Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
12 Capítulo 12
Não era eu. Não podia ser eu.
Estas foram as primeiras coisas que pensei quando vi a situação em que me encontrava: Camille desarmada estava prestes a ser atingida mortalmente por minha lâmina, não fosse a firme mão de Daniel segurando meu pulso e me interrompendo no momento exato. Ele estava bem ao meu lado, mas a adrenalina ainda queimava em minhas veias e eu só conseguia enxergar os olhos arregalados da nephilin a minha frente.
- Chega Luce, acabou. Você foi ótima. – ele disse baixinho em meu ouvido, tentando me acalmar. Por que eu ainda estava sentindo aquilo? Era estranho, eu estava olhando pra Camille e só enxergava perigo. Meu corpo estava em alerta total, eu não conseguia relaxar, mesmo sabendo que a luta acabara e que eu venci.
Daniel virou-se pra mim, entrando na frente de Camille, que começou a se afastar imediatamente. Suavemente ele abaixou meus pulsos. Eu estava segurando minhas pequenas espadas salvadoras com a mesma intensidade que antes, meus olhos ainda em Camille.
- Meu anjo, relaxa. – ele sussurrou delicadamente – Olha pra mim.
Com muito custou eu desviei os olhos de Camille. Acho que se fosse qualquer outra voz me ordenando a isso, eu não obedeceria. Quando meus olhos encontraram os dele, foi como se um balde de água fria tivesse caído em mim e me trazido de volta a realidade. O que estava acontecendo?
Imediatamente relaxei. Daniel deslizou suas mãos de meus pulsos para minhas mãos e deixei que ele retirasse aquelas coisas de meu poder.
- Que aconteceu? – eu perguntei a ele, desorientada. Eu tinha plena consciência do que estava fazendo, dos meus movimentos e intenções durante o duelo, eu só não conseguia entender o porquê de eu ter chegado tão longe. Acho que se Daniel não tivesse me impedido, eu teria sido capaz de ferir Camille... ou até mesmo matá-la. Como eu pude?
- Fica tranqüila, vem comigo, vamos beber uma água. – Ele disse colocando as pequenas espadas no chão e me conduzindo para fora do tatame.
- Ravena. – Daniel disse enquanto lançava um olhar cheio de significado para o anjo que, imediatamente, assumiu o lugar dele e chamou outros dois nomes para o próximo duelo. Ela não parecia estar alterada pelo o que aconteceu, ao contrário dos outros guerreiros. Eles tinham um semblante de curiosidade, espanto e incredulidade, misturados.
Todos acompanharam com o olhar enquanto Daniel me guiava para fora do ginásio. Eu estava tão confusa.
Andamos sem dizer nada um para o outro. Ele tomou um rumo diferente do que eu esperava e começou a ir em direção ao penhasco, nos limites de Shoreline. Era uma manhã um pouco fria, mas eu estava tão agitada, que meu corpo não conseguiu perceber. Paramos de andar a poucos metros do penhasco, onde eu pude ter uma bela visão do oceano lá embaixo. Daniel esticou uma de suas mãos pra mim e, sorrindo, me perguntou:
- Me acompanha?
Eu sabia o que viria a seguir. Não hesitei nem um instante. Eu queria isso, amava a sensação de voar com ele. Não havia palavras para descrever o que eu sentia quando ele me envolvia em seus braços e me erguia do chão, do mundo.
Rapidamente retirei meu tênis. Ele veio até mim e me abraçou pela cintura. Pus meus pés descalços sobre os dele e o abracei pelo pescoço. E então éramos apena nós dois e um infinito nada a nossa frente.
Lentamente eu soltei minhas mãos do pescoço de Daniel e abri os braços. Era como se eu fosse um pássaro voando pelo céu, sentindo o vento e o sal atingirem meu rosto suavemente. Fechei os olhos. Eu estava totalmente ciente do corpo de Daniel junto ao meu e de seus firmes braços que me seguravam pela cintura, mas uma parte de mim estava livre, voando para longe da confusão que minha vida tinha se tornado. Seria demais pedir para viver assim pra sempre, querer que esse momento durasse eternamente?
Um beijo suave em meu pescoço me trouxe de volta a realidade. Estávamos na praia que margeava Shoreline, com os pés na areia.
- Você faz isso ser tão suave e perfeito que eu nem percebi quando pousamos. – eu disse sorrindo para o anjo a minha frente.
- Você é perfeita, Lucinda. – ele respondeu com seus olhos violetas se fechando para me beijar.
Foi o paraíso, como sempre era beijá-lo. Então, com uma súbita pergunta que surpreendeu até a mim, eu interrompi o momento.
- O que aconteceu lá, Daniel?
Ele suspirou. Uma de suas mãos estava em meu quadril, enquanto a outra acariciava meu rosto suavemente.
- Você lutou. E muito bem. E venceu.
Eu o encarei seriamente, ele sabia o que eu estava tentando dizer.
- Meu anjo, a razão pela qual eu troquei você de grupo, foi porque os nephilins guerreiros são muito bons e, portanto, são perfeitamente capazes de se defender contra você em uma luta séria, coisa que nenhum novato poderia fazer. Você viu o quanto Camille é boa e o quão bem ela se defendeu dos seus ataques.
- Você fala de um jeito como se eu soubesse o que estou fazendo. – falei confusa – Eu nem sei como fui capaz de vencê-la, ou como eu sabia como usar aquelas espadas.
- Sai – ele interrompeu – Você usou um par de sai para lutar. Era sua arma favorita em outra época.
- Eu sei – E disse me agitando, tudo estava tão confuso – Quer dizer, eu me vi usando aquilo na visão que o anunciador me mostrou e, quando eu os vi sobre a mesa...sei lá..
- Não pode resistir? — Ele perguntou meio que completando o que eu ia dizer.
- É. – falei abaixando a cabeça.
Ele levantou meu queixo delicadamente e continuou.
- Eu sei que você deve estar confusa, Luce. Mas lutar está em você. Sua alma sabe, ela se lembra, nunca esqueceu. Desde quando você começou a utilizar os anunciadores para conhecer seu passado, você abriu uma porta muito delicada. Existe um motivo pelo qual as almas reencarnam tantas e tantas vezes e nunca se lembram do que foram ou o que eram nas vidas anteriores. Você está... – ele pausou para escolher o melhor jeito de explicar, eu acho – burlando o sistema.
- Mas como isso pode me afetar? Por que é tão ruim?
- Bom... – ele disse me convidando a sentar na areia ao seu lado – Nesse caso, especificamente, não é exatamente ruim, você só precisa aprender a se controlar. É como se o seu corpo recebesse uma nova habilidade de repente, um monte de informação nova que ele pode e sabe como usar, o problema é que ele não sabe parar. Cabe a sua mente controlar essa nova habilidade que seu corpo adquiriu, para que seja usada da melhor maneira possível.
Se eu estava confusa antes, fiquei ainda mais.
- Você quer dizer... – eu comecei – que eu tenho que aprender a controlar minhas habilidades de luta? Tipo, me segurar?
- Mais ou menos isso – Daniel falou enquanto entrelaçava sua mão na minha – Você precisa treinar, para que seu corpo lembre de cada vez mais informação, e precisa aprender a controlar o instinto de luta, de competição. Você tem que aprender a discernir o que é perigo real do que não é. Você tem que aprender a condicionar suas habilidades a sua vontade e não ao contrário. Como eu disse antes, você recebeu muita informação de uma só vez. Agora precisa ajustar essa nova habilidade as suas necessidades.
Eu não disse nada por algum tempo, estava tentando absorver o que ele falou.
- Então você está dizendo que eu perdi o controle durante a luta e deixei o instinto predominar? É isso?
- Exatamente. – ele concordou com a cabeça – Você sabia o que tinha que fazer para vencer e fez, mas em nenhum momento você percebeu que estava apenas treinando contra uma colega ou que a luta já estava ganha. Você se deixou cegar pelo instinto.
- E eu quase a matei... – eu disse em voz baixa, enfim compreendendo meus sentimentos. – e quer saber? – eu disse ainda pasma com a revelação – acho que eu seria realmente capaz de matá-la, eu não via nada nem ninguém além dela e meu corpo fez todo o possível para se livrar daquela ameaça, era como se fosse vida ou morte, ela ou eu.
- E é por isso que aprender a se controlar é tão importante... e também um dos motivos pelo qual é tão perigoso mexer com os anunciadores, Luce. Coisas horríveis já aconteceram com pessoas que viram o passado.
Suspirei fundo.
- Não quero que aconteça comigo. – eu disse olhando suplicante para ele.
- Não vai. Eu não vou deixar.
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