Eu sabia que Cameron aproveitaria cada oportunidade para seduzir Luce. Isso estava me deixando nervoso a cada segundo que eu ficava aqui longe dela. Eu vasculhei cada canto da praia, da floresta e dos arredores de Shoreline junto com os outros que estavam no meu turno. Nada. Nenhum sinal dos banidos. Mas apesar de eu saber da importância de minha presença ali na guarda, eu estava com a cabeça em outro lugar.

Passei voando perto do ginásio e meus olhas a procuravam por entre as pessoas. Eu vi Cameron a observar e vi quando ele se aproximou e a tirou para dançar. Merda. Eu vi a resistência dela no início, mas eu sabia o quanto era difícil dizer não. Quando uma alma resgata uma habilidade ou, principalmente, um sentimento, possuía um poder imenso dentro dos humanos. Por isso era tão perigoso mexer com anunciadores e com o passado, por isso era tão difícil pra ela.

Eu não pude mais assistir. Não iria mais ficar de longe, observando, eu precisava fazer alguma coisa. Lucinda é o que eu tenho de mais valioso e não estou disposto a perdê-la. Rapidamente localizei Steven, que estava acompanhando Francesca na guarda, apesar de não ser turno dele.

- Steven, você pode assumir meu lugar por algum tempo? – perguntei meio desesperado. Ele concordou e disse que já estava mesmo acompanhando Francesca, não seria um inconveniente – eu podia imaginar que não.

Nem o agradeci, parti imediatamente para onde eles estavam. Arriane me interceptou no caminho.

- Daniel... por favor. – ela disse me segurando pelo braço. Era apenas por respeito a ela que eu tinha parado, mas meus olhos estavam vidrados nos dois a metros de distância.

- Calma Arriane. Eu só vou tirá-la de perto dele. – tranqüilizei-a. Eu só não sabia se estava dizendo a verdade ou não.

Arriane soltou meu braço com relutância e observou.

Quando me aproximei ainda ouvi Luce negar o pedido de mais uma dança, que Cameron ignorou. Agarrei seu ombro com força e disse;

- Você é surdo?

Luce arregalou os olhos assustada. Eu imaginava o que ela devia estar pensando, mas não me importei com ela nesse momento, o que eu queria era vê-lo longe de nós — dela.

- Daniel. – ele disse sorrindo, debochado como sempre. Eu odiava seu jeito de falar!

- Eu perguntei se você é surdo. Ela já disse que não.

- Ok, eu ouvi. – ele levantou os braços até a metade fingindo rendição e acrescentou. — É que eu sempre tenho que ler o que sai da boca dela e o que o corpo dela diz.

OK, nessa hora eu imaginei pelo menos quatro maneiras diferentes de matá-lo e todas eram bastante violentas. Eu resolvi, então, adotar a mesma tática que ele e sorri debochado.

- Eu conheço profundamente o corpo dela e seus sinais e você pode ter certeza que nenhum deles diz respeito a você. Agora, se nos der licença... – eu falei ao mesmo tempo em que a livrava de seu aperto inconveniente e a trazia pra perto de mim.

Ele manteve o sorriso no rosto e Luce estava tão tensa que mal respirava. Eu nem esperei para ver a resposta dele e a direcionei pra longe dele.

- Daniel... – ela começou, mas a interrompi – Shhh... – falei antes de beijá-la intensamente. Eu nem me importei com as pessoas em volta e com o baile eu só queria sentir seu gosto em mim.

Ela se rendeu rapidamente e eu comecei a guiar nossos corpos num único ritmo, sem parar de beijá-la. Eu estava envolvido com a música, com o corpo dela se movendo junto ao meu. Todo o episódio com Cam desapareceu de minha mente e éramos apenas nós dois.

Eu guiei a dança de um jeito sedutor, queria envolvê-la. Ele se entregou completamente e me acompanhou. Era tão perfeita e dançava de um jeito sensual e delicado, sem ser vulgar. Eu

amava isso em Lucinda. Minhas mãos contornavam seu corpo sem tocar em lugares mais ousados, mas fazendo movimentos lentos e pressionando-a gentilmente.

Ambos estávamos excitados e eu a beijava em meio a dança que fazíamos. Era incrível como nós completávamos um ao outro. Ela sempre foi capaz disso, de me entender profundamente, mesmo que de maneira inconsciente. Tudo na gente era complementar, perfeito.

A música terminou mas continuamos unidos. Eu sentia a necessidade de levá-la pra longe de fazer amor com ela, e era urgente. Meu corpo precisava do dela.

- Daniel... – ela disse em meu ouvido me fazendo tremer. Eu sabia que ela queria a mesma coisa.

- Vem comigo. – eu disse puxando-a pelo braço e guiando-a por entre as pessoas que lotavam o ginásio.

Nossas mãos entrelaçadas e meu corpo fervendo de luxúria. Sentir o anel que lhe dei quente em sua mão só me fez ficar ainda mais louco de desejo.

Assim que alcançamos o lado de fora do ginásio eu a peguei no colo e voei pra longe dali. Ela estava agarrada em mim e começou a beijar meu pescoço e arranhar minha nuca, me fazendo perder a concentração.

Em poucos segundos nós estávamos em meu quarto, a sós. Mesmo dali era possível ouvir o som que vinha do ginásio. Ela estava perfeita, tudo estava perfeito.

Eu a virei de costas pra mim e comecei a abaixar o zíper do vestido. Deslizei as mãos lentamente por seu corpo perfeito e retirei facilmente a peça. Ela estava totalmente linda de salto e com uma calcinha pequena, – pro meu deleite — sem sutiã.

Não agüentei mais só olhá-la e a abracei selvagem, faminto. As mãos dela tiraram minha camisa e enquanto ela tentava retirar minha calça eu comecei a lamber-lhe o pescoço e apertar seus ombros e costas. Ela soltava leves gemidos que me deixavam louco e tudo só piorou quando eu a levei pra cama.

Invadi-lhe suavemente, respeitando seu corpo e controlando minha necessidade, até que ela pedisse por mais. Luce estava em êxtase, assim como eu e nós logo nos entregamos à paixão e ao desejo ardente que sentíamos e minha suavidade se esvaiu junto com meu controle.

- Você ainda vai me matar de tanto prazer um dia. – ela disse sorrindo, exausta sob meu corpo.

- Isso se você não me matar antes... – respondi jogando meu corpo satisfeito pro lado, tirando o peso de cima dela.

Nos abraçamos e permanecemos naquela posição por muito tempo.

- Vai ser sempre assim quando a gente casar, sabia? – eu disse a ela acariciando seu cabelo recém-cortado e maravilhoso.

Ela riu.

- Isso é pra me convencer, é? – ela perguntou deslizando um dedo por meu rosto.

- Hummm... depende... – respondi – deu certo?

Ela riu ainda mais alto e subiu em cima de mim. Eu acariciava seu rosto e cabelo e contemplava aquela visão.

Luce respirou fundo e disse passeando seus dedos delicados sobre meu peito:

- Você se controlou muito hoje... com Cam.

- Eu disse que ele não ía desistir.

- Fiquei com medo de vocês brigarem...sei lá... no meio de todo mundo.

- Ficou com medo por mim ou por ele? – perguntei fingindo uma preocupação extrema.

- Por ele, é claro! – ela respondeu num tom de “não é óbvio”.

Franzi o rosto sem entender. No fundo, meu coração se apertou um pouco.

- Por que eu sabia que você podia acabar com ele se quisesse... fiquei com pena. – ela completou triunfante, sorrindo e inclinando-se para me beijar.

Eu a abracei, deitando-a sobre meu corpo e permanecemos assim até que eu ouvi seu estômago roncar.

- Eu acho que estou com fome... – ela disse ligeiramente ruborizada.

Eu ri e respondi:

- Você acha? Eu tenho certeza! Vamos ver se sobraram aqueles canapés da festa, que tal?

- Hummm... Ótima idéia. – Luce respondeu se animando. Eu não conseguia parar de sorri. Estava me sentindo plenamente realizado. Vê-la feliz ao meu lado e com o anel que eu tinha há tanto tempo pra ela... o que mais eu poderia querer?

Nos vestimos com muita dificuldade. Era sempre um martírio esse momento, meu corpo reclamava por não querer deixar o dela. Fui até o armário e peguei um casaco para cobrir-lhe os ombros, a abracei apertado e voei com ela de volta para o baile;

Faltava pouco tempo para o dia amanhecer e a essa altura, muitos nephilins já tinham entrado ou até mesmo ido embora de Shoreline. O dia seria frio, até mesmo eu podia sentir. Luce estava com os braços cruzados, tentando se proteger do frio, enquanto eu a abraçava contra mim. Fomos em direção ao ginásio, onde eu sabia que ainda devia ter um pouco dos aperitivos da festa.

O lugar estava realmente vazio, quase deserto, exceto por alguns casais que ainda dançavam ou namoravam ao som da música baixa. Fomos em direção a mesa principal, mas antes que a alcançássemos, meus sentidos captaram numa presença diferente, um vulto sorrateiro perto

de nós. Imediatamente, minhas asas se estenderam e eu me pus na frente de Luce, protegendo-a dessa criatura desconhecida.

Era Cameron, e pela sua expressão preocupada, eu sabia que algo de ruim havia acontecido.

- Daniel, os banidos estão aqui, estão próximos e não estão sozinhos.

Minha mente ficou processando as informações, as estratégias de como poderia afastar Luce do perigo iminente. Para que Cameron estivesse preocupado, a coisa devia ser muito pior do que imaginávamos.

- Daniel, o que está acontecendo? – Lucinda pegou meu braço assustada e eu a encarei.

- Estamos sendo atacados. A hora chegou. – Cameron respondeu seriamente.

Francesca, Ravena e Roland se aproximaram rapidamente, todos armados e em posição de alerta. Eles olhavam pra mim, esperando minha decisão.

- Os nephilins, onde estão todos? – perguntei a Francesca.

- Alguns já se foram e outros estão nos dormitórios. Nós alertamos os nephilins mais experientes para ficar de guarda e Steven, Arriane e os outros estão na vigília dos acessos de Shorelline. Foi Gabbe quem percebeu a aproximação deles, e não estão sós.

- Com quem? – perguntei, mas dentro de mim eu sabia que meus temores haviam se concretizado: os banidos haviam se juntado aos Primeiros.

- Primeiros, muitos. – ela respondeu.

Eu vi a confusão e o terror no rosto de Lucinda e era apenas nela que eu estava me concentrando. Se eles estavam vindo com força total, ela não poderia ficar aqui.

- Daniel! – Arriane disse assim que pousou ao nosso lado. – Eles estão prestes a chegar, a coisa vai ser feia, ela tem que sair agora.

- Alguém pode me explicar o que está havendo aqui? – Luce exigiu, seu tom era urgente e desesperado.

- Os banidos vieram atrás de você, mas não estão sozinhos.

- Como assim, quem está com eles?

Antes que eu respondesse Gabbe entrou voando, seu rosto machucado.

- Preparem-se! – ela gritou se voltando pra porta principal de onde tinha entrado. Um grupo de três banidos entraram em disparada, armados e prontos para o ataque. Lá de fora eu já podia ouvir os sons da batalha transcorrendo entre os outros. Um dos Primeiros estava junto com os banidos. Seu cheiro horrendo rapidamente impregnou o local. Luce estava paralisada, eu precisava agir.

Com as palavras e os gestos certos convoquei minha fiel espada de batalha. Cameron estava imediatamente ao meu lado e investimos juntos contra os inimigos. Cameron se apressou em imobilizar os três banidos e eu fui em direção ao Primeiro.

Enfrentar um deles era sempre um grande desafio, entretanto, com Luce por perto, tão próxima ao perigo, minha força e reflexos foram ampliados a um nível que nem mesmo eu podia imaginar que chegaria. Eu o ataquei em cheio, desviando de suas garras imundas e cravando-lhe minha espada no pescoço. Sua cabeça deformada e fétida voou pra longe e seu corpo imenso caiu a meus pés.

Cameron já havia se livrado de seus adversários e estava voltando para onde os outros se reuniam ao redor de Lucinda. Ela estava realmente assustada, era a primeira vez que ela via um deles.

- O que vamos fazer? – Gabbe perguntou olhando lá para fora, onde a batalha iria ferver em pouco tempo.

- Luce – eu disse me aproximando dela – Você precisa sair daqui agora.

Todos os outros estavam em alerta, sendo que Francesca e Roland já tinham partido pra fora do ginásio para ajudar aos outros.

- Como assim, sair pra onde? — Ela perguntou desnorteada, me encarando fixamente. Nossos olhares transmitiam preocupação um com o outro, desespero. A única coisa que me importava era sua segurança, nada mais.

- Você vai com um de nós pra fora daqui, pra um lugar seguro.

- Eu não vou deixar você de jeito nenhum! – ela se apressou em responder, seus arregalado e seu corpo tremendo visivelmente.

- Eu preciso ficar e você tem que ir agora.

Minha voz estava transmitindo ordens, não havia discussão. Eu sabia que ela tinha que ir e também sabia que eu precisava ficar.

- Por favor, confia em mim. – eu disse a ela, encarando-a.

Ela ponderou por apenas frações de segundos, mas no fundo ela também sabia que a própria vida era muito importante, pra todos nós. Ela já tinha essa consciência, de que seu futuro também era o nosso. Ela engoliu seco e acenou rapidamente em entendimento. Eu a amava tanto. No meu íntimo eu me importava muito mais com ela do que com qualquer outra coisa. Um futuro em perdição não significava nada pra mim, perdê-la já seria meu fim.

Lucinda compreendeu a importância e a urgência de sua fuga e também o fato de que não poderia ser comigo. Automaticamente, ela deu um passo na direção de Arriane, que estava com sua espada favorita na mão e me olhava preocupada. Eu sabia o que ela queria, mas Arriane, apesar de ser sua amiga e uma ótima guerreira, não poderia protegê-la, não como Luce tinha que ser protegida. Pra isso, só havia uma pessoa além de mim.

- Cameron. – eu disse ainda olhando pra Luce, que estava ainda mais confusa.

Cameron se adiantou pra perto dela, ele já tinha entendido o recado. Ele era o único que poderia protegê-la como eu.

- Daniel... – ela começou, mas eu a interrompi.

- Luce, eu te amo, vou te amar eternamente. Fique viva, por mim. – e a beijei muito rapidamente na testa.

Um estrondo enorme veio da parte de trás do ginásio e todos abaixamos, minhas asas protegendo-a.

- Agora, separem-se em duplas e eliminem todos! – eu ordenei a meus companheiros, que imediatamente voaram para onde o combate estava acontecendo.

A última coisa que vi foi Cameron envolver Lucinda em seus braços e levá-la pra longe de mim. E agora, minha vida estava em suas mãos.

Notas finais
Luce e Cam??? Sozinhos??? E agooora?? Review??