Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
46 Capítulo 46
Horror. Era o que eu estava sentindo. Minha visão estava nublada e meus sentidos entorpecidos, mas eu ainda conseguia captar o que acontecia a minha volta. Vultos, sons, risos, cheiros. Senti meu corpo sendo arrastado para o fim do beco por um daqueles vermes. Meu coração batia tão rápido que podia explodir e eu sabia que era tanto efeito da droga quanto do meu desespero.
- Eu vou mostrar pra essa vagabunda! Ela quase quebrou meu nariz! – ouvi o grandão falar e logo depois suas mãos imundas estavam sobre mim, apertando meu pescoço.
Eu tentava me mover, tentava sair, mas meu corpo inerte não respondia aos meus comandos. Era isso. Eu saí correndo de Cam e acabei nas mãos desses...
Eu nem vi como, mas de repente, o cara que estava sobre mim sumiu. Eu só ouvi o barulho de algo grande e pesado – provavelmente o corpo dele – batendo contra o muro e fazendo um som horrendo de ossos se quebrando. Olhei pra baixo, o máximo que minha vista embaçada conseguiu enxergar foi os outros dois caras sendo sacudidos no ar, simultaneamente, por outra pessoa. Cameron. Eu sabia que era ele, apesar de não poder vê-lo. Não levou três segundos para os dois estarem sobre o corpo do grandão, formando uma pilha de carne suja e fétida. Aposto que eles nem viram o que os atingiu.
Senti o calor familiar de Cam se aproximar de mim e dentro de toda a fumaça que nublava meu cérebro eu vi dois pontos vermelhos onde antes eram violetas.
Ele se abaixou e me pegou nos braços, apertando-me contra ele. Senti apenas um pingo úmido e morno, singelo, escorrer em minha testa e suas palavras docemente pronunciadas em meu ouvido:
- Me perdoa.
E eu apaguei.
...
Acordei com minha cabeça gritando e latejando e senti um cheiro agradável de flores frescas misturado com laranjas. Isso me fez sorrir.
- Que bom que acordou. – a voz dele estava perto, mas pela suavidade não me assustou. Eu mantive os olhos fechados.
- Minha cabeça dói...muito. – falei com a voz meio grogue ainda.
Senti sua mão em minha testa enquanto ele responde:
- Você já vai melhorar, só precisa se alimentar.
Abri os olhos devagar. O quarto estava meio iluminado. Já era dia, mas Cam manteve as cortinas cor de palha abaixadas, filtrando a maior intensidade da luz e deixando o ambiente agradável. Era bom, porque meus olhos reclamaram com a claridade.
Ele estava deitado de lado perto de mim e vi que a mesa estava preparada com um banquete e que flores se espalhavam por todo o quarto.
Sorri.
- São lindas.
Ele não disse nada, apenas ficou mexendo em meu cabelo e me observando. Uma onda de rubor invadiu meu rosto tão logo eu lembrei o motivo por ter ido parar naquele beco isolado.
- Cameron...
- Shhh... – ele interveio – Você precisa descansar, Luce, e comer.
- Não, eu... – fiz um esforço para sentar e ele me ajudou, sentando-se também – Sobre ontem...
- Luce, esquece. – ele disse suavemente ainda sem parar de afagar me cabelo – Eu quero só que você descanse um pouco.
- Não, eu... queria pedir desculpas. Eu agi como uma idiota e... acabei fazendo besteira.
Ele me olhou ternamente. Era tão diferente do que costumava ser. Sem ironia, sem brincadeiras de duplo sentido, sem ousadias... apenas Cam sendo gentil, amável.
- Você não tem que se desculpar. Eu só queria ter chegado a tempo de evitar tudo.
- Você chegou. – eu disse sorrindo em sua direção. Mas seus olhos estavam tristes, culpados.
- Luce, eu tentei, eu juro, mas eu não sou o mesmo aqui. – ele disse meio desesperado e impotente.
- Como assim? – perguntei recostando-me na cabeceira daa cama.
Ele pareceu fraco ao me revelar.
- Viagens no tempo custam muita energia. Ontem eu saí atrás de você, mas não pude encontrá-la logo porque estou fraco... eu sinto muito.
Seus olhos estavam mareados, ele estava se sentindo tão mal que eu sentia isso, essa onda de vergonha e culpa vindo dele pra mim. Meu impulso foi de abraçá-lo. Ele se surpreendeu um pouco, mas logo se deixou relaxar em meus braços. Seu corpo tremia.
- Cam... – eu disse em seu ouvido – Você não tem que se sentir assim. Você me salvou, várias vezes. Me salvou me trazendo pra cá e os deteve ontem. Não tem que sentir culpa de nada.
Ele negou com a cabeça ainda em meus braços.
- Não cheguei a tempo, eles podiam...
- Mas não o fizeram – eu cortei – porque você estava lá e me salvou, mesmo estando debilitado. Eu sou mesmo uma estúpida, nem tinha me dado conta que você estava sendo sugado dessa forma. Eu esqueci completamente que você estava sustentando o anunciador com sua energia e fui imprudente, me desculpa.
Ele levantou a cabeça e me encarou. Ainda vi culpa em seus olhos, mas o amor era maior. Ele se sentou novamente ao meu lado e estendeu a mão para tocar meu rosto.
- E-eu nem sei o que senti quando vi você naquela situação... eu...
- Shhh... – foi minha vez de interromper. – Já acabou.
Ficamos nos encarando por um longo tempo e eu senti uma felicidade imensa dentro de mim. Nunca pensei que ele pudesse ser assim, ser tão preocupado comigo, se sacrificar tanto. Eu senti um aperto no peito por ver quanto amor ele me dedicava e como eu não conseguia corresponder. Eu o amava, era certo, mas não como ele me amava, nem de longe.
As palavras saíram de mim antes que eu pudesse processá-las:
- Eu queria poder te amar, como você merece.
Ele não respondeu, mas fechou os olhos e absorveu tudo. Minhas bochechas esquentaram e logo meu rosto todo estava fervendo. Essas palavras estúpidas sempre saindo sem permissão...
- Sei que você pertence a outro. Eu só queria que meu amor fosse suficiente pra você.
Meu coração parou de bater. Eu queria tanto, tanto amá-lo dessa forma, simplesmente não agüentava vê-lo assim.
- Eu te amo Cameron.
Eu o olhei profundamente e me deleitei ao ver o violeta substituir gradualmente o verde jade de seus olhos. Sorri. Foi um sorriso triste. Nós dois sabíamos que em meu coração só Daniel era eterno.
Ele sorriu de volta e me abraçou.
- Me desculpa te fazer sofrer. – eu disse enquanto me aconchegava contra ele. Nós deitamos e ficamos abraçados assim por muito tempo.
-Você não me faz sofrer, não mesmo. – ele disse apertando minha cabeça contra seu peito delicadamente. E isso foi muito melhor que qualquer outra coisa que pudéssemos ter juntos.
...
Já fazia cinco semanas que Luce tinha ido. Foi uma das piores noites da minha vida ver aquele bando de banidos e Primeiros atrás dela, tão perto de alcançá-la. Pela primeira vez em muito tempo eu senti que poderia perdê-la pra sempre. Não me arrependi da escolha que fiz, Cameron era o único além de mim com força o suficiente para protegê-la. Com ele eu sabia que nada aconteceria com meu anjo... mas por outro lado, meu coração dizia que era a pior escolha de todas.
Pelo tempo que se passou eles deviam ter voltado no tempo muito antes de me encontrar, uma semana ou duas, pelo menos. Era um terror ter que passar os dias sem ela sabendo que quando voltasse, já poderia não ser só minha.
Após sua partida, nós travamos uma batalha sangrenta contra os invasores. Eles estavam realmente preparados pra nós e o ataque veio em grupos organizados que priorizavam nossos postos de vigília. Era a primeira vez em séculos que eu os vi tão estruturados. Tive que organizar uma estratégia de defesa rápida utilizando, inclusive, os nephilins guerreiros que estavam em condições de combate. Perdemos alguns dos nossos, mas apesar de termos conseguido vencer a batalha, algo me dizia que isso foi apenas a ponta do iceberg.
Os nephilins que ainda estavam em Shoreline partiram há semanas e agora apenas os anjos estavam aqui. Nós treinávamos todos os dias e os demônios estavam pondo em prática uma estratégia que eu, de início, não aprovava, mas que aparecia ser o melhor que tínhamos: agora caçávamos banidos.
Todos os dias a noite, saíamos em busca deles nas cidades próximas e sempre que encontrávamos um ou dois, eles eram interrogados. Nós queríamos saber como eles se aliaram aos Primeiros e como eles foram capazes de prever o momento mais adequado para nos atacar, tinha sido preciso demais, certo demais pra ser apenas uma coincidência. Um sentimento estranho batia em mim cada vez que eu pensava nisso, em um traidor entre nós. Mas será mesmo que algum de nós seria capaz de condenar a todos os outros?
Enquanto as semanas passavam lentas sem respostas eu me sentia cada vez mais longe de Luce e não sabia o que seria de mim sem ela.
- Vamos, Daniel? – Arriane me perguntou enquanto ajeitava o par de sai de Luce na cintura.
Eu não respondi de imediato, ver aquelas armas fez meu coração disparar. Maldição, Cameron...
- Sim. – falei depois, roboticamente.
Steven e Roland se juntaram a nós. Estávamos saindo para caçar mais deles e eu precisava de respostas.
Voamos para algumas milhas além de nossa última caçada e não demorou muito para acharmos seus rastros fedorentos. Encontramos uma dupla deles saindo de um prédio no subúrbio de Malhoi. Sinalizei para os outros assumirem suas posições e fomos seguindo os bastardos.
Em menos de dois quarteirões de distância eles param. Era isso, já tinham percebido que estavam sendo seguidos. Eles podiam ser o que fosse, mas tinham sentidos apuradíssimos e um grande instinto de auto-proteção.
Apenas vi o reflexo prateado de suas armas , em segundos eu estava voando pra cima de ambos.
- Daniel! – A voz de Arriane soava distante em meus ouvidos. A única coisa que eu queria era a verdade, descobrir como acabar com isso e proteger Luce pra sempre. Uma parte de mim sabia que estava agindo por impulso, mas meu sangue estava quente demais e quando isso acontecia, nenhum inimigo meu ficava de pé.
As balas passavam apenas de raspão. Eu até me surpreendi por estarem usando este tipo de armamento, mas tudo se obscureceu rápido em minha mente, eu só queria arrancar a verdade deles. Avancei sobre o mais baixo e o joguei a metros de distância. Enquanto seu corpo ainda fazia a trajetória para atingir o asfalto eu me posicionei ao seu lado e cravei minha fiel espada em seu peito.
O banido nem atingiu o chão, seu corpo se desfez em uma luz branca intensa que durou frações de segundos. Arranquei minha espada cravada no asfalto e fui em direção ao outro. Tudo foi muito claro pra mim, mas com certeza rápido demais para os sentidos dele e dos outros. Ele apenas sentiu a ponta afiada de minha arma em seu pescoço, logo depois que o derrubei no chão e o mantive lá com meus pés. Eu estava em cima do corpo trêmulo do banido e uma gota de sangue negro escorria de seu pescoço imundo.
- Você sabe o que eu quero saber, então me diga.
As palavras saíam frias de mim com um ódio que não me pertencia. Era como se outra pessoa tivesse assumido o controle de meu corpo e minha mente. O banido olhava nervosamente para o local onde o corpo do outro tinha se desintegrado há poucos segundos e sua vos engasgou. Medo era a única coisa que seus olhos opacos refletiam.
- Fala, ou morre. – eu disse aprofundando mais o corte em sua garganta.
- Daniel! – Roland e os outros finalmente chegaram a mim.
- O que está fazendo? Precisamos dele! – Steven falou em um tom alterado. Eu nem precisava olhar pra eles pra saber que estavam assustados, mas eu não me importava. Sentia a raiva queimar em meus olhos.
- Não faz isso. – Arriane disse firme ao meu lado.
- Se não vai disser, então não serve pra nada mais. – eu falei encarando a criatura, ignorando totalmente os Arcanjos. Levantei minha espada para tomar o impulso que mataria o banido.
- Espera! – ele disse em um som afogado e desesperado. Sangue negro borbulhava de sua boca e do buraco em sua garganta. – um pagamento... um pagamento sagrado...sangue divino...
O banido estremeceu e seu corpo ficou tão rígido quanto o asfalto manchado abaixo dele. Eu sabia que dali não sairia mais nada e tratei de dar um fim no corpo fétido da criatura, que se desfez em um jorro de luz surdo e veloz.
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