Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Eu fui caminhando pelo corredor adjacente ao principal, não queria falar com ele ali. Aliás, eu nem sabia o que diabos tinha dado na minha cabeça pra início de conversa. O corredor estava relativamente vazio e logo nós alcançamos a saída. Passei pela porta com Cam logo atrás de mim e paramos embaixo da marquise, fazia muito frio para irmos além. Com meu casaco bem fechado e os braços cruzados, virei-me para encará-lo. Cam sempre causava um impacto em mim. Seu cabelo liso e negro estava úmido e bagunçado. Como ele vestia uma blusa de manga e jeans pretos, seus olhos verdes estavam particularmente realçados. Limpei minha mente o máximo que pude e falei:
- Eu sei que você e Daniel não eram Arcanjos antes de cair. Eu quero saber... já que tanto você quanto ele eram Dominações, porque só ele foi amaldiçoado ou sei lá o quê?
Cam elevou as sobrancelhas, nitidamente surpreso, mas eu não tinha tempo para rodeios. Essa questão estava martelando em mim e precisava de uma resposta e Cam podia me dar.
- Wow... vamos com calma, Price. — ele falou sorrindo, expondo seus dentes brancos e perfeitos.
- Bom, eu preciso dessa resposta e sei que você pode me dar. Mas não vou ficar implorando, se você não quiser falar, eu peço desculpas por desperdiçar seu precioso tempo. — falei dando meia volta. Eu sabia que teria um efeito nele.
- Espera. — Cam disse segurando-me pelo braço e virando meu corpo novamente em sua direção — Eu não disse que não responderia sua pergunta, mas eu quero saber... como você soube?
- Daniel. — respondi secamente livrando meu braço de seu aperto.
- Bom, parece que Daniel resolveu abrir o jogo então. depois de uma pausa ele acrescentou quer dizer... mais ou menos, já que estamos aqui.
- E então? — perguntei fingindo estar esperando uma resposta qualquer.
Ele suspirou e disse devagar:
- Daniel sofreu esta punição, digamos assim, porque foi o primeiro de nós a cair.
- Como assim, o primeiro?
- É claro que desde muito antes, diversos anjos escolheram por si um outro caminho, e escolheram cair como vocês dizem. Mas nunca um anjo de posição tão elevada, nunca um anjo do topo da segunda ordem. Daniel foi o primeiro e sofreu as conseqüências.
Cam falava de um jeito objetivo, me olhando nos olhos. Em momento algum eu duvidei de suas palavras, mas eu estava tão aturdida, que simplesmente não consegui dizer nada.
- Mas... eu, eu não entendo... — minha voz morreu, era muito pra mim.
Eu consegui absorver o que Daniel havia me explicado, o fato de ser uma decisão dele de escolher esse caminho e que eu não tinha culpa sobre sua decisão. Depois eu descobri que ele não só era um anjo, como também o Príncipe das Dominações e um anjo de nível muito elevado, e agora isso? O que mais ele escondia de mim? Quando Cam abriu a boca para falar eu o interrompi.
- Mas você está aqui. Por quê?
Ele hesitou.
- Cam... — eu falei me aproximando, encarando-o seriamente, meu tom era exigente.
- Eu não sei por que você acha que eu devo te responder. Se você quer tanto essas informações, porque não pergunta pro seu namorado?
- Porque você sabe que ele não quer revelar as coisas pra mim e eu preciso saber. Além disso eu completei firmemente você me deve.
Ele ficou ainda mais surpreso e confuso.
- Eu devo a você?
- Você provocou a batalha que resultou na morte de Penn e eu nunca vou esquecer disso. — eu falei contendo as lágrimas que aquela memória me trazia.
- Então você não me odeia por eu ser um dos bandidos, mas por você achar que eu matei sua amiga?
- Eu não acho, você foi o responsável. Além disso, você me enganou! Todo aquele tempo na Sword e Cross, sua aproximação, suas mentiras... — meu tom já estava exaltado, era sorte todos estarem em aula. Cam também elevou o tom, mas não pelo mesmo motivo que eu, parecia que ele queria ser ouvido.
- Eu não fui o responsável pela morte de Penn, o que aconteceu estava no destino dela, seria assim, com ou sem batalha. — quando eu tentei intervir ele me cortou — e quanto a enganar você, não se esqueça que seu namoradinho também não contou a verdade, nem tão pouco Arriane ou os outros, então não me culpe por isso também.
- Isso é ridículo! Você tá me dizendo que Penn morreria de qualquer jeito, que absurdo! Não diga uma bobagem dessa só pra livrar sua cara!
- Isso não é uma desculpa, é uma verdade, acredite você ou não. Ela estava destinada a morrer ali e aconteceria de uma forma ou de outra. Eu fui um anjo, Luce, e existem coisas que EU sei e você não, então aceite.
Ele foi direto, até rude. Minha boca ficou entreaberta. Eu estava com raiva, queria gritar, bater nele. Mas no fundo eu sabia que suas palavras continham a verdade. Eu era uma garota humana ridícula querendo discutir esse tipo de coisa com um anjo ou EX mas pra mim soava apenas como uma desculpa qualquer para a morte de Penn. Eu estava confusa e triste. Uma lágrima fina escorreu pelo canto do meu olho e eu rapidamente a tirei de lá. Minha garganta estava com um nó.
- Minha aproximação de você também não foi fingimento. — ele completou, agora de uma forma menos dura.
Soltei um riso falso. Eu já estava arrependida de ter ido falar com ele.
- Me interessei por você, Lucinda. E essa é outra verdade, você gostando ou não. — ele se aproximou milimetricamente e baixou o tom de voz — e ainda me interesso muito por você.
- Foi um erro eu ter vindo.- eu falei me virando para ir.
Eu não queria ouvir isso agora. Ele puxou meu braço novamente, como da primeira vez.
- Você tem um sério problema em aceitar a verdade, sabia?
- Parece que anjos têm problemas com verdades, não eu. — respondi.
Seus dedos ainda seguravam meu braço.
- Eu não acho que esconder coisas de você vá ajudar em alguma coisa, mas eu tenho que respeitar a decisão de Daniel. Está fora do meu alcance. — ele disse de forma surpreendentemente sincera e eu aproveitei para pressionar.
- Você não acha que o que tem a ver com a MINHA vida é um direito meu de saber? Ninguém tem o direito de esconder isso de mim, nem Daniel e nem você. E desde quando você simplesmente respeita as decisões de alguém?
Ele ponderou. Um barulho veio por trás de nós e me assustei. Era apenas um nephilin abrindo a porta para sair. Cam soltou meu braço quando o garoto apareceu em vista e eu me afastei um pouco. O nephilin que eu não conhecia olhou pra nós de forma indiferente e seguiu seu caminho pela tarde fria.
- Vem comigo. — Cam falou oferecendo-me sua mão — Vamos acabar essa conversa em outro lugar.
Eu estiquei meu braço e peguei sua mão. Cam se aproximou e me abraçou pela cintura. Seu corpo era quente e musculoso. Eu fiquei um pouco desconfortável em estar tão próxima, mas tentei esconder. Ele abriu suas asas enormes e lindas e com um leve impulso nos levou pra longe dali.
Nós pousamos na praia que margeava Shoreline, mas estávamos no extremo leste, afastados do campus. Não estava chovendo, mas fazia muito frio. Cam e eu andamos até uma grande pedra que estava tombada na areia. Ela fazia uma espécie de mirante e era grande o suficiente para comportar um bando de jovens durante os luais que os nephilins faziam por aqui.
Nós caminhamos em direção a pedra, mas devido ao frio, eu me posicionei atrás dela, na parte oposta ao oceano. Ela fazia uma barreira contra o vento frio que vinha do mar. Cam se aproximou.
- Está com frio? Eu posso levar você ao meu quarto se quiser. — eu sabia que havia um sorriso em seu rosto para completar com seu comentário conveniente.
- Estou bem. — falei sem encará-lo. Estava muito frio, mas eu realmente não queria ir pro quarto dele.
Ele se posicionou ao meu lado e passou sua asa direita por trás de mim, como se estivesse me cobrindo com ela. Um calor imediato me atingiu, sua asa me protegia totalmente do vento e o calor que emanava de seu corpo me aqueceu.
- Obrigada. falei meio sem jeito. Ele se limitou a sorrir satisfeito.
- Então...você era uma Dominação? É assim que se fala? — perguntei rapidamente para mudar de assunto.
- Sim. — Cam pôs as mãos nos bolsos do jeans e começou.- Eu era um anjo do topo da segunda hierarquia. Nós éramos responsáveis por receber as ordens dos anjos da primeira ordem e fazer com que fossem cumpridas. Daniel era nosso Príncipe, nosso líder, o mais elevado de nós.
Meu coração acelerou e apertei minhas mãos no meu casaco.
- Como ele me conheceu? — perguntei olhando no fundo dos seus olhos.
Minha voz não saiu mais alto que um suspiro. Cam hesitou e foi somente após um longo tempo que ele respondeu.
- Daniel recebeu a ordem de tirar a alma de alguém desse plano, alguém que poderia alterar o curso da história se não fosse impedido.
- Tirar a alma desse plano... você quer dizer que ele tinha que matar? minha voz ainda era apenas um leve som sem expressão.
- Sim. Mas não encare isso como algo ruim, de fato, essa é a missão mais comum que os anjos recebem, confortar alguém durante o momento da morte e guiar sua alma para o lugar devido ou, até mesmo, executar a tarefa. Essas missões são geralmente realizadas pelos anjos da terceira hierarquia, que são os mais próximos dos humanos. Mas às vezes, anjos mais elevados a fazem e Daniel resolveu executar essa em particular.
- Eu não consigo imaginar Daniel tirando a vida de alguém.
- Essa é a nossa missão, Luce, ou melhor, era.- Cam falava de forma suave, tentando me explicar, fazer com que eu compreendesse, ele não estava acusando Daniel, estava protegendo-o. — E é uma grande honra um anjo tão elevado se encarregar dessa tarefa, ainda mais o príncipe das Dominações. — ele fez uma pequena pausa. — É claro que essa pessoa teria a morte mais suave que qualquer outra, seria rápida e tranqüila, ainda mais se Daniel o faria. Dominações raramente entram em contato direto com humanos, mas ele fez questão de fazer isso.
- E quem era essa pessoa? Por que ela teria que morrer? — Cam sorriu.
- Todos tem que passar por isso, Luce, e cada um tem a sua hora. É assim que as almas evoluem. Foi por isso que eu disse aquilo sobre Penn.
O nó em minha garganta voltou, falar sobre ela sempre me fazia querer chorar.
- E... quem foi o privilegiado de morrer pelas mãos de Daniel? — eu perguntei engolindo a vontade de chorar.
- Ele não cumpriu a missão.
- Não? — perguntei franzindo a testa.
- Não.
- Por quê? — perguntei.
- Por que era você quem ele deveria matar.
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