e ter uma ajuda extra em esconder seu contentamento. Era perigoso, sim. Mas quem se importava? Elas já estavam arriscando só por estar ali.

Ângela tinha razão (como sempre). Elas teriam uma à outra, de qualquer forma.

E foi assim que Clarice dirigiu até o fim do dia. Elas passaram pela entrada de uma cidade e Ângela a fez dar a volta para que pudessem visitar o local. Ângela insistiu que estavam em uma viagem sem rumo, sem paradeiro certo. Deviam entrar e conhecer o que tinham a seu dispor, explorar o mundo em que viviam, do qual não conheciam o suficiente.

”Liberdade também é isso, Clarice! Vamos ver como é a vida, minha amiga. Vamos ver como é essa porra de mundo louco onde vivemos!”

Clarice odiava palavrões, mas amava Ângela. E isso a fez rir, dar a volta e entrar na pequena cidade na mesma hora. As janelas estavam sempre abertas e o vento sempre refrescando o ar de verão. A cidade era maior do que parecia, mas minúscula ainda assim.

De algum jeito, elas se perderam lá dentro. Provando uma para outra o quanto eram malucas, começaram a rir e Clarice só seguia em frente ou andava em círculos. Ela achou a até que sabia como voltar e avisou a Ângela sobre isso. O problema é que as duas decidiram que qualquer lugar estava bom e pararam a caminhonete à beira da calçada de uma praça no centro da cidade.

Elas saíram correndo para os balanços pouco antes de anoitecer. Compraram um pote de dois litros de sorvete e comeram tudo sentadas no gira-gira. Entraram em uma pizzaria, fizeram o pedido e, enquanto esperavam, aproveitaram para ir ao banheiro e lavar o rosto. Estavam precisando de banho e não ligavam para isso.

Ângela pareceu ficar com a consciência pesada algumas horas depois, mas apoiou a ideia de ir embora antes da pizza chegar. Elas nem estavam com fome, por favor.

Suas risadas ecoavam nas ruas vazias e elas decidiram estacionar a caminhonete num lugar movimentado, onde parecia estar havendo uma festa de rua. Era domingo e Ângela e Clarice, igualmente, sentiam-se leves e, embora sujas fisicamente, estavam limpas da poeira negativa de sua vida antiga.

Agora só havia espaço para os seus espíritos livres e sonolentos dentro da caminhonete trancada enquanto observavam a lua no meio do céu à meia-noite. O breu da mesma cor da caminhonete era pontilhado por estrelas brilhantes e satélites que piscavam disfarçadamente aqui e ali.

Ninguém parecera notar as visitantes que não penteavam os cabelos havia quase dois dias. Apenas elas notavam a si mesmas. E foi rindo da simplicidade complexa de tudo, sobre o que Ângela costumava tagarelar com frequência, é que Clarice apanhou uma garrafa de tequila no isopor.

Zombando-se mentalmente pelo seu jeito de lidar com drogas. Talvez ela já tivesse sido bastante hipócrita sobre aquilo. Não importava mais agora.

— Ah, você está brincando comigo! — Ângela bateu palmas no banco de trás da caminhonete, tomando o primeiro gole sem hesitar. Ela engoliu e piscou, suspirando. — Eu amo você!

Clarice deitou a cabeça no colo da amiga e tomou gole da bebida também. Ela riu, do nada.

— Eu sei, Angie.

— Não me chama disso, sua idiota. — Ângela enrugou a testa, querendo parecer irritada, embora estivesse rindo. — Você e essa sua mania de apelidos internacionais.

Clarice levou a mão à franja bem aparada de Ângela e a puxou carinhosamente, mesmo que doesse.

— Você quer que eu te chame do quê? Ângela é um nome muito grande, sua chata irritante. Não consigo pensar num apelido para você.

Ela colocou a língua para fora, provocando Ângela, que riu e tomou mais um pouco do bico da garrafa que tinha em mãos.

As meninas ficaram em silêncio por um tempo. Quando a garrafa estava na metade, elas estavam começando a ficar grogues, mas nada muito grave.

Ângela pousou a garrafa em um lugar qualquer e começou a resmungar. Clarice continuava deitada com a cabeça em seu colo e as pernas para cima encostadas na parte mais alta do assento do motorista.

— Por que diabos... Por que diabos a gente tá bebendo, Clarice? — Ela devia estar com sono. Fora o que Clarice concluiu, de olhos fechados, pronta para dormir.

Tudo ficou em silêncio novamente. Ângela estava muito quieta para estar acordada e então Clarice relaxou, estava confortável e perguntou-se se a amiga também estaria, mas não conseguia nem abrir os olhos devido ao peso em suas pálpebras, causado pelo sono que insistia em empurra-la a fundo num mundinho alheio a tudo.

Ela nem mesmo conseguiu se assustar quando algo tocou de leve os seus lábios. Era suave e macio e demorado. Talvez tivesse esquecido o que era um beijo, na verdade. Quando se deu conta, abriu os olhos abruptamente e se mexeu, sentando-se apressada, os olhos arregalados na direção de Ângela.

A garota à sua frente estava assustada e tinha culpa nos olhos. Parecia tão sóbria quanto na hora em que as duas haviam corrido pizzaria afora para fazer o que bem entendessem na cidade.

Palavras começaram a se formar em sua boca. Ao contrário de Clarice, ela parecia querer dizer algo. Algo que Clarice não queria se obrigar a ouvir. E o que fez no momento seguinte foi um ato de puro impulso, instintiva e estranhamente necessitado.

Clarice inclinou-se para frente e pressionou seus lábios aos de Ângela, exatamente como esta havia feito pouco mais de um minuto antes. E Ângela não recuou. Ela sorriu. Clarice pôde sentir os lábios da garota se esticando contra os seus e não conseguiu identificar o que estava sentindo.

Separou o beijo e pousou outro no canto da boca de Ângela, logo outro mais para o lado de sua bochecha, e assim por diante trilhou caminhou até a base de sua orelha. Beijou a raiz de seus cabelos quase na região de sua nuca, erguendo delicadamente a mecha que tapava o local.

Delirando e sem ter certeza se estava controlando seus atos, Clarice beijou o pescoço de Ângela e descansou a testa em sua clavícula, chegando mais perto e abraçando sua cintura sem pensar. Sentindo de verdade o calor que vinha sempre de sua melhor amiga.

Ela ouviu a risada baixa, leve e contagiante de Ângela contra o seu ouvido. Os lábios finos e suaves colados à sua pele no local.

— Seja lá o que você esteja fazendo, Clarice, não para. — ela murmurou. — Eu só consigo ser sincera contigo e eu quero te beijar agora tanto quanto eu quis o dia todo.

E não importava o que aconteceria quando o sol subisse no céu e a lua cheia fosse embora. Não importava com quantos beijos a mais Clarice presenteara Ângela. Elas não gostavam de pensar no futuro e só estavam preocupadas com o presente, o momento em si e suas sensações desconhecidas e confortáveis.

Confortável como era o coração de uma dentro do coração da outra. Confortável como lembrar que, independente de qualquer futuro, Ângela e Clarice jamais estariam distantes, pois eram duas metades de um todo que se completava desde o segundo ano do ensino médio.

— Promete que, não importa o que aconteça, essa viagem só acaba quando nós cansarmos da nossa liberdade — sussurrou Clarice, ofegante, respirando com dificuldade colada ao corpo de Ângela sem querer soltá-la. Iria beijá-la de novo a qualquer momento, precisava aproveitar a madrugada antes que o sol lhe deixasse sóbria.

— Eu prometo — sussurrou Ângela, pausadamente. O sorriso estava em sua voz e ela ainda brilhava.

Nada importava se o verão ainda era longo, se aquelas duas garotas que gostavam de liberdade tivessem muitas promessas a fazer em muitas madrugadas de lua. Elas ainda tinham uma à outra e isso, nada poderia mudar. Nada poderia mudar a simplicidade complexa da anormalidade de suas vidas libertinas e sem rumo ou objetivo.

Elas tinham uma à outra. Era essa a única coisa que importava no verão de suas vidas.

Notas finais
:) Caso alguém aí encontre esse texto no Tumblr (decidirsentimentos), não denunciem, fui eu quem postou lá (att: excluí recentemente). Também postei no Social Spirit. Espero que tenham gostado. Beijos e até logo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!