O fim de semana voou. Eu e Daniel passamos o sábado juntos depois que fizemos amor e foi indescritivelmente perfeito. O problema depois foi ter que dar uma desculpa esfarrapada para Shelby e Miles, que ficaram super preocupados comigo. Nós tínhamos combinado de nos encontrar sábado pela manhã e fazer as tarefas atrasadas, mas quando eu não apareci, eles foram me caçar pelo campus e, como não me encontraram, foram falar com Francesca. Eu fiquei realmente envergonhada. Shelby me contou que Francesca disse para que não se preocupassem, que eu estava com Daniel, mas como ELA sabia disso? Ninguém tinha nos visto entrar — voar — pro quarto dele na sexta a noite. Eu fiquei me perguntando se ela e Steven tinham, sei lá, nos escutado durante a noite, afinal o quarto deles também ficava na cobertura, assim como o de Daniel. Meu Deus, que vergonha! Eu tentei me tranquilizar dizendo que não era nada daquilo, inventando mil e uma explicações para o fato de Francesca saber que eu estava com Daniel, mas não me convenci com nenhuma delas, eu queria mesmo era enterrar minha cabeça no chão pra não ter que encarar ninguém. Não que fosse uma coisa ruim as pessoas saberem de nossa relação, mas, apesar de todas as coisas incomuns que acontecem comigo, gostaria de ter um relacionamento o mais dentro do padrão — o máximo possível, pelo menos. Já era ruim o suficiente todos ficarem encarando quando ele me beijava em público, imagina se soubessem o que fizemos! Se as pessoas esperam que eu morra com o beijo dele imagina com o resto!

Como não estudei no sábado, tive que fazê-lo no domingo. Já era quase noite quando, finalmente, terminamos tudo o que tínhamos programado. Mas, apesar de parecer um tédio total passar o domingo estudando, eu estava de tão bom humor, que tudo fluiu rapidamente. Shelby e Miles não conseguiam compreender o que estava acontecendo, bom, pelo menos não totalmente. Eles não tinham engolido a desculpa torta de treino extra que dei, então já estavam desconfiados de algo a mais. Apesar de toda a curiosidade que eu sei que estavam sentindo, eles foram bastante educados em não me perguntar nada... bom, Miles foi. No fundo, não sei se foi educação ou auto-enganação.

- Me. Conta. Tudo. — Shelby exigiu assim que estávamos sozinhas no dormitório feminino — o quarto dela era vizinho ao meu.

- O quê? — eu perguntei com a cara mais inocente que consegui fazer.

Ela entrou na minha frente, impedindo que eu chegasse até meu quarto.

- Eu sei que você estava com Daniel ontem e que não estiveram treinando o dia todo. Me fala logo, o que foi que rolou, hein?

Senti meu rosto ruborizar e retirei mentalmente o elogio que tinha feito sobre ela ser educada.

- Shelby, não aconteceu nada do que você está pensando. Nós treinamos, e só.

Ela me deu um olhar desconfiado e, Deus seja louvado!, decidiu não insistir no assunto. Talvez minha reação já tenha respondido o suficiente.

- Eu sei que rolou alguma coisa a mais, você está feliz demais pra quem treinou o sábado todo e passou o domingo na biblioteca. Além disso — ela continuou, apontando para o próprio nariz de forma teatral — eu farejo essas coisas. Você vai me contar. Eu vou esperar.

E saiu.

Eu ainda estava de pé, em frente ao meu quarto e, ainda, de boca aberta. Não queria ter que falar sobre minha intimidade assim, no meio de um corredor! Mas até que seria bom desabafar com uma amiga, eu parecia que iria explodir se não o fizesse logo. Talvez amanhã eu converse com ela, pensei enquanto entrava em meu quarto.

Fechei a porta atrás de mim e despejei minhas coisas no canto, entre a porta e a escrivaninha. Minha mão tateou a parede próxima, procurando o interruptor, mas levei um baita susto quando a luz acendeu antes que eu o alcançasse. Um grito ficou preso em minha garganta quando vi que outra pessoa o tinha feito. Arriane.

- Arriane! Que susto! O que você... — eu comecei a falar, trêmula, quando ela me interrompeu.

- Do que sua amiga estava falando? — ela perguntou naturalmente como se eu nem tivesse dito nada e não estivesse a ponto de morrer infartada.

- O quê? — eu disse desorientada. Meu coração acelerado.

- Eu perguntei — ela começou calmamente andando em direção a minha cama e sentando na beirada — o que sua amiga quis dizer com "eu sei que rolou alguma coisa a mais"?

Eu não respondi. Meu cérebro ainda processava o fato de Arriane estar aqui. Ela e Gabbe estiveram fora durante toda a última semana, provavelmente resolvendo "assuntos de anjos". Ela fazia falta. Eu tinha uma afinidade tão grande com Arriane, apesar de seu jeito maluco e totalmente estranho de agir. Ela era impulsiva e agitada e divertida e eu amava estar em sua companhia. Na maioria das vezes, eu me esquecia completamente que ela era um anjo também.

- Que bom que voltou Arriane. — eu disse tentando despistar, enquanto me sentando na cadeira da escrivaninha. — resolveu todos os seus assuntos angelicais e agora quer cuidar dos meus também?

- É claro! — ele respondeu facilmente. — E tudo o que se relaciona a você é sempre divertido.

- O que você quer dizer com isso, que eu sou desastrada e divirto você? — minhas mãos foram para os quadris, de forma brincalhona.

Ela deu de ombros. A essa altura ela já estava deitada na minha cama e usando meu travesseiro nas costas para apoiar na cabeceira.

Então, antes mesmo de eu ouvir algum barulho, ela já estava de pé na minha frente, com suas asas aberta, encarando a janela do quarto. As asas de Arriane eram lindas, alvas e volumosas e com um tom avermelhado nas pontas da parte inferior. Mas eu não me prendi na beleza de suas asas, apenas na preocupação que irradiava dela. Será que ela ouviu algo lá fora, algo ameaçador? Levantei-me e, inconscientemente — ou não — me pus em posição defensiva.

A janela se abriu e, antes mesmo de o que quer que seja entrar, eu já sabia que era ele. Daniel. Eu podia senti-lo, às vezes, por perto, ante mesmo de vê-lo. Era tão claro. Imediatamente Arriane relaxou e retraiu as asas. Daniel estava de pé no meu quarto, perfeito, como sempre. Suas asas brancas e douradas e incríveis, abertas.

- Arriane? — ele começou — o que você está fazendo aqui?

- O que EU estou fazendo aqui? O que VOCÊ está... — ela parou bruscamente e ficou encarando Daniel em silêncio.

- O que foi? — eu perguntei um pouco tensa. Daniel parecia totalmente normal pra mim, bom, normal dentro dos padrões angélicos.

- Dictum et factum. — Arriene murmurou para Daniel. Eu não tive muitas aulas de latim, mas eu reconheci o idioma, ainda que não soubesse o que significava.

Ele baixou a cabeça, claramente sem palavras.

- O que está acontecendo aqui? — exigi, pondo-me entre os dois. Eu queria uma explicação e tinha que ser agora. Por que Arriane estava agindo assim, tão rudemente?

- É muita sorte nossa você ainda estar viva depois do que ele fez com você. — ela falou de um jeito tão diferente, nem parecia a mesma Arriane de sempre, ele parecia mais velha, decepcionada. Seus olhos nunca deixaram de encarar Daniel.

Ele permaneceu calado e eu ainda não conseguia entender nada. Parecia que ela estava brigando com ele por ele ter feito... o quê? O que ele fez de tão errado?

- Arriane, eu não estou entendendo. Do que você está falando? — eu perguntei me aproximando de Daniel, que, instantaneamente, pegou minha mão. Eu estava definitivamente preocupada.

- Você não precisa negar que se entregou a ele, Luce. Eu posso ver... nele e em você.

Então eu compreendi sobre o que ela estava falando e uma raiva incontrolável surgiu dentro de mim e explodiu.

- E daí? Nós nos amamos! O que você espera que aconteça, que a gente fique de mãos dadas como namorados de escola? Eu sou bem crescida para tomar minhas próprias decisões. E essa, em particular, não diz respeito a ninguém além de nós dois. Você e nem ninguém tem nada a ver com isso! Eu já estou farta de vocês regulando nosso relacionamento, espreitando cada beijo, como se pudesse ser o último! Eu já estou farta disso! Anjos, demônios, banidos, nephilins, segredos de anjos, missões secretas e uma guerra que nunca chega e que eu nem sei o motivo!

Eu sabia, no fundo, que estava descontando nela tudo o que eu estava acumulando faz tempo, mas a reação dela com Daniel foi a gota d’água.

Arriane permaneceu impassível, ainda encarando Daniel, mas agora, de uma forma não tão rude. Ele, por sua vez, permaneceu calado e um aperto suave em minha mão me disse que ele sentia muito.

- Se era tão certo, porque eu vejo medo em seus olhos? – Arriane perguntou suavemente para Daniel que, finalmente respondeu:

- Arriane, eu sei que você não me compreende, mas, por favor, não me julgue.

Ela o encarou por apenas mais poucos segundos e virou-se para mim.

- Me deixa falar com ela. – Arriane pediu.

Eu não estava entendendo nada, mas pelo menos, a tensão diminuiu. Daniel me encarou, deu um passo a frente e pôs meu rosto entre suas mãos.

- Eu amo você, Lucinda. – ele disse antes de beijar minha testa demoradamente e depois beijar meus lábios e forma gentil.

Eu acenei.

- E eu amo você. – respondi.

Ele se virou de costas pra mim e saiu pela janela por onde havia entrado. Um silêncio estranho caiu entre Arriane e eu, mas durou pouco.

- Então você não é mais virgem, hein?! – ela falou do velho jeito dela que eu tanto gostava, mas suas palavras me deixaram sem reação.