Livre Estou
2 Olhos nos Olhos
Notas iniciais
Trinta e seis mil e quinhentos dias. Mil e duzentos meses. Dez décadas. Um século, cem anos.
A última pétala caiu pela manhã, lentamente. Sempre graciosa — como eu esperava que fosse. — e então se juntou com suas outras irmãs, já apodrecidas. Eu permaneci ali, esperando que sua cor avermelhada se juntasse com a escuridão das outras.
Eu já deveria estar acostumada, afinal, passei pela mesma situação dez vezes.
O medo, o estremecer do corpo a cada movimento gracioso da pétala. Cada parte de mim, paralisada.
E agora se foi, e enfim, dois meses. Dois meses é meu último prazo. A frieza tomou conta de todos nós, e de todas as extremidades do palácio.
Ninguém mais ousa adentrar aqui. Desde que a história da princesa desaparecida evaporou entre os plebeus, no reino. Apenas um ou outro simples corajosos. — vieram em busca dos tesouros perdidos, que pensavam estar escondidos aqui, em meu palácio.
— Princesa Elsa. — Uma voz ecoou pelo corredor gélido. Eu desci a escada com certa brutalidade.
— O que quer? — Resmunguei.
— Gostaria que a senhorita tocasse só um pouquinho, sinto que estou enferrujada. Já se faz tanto tempo...
— Não tenho tempo para isso, Eadlyn. — Rosnei.
— Ora, por favor!
Me assentei e comecei a teclar lentamente cada melodia, me concentrando em boas memórias. De bons tempos. Tempos que nunca voltarão.
Quando eu estou com os dedos em um piano, me sinto bem. Por uma vez, eu finalmente consigo me sentir como uma pessoa. Como uma princesa, esperançosa. Uma princesa, que, ainda aguarda pelo dia de sua libertação.
Mesmo que seja algo, infinitamente, impossível. Impossível como dois mais dois serem cinco.
Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si...
Mas eu me lembro, eu me lembro do que eu sou. Uma fera. Uma fera medonha, e incapaz de amar.
Incapaz de ser amada.
— Estou farta disso. Espero que esteja bom, para que você não me incomode mais.
Levantei grunhindo. Passei pelo corredor onde minhas unhas se entrelaçaram com o papel de parede antigo, banhado a cobre. — era algo que vinha acontecendo, recentemente.
Pude ouvir leves sibilos antes de adentrar em meu aposento.
— Kile, o que será que houve com a princesa hoje? Está mais rude que o normal.
— A última pétala, Eadlyn. Caiu hoje pela manhã.
— Fazem-se cem anos?... Cem anos sem o Duque.
— Sim. Cem anos. Se passarem dois meses, e ninguém adentrar aqui... Ficaremos assim por toda a eternidade, sofrendo dia após dia.
Continuei imóvel, franzindo o cenho. Escutando atentamente o som de cada palavra dita. “Ficaremos assim por toda a eternidade, sofrendo dia após dia.”
As palavras cuspidas por Kile assombraram meu dia. Hora, por hora. A cada estalar do ponteiro do relógio.
A cada segundo era menos do meu tempo.
Menos do meu prazo.
Lancei meu olhar para o vento maestro que adentrava em meus aposentos. Observar o céu e o balançar das árvores se tornou algo habitual, para mim. Ver as nuvens se entrelaçando como se estivessem bailando em uma divertida valsa.
Era inverno, a neve caia como um lindo sibilo em cada pedestal. A crosta de gelo já havia se formado, acima do balançar das folhas e da beleza de uma mulher.
Uma mulher, que adentrava em meu palácio. Andava graciosamente em direção a entrada.
— Abram os portões. — Gritei, assim que desci as escadas, apressadamente.
Espionei seus movimentos, atrás de um pedestal no salão principal. Mantive a respiração normalizada.
De forma silenciosa, como deveria.
— Olá? Eu sou America. Preciso de um pouco de comida. Viajo há dias para chegar até aqui. Em Arendelle. Pude ver a chaminé acessa, há alguém em casa?
Flexionei meus calcanhares, e rapidamente adentrei na cozinha.
— Preparem uma refeição com tudo que temos de melhor, ponham a mesa. Imediatamente. Possuímos uma visita, hoje.
Subi novamente para meu aposento. Permaneci o resto do dia encostada beira a janela. Continuando a observar a valsa graciosa das nuvens e o sibilo maestro do vento e da neve.
— Err... Obrigada pela refeição, e hospitalidade. Mas agora eu preciso ir. Estou grata.
Os passos vibrantes se tornaram menos estonteantes.
Pude ver a sua silhueta ficando cada vez menor. A não ser por um detalhe. Suas mãos envolveram delicadamente uma rosa. Com suas dez pétalas e sua cor avermelhada.
Ela a levou até seu paladar e a levou junto com seu corpo.
Isso não é admissível. Uma ladra. Podes ser uma feiticeira. A adrenalina estava a invadir o meu peito como as asas de um pássaro, que se debatiam. Eu não poderia deixar algo assim impune.
Não poderia.
Pulei de minha janela — já quebrada. — sobre ela. Seu corpo frágil reagiu de forma afrontosa com meu ataque. A mulher caiu na neve branca, de forma que grande parte de seu corpo se escondesse na maciez esbranquiçada.
— Por favor... Eu não fiz nada. — Lágrimas saiam de seus olhos azuis.
— Não me importa. Você vai vir comigo, e habitar aqui por toda a eternidade. — Disse por fim.
A levei a um calabouço no subsolo. Hesitante, enquanto segurava fortemente seus punhos, ela permaneceu chorando todo o caminho.
— Fique aí. E aproveite sua estadia. Repense se enfeitiçar pessoas é o melhor a se fazer. — voltei para meus aposentos satisfeita.
Satisfeita por me vingar, de certa forma, deles. Dos feiticeiros.
Como ela, e como aquele que, um dia, me amaldiçoou para a eternidade.
O fim do dia se aproximava, assim como a neblina. Os fios de sol que invadiam os fragmentos do palácio se escondiam atrás das cordilheiras.
— Sua fera imunda, é aqui que se esconde. — Uma voz grave causou eco entre as quatro paredes de meu aposento.
“Imunda. Sua fera imunda.”
Virei meu corpo bruscamente, para encarar sua face. A face de quem me chama. Paralisados, estávamos frente a frente. Olhos nos olhos. Fixei minha expressão em sua sobrancelha franzida. Seus lábios estavam pálidos, assim como sua pele.
— Eu quero a minha irmã. A garota que adentrou aqui.
— Jamais. Uma feiticeira deve permanecer aqui. Pagando por seu crime.
— Feiticeira? — O garoto gargalhou. — Onde está com a cabeça, fera.
— É o que ela é, e, portanto, permanecerá aqui.
— Primeiro, ela não é uma feiticeira. Você que deve ser, olhe, uma fera que fala e age como um humano. E segundo, se quer que alguém pague por algo, digo que serei eu.
— Não aceito. — Respondi firme.
— Então me deixe dizer adeus para minha irmã. Ou até isso uma fera cruel como você negará.
Assenti grunhindo, o levei até o calabouço a passos largos. Permanecemos em silencio e com nossas expressões intactas.
— America... — O rapaz correu para a abraçar e seus dedos passaram carinhosamente pelos fios castanhos da outra.
Pude sentir seu amor por ela.
— Jack... Eu peguei uma rosa para a mamãe... E. — Suas palavras foram interrompidas por seus soluços inaudíveis.
— Mamãe está à beira da morte, America. Não há mais nada o que fazer.
Ele afastou cuidadosamente a cabeça de sua irmã de seu ombro — que agora havia de estar úmido, devido ao choro de sua irmã.
— Já se despediram. Agora saía. — Ordenei.
— Corra. — Gritou para a outra. Enquanto a empurrava para fora.
Ela deixou sua cesta tecida a mão e correu por toda a escada. Permiti a ação, aliás, ela não poderia fazer muito, era apenas uma garota.
— Essa será sua decisão?—Disse por fim, arqueando minha mandíbula.
— Sim, será.
— Então conviva com ela. — Fechei o portão.
A força foi tremenda fazendo com que o estrondo continuasse a se espalhar pelo palácio.
Mas isso não importava.
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