Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
54 Epílogo
Luce estava sentada à sombra do mais belo carvalho do Campo. A sua volta, flores das mais diferentes tonalidades enfeitavam e coloriam do imenso jardim do Paraíso. Em sua mente tudo estava meio difuso, meio confuso. Seu coração dizia que havia algo em seu passado que era importante lembrar, mas sua cabeça lembrava-se apenas de sempre ser assim. Por vezes esse sentimento lhe invadia e pesava em seu peito, mas logo passava.
Ela levantou e fechou os olhos, inalando profundamente o doce aroma do local. O sol tocou sua pele levemente bronzeada e seu longo cabelo castanho-escuro tremulou ao vento fazendo alguns fios rebeldes lhe causarem cócegas no nariz. Com um leve impulso, Luce pôs-se a voar. Suas asas eram de uma textura lisa e macia, com a cor branca predominante e um levíssimo tom lilás nas pontas inferiores. Cada anjo possuía uma característica própria em suas asas, a dela era esse tom lilás encantador.
Ela voou por algum tempo apenas pensando em nada, admirando a beleza infinita de seu lar e pôs-se a rir. Se sentia uma boba pensando em coisas confusas como um passado esquecido, quando sua vida inteira foi passada bem aqui nesse lugar. Ser um anjo, ou melhor, arcanjo, era seu passado, presente e futuro. Ajudar às pessoas era seu propósito maior na vida.
Era maravilhoso poder acompanhar uma criança da qual ajudou e ver como ela crescia, se desenvolvia, formava uma família... era esse seu maior orgulho. Luce também ajudava a outros anjos menos desenvolvidos a crescer, a serem melhores, afinal esse era o objetivo final de todos, evoluir cada vez mais à perfeição do Criador. Ela era feliz sendo um mensageiro de Deus e o seria por toda a eternidade se fosse preciso.
Por vezes, algumas missões lhe eram entregues que não gostava muito de realizar, mas as fazia da melhor maneira possível. Hoje ela se sentia especialmente nervosa, pois seria convocada para uma nova missão e estava ansiosa – era sempre assim quando sabia que
receberia algo de novo, mas dessa vez, ela e um grupo de outros Arcanjos seriam convocados pelo próprio Príncipe das Dominações, o mais alto líder dos anjos da segunda Hierarquia, cujos feitos eram lendários.
Luce nunca o viu pessoalmente, jamais, em toda sua existência, mas sua fama de ser um ser realmente bom e justo, o precedia.
...
Daniel estava se encaminhando para o local combinado. Lá, ele deveria encontrar um pequeno grupo de Arcanjos para iniciarem uma missão especial. Este pequeno se destacou por êxito em missões anteriores e ele pessoalmente já conhecia todos os Arcanjos envolvidos, a exceção de um, uma, na verdade.
Ele ouviu muito dos feitos de Lucinda, Luce, como gostava de ser chamada pelos demais e estava ansioso por conhecê-la pessoalmente. Era muito triste assistir todo o tempo, seus irmãos caírem para o mundo inferior. Eram diversas as razões para isso e Daniel compreendia muito bem o significado do Livre Arbítrio, mas isso o deixava triste. Por esse motivo, era sempre gratificante poder encontrar outros que, como ele, seguiam fielmente o caminho.
Ele estendeu suas asas brancas e douradas e foi ao encontro do grupo. No caminho, não pode evitar soltar uma risada ao lembrar de seu melhor amigo e irmão, Cameron, que disse-lhe com seu tom de voz característico que essa tal de Lucinda era uma gatinha. Ele não tinha jeito mesmo esse meu irmão, Daniel pensou.
Chegou pontualmente ao local combinado e o pequeno grupo de Arcanjos já o esperava.
Daniel reconheceu um deles de longe. Seu nome era Arriane e eles já tinham se encontrado algumas vezes. Daniel gostava muito de seu jeito descontraído que lembrava muito o de Cameron, por vezes. Ela estava ao lado de Juliet, outra quem ele conheceu anteriormente e com a qual já lutou em certa ocasião. Mikael e Marklos, dois conhecidos de longa data, conversavam um pouco mais afastados dos outros e pareciam entretidos no assunto. Do outro lado estava a quem deviam chamar de Lucinda.
Em toda sua existência Daniel nunca sentiu nada parecido com o que sentiu quando a viu. Cameron tinha razão, ele pensou, ela era incrivelmente bela, mas não foi isso que lhe chamou a atenção. Havia algo em Luce que fez seu coração simplesmente disparar.
Ele respirou fundo e se aproximei do grupo, recompondo-se.
- Olá. – Daniel disse olhando para o pequeno contingente que já o encarava com total atenção.
Eles fizeram uma pequena reverência com a cabeça, o que era de costume dos anjos de hierarquia inferior quando encontravam anjos de alto nível. Era uma saudação respeitosa, apenas.
- Obrigada por terem aceito o convite, eu fico honrado com a presença de vocês. – continuou a falar na língua antiga – Eu já tive a felicidade de conhecer todos, menos você.
Daniel virou em direção ao Arcanjo de asas lilases e graciosas e estendeu a mão.
Ela segurou a dele em um toque leve, gentil e quente e estranhamente o coração de Daniel deu um outro salto.
- Sou Luce. – ela disse em uma bela voz – E é uma honra conhecê-lo.
Luce fez mais uma pequena reverência com a cabeça, mas esse gestou de respeito incomodou a Daniel um pouco. Ele soltou sua delicada mão e a levantou para seu queixo. Tocou-a com cuidado e direcionou seu rosto para cima.
Ela era linda e por um instante Daniel pensou que a conhecia. Ele abriu um sorriso quando viu que as bochechas dela estavam levemente coradas e adicionou:
- A honra é minha, Luce.
FIM
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